Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2014

O Homem Sem Memória - 192

 

192 – Triste sina a do José. Na República Democrática do Norte era considerado um intelectual infiel à tradição, ateu e arrojado comunista e na República Popular do Sul era visto como intelectual, católico fundamentalista, traidor e perigoso reacionário. E disto não se conseguia libertar.

 

Como nada tinha a confessar acerca da sua traição, porque, bem vistas as coisas, ele não traiu coisa alguma, nem ninguém, nada confessou aos seus carrascos. Por mais porrada que lhe dessem, ele não podia confessar o inconfessável. O José ou tinha traído tudo e todos ou não tinha traído ninguém.

 

Ao fim de mais algumas sessões de tortura revolucionária marxista-leninista, os verdugos nada conseguiram sacar ao intrépido transmontano. O oposto sucedeu com os seus companheiros de aventura contrarrevolucionária. Esses confessaram tudo e mais alguma coisa. Sobretudo a traição à revolução proletária nacional e mundial. Confessaram ainda desvios ideológicos, furtos de propaganda reacionária que liam às escondidas, uma que outra relação homossexual, orações ditas ao deitar e ao levantar, a bênção do pão, rir de piadas contra o Partido, rir de piadas contra Alberto Punhal, rir por rir, falta de fé revolucionária, fraqueza ideológica, roubo de comida nos armazéns do povo, aventureirismo, esquerdismo, direitismo, titismo, trotskismo, maoísmo, snobismo, intelectualismo e alcoolismo.

 

O José foi definhando, tal qual as suas ideias. Afinal o Manifesto Comunista era um bom livro para limpar o cu, as obras completas de Lenine eram úteis para acender a fogueira nas noites frias de inverno e toda a obra escrita do camarada Alberto Punhal era ideal para forrar gavetas, embrulhar tremoços e azeitonas ou castanhas assadas.

 

Tanta palavra bonita proferida para nada, tanto ideal criado para coisa nenhuma. Tanto sacrifício inútil, tanto sangue derramado em vão. Só quem pretende dizer verdades absolutas é que consegue mentir absolutamente. E foi isso o que o José disse quando foi levado a tribunal: “Só quem se convence que é dono de toda a verdade é que consegue fabricar a mentira absoluta.”

 

Por tal ousadia, e por ter traído a revolução e arregimentado uma pequena sublevação contrarrevolucionária, foi condenado à morte por enforcamento. Apesar das confissões completas, os seus companheiros de desgraça foram despachados com a mesma sentença.

 

A República Popular do Sul, nas palavras dos seus máximos representantes revolucionários, não se podia dar ao luxo de gastar chumbo com tão ruins defuntos. Uma corda bem utilizada dava e sobrava para enforcar a dúzia de reacionários que ousaram desafiar a serena força revolucionária da RPS.

 

Convenhamos que esta narrativa, se assim lhe podemos chamar, até merecia um final dramático deste tipo. Mas nem tudo o que é bom para os livros acaba por acontecer na realidade.

 

No dia anterior ao da data marcada para o enforcamento do José, a RPS propôs à República Democrática do Norte uma nova troca de prisioneiros. Ao que apurámos, os membros da Comissão Política do Comité Central do clandestino Partido Comunista do Norte tinham sido presos enquanto decorria uma reunião deste máximo órgão dirigente.

 

A primeira pergunta que os dirigentes do Norte fizeram aos seus congéneres do Sul foi quem é que eles tinham para trocar. Os camaradas ficaram embasbacados, pois além do José, que eles consideravam o maior reacionário da república popular, pouco mais tinham para oferecer, talvez uns frades missionários e algumas freiras misericordiosas. Os restantes, nas suas palavras, ou foram reabilitados ou estavam mortos. Mas como todos sabemos que na RPS ninguém se reabilita por impossibilidade teórica marxista-leninista, apenas nos resta a segunda hipótese. 

 

O presidente do Norte argumentou que era como trocar um porta-aviões por um barco de pesca artesanal de Sines. A sua primeira decisão foi a de rejeitar a proposta, mas alguém mais avisado fez-lhe ver que se os comunistas do CC fossem enviados para o Sul, deixavam de ser um problema para o Norte. Gente desta estirpe só pode trazer complicações. E das grandes. Como todos são intrépidos comunistas, que se arranjem lá uns com os outros. Mas o presidente do Norte fez-lhe ver que a moeda de troca era o José, que, por sua vez, já tinha sido trocado e que nem assim se conseguiu dar bem com os ares do Sul, que, ao que dizia, eram os seus.

 

Ponderados os prós e os contras, o presidente do Norte, homem pragmático e pouco dado à política, e muitos menos à ideologia, pois nem sabia o que isso era, aceitou, mas com uma condição, a de o prisioneiro escrever as suas memórias. Está claro que a condição foi estabelecida com os seus legítimos representantes na República do Norte: a sua família, ou mais concretamente, a sua mãe, que nestes, como noutros acontecimentos, foi sempre quem pôs e dispôs. Desta forma foi o nosso herói salvo da morte por enforcamento.

 

Mal chegou à sua terrinha, em muito segredo, para os cidadãos do Norte não se inteirarem das contradições do regime democrático nestas trocas e baldrocas, foi logo encaminhado para a casa da sua mãezinha, a Dona Rosa, que quando o avistou ao longe desmaiou, como era seu feitio. Mal deu acordo, carregou-o de beijos e prometeu engordá-lo como se fosse, com vossa licença, um reco. Prometeu e cumpriu.

 

Quando o José recuperou as cores, a sua mãe, numa bonita tarde de sol, enquanto o seu pai fumava um cigarro, os seus irmãos mais novos estudavam em casa e ele coçava a barriga ao sol como um verdadeiro ex-preso político, resolveu apresentar-lhe a fatura da sua libertação: a escrita das suas memórias.

 

Ainda hoje se comenta o grito que então se ouviu lá no bairro, bem maior do que o do Quincas quando, por engano, em vez de aguardente bebeu água: “Mãe, eu matei a minha memória. Eu sou um homem sem memória.” E continuou a coçar a barriga ao sol como se fosse um burguês em férias. 


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Quinta-feira, 30 de Janeiro de 2014

Na feira


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Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014

Poema Infinito (183): o gosto dos anjos

 

Quantas vezes fiquei parado a olhar-te junto ao lago, a admirar os teus movimentos lentos, a invocar a memória e a recordar-me de uma só vez como te conheci. Eras um anjo de cabelos longos e atados que espalhava o fogo do seu olhar e se sentava à mesa a falar de papoilas. Sim, os anjos sentam-se à mesa e repartem o pão e deitam-se na cama e escondem as armas de fogo nos armários e libertam os pássaros das gaiolas e têm insónias divinas e orgasmos como orações musicais. E amam aquilo que somos. E sabem estender-se no chão e esperar que os pisem com amor. E gostam que lhes acariciem a pele e de ter medo de terem medo e de revelar o caminho aos que se perdem e de estender uma escada aos que necessitam de subir e de acender luzes na escuridão e de revelar estrelas e de iluminar as palavras e de amaciar os espinhos das rosas e de perguntar o nome aos esquecidos e de apaziguar as certezas insofismáveis e de transformar a alegria das pequenas realidades numa coisa imensa e de transformar as horas em oferendas e de colocar madrepérolas no teu nome e de perder a cabeça por desfolhar malmequeres e de voar como abelhas e de nadar em grandes espaços. E os anjos gostam também de nascer todas as manhãs e de percorrer os desertos e de contemplar as luas a abrir-se e a colocar planetas aos teus pés e de colher amoras e de se esconder no nosso passado infantil e de dormir abraçados e de tocar os pequenos pontos azuis do nosso cérebro e de codificar o nome de deus e de por nome às crias das gatas e das cadelas e das vacas e das éguas e de serem mais assim e mais assado, conforme os apetites de cada um, e de fazer tiquetaque como os enormes relógios de sala e de desvendar aos escritores todos os enredos das vidas que não se cansam de inventar e de guardar segredo quando lhes pedem e de escrever romances onde as princesas dormem em berços de vento e de parar o sangramento quando as mães furam as orelhas às suas filhas e de gravar orações nos brinquedos e de tomar banho numa bacia junto à lareira e de encantar lagartos e de fazer milagres ao contrário e de guardar seixos nos bolsos largos dos seus uniformes e de desfazer promessas tolas e de decorar poemas e de juntar pedrinhas e pedrinhas e mais pedrinhas num canteiro de maçãs e de repetir as vogais três vezes e de soletrar todas as palavas esdrúxulas da bíblia. E os anjos gostam ainda de por vezes não sentir nada e outras vezes de sentir tudo e de tornar a não sentir nada e de tornar a sentir tudo e gostam de ser leves como penas de pintassilgo e tão pesados como chumbo e gostam de perder a consciência quando amam e quando odeiam, apesar de estarem proibidos de odiar, e gostam de escrever cartas de amor ainda mais ridículas do que as que escrevia fernando pessoa e de deixar pousar os pirilampos nos olhos da luzia e de beijar as feridas que não se veem mas se sentem e de responderem às perguntas pertinentes do vasco e de nunca se chatearem com a teimosa teimosia do axel. E os anjos gostam igualmente de falar com os mudos e de acompanhar a visão mental dos cegos e de dizerem as palavras mais cruas com uma leve consonância musical e de transformar os gritos dos desesperados em música erudita e de deixar que chova nos jardins da babilónia e de obrigar os homens da torre de babel a, pelo menos, lavarem a loiça do almoço e de assinarem as cartas que enviam por correio com um beijo escrito e, por fim, gostam infinitamente de escrever em bicos de pés deixando que os humanos lhes acariciem as asas. 


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Terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

Castanhas ao lume


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Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2014

Pérolas e diamantes (73): burros de carga

 

Claudio Magris tem razão, do ponto de vista psicológico somos todos conservadores e ainda por cima cegos. Não conseguimos acreditar realmente que o mundo, tal como estamos habituados a entendê-lo, possa mudar. Mas ele muda. Apesar da nossa cegueira.

 

Agora está na moda o discurso sobre o discurso, como se o agricultor preparasse muito bem as alfaias agrícolas, calibrasse muito bem o arado, fizesse um discurso à mulher e aos filhos sobre a melhor forma de amanhar a terra, mas o pão e as batatas não chegassem à mesa. Bem vistas as coisas, o arado não é o objetivo. É o meio. E é disso que nos vamos esquecendo.

 

Por exemplo, aqui na nossa autarquia pensa-se sempre pequeno e a destempo. Andam sempre a errar o tiro e a correr atrás do prejuízo. Mas para o caçador matar um coelho, ou uma perdiz, tem de apontar para um ou dois metros à frente, porque, diz-nos a ciência da caça, só se apontarmos para diante é que podemos atingir os nossos objetivos.

 

Não é pois de estranhar que a capa da “New York Times” tenha dado destaque ao título “Em Portugal, o burro de carga vive de subsídios”, fazendo uma comparação entre o asno do planalto e o destino de Portugal e dos portugueses.

 

Raphael Minder, o autor do artigo, recordou que o burro foi essencial na agricultura durante muito tempo, mas corre agora o risco de extinção por causa do abandono das terras. Por isso Portugal, mais concretamente o seu interior, se encontra ameaçado “pelo declínio da população e com a sobrevivência dependente dos subsídios da União Europeia”. 

 

Tudo isto serve para introduzir mais uma lamentável notícia. A Delegação de Turismo de Chaves, à semelhança da Universidade, da PJ, do Tribunal, do Hospital, vai ser transferida para Vila Real.

 

Ou seja, através de mais uma machadada desferida nos serviços da nossa cidade, comprometendo a sustentabilidade dos nossos espaços termais e a divulgação turística da região, bem assim como pondo em risco efetivo os atuais postos de trabalho existentes na delegação flaviense, vamos ficando cada vez mais pobres e isolados, remetidos à desqualificação, ao abandono e ao definhamento.

 

Falta pouco para nos transformarmos numa vilazinha descaracterizada, rudimentar e triste.

 

Se pensarmos bem, o poder central, em conivência com alguns políticos locais subjugados pela inoperância e pelo servilismo partidário, em apenas meia dúzia de anos levou-nos tudo o que era necessário e estruturante para a nossa cidade e para o nosso concelho.

 

António Cabeleira, o senhor presidente eleito, veio para os jornais afirmar que, numa conversa tida com o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, tinha ficado “no ar” a promessa de que a situação de encerramento da nossa delegação não se concretizaria.

Afinal concretizou-se. E o senhor presidente disse lamentar. Não disse “combater”, ou “contestar”, disse “lamentar”. Não disse “lutar” ou “insurgir-se”, disse “lamentar”. Como se a Câmara de Chaves fosse um muro de lamentações e ele um rabino ortodoxo.

 

Os flavienses elegeram um autarca que em vez de lutar pelos nossos direitos, apenas se lamenta. Em vez de agir, lastima-se. Em vez de atuar, suspira.

 

Mas também, temos de reconhecer, o poder autárquico que resultou das últimas eleições é uma fantasia. É uma ilusão. É um equívoco.

 

Com o senhor presidente a fazer de mestre-escola, a atual vereação camarária faz-me lembrar as palavras de Galvão de Melo, proferidas ainda antes do 25 de abril e que lhe custaram uma punição disciplinar, relativas à frota de submersíveis: “A Marinha Portuguesa possui apenas três submarinos e todos eles inoperacionais. Tem um que só sobe, um que só desce e um terceiro que nem sobe nem desce.”

 

Está visto que os políticos são cada vez mais atores que representam interesses alheios. Só que a nós calharam-nos logo os mais deslavados e incaracterísticos.

 

Um dia, ainda criança, o meu filho mais novo disse-me com o seu ar brincalhão: Pai, quando for grande quero ser político. Eu perguntei-lhe: Para fazer o quê? Ele respondeu-me com toda a sinceridade: Para não fazer nada!

 

Como naquela altura ainda andava iludido com a política, tentei fazer-lhe ver que não era bem assim. Ele, depois de toda aquela explicação, olhou para mim, sorriu… e foi brincar.

 

Chegado aqui, apenas me resta confessar que, tal como o ex-comissário Ledru-Rollin, do livro de Gustave Flaubert, “A Educação Sentimental”, a política só me trouxe desilusões e tormentos. E a explicação é a mesma. Tal como o senhor ex-comissário “pregava a fraternidade aos conservadores e o respeito das leis aos socialistas”. O homem foi tão bem compreendido que “uns tinham-lhe dado tiros e os outros trazido uma corda para o enforcarem”.

 

A mim não chegaram a tanto. Mas estou em crer que vontade não lhes faltou. Ou lhes falta. Mas o que tem de ser tem muita força. E a prestidigitação e a mentira em política não costumam durar muito. 


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Domingo, 26 de Janeiro de 2014

Na conversa


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Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

O Homem Sem Memória - 191

 

191 – “Por favor, mãe… Não, não, não me batas mais. Mãe. Não. Não fui eu quem roubou as maçãs à Dona Quinhas”, gritava o José momentos antes de abrir os olhos e ver que quem lhe dava bofetadas não era a Dona Rosa mas sim os esbirros de Alberto Punhal.

 

“Torcionários. Reacionários. Filhos da…” “Toma, toma, toma, toma mais esta e esta e ainda mais esta. Esta é por Lenine, esta por Marx, esta por Estaline, esta por Punhal e esta por mim e mais esta e esta e ainda mais esta. Tu cansas-me… E esta pela revolução que tu queres trair, besta reacionária…” “Reacionário és tu, filho da…” “Toma, toma, toma lá mais esta e esta, filho de uma cadela burguesa. Esta é por Marx, esta por Lenine, esta por Fidel, esta por Punhal, e mais esta por…” “Para, para, que o matas à lambada. Usa os processos, mas a modinho. Usa mas não abuses destes reciclados métodos ecologistas de tortura. As ordens são para obrigá-lo a confessar, não para o matar. Pelo menos para já. E as ordens são para ser cumpridas. Afinal vivemos num estado de direito socialista, a caminho do comunismo, ah, ah, ah... O preso tem os seus direitos… ah, ah, ah...” “Quais direitos, qual caralho! O direito deste cão reacionário é levar porrada. Porrada e mais porrada. Onde já se viu um transmontaneco de merda vir para aqui fazer pouco de todos nós. E do Partido. Enquanto eu puder, aqui na nossa terra ninguém brinca com a revolução, nem com as suas conquistas. Traz a vergasta que o vamos açoitar até confessar.” Pausa. “Reacionário, filho de uma cadela burguesa…” “Reacionário és tu, filho da…” “Toma, toma, toma, toma mais esta e ainda mais esta. Esta é por Fidel e esta por Che e esta por Lenine e esta por Marx e ainda esta outra por Estaline e ainda mais esta por Punhal… Traz lá a merda da vergasta, que já me começam a doer as mãos.” Pausa. “Reacionário, filho da…” “Toma, toma, toma lá mais esta e mais esta e mais esta e ainda mais esta. Esta por Lenine, esta por Marx e mais estas todas pelos revolucionários de cujos nomes agora não me lembro... Tu cansas-me… E não confessa, este filho de uma cadela reacionária…” Nova pausa, pois o prisioneiro voltou a desmaiar. “Foda-se, estou esgotado. Agora é a tua vez, meu trotskista de merda.” “ Não me chames isso nem a brincar.” “Olha, olha. Continua sem sentidos. Será que está morto?” “Morto não está porque ainda respira. Mas já não lhe falta tudo.” “Este filho de uma cadela reacionária não confessa nada.” “Pudera, tu, além de ainda não lhe teres feito nenhuma pergunta, nem sequer o deixas falar.” “Não vês que ele mal abre a boca insulta-me logo.” “É a sua tática.” “Talvez a sua tática o leve à morte.” “E achas que ele se importa?” “Ninguém gosta de morrer. Isso eu sei.” “Mas observando a maneira como ele se aguenta, penso que deves estar enganado. A forma como te provoca leva-me a pensar o contrário.” “Deixa-te de filosofias baratas e passa-me aí o vergalho.” “Com o vergalho não. Isso não. As ordens do camarada diretor são para obrigá-lo a confessar, não desancá-lo com porrada até à morte. Se lhe malhas com o vergalho, o pobre do homem não aguenta. O vergalho é para usar muito a modinho. E por especialistas. Exige muito treino e outra tanta sabedoria. Nas mãos de um brutamontes como tu é uma arma letal.” “Com as mãos já não consigo mais. É a tua vez.” “Não, não é. Então não sabes que eu é que estou escalado para fazer de torturador bom. Tu malhas e eu observo. Também quem mandou gabares-te ao chefe de que tens umas manápulas de gigante. Mais a mais, alguém tem de estar atento para ouvir a sua confissão. Afinal é isso que todos pretendemos. Olha, olha, está a acordar de novo. Vamos voltar ao trabalho.” “Eu não posso mais, já não sinto as mãos. Só continuo a tarefa se for com o vergalho.” “Não insistas, como chefe desta brigada de tortura proíbo-te de usares tal arma.” Pausa. Afinal o José não chegou a despertar, como o torturador bom tinha sugerido. Cansado de esperar, o torturador com manápulas de gigante, foi-se ao José e de novo o começou a esbofetear com toda a determinação revolucionária. E o José: “Não, mãe, não fui eu que roubei os rebuçados ao azeiteiro. Não me batas.” “Eu não sou a tua mãe. Sou um dos muitos camaradas que traíste. Tu traíste-nos a todos. Confessa. Toma, toma, toma, toma. Esta é por Lenine, esta é por Marx, esta é por Punhal, esta por Ho Che Ming…” “Não é Ho Che Ming é Ho Chi Minh…” “E a quem é que isso interessa? Porque não vens tu continuar a tarefa a ver se ele confessa.” “O que queres que ele confesse?” “Não te armes em intelectual. Queremos que confesse a sua traição. Afinal ele é um traidor. Traiu o Partido, os camaradas e a revolução. Não existe pior traição. Ele tem de confessar a sua traição.” “É aí que te enganas. Ele pensa que não traiu nada nem ninguém. Ele pensa que os traidores somos nós.” “Essa é a sua maior traição. Vai lá buscar o vergalho. Ele vai confessar, e de joelhos, como os católicos.” “Não insista no vergalho.” “Toma, toma, toma, toma lá mais esta, reacionário, traidor da classe operária, traidor da revolução, traidor do marxismo-leninismo…” “Reacionário és tu. Tu é que devias confessar a tua traição. Torcionário, reacionário, filho da…” “Toma, toma, toma. Esta é por Fidel, esta por Lenine, esta por Marx, esta é pelo seu amigo de quem agora não me lembra o nome, mas que também tinha barbas e era um comunista retinto, esta é por…” “Deixa lá, que o prisioneiro voltou a desmaiar. Vou chamar o médico e mandá-lo para a cela. Amanhã é outro dia.”

 

Depois da visita do médico da prisão, o José deu acordo de si e, virando-se para os torturadores, disse: “Até amanhã, camaradas.” “Além de traidor e reacionário é provocador. Isto só de vergalho é que lá vai.” “Estou que nem com isso”, concluiu o torturador bom já pronto a deixar de o ser. 


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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

Rua Direita - Chaves


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Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014

Poema Infinito (182): a porta dos abismos

 

Há imenso espaço para meditarmos. O azul é enorme. O céu é amplo. Os olhos acendem-se vendo correr a água entre as margens da esperança. Os deuses falsos já morreram. Os mares tornaram-se indefinidos. A saudade é uma incerteza nativa. Este é o tempo da fé na realidade. Do outro lado está o mar sem fim feito de nevoeiro confuso. Os ventos dizem-nos que ignoremos a pátria. A pátria está muda. Nós buscamos a distância do desejo. A pátria entristece-nos. A pátria tem aquele brilho sem luz que nos espanta. A pátria não arde. A pátria é um fogo-fátuo que dói porque nela tudo é incerto e derradeiro. Nela só a noite é enorme. Não há terra nem os céus, mas sim a noite. E as sombras. E o passado. Nela até os crentes perdem a fé. As almas ficam acesas iluminando as espadas. Resta-nos o nome. E a fé perdida. A fé de não crer em nada. A fé que nos inunda a alma de escuro. A fé no gládio e na cruz. A fé nos heróis que são vento e que são expiação e que são ânsia. O tempo fica agora na sua nova forma clara. O espaço é outro. A memória amanhece dentro de nós e transforma-se num lago. Deus despreza a brisa da tarde.  Deus transforma-se no espectro real da distância. Todos estamos à espera da salvação e da fé e da esperança. A terra fica aflita. Só as palavras são redentoras. Os sonhos vibram e ardem. As horas esvaem-se. O prazer é agora um estandarte feito de som. Os versos desprezam a própria ideia de infinito. A beleza não existe. Somos seres transitórios. O mundo fica na sua forma metafísica. E cruza os braços. Olhar é agora uma ideia abstrata. É uma floresta sem céu. O mundo fica sem gestos e sem cor. Fica como o mar onde navegam naus negras e silenciosas. As horas ficam lentas e morrem. Corre um frio de carne pelo nosso corpo inerte. Desejamos a imperfeição, a antiguidade, o abandono, o fluido das auréolas, os silêncios futuros. Navegamos entre os sorrisos das brisas e o silêncio do paraíso. Abrem-se as portas por onde o vento entra. Ele traz os erros e o fumo e os ócios e o perfume dos salões onde se discute a guerra e o seu assombro. Aprendemos a angústia de sonhar. Todos os manuscritos se transformam em paisagens. A nossa voz fica triste, tão triste como a voz que embala os náufragos ou como a própria ideia de naufrágio. De repente paro e penso. Fito o sabor imenso da infância. Ignoro o seu desprezo. Abro as mãos às suas horas felizes. E sorrio. Por vezes amo os meus sonhos como se fossem escadas de silêncio que me transportam até à curva do horizonte. Depois amo as paisagens desenhadas pelo amanhecer e desespero com o sorriso dos anjos exilados dentro do seu próprio limbo. E fico triste com o sorriso imperfeito da chuva. Agora somos duas figuras impressas num vitral de gemidos. Tão pouca é a vida para tão grande sonho. As escadas são agora totalitárias e sem degraus, são intervalos, são paisagens com flores transparentes que arrastam o sol, as sombras, a água, as árvores antigas, os sonhos, as paisagens verticais repletas de vultos, a transparência das águas, os caminhos que ardem, as igrejas iluminadas de dor e pranto, o esplendor dos altares dos mártires, todos os abismos feitos pelo tempo, o espaço que nos escorrega por entre os dedos, os versos escritos com a luz da manhã, as janelas secretas da noite e as pirâmides do desalento. De repente todo o espaço fica estático. Nas janelas aparecem as mãos brancas da despedida. Eu fecho os olhos e entro em casa pela porta dos abismos. 


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Terça-feira, 21 de Janeiro de 2014

Convívio


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Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2014

Pérolas e diamantes (72): Orçamento, o buraco negro camarário

 

No dia 18 de dezembro, a maioria laranja da Assembleia Municipal de Chaves aprovou, de forma inerte e amorfa, provavelmente o pior e o mais enganador Plano de Atividades e Orçamento da Câmara de que há memória em tempos de democracia. A verba inscrita no falacioso documento ronda os cerca de 60 milhões de euros.

 

Para o senhor presidente trata-se de um “orçamento equilibrado e tem nas funções sociais o seu maior valor de investimento, sendo quase de 50 %”.

 

Cerca de 50%, dizemos nós, é a ficção, e a fixação, de tal montante por parte de quem elaborou o orçamento. Desde logo porque é irrealista, principalmente no que diz respeito à previsão da receita com a venda de património.

 

Ou seja, parte substancial da despesa orçamentada está prevista ser coberta com o recurso a receitas extraordinárias, obtidas nomeadamente com a venda de edifícios e terrenos, no montante de cerca de 7 milhões e meio de euros.

 

Mas sabem os caros leitores quanto é que a Câmara de Chaves realizou de receitas de capital com a venda de terrenos e edifícios no ano de 2012 (pois sobre o ano de 2013 a autarquia fechou-se em copas, o que indicia que o montante apurado pode ser ainda mais baixo)? Uns míseros 290 000 euritos.

 

Se fizermos bem as contas, pensamos que nem que seja descoberto petróleo nos terrenos camarários, ou destapado um tesouro valiosíssimo nas paredes de algum edifício pertencente à autarquia, o município conseguirá arrecadar verba tão avultada em venda de património.

 

Além disso, todos sabemos que nas atuais condições de mercado imobiliário, este “milagre das laranjas” é pura e simplesmente impossível.

 

A tudo isto, e pegando nas palavras do senhor presidente António Cabeleira, ainda se vem juntar a diminuição, desde 2010, de cerca de 2 milhões de euros de receita que o Estado deixou de transferir para a Câmara.

 

Como se isso não bastasse, as receitas do município também têm vindo a diminuir no que diz respeito às taxas urbanísticas, pois o volume de obras em construção decaiu substancialmente e o imposto de transações baixou para cerca de um quinto, devido ao facto de não se venderem casas e muito menos lojas.

 

Mas o grande buraco, o enormíssimo rombo deste orçamento, está nos cerca de 18 milhões de euros, cerca de um terço do total orçamentado, que se vão gastar para pagar a dívida às empresas Águas de Portugal e à Resinorte.

 

Sendo assim, uma pergunta se impõe: Como é que a dívida cresceu a um nível tão elevado? Pois porque durante alguns anos a Câmara de Chaves, vá-se lá saber por que carga de água, deixou de pagar os bens e os serviços a quem lhos fornecia. 

 

Todos nós, durante esse tempo, pagámos mensalmente a água que consumimos bem assim como a recolha do lixo. Sendo assim, por que razão a Câmara deixou de honrar os compromissos que celebrou em nome de todos os munícipes?

 

A dívida, que nos envergonha a todos, é da inteira responsabilidade de quem geria a autarquia. Mas a culpa, na nossa terra, morre sempre solteira. E no fim quem paga estes atos de má gestão somos todos nós. E a dobrar. Primeiro na conta do recibo, depois em impostos, através do orçamento camarário.

 

A dívida é de caloteiros arrogantes. E responsabiliza-nos a todos. E nós sem culpa nenhuma. Além dos 18 milhões de euros ainda vamos pagar juros sobre esse montante e ainda mais juros sobre esses juros. Juros em cima de juros até à falência total.

 

Mas ainda estamos para saber de que forma a Câmara conseguiu arranjar dinheiro para financiar a “Chaves Viva”, a “Voz da Juventude” e a “Chaves Social”, as verdadeiras “incubadoras” de “jobs for de boys” laranjas e afins. 

 

A Câmara de Chaves faz-nos lembrar aqueles nobres falidos que, não pagando o que devem, vivem com um pé na ostentação, como é o caso da Fundação Nadir Afonso, e outro na miséria, como é o caso do Centro Histórico, que está em ruínas.

 

Toda esta triste situação me fez lembrar uma passagem do livro de Afonso Cruz, “Para onde vão os guarda-chuvas” (que na nossa realidade bem poderia denominar-se: “Para onde vai o nosso dinheiro…”).


“Que resultados ridículos, pensou. E que deprimentes que são os números, sempre tão exatos, a dizerem-nos tudo com precisão, um mais um igual a dois e por aí fora, sem qualquer originalidade. Com licença, se os números fossem uma coisa boa, existiriam na natureza e andariam a pastar pelos campos, mas Alá sabe melhor, pois criou o mundo e a paisagem sem números nenhuns. Só existem na nossa cabeça e nas faturas e nos recibos, todos incisivos, muito abstratos, a olharem para nós de cima, parecem camelos, que Alá os corrija e lhes ensine a humildade. Se fossem alguma coisa de jeito, andariam a pastar como as cabras.”

 

Sim, de facto, o que dava mesmo jeito a António Cabeleira, e à sua “entourage”, é que os números, esses apóstatas, fossem pastar como as cabras.

 

Sobre a fantasia de cerca de 50% do orçamento ser para funções sociais, como afirma o senhor presidente, lembrei-me de outra passagem do mesmo livro de Afonso Cruz. Um pedinte pergunta à personagem principal, Fazal Elahi, o que é o altruísmo. Ele responde que é assim como dar dinheiro aos pobres indigentes. Ao que o pedinte, depois de olhar para as moedas com que foi presenteado, responde: “O altruísmo deve ser uma coisa muito pequena.”

 

Com esta Câmara, e com este Governo do PSD, vamos ficando cada vez mais como Badini, o poeta mudo do mesmo livro (que recomendo vivamente). Começamos a estar habituados a que a nossa vida tenha o som entre um insulto e uma porta a fechar-se.

 

Se calhar está na hora de pormos um pé entre a porta e a soleira. Os meus amigos dirão, e farão, o que mais lhes aprouver. Mas não digam que não foram avisados. 


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Domingo, 19 de Janeiro de 2014

A menina da boina


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Sábado, 18 de Janeiro de 2014

Aprendendo


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Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

O Homem Sem Memória - 190

 

190 - O José mal adormecia começava a ver desfilar, no meio de nuvens, uma turba de gente encabeçada por um grupo de jovens de calções e bandeiras. Uns cantavam o “Hino da Mocidade Portuguesa” e outros entoavam a “Internacional”. Na cabeça do José tudo se confundia. O canto que aprendeu a entoar enquanto criança e o cântico comunista que aprendeu a berrar no tempo da sua jovem militância comunista.

 

Tudo relembrado em eco. O povo… ovo… ovo… lá vai cantando… ando… ando… e rindo… indo… indo (Shane! Shane!) levado pela ideia que já consome… ome… ome… (Shane? Shane?) a chama que a soterra… erra… erra… e se nada somos… omos… omos… neste mundo sejamos tudo… udo… udo… levados pela voz… oz… oz… (feiticeiro, onde estás tu?) do som tremendo das tubas… ubas… ubas da costa bruta… uta… uta… (Shane! Shane!) que nos cortam a mal… al… al… (feiticeiro de OZ? Shane?) pelo fundo e pelos senhores… ores… ores… (Aniki Bobó… Shane… Feiticeiro…) e pelos produtores e pelos patrões… ões… ões… cabrões… (Shane, somewhere over the rainbow… feiticeiro…) para não termos protestos para sair ir… ir… e vir… e tornar a ir… (Shane, ajuda-me, ajuda-nos…) deste antro estreito façamos nós por nossas mãos que o sonho é lindo indo… indo… e lá vamos torres erguendo rasgões e clareiras abrindo na alva luz… uz… uz… (Shane, ajuda-nos, ajuda-me) imortal da internacional todo o suor da corja… orja… orja… (Feiticeiro… somewhere over the rainbow… Oz… AnikiBobó… Aniki Bebé… Shane…) rica que recolhe o povo e luta afinal pela paz entre nós que somos irmãos… aõs… aõs… trabalhadores… dores… dores (Shane…) que somos a mocidade que passa e o tronco em flor… or… or… que estende os ramos… amos… amos… (Feiticeiro? OZ…) e lá vamos levados levados sim… im… im… portanto que cessem os ventos… entos… entos… da insânia pois já nada esperamos de nenhuns… (Shane? Shane…) Shaaaaaaane… Shaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaane… Shaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaane… Eu não quero ser um rei nem capitão nem soldado…  Shane… não quero mandar em nada… Shane… eu não quero ser mandado… Shane… Shane… quero um cavalo de pau feito da mesma madeira da minha pistola… Shane… não te vás embora… Shane… o tronco da flor… Shane… o sonho lindo… as nossas mãos… os direitos… os sujeitos… Shane… o povo só quer o que é seu… Shane… o povo só quer o que é seu… Shane… e eu apenas quero um cavalo de pau… eu não quero ser ladrão… Shane… eu não quero ser polícia… Shane… eu só quero um cavalo de pau… Shane… somewhere over the rainbow… Shane… over the rainbow… Shane… over the… Shane… 

 


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Quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014

Observando


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Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

Poema Infinito (181): a angústia dos homens

 

O tempo faz amadurecer a dor. E a saudade. E a extensão da verdade. E mostra-nos como toda a solidão é sagrada. E ampla. E pura. E triste. O tempo ajuda a compreender as crianças e a sermos secretamente felizes. É tão estranho o abandono. A minha janelinha abre-se para o dia. As borboletas voam em círculos viciosos e perguntam pelas estrelas. E chamam as almas. E vibram. As tardes transformam-se em catedrais góticas que aplaudem a dignidade do tempo. E a sua solidão eterna. Trago em mim um pedaço de eternidade. Por vezes os dias adormecem mansos. Neles os homens vagueiam como se fossem estrelas pálidas. O seu olhar possui a cintilante alegoria do desejo. E da vida. E da morte. Essa é a trilogia da alma. A noite vem secretamente buscar os homens e aperta-os dentro do seu anel de escuridão. E eles acendem os seus olhos que por instantes brilham como se fossem pequenos sóis esquecidos por Deus na hora da criação. As suas mãos estão em paz. A amplitude da sua singela humanidade é um milagre. Eles pressentem que todas as auroras acabarão por morrer. Essa é, mesmo que não o saibam, a primeira onda da infinidade. Por isso vagueiam através da visão da dor e do abandono. Por isso sorriem brandamente como se fossem neve no natal dos opulentos. Por isso a sua alma se estilhaça. Por isso renovam a esperança de morrerem na primavera. As suas horas são quase sempre pálidas e circulares. Nelas constroem os seus dias e os seus sonhos. E choram baixinho. E deixam-se enredar dentro da sua solidão angustiada. Eles são, sem o saberem, a sua própria solidão e a sua própria angústia. Eles alimentam o sossego branco de Deus. E teimam em inflar as velas da nau que os sufoca. E escutam o seu medo asfixiante. E imaginam que todas as mulheres são belas, como as deusas do olimpo ou como as anjas transmontanas, feitas de granito duro e polido pelo vento, pela chuva, pela neve e pela geada. Eles contemplam a sua imobilidade triunfal e coroam-nas com azevinho. E envolvem-nas com o seu amor feito de espera e desejo. E circundam-nas com a sua saudade pálida. E rezam hossanas ao pé das colunas sorrindo com a palidez das noites de luar. E desejam ter outras mães e outros pais e serem eles a pintar de branco a serenidade dos cabelos das suas avós. Por isso neles floresce a destruição feroz do ódio que, como o gelo, se lhes mete na alma. E sentam-se muito juntos. E acendem o lume. E ficam a observar as chamas e a escutar o crepitar da lenha. E as anjas voltam agora disfarçadas de borboletas e dão voltas e voltas em torno da luz dos archotes. Os homens voltam a lembrar-se das suas mães os beijarem nas faces e guardarem dentro dos seus corações pesados os muitos desgostos que acumularam ao longo das suas vidas. Começam então a gritar dentro dos seus sonhos e a chorar como meninos pálidos e loiros, eles que sempre foram rosados e morenos. E sentem saudade do tempo. E da pátria. E da eternidade. E do reino triste dos seus dias de infância. E do vento que desfolhava as rosas e a música. E da pressão surda das horas. E do brilho das pedras dos caminhos das aldeias, que lhes pareciam turquesas azuis e rubis. E de sofrerem o tempo. Descobrem agora que as anjas eram almas brancas com asas prateadas que cantavam canções inverosímeis. Desiludiram-se dos sonhos. Reiniciaram novamente o seu caminho assustado pela vida. 


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Terça-feira, 14 de Janeiro de 2014

Ao sol


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Segunda-feira, 13 de Janeiro de 2014

Pérolas e diamantes (71): ano novo, política velha – leitão e águas de bacalhau

 

A verdade é um sítio estranho, bem iluminado, mas mal visto e mal julgado.

 

E isto já vem desde há muito tempo. Por vezes sinto-me como Guerra Junqueiro, que sintetizou a sua postura da seguinte maneira: “Os políticos consideram-me um poeta; os poetas, um político; os católicos julgam-me um ímpio; os ateus um crente.”

 

Churchill, relativamente à política, disse uma coisa que vai no mesmo sentido: "Algumas pessoas mudam de partido em defesa de seus princípios. Outras mudam de princípios em defesa do seu partido."

 

E a prova do que aqui se afirma não é preciso ir buscá-la longe. Basta pegar em exemplos paradigmáticos de políticos nossos conterrâneos.

 

Relativamente à lei da Organização do Sistema Judiciário, entre nós conhecida como a lei que nos desqualificou irremediavelmente o Tribunal de Chaves, a senhora deputada do PSD, Manuela Tender, resolveu elaborar um documento, a que apelidou de “Declaração de Voto”, onde verteu, entre outras realidades, as seguintes: “Constituindo o sistema de justiça um pilar do Estado de Direito e tendo como desígnio primeiro o cidadão, na defesa dos seus direitos, liberdades e garantias, deve a organização desse sistema garantir eficazmente o cumprimento do princípio constitucional do acesso de todos os cidadãos ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos”.

 

(…) “No entanto, parece-me fundamental que uma reforma num setor tão importante como o da Justiça conjugue a especialização da oferta judiciária com a adequada proximidade dos tribunais”, pois é necessário ponderar o “volume de pendências dos últimos anos e das especificidades demográficas, climatéricas, económico-sociais e culturais, sendo que, naturalmente, os critérios de distribuição de juízos especializados se adequariam a esta análise das dinâmicas territoriais”.

 

E ainda: “No caso do Círculo de Vila Real, onde resido e pelo qual fui eleita, com concelhos que têm dos mais baixos rendimentos per capita do país, onde o despovoamento e o envelhecimento da população são notórios e preocupantes, onde os transportes coletivos são precários e com circuitos e horários muito reduzidos e rígidos, com as consequentes implicações em termos de capacidade de deslocação, o afastamento dos tribunais pode constituir uma dificuldade ou mesmo um impedimento para o acesso ao direito e aos tribunais por parte dos cidadãos, sobretudo dos mais fragilizados cujos direitos, sobretudo numa altura de crise como a que vivemos, devem ser protegidos e salvaguardados.”

 

Daí que tal proposta (a tal lei que nos desqualificou irremediavelmente o tribunal de Chaves), na opinião da senhora deputada do PSD, não lhe “parece razoável porquanto não atende às dinâmicas acima referidas e à centralidade de Chaves na região do Alto Tâmega discriminando os cidadãos que residem na parte norte do distrito, que veriam aumentar exponencialmente os custos de acesso à justiça ao ver afastadas as secções de instância central do Tribunal de Chaves, atualmente sede de Comarca e Círculo, para Vila Real. Em suma, o acesso à especialização comprometeria iniludivelmente a proximidade”, etc…

 

(…) Assim sendo, “face ao exposto, declaro que o meu voto”… foi contra. Isso é que era bom. Não. Não foi, não senhor. O seu voto foi a favor da dita lei, ou melhor, pegando nas suas palavras: “Foi condicionado pela disciplina de voto a que me comprometi…”

 

Ou seja, entre a legítima defesa da sua região e a defesa do seu partido, optou pela última. Embora com pesar, honra lhe seja feita. Em vez de ser forte com os fortes, resolveu ser forte com os fracos, encobrindo os legítimos direitos dos seus conterrâneos numa declaração de voto de cinco páginas. Que, parecendo dizer uma coisa, defende outra.

 

Em desespero de causa, ou pressionada pelas bases do seu partido, que, em última estância, foram as que a colocaram no lugar que ocupa no parlamento, resolveu organizar uma deslocação a Lisboa, onde apresentou uma petição atribuída a António Cabeleira sobre o acesso à Justiça no Alto Tâmega.

 

Ou seja, em vez de combater uma lei iniqua, resolveu solicitar uma exceção para o Tribunal de Chaves. Em vez de lutar por uma Justiça igual para todos, quis reclamar o direito à exceção. Em vez da regra democrática, solicitou a exceção discriminadora.

 

A digníssima delegação flaviense incluiu, na sua quase totalidade, e dizemos “quase” para não parecermos indelicados, militantes do PSD.

 

Do passeio resultou um são convívio dos excursionistas, uns “bacalhaus” distribuídos a esmo por parte da senhora presidente da Assembleia da República (segunda figura da Nação, militante distinta do PSD, que está reformada desde os 42 anos e recebe 7000 euros mensais, por 10 anos de trabalho no Tribunal Constitucional); uma “leitãozada” na Bairrada, para cumprir com a tradição, que uniu à mesma mesa o senhor presidente da Câmara de Chaves e o senhor vereador eleito pelo MAI, num alegre e divertido convívio – não separem os homens o que a política e o poder uniram, ou, dito de outra forma: O bom filho à casa torna.

 

Relativamente ao Tribunal de Chaves, deu tudo em águas de bacalhau.

 

Está visto e confirmado, ano novo política velha.

 

Só que, como diz Diderot em “Jacques, o Fatalista”: “ A verdade, a verdade… a verdade, dir-me-eis vós, é muitas vezes fria, comum e desgraciosa.” Mas é a… verdade, teimo eu. E eu, como todos os bons transmontanos, sou muito teimoso, para mal dos meus pecados. 


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Domingo, 12 de Janeiro de 2014

Quando mija um português...


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Sábado, 11 de Janeiro de 2014

Foto com Chaves ao fundo


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Sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014

O Homem Sem Memória - 189

 

189 – E lá foi o José, mais uma dúzia de intrépidos e valentes contrarrevolucionários, fazer a sua revolução. A vida tem destas contradições. E caminharam muito, com ele sempre a liderar. Meses e meses de caminhadas pela planície alentejana em busca de caça, tinham-no transformado num verdadeiro Zátopek. Parecia que nunca se cansava, por mais que andasse. Se a revolução contrarrevolucionária se fizesse à custa de muito andar, não temos dúvidas que o José a conseguiria implementar.

 

No momento de convencer os seus recentes camaradas para esta nova aventura de guerrilha, lembrou-lhes as palavras de Mao Zedong: Até a mais longa marcha começa pelo primeiro passo, ou coisa pelo estilo.

 

Os primeiros passos até foram fáceis de dar, o problema residiu nos seguintes. Eles lá caminhar caminhavam, pobres coitados, mas faziam-no sem um propósito definido. Iam assim ao deus-dará, transportando as armas que, sobretudo, lhes serviam para caçar.

 

Andavam sempre em fuga. Os perseguidores eram frequentemente despistados pela astúcia do José. O seu mapa mental estava bem organizado. Calcorrearam a planície de um lado para o outro, afastando-se das pessoas e dos povoados, evitando os caminhos. Ou seja, não tinham nenhum plano definido, como já explicámos.

 

Todos sabemos que para fazer uma revolução, mesmo que contrarrevolucionária, não é suficiente a verdade, a vontade e, muito menos, a razão. Se assim fosse o mundo era um lugar esplêndido. Mas não é. Para fazer triunfar uma ideia é necessária muita perseverança, ainda mais convicção e intenso esclarecimento. Os camaradas do José bem lhe diziam que era necessário falar com as pessoas, convencê-las de que viviam numa sociedade totalitária, debaixo do domínio de um estado repressivo e de uma ideologia falsamente libertadora. Mas pregar a contrarrevolução no Alentejo, todos o sabemos, é uma tarefa inglória. Uma ideia que custou décadas a arraigar-se no meio do povo, leva outras tantas a desarreigar-se. E contra isso nada há a fazer a não ser tolerar a paciência e deixar passar o tempo.

 

Por vezes, quando decidiam ir visitar um grupo de conhecidos do José a um qualquer monte lá no meio de nenhures, apesar de serem bem recebidos e devidamente acolhidos, quando intentavam pregar a boa nova de que era necessário lutar contra a tirania marxista-leninista-punhalista, as pessoas mudavam logo de assunto. Algumas, apesar de concordarem que a República Popular do Sul era pouco democrática, argumentavam que a luta que travaram contra o regime fascista de Salazar, e contra os latifundiários, lhes tinha saído cara e por isso não estavam na disposição de lutar contra quem os tinha ajudado nesse combate.

 

O José bem argumentava que sem latifundiários, mas com capatazes comunistas, sem Salazar mas com Punhal, a fome era muita, as prisões estavam repletas de presos políticos, a repressão era quase diária, não se podia falar contra o Estado, nem contra o Partido, nem contra Alberto Punhal. Mas eles teimavam sempre na sua, que o Partido os tinha ajudado no derrube do fascismo e na conquista do socialismo, entre outras frases feitas.

 

Quando bebia aguardente de medronho mais do que a conta, o José tornava-se agressivo na argumentação referindo que a revolução pretensamente socialista se tinha limitado a mudar o nome às coisas, mas que tudo continuava na mesma, ou pior. O Estado era mais totalitário, a polícia política praticava métodos ainda mais cruéis do que a antiga PIDE, os sindicatos limitavam-se a enfraquecer ou a sufocar as reivindicações dos operários e a Igreja tinha sido substituída pelo Partido, e para pior, pois era muito mais fundamentalista. Os bispos eram agora os membros do Comité Central e os padres foram trocados pelos funcionários comunistas. Afinal o que era Alberto Punhal senão o Cardeal representante da Cúria Soviética em Portugal sob o papado de Brejnev?

 

“Camarada José”, avisavam-no os pobres camponeses, “não te admitimos essas heresias. O homem pode ser muita coisa mas não é nenhum Cardeal. Ele nem sequer sabe rezar.” E o José: “Isso é o que ele faz todos os dias, quando profere aqueles disparates como se fossem verdades absolutas.”

 

E depois ia dormir. Ou fazer que dormia, pois não lhe saíam da cabeça aquelas palavras teimosas dos pobres camponeses que não conseguiam abandonar a sua obstinação comunista. Estava visto, as pessoas são atreitas às pretensas verdades absolutas. A tradição tem um peso desmesurado. A tradição e a falta de cultura. Que quase sempre andam juntas. A maioria das vezes, a tradição é a celebração da incultura, do atraso, da incapacidade de pensar. E qualquer revolução, mesmo uma contrarrevolução revolucionária, é vítima disso mesmo.

 

Imbuídos de espírito transformador, os revolucionários fingem que mudam as estruturas da sociedade para fazerem de conta que pretendem mudar o ser humano. Neste processo, os únicos que se transformam são os revolucionários que deixam de o ser para se converterem em torcionários.

 

Mas voltemos à nossa história. Entretanto, um pesadelo tornou-se recorrente nas noites mal dormidas do José.


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Quinta-feira, 9 de Janeiro de 2014

Passeando a vaca


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Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

Poema Infinito (180): a nitidez do mal

 

 Resplandeço nos teus braços entre os ardores do estio e a verdura dos prados e a esperança do orvalho. Ainda não me esqueci do canto dos rouxinóis, nem das folhas murchas do outono nem da eternidade de dezembro. Observo-te com o silêncio amplo da vida e reparo que o teu olhar é ainda mais vasto do que o amor. Servimo-nos à mesa de utopias felizes como se fossemos os únicos seres sobre a terra. Os nossos gestos são simples como o sorriso dos desventurados. Nós ainda possuímos a audácia de nada esquecer, de sermos fiéis aos motivos que jurámos e à invenção da eternidade. Todos os músicos tocam até aos confins do silêncio. Por isso os dias são sinfonias claras. Nos nossos olhos ainda moram os vales e as flores de sol e as suas cores e a sua luz. Ainda guardamos as imagens dos muros dos caminhos e da porta de casa. Toda a ordem é turbulência. As nossas palavras são os nossos silêncios. A luz vai e volta enquanto os nossos corpos amadurecem. O anoitecer tem o seu próprio movimento perpétuo. Até quando adormecemos continuamos a velar-nos e a seguir o amor. Sabemos que as estrelas avançam à noite. Por isso os nossos olhos ardem na escuridão. O dia recolhe as suas asas e anula os espaços. Dissolvemos o desejo em visões fantásticas. Amanhece melhor que entardece, por isso é que a luz bebe a sombra, por isso é que estendemos os sonhos, por isso é que o nosso silêncio cala a tempestade. Ajeitamos as brumas com as mãos e os nossos olhos penetram a inocência. A água da chuva dispersou a terra do seu sentido. O espaço por vezes é cruel. E o sol é duro. Quero abordar de novo o teu nome com mais ternura. As palavras que conhecemos inspiram o esquecimento. E as memórias ficam límpidas e azuis como as flores absurdas. Toda a esperança é uma distração ineficaz. Despertamos dentro dos ninhos da terra, a aurora chega encharcada. As sombras ficam sonâmbulas. A luz é um novo aconchego. A melancolia é uma espécie de loucura que nos invade na idade da razão. No instante da criação. Aprendemos a conjugar o tempo e a vida. Ao contrário da vida, o tempo é sempre longo. É do fundo do abismo que falamos, onde os rostos expressam a beleza dispersa da finitude. Apesar disso, os sonhos são corajosos e as mãos continuam íntegras na sua tarefa de moldar a vida. As casas têm agora o ar ausente das crianças e as portas expõem a sua atual inutilidade. As palavras ficaram más, as janelas cegaram. A miséria está despida e à espera. De novo as crianças pobres nos fazem chorar e as suas mães ficam densas de confusão e desespero, dizem querer cegar para nada enxergarem, para tudo esquecerem. Os seus corações apagam-se. As suas almas são borboletas de desespero. E enrugam-se ainda mais dentro dos seus andrajos. As ruas ficam profundas e nuas. Nelas já não passa ninguém. As palavras ficam fracas, o pão esmigalha-se. Os homens ataram as asas dos pássaros. Tudo o que foi semeado foi destruído. A luz ficou suplicante. Do inverno nascem os amores menores. As carícias são gestos de angústia. As metamorfoses do desespero ecoam pelo mundo. Já não sabemos se estamos longe ou perto da nossa consciência. O mal tem a nítida aparência de uma flor. 


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Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014

Três contos para o Ano Novo

 

1 - Apetites freudianos

 

– Mãe, estou toda molhada.

– Sim, espera um pouco que vamos ali comprar um guarda-chuva aos chineses.

– Mãe, estou cheia de frio.

– Pois, mas espera um pouquinho, não vês que estou a dar de mamar ao teu irmão!

– Mãe, estou cheia de fome.

– Eu sei que estás, mas tens que ter paciência e esperar um pouco até te poder comprar qualquer coisa para comeres.

– Mãe, apetecia-me leite quente.

– O quê?

– Apetecia-me leite quente.

– Espera um pouco. Não vês que estou a dar de mamar ao teu irmão! Quando chegarmos ao café logo te dou qualquer coisa.

– Que coisa, mãe?

– Qualquer coisa. Uma sandes de fiambre ou de queijo e um sumol para beberes, por exemplo.

– Mas mãe apetecia-me muito beber leite quente. É que estou cheia de fome e ainda é longe até ao café.

– Tem paciência. Espera um pouco. Deixa-me acabar de dar de mamar ao teu irmão.

– Mãe, estou cheia de fome e de frio e estou toda molhada. E apetecia-me muito beber leite quente.

– Será que também queres mamar? Não tens vergonha! Uma menina da tua idade a querer mamar na teta da mãe.

– Mas mãe o Rui também já é crescidinho e mesmo assim tu ainda lha dás.

– Não me digas que estás com ciúmes do teu irmão.

– Não sei. Eu ainda sou pequenina e tenho muita vontade de beber leite quente. Dá-me a teta, mãe. Sinto tantas saudades de mamar.

– Se não te calas, o que te dou é um bom par de bofetadas…

 

 

2 - Céu muito nublado

 

– Não vás com tanta velocidade.
– Achas que sou oligofrénico?
– Não. Nem por isso. Mas o que é que tem isso a ver com a velocidade?
– Tudo tem a ver com tudo.
– Não sei se és oligofrénico ou não. Tenho a certeza é que aceleras muito dentro das cidades.
– Só dentro das cidades?
– E fora delas. Tu aceleras em qualquer lado.
– Mas achas mesmo que sou oligofrénico?
– O que tu és é maluco.

– Então achas que sou mesmo oligofrénico.
– O que tu és é um chato.
– Modera-te. Oligofrénico sim, chato nunca.
– Que nuvens tão escuras.
– Não disfarces.
– Vem aí uma trovoada das grandes.
– Não desvies a conversa.

– Deixei a roupa a secar na varanda e vai molhar-se toda.
– Eu preocupado com a minha oligofrenia e tu pensas só na tua roupa! És uma ingrata.
– A roupa também é tua e dos garotos. E a ingratidão tem as costas largas.
– Tens razão, as nuvens são mesmo ameaçadoras.
– Eu não te disse?
– Achas que sou mesmo oligofrénico?

– Não, não acho. O Mundo é que não te compreende.
– Assim está melhor. Mas não dizes isso só para me agradar, pois não?
– Não.

– Não?
– Não.
– Escusas de ser tão evasiva.
– Eu não sou evasiva, sou sincera e curta de palavras.
– Então achas que não sou oligofrénico? Não dizes nada?
– Vai mais devagar que isso passa. Temos muito tempo para chegar.
– Mas não disseste que querias chegar a casa rapidamente para apanhares a roupa que se pode molhar?
– Que se lixe a roupa. Eu quero é chegar a casa tranquila e inteira.
– Achas que sou oligofrénico? Achas ou não? Diz a verdade.

– …

– Está bem, eu vou reduzir a velocidade. Começou a chover. Eu gosto da chuva. E tu?
– Olha, liga o rádio.
– O teu basta.
– Achas que sou oligofrénico?
– I’m singing in the rain…

 

 

3 - Conversa captada por uma antena parabólica entre o Senhor e um pardal

 

– A maioria das pessoas limita-se a procurar a beleza em vez de criá-la.

– Piu, piu, piu, piu, piu.

– Olha à tua volta. Até eu já duvido que a beleza se encontre na natureza, da mesma forma que a verdade se encontra afastada da vida.

– Piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu.

– Tens razão. Verdade e beleza são criações do próprio Homem.

– Piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu.

– Tu estás mais velho, quer dizer, cresceste!

– Piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu.

– Andas a ler romances?

– Piu, piu, piu, piu, piu.

– É estranho, isso de ler romances. Depois as pessoas passam a vida a perguntar umas às outras: já leste este? Já leste aquele?

– Piu, piu, piu, piu.

– Só Deus Meu Pai sabe o que estás para aí a dizer!

– Piu, piu.

– Então piu para ti também.


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Domingo, 5 de Janeiro de 2014

Milho


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Sábado, 4 de Janeiro de 2014

Anelhe


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Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014

Vidago Palace - Jardim


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Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2014

Poema Infinito (179): labirinto

 

Tenho ainda todos os sonhos intactos e com eles regresso furiosamente à adolescência quando olhava para as águas e sentia por perto a brisa que vinha do outro lado do mundo. As janelas do quarto vibravam. Os retratos na parede guardavam a desordem das histórias. Então despia-me do esquecimento e suspirava intermitentemente. Os meus pés escorregavam na solidão dos caminhos. Mas eu não me cansava de perseguir as madrugadas. Os meus poemas perseguiam os pássaros de árvore em árvore e de ramo em ramo. Os dias preparavam as suas fogueiras e os desejos naufragavam como se fossem sentinelas cegas. Tudo era sonho e cinza. As meninas usavam blusas que cheiravam a eucalipto e deixavam que as paisagens lhes fugissem. Admiravam os comboios que pareciam catedrais ambulantes. E abriam as blusas por causa do calor. E ficavam com febre. Em casa ousavam colocar os peitos a descoberto. E ficavam húmidas. E sonhavam com falos persistentes. Os jovens firmavam pactos com o desejo e tomavam xarope para combater os delírios. Semeavam as suas esperanças no tempo que estava para vir e construíam labirintos perduráveis. As flores secavam por causa da maldade. Foi nesse tempo que comecei a entender o meu corpo e o desejo de possuir outros. Os céticos perguntavam por que razão o tempo é a ruína dos sonhos. E tudo era frágil e os costumes moravam do lado morto das pessoas. O ruído das aves arrastava consigo a densidade das flores. A matéria era uma evidência secreta. A vida era eficaz e terna. Depois os sonhos passaram a devorar as próprias vestes e os anos foram engolidos pelo esquecimento. E os anjos começaram a esperar pela sua invisibilidade e a vaguear na névoa. As sombras ficaram repletas de chaves. Todas as aventuras ficaram breves. Todos passámos a esperar por nada, a envergonhar-nos da carne, a falhar na amizade, a ter febres altas como na infância. Gastámos as nossas forças em vão. As noites e as insónias passaram a ser enormes e começámos a desperdiçar as recordações e a contemplar a admirável situação das grandes casas. Passámos a ouvir os nossos passos a conduzir-nos para o desastre. O esquecimento tomou conta do mundo. O tempo fechou os olhos. Todos os desejos impossíveis terminaram. A solidão foi-se construindo em nosso redor. Começou o período em que navegávamos em silêncio percorrendo a longa inquietação das ilhas. Flutuámos no amplo céu da desordem. Iniciaram-se os rituais da fé esquecida. Esqueceu-se a razão. Elaborou-se o teorema delicado dos afetos. Ao sétimo dia de criação descansámos nas muralhas do passado. Então voltou a inquietação da infância e a sua desordem e a tristeza das casas abandonadas. As noites começaram a gritar. E nós permanecemos dentro delas em atitude hierática. Começámos a esconder o aroma dos frutos dentro dos sonhos. E a rezar orações antigas e a derrubar a delicada vegetação dos bosques onde deus criou o homem. Assinalámos o lugar exato dos sacrifícios. Do pó levantaram-se os exércitos. E as mulheres levantaram as saias e expuseram o seu sexo nu, as suas nádegas e as suas coxas eficazes para a conquista. Novamente a água lavou as impurezas e renovou as fontes do desejo. Montados nos nossos cavalos fomos atrás do infinito território da aventura. Encontrámos então a fértil desilusão da vulgaridade. A morte acolhe-nos a todos.  


publicado por João Madureira às 09:36
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