Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

Carvalho


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Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

Poema Infinito (187): o sítio onde morrem as manhãs

 

Nasci no sítio onde morrem as manhãs. Nasci, por isso, desiludido dos sonhos. Foi lá que ouvi pela primeira vez os mil ruídos do dia. Foi também lá onde libertei pela primeira vez o riso, enquanto ouvia uma ária modulada pela voz doce e sofrida da minha mãe. Aí as vozes dormitavam junto das crianças enquanto os velhos secavam a pele ao fumo e choravam lágrimas de espanto. As lareiras iluminavam os quartos enquanto os sonhos morriam preservando uma réstia da cintilação do entardecer. Durante os dias quentes, as mulheres juntavam-se à beira do poço e aliviavam as suas canseiras nos bancos de carvalho talhados a enxó. As tílias agitavam os seus ramos e aromatizavam o ar. Comentavam-se então os invernos doridos, a saudade verde dos lameiros, o sabor antigo dos caminhos, os mistérios da vida e as diversas portas por onde se entra neles. A minha mãe penteava-me vagarosamente os cabelos loiros enquanto a minha irmã mais velha lhe oferecia um ramo de flores silvestres para chamar a sua atenção. Alguém dizia muitas vezes: não tentes compreender a vida. E depois suspirava e estendia as mãos à procura dos seus anos jovens. Eu enfiava-me dentro dos meus segredos e aprendia a viver diminuindo como os anjos. Os homens encostados ao muro enegreciam como os ciprestes enquanto olhavam para os prados e para os gestos dos animais e para a demora das pedras dos caminhos estreitos. E continuavam esperando, sempre esperando, dentro do seu desalento. Foi então quando comecei a guardar essas imagens quietas e carregadas de angústia. Os sorrisos eram sempre ligeiros como asas de andorinha. Por isso as mulheres eram mansas como as tardes de estio e os homens eram agrestes como as noites de tempestade. A beleza era pudor. Até os perfumes dos frutos eram tímidos e fugidios. Só a angústia era enorme. Naquela altura ninguém contava histórias de sossego às crianças. As lendas estavam povoadas de lobos e de bruxas e de caminhos que iam dar a nenhures. Todos estranhavam as cantigas e as árvores em flor e os sonhos bons. Ninguém sabia o que era a verdade ou o bem. As suas mãos escaldavam quando nos tocavam. Apenas as mulheres choravam e louvavam o seu deus. Doía-lhes serem virgens. Doía-lhes florir. Doía-lhes o silêncio das estrelas do céu. Então rezavam terços intermináveis e enfraqueciam cada noite mais um pouco. Elas eram a dor que eu sentia. Elas eram as fêmeas feridas do milagre da vida. Por isso sofriam a dor dos filhos e o estalar seco da pele dos anciãos. O mundo que brilhava afastava-se sempre mais um pouco. Os meninos roubavam os nomes aos anjos e aqueciam-se nos seus desejos e observavam a iluminação do dia no olhar das suas mães. Aprendíamos então a encontrar as horas, a crescer no silêncio, a alinhar o vento, a ler a tarde no livro do paraíso e a ter medo das palavras rudes dos homens. Na minha meninice estive sempre sozinho a dar nome às coisas, a ouvir a angústia, a dar espaço a Deus, a esperar pelo sentido da vida, a estranhar as casas frias e encolhidas, a tentar conhecer os caminhos, a calcular o peso da luz do sol na face da minha mãe, a colocar devagar as palavras na minha boca, a sentir exatamente o desalento, a imaginar palavras luminosas para mais tarde as escrever, a espalhar a claridade, a esperar que me crescessem asas azuis nas costas para me confundirem com o céu, a perdoar para que me perdoassem, a encher-me de melancolia e a perguntar baixinho quanto tempo dura a eternidade. É por isso que já não tenho tempo nem espaço para mais desgostos. 


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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Olhares


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Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Castelo de Montalegre


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Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

Pérolas e diamantes (76): Eles comem tudo…

 

Foi ao ler uma crónica do saudoso Manuel António Pina que a inquietação tomou conta de mim e não me tem largado da mão. O cronista escreveu que “hoje o estalinismo já não manda ninguém para a Sibéria; quando muito manda para o desemprego”, e agora sem subsídio.

 

Estes neoestalinistas (lembro Durão Barroso na Comissão Europeia, Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e Nuno Crato no Governo pátrio), afirmando-se atualmente social-democratas, ou democratas-cristãos, andam a vender Portugal a patacos.

 

De facto, o Governo odeia o Estado, sobretudo o que se designa por Estado Social. Os reformados são um empecilho, os desempregados são uns calaceiros que apenas pretendem receber subsídios, os cidadãos que auferem o Rendimento Social de Inserção são uns malandros, os que ficam doentes e recorrem aos hospitais ou aos centros de saúde são uns fingidores e as empresas públicas são única e exclusivamente um sorvedouro de dinheiro do Estado. E as que o não são toca a vendê-las rapidamente, e a preço de saldo, antes que os socialistas voltem ao governo e volte tudo à estaca zero.

 

Aos reformados, é bom que venha por aí alguma epidemia que os leve desta para melhor. Os desempregados devem é ir procurar emprego onde o há, lá fora. Os doentes que se curem enquanto trabalham ou morram no seu local de trabalho, como antigamente.

 

Perplexo com este estado de coisas, fui à procura de informação. Tudo o que nos está a acontecer tem de ter uma explicação plausível.

 

Bastou procurar um pouco e descobri um livro que fez alguma luz nestas imensas trevas do neoliberalismo desenfreado que desabou em cima de nós como uma trovoada devastadora, levando tudo à sua frente.

 

Esta candeia em forma de livro é do economista norte-americano Joseph Stiglitz, que ganhou o prémio Nobel pela sua teoria das assimetrias de informação, onde evidencia os efeitos nefastos na sociedade quando alguns indivíduos têm acesso a informação privilegiada e outros não.

 

Em “O Preço da Desigualdade”, Stiglitz afirma que a política formata o mercado, mas que atualmente a política é feita pela elite financeira, e pelos seus homens de mão, que apenas garante os seus interesses.

 

Depois de algumas décadas de neoliberalismo. Estamos agora à mercê de um grupo de cartéis que persuadiram os políticos de aviário da generosidade da desregulação, da inevitabilidade, e da vitalidade, das privatizações, da necessidade da destruição das leis de trabalho e da aposta numa globalização sem limites e sem regras, utilizando o monopólio do poder para apenas aumentar os seus lucros.

 

Daí o rendimento das classes médias ter vindo a diminuir, criando, ainda por cima, um sentimento de insegurança que desconheciam. Bagão Félix fez as contas e apurou que, enquanto o Governo diminui os impostos sobre os lucros, por exemplo, um casal em que cada elemento aufira entre 800 a 1000 euros, paga de taxa marginal de IRS com sobretaxa cerca de 50%. Ou seja, metade do rendimento vai-se em impostos.

 

Joseph Stiglitz refere que a distorção de utilização de fundos públicos é outra das questões pertinentes que interessa analisar. A título de exemplo, recorda que em 2008 foram injetados na companhia de seguros AIG cerca de 150 biliões de dólares de dinheiro público, isto é, dos contribuintes, que é um valor superior ao dinheiro gasto em auxílio aos pobres entre 1990 e 2006. Está claro que ele refere-se aos EUA, o seu país. Mas se pensarmos bem, por cá aconteceu o mesmo em relação ao BPN.

 

Por isso é que diz ser urgente injetar moralidade neste capitalismo financeiro que nos domina com base na globalização, pois os atuais níveis de desigualdade começam a ser intoleráveis. Stiglitz defende um regime de mercado livre, pois só ele pode beneficiar a sociedade, mas diz que necessita de ser regulado pelo Estado e ter a sua supervisão para se manter funcional.

 

No fundo, o livro é um forte contributo para o debate que urge fazer, especialmente em Portugal, onde a austeridade excessiva conduziu a uma destruição da economia interna e ao sufoco da classe média, que é a trave mestra que sustenta a democracia.

 

E para verem como ele tem razão relativamente aos efeitos perversos quando alguns indivíduos têm acesso a informação privilegiada, deixem que vos lembre o caso do advogado, e ex-ministro, José Luís Arnaut.

 

Lá diz Bagão Félix com a argúcia que se lhe reconhece: melhor do que ser ministro é ser ex-ministro. Mas se a isso ainda lhe juntarmos o trabalho com os bancos que trabalham com ministros da nossa cor política, fica a canção completa. Bem cantam os Galandum Galundaina: “Nós deiqui i bós daí, / Sodes tantos cumo nós; / Mataremos um carneiro, / Los cornos son para bós.”

 

Este destacado militante do PSD trabalhou já para o Estado, para as empresas vendidas pelo Estado e para as empresas compradoras das empresas do Estado. Arnaut foi decisivo nas privatizações da EDP, REN, ANA e mais recentemente nos CTT, empresa da qual a Goldman Sachs comprou 5%, tornando-se a maior acionista. Arnaut foi assessor da Goldman Sachs, que, por seu lado, foi responsável pela venda de swaps tóxicos a empresas públicas.

 

Ainda todos nos lembramos do que o governo, o PSD e o CDS disseram das empresas de raiting, das corretoras internacionais e dos bancos com capital especulativo.

 

Apesar disso, o Governo do PSD/CDS contratou a Goldman Sachs para sua assessora na emissão de dívida pública.

 

E, ó coincidência das coincidências, a Goldman Sachs contratou agora Arnaut para um lugar de topo.

 

Por isso é que o Serviço Nacional de Saúde não tem dinheiro para atender os doentes em risco de vida e os despacha de Chaves para Lisboa de ambulância, esperando que a sorte do doente seja o que determina a fronteira entre a vida e a morte. 

 

Portugal está a saque. Os vampiros voltam a atacar pela calada, agora instalados nos gabinetes dos partidos do Governo, nas sedes dos bancos e das seguradoras e das empresas de assessoria onde proliferam os Relvas, os Arnautes e outros que tais. 


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Domingo, 23 de Fevereiro de 2014

Rua Direita - Chaves


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Sábado, 22 de Fevereiro de 2014

Vou andando


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Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

Ao sol


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Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

Poema Infinito (186): o rosto das insónias

 

Eu sou límpido dentro da tua boca e do teu corpo e quando te devoro o olhar e quando te abraço e quando entro unanimemente pela tua carne dentro e expludo como um clarão dentro da tempestade. Nesse momento sou um cometa chamado animal. A minha cabeça fica no seu ritmo de pavor e oscila dentro da sua lenta matéria ordenada. As mãos das mães alumiam todo o espaço e depois tocam a cabeça dos seus filhos com o seu dedo batismal. E choram. E amam. Por isso mantêm todas as coisas que existem no mundo a levitar. Os seus olhos são estrelas duplas que dão força à luz que cose os astros ao céu. Então sinto o tremor do mundo e a argila densa de que sou feito. E os músculos que são sangue e água. E os olhos que são incêndios. E os rostos que são auréolas miraculadas. E vejo portas que dão para outras portas e estas ainda para outras portas. E vejo mãos que se deslocam à velocidade da escrita e que brilham quando tocam o chão ou o teu rosto ou o rosto das mães ou o rosto da terra. Por isso a terra treme e transforma as sementes em árvores e acaricia as sementes e os choques sísmicos. E o ar transforma-se num remoinho de esperança e absorve a água. Então defendo-me da muda invasão das insónias e respiro como os escafandristas e toco os relâmpagos. É por aí que penetra toda a agudeza do mundo, pelo buraco assombroso das imagens, onde o escurecimento começa a brilhar e se transforma em diamante. Todo o sonho é uma alucinação que se deita connosco sem nós sabermos e nos enche de lembranças e transforma os objetos em chamas. Tenho o coração cheio de abismos. Por isso é que estremeço sem me aperceber. Por isso é que escrevo poemas. Por isso é que a gramática arranca toda a música aos meus poemas. Tão aguda é a inocência do mundo. Tão triste é a iluminação densa das palavras. O medo. Sempre o medo. Sempre o medo da melancolia. Sempre o medo de Deus. Sempre os nomes que regressam. Sempre a limpidez. Sempre a ameaça da noite. Sempre a memória das fêmeas que ardem dentro do seu prazer gemido. Sempre o brilho das feridas, sempre as cicatrizes das janelas envelhecidas, sempre as úlceras das máquinas e os braços que se crispam e a voragem do mar e os soluços e a beleza operatória de um coito e o brilho vivo do esperma. Tenho medo dos raios na noite e dos espelhos das casas de banho e da desordem dos átomos e do gotejar múltiplo dos suspiros. Paira sobre o mundo a ameaça da desordem. Abro a porta por onde entram os astros transbordantes. Movo-me olhando as estrelas poderosas. Sou como uma raiz onde se movimenta a loucura, onde a noite tem o seu âmago, no sítio onde as frases falam dentro do fogo da paixão. As estrelas calcinaram tudo. Por isso os pesadelos são tão exatos. Por isso a carne é tão rude. Por isso o timbre da minha voz é tão árduo. Respiro dentro de uma bolha. O pensamento torna-se transparente. A casa treme. Deus arranca as paisagens do chão e escurece-as. Depois aponta o dedo na direção das sombras. A luz acomoda-se nas tuas mãos, como se fosses uma anja. A vida irrompe dentro do seu implacável prodígio. E morre. Do chão levantam-se as lavaredas que consomem a cor das flores. Ensinaram-me a ter medo do poder da nudez. E eu aprendi essa ameaça. E com ela durmo. Nessas noites encontro o pavor que se transforma em música e que são vozes longínquas. Lembro-me então de quando a minha mãe me penteava com feixes de bruma. É assim que atravesso sempre o inverno. É assim que abato as insónias. 


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Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2014

Ao vento


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Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2014

Na conversa


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Segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

Pérolas e diamantes (76): Nós deiqui i bós daí… Num quiero casa caída… Chin glin din

 

Parece que a nova atração flaviense é um furo de captação de água termal, no Tabolado, que até ao momento em que escrevo esta crónica atingiu 186 m dos pretendidos 250.

 

A cidade assiste deslumbrada a este fenómeno, com o efeito singular que faz com que toda a zona envolvente esteja constantemente coberta de uma nuvem de vapor de água, para gáudio dos muitos flavienses curiosos que ali se deslocam para observar no local a raridade da situação.

 

Contente também fiquei eu com a feira do fumeiro, mais conhecida como “Sabores de Chaves”. Não tanto pelo fumeiro em si, pois sei que é muito bom, mas pelo concerto dos Galandum Galundaina, na noite de dia 1 de fevereiro, realizado no pavilhão onde decorreu o certame.

 

Reconheço que eu sou um fã deste excelente grupo musical de Miranda do Douro, que se dedica ao folk português e canta exclusivamente em mirandês. Por isso fui lá vê-los e escutá-los com o mesmo entusiasmo com que os flavienses vão observar a nuvem de vapor no Tabolado.

 

E vim de lá com a barriguinha cheia de boa música e disposição condizente, pois eles aliam a boa música tradicional portuguesa/mirandesa a uns textos populares de se lhes tirar o chapéu. Ora vejam se não é assim como eu vos digo. Por exemplo, da canção “Redondo” deixo-vos aqui a primeira quadra, das quatro que constituem a moda: “Nós deiqui i bós daí, / Sodes tantos cumo nós; / Mataremos um carneiro, / Los cornos son para bós.”

 

Esta música dançava-se a “la moda cantada para ber quales beilában melhor”. E ouvimos, todos os que lá estiveram, que somos boa gente, entre outras modas o “Chin glin din”, “Se tou pai me dera”, “Nun quiero casa caída”, “Procisson, apuis baile”, “La lhoba parda”, “Pur baixo de la punte” ou “Dona Tresa”.

 

E pelo meio do concerto também cantámos e bailámos a acompanhar a boa rapaziada dos G. G.: “Sei cantar i sei beilar / sei tocar la pandeireta / quien quejir beilar cumigo / Traia musica cumpleta.” E nisto incluo o sr. presidente da Câmara que também por lá apareceu e marcou, por vezes, o ritmo com os pés. O que só lhe ficou bem. A ele e a nós, porque não dizê-lo de forma frontal e aberta, que também batemos o pé, as palmas e até cantámos.

 

E depois fomos comprar os enchidos, feitos de forma artesanal, e mesmo ali provámos uma excelente linguiça, comprada “Nos Sabores da Loja”, acompanhada com pão fresco e com o bom vinho da “Quinta de Arcossó”.

 

Outra boa notícia foi a de que nesta edição a aposta recaiu em exclusivo nos produtores de Chaves, ao contrário das edições anteriores.

 

Este ano, a feira contou com 54 expositores: 37 produtores agroalimentares, 17 pessoas dedicadas ao artesanato e mais três pavilhões institucionais. Ao todo, 72 stands ocupados.

 

Havia lá de tudo um pouco: fumeiro, pão quente, folar, pastéis de Chaves, bolos, licores, vinho, compotas, mel, bolachas, batatas, couve penca e ainda bijutaria em couro e cortiça, esculturas em madeira, madeira torneada, sabonetes, pintura, acessórios em feltro, barro preto de Vilar, bordados, croché, linho, arte decorativa e arte mariana, que é feita em arame e pedras de cristal. De tudo o exposto, ou quase tudo, foi esta denominada “arte mariana” a que nos deixou perplexos. Pois não sabemos o que quer significar nem que tipo de artesanato tradicional representa.

 

Também passámos pelas tasquinhas, que não eram tasquinhas, nem coisa que se pareça. Era apenas um barracão enorme, incaracterístico, e com uma estranha divisão territorial, pois, ao que conseguimos apurar, no mesmo espaço serviam dois restaurantes diferentes. Salvou-se a comida, que era tradicional e boa: alheira, linguiça, milhos e palhada.

 

Outra notícia curiosa relaciona-se com uma novidade. Ou melhor, duas. Ou ainda melhor, três, que foi, como todos sabemos, a conta que Deus fez.

 

A primeira novidade é a de que João Batista é o novo presidente da Comissão Política do PSD de Chaves. Quem diria, isto é aquilo que chamámos renovação partidária. Renovação e rejuvenescimento.

 

A segunda é de ordem tecnológica. O município de Chaves criou um “Guia Turístico para dispositivos móveis”.

 

A terceira é a de que o sr. presidente da Câmara é o produtor de conteúdos do citado guia. E isso fomos nós quem o descobriu quando lemos a entrevista que António Cabeleira deu à “Voz de Chaves”. Ora reparem lá na profundidade da resposta, no ritmo das palavras, no desenho das ideias, no encadeamento do texto, na refinada linguagem e na atenta pesquisa histórica.

 

A jornalista colocou a seguinte questão: “Nesta altura do ano, para além da gastronomia, que outros atrativos tem o concelho para oferecer às pessoas que o queiram visitar?”

 

O senhor presidente, tentando talvez adotar o modelo da menina do GPS, respondeu da seguinte forma: “O acolhedor centro histórico e a área de lazer junto ao Tâmega são um convite a um passeio tranquilo.” E depois convida a entrevistadora: “Sem pressa, comece pelo Castelo. No interior das muralhas, passeie pelas Vias Augustas, um conjunto de casas pintadas com cores vivas.” Claro que se esqueceu de avisar que deve, o visitante, usar, para sua proteção, um capacete de obras, não vá cair-lhe na cabeça um pedaço de telha ou outro objeto qualquer que possa desprender-se dos muitos edifícios que por ali estão em ruínas.

 

E prossegue nesta sua toada de guia turístico: “Na ampla praça de Camões poderá observar a igreja Matriz. (…) Continue o percurso em direção ao ex-libris da cidade, a Ponte Romana. (…) É imperdoável despedir-se desta belíssima cidade sem sequer visitar o parque termal.”

 

E no fim da resposta, o sr. presidente, qual guia gastronómico, na sua toada serena e melíflua, convida: “O passeio só fica completo quando provar as delícias e pratos típicos de gastronomia flaviense: o famoso presunto, os pastéis de Chaves, o folar de carne, o cabrito, a vitela, o porco bísaro e outras especialidades.” Brilhante. E já agora pode o senhor presidente convidar também os turistas a deslocar-se ao “Há Brasa”, situado na estrada de Outeiro Seco, onde pode degustar carne de crocodilo, canguru, camelo, zebra, bisonte, angus, etc.

 

Este novo estilo de A. C., um pouco ao jeito do “espírito de Natal”, que aqui podemos denominar de “espírito de feira”, é, para já, uma das melhores surpresas autárquicas de 2014. Por isso, desde aqui lhe enviamos os nossos parabéns.

 

Despeço-me com mais uma estrofe dos G. G.: “Num quiero casa caída / Nien sbarrulhada / Nien casamento sien gusto / Sien gusto nada / Sien gusto nada…”


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Domingo, 16 de Fevereiro de 2014

Jovens sentados


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Sábado, 15 de Fevereiro de 2014

Na conversa


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Sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014

Olhares


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Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

Poema Infinito (185): a vulgaridade divina

 

O vento transforma a realidade e a memória fingida dos poetas. Os corpos inclinam-se na direção do mar. As falésias ficam em silêncio. O mar entra pela janela do horizonte. Os corpos dobram-se evitando os olhares. O olhar cria a memória. O tempo é uma pesada condenação. Os poemas eróticos soam a textos litúrgicos, como se fossem orações sexuais. Os homens e as mulheres rezam enquanto a tempestade desaba sobre os quintais. O padre é agora um poeta místico que apregoa a inspiração divina feita através da excessiva solidão. As mulheres e os homens dizem já não acreditar na razão das palavras. Os livros acumulam-se nas arcas. O seu silêncio devora tudo. Devora o esquecimento, as salas, os vãos das janelas, os rumores, a alegria, o choro murmurado dos objetos, as memórias, as relíquias, as sombras, o crepúsculo, o movimento inútil das palavras que dizem construir o tempo, os navios inacessíveis e o rosto abandonado das figuras mortas. Alguém proclama a desordem curva do tempo, a exigente aventura das palavras, a métrica ocidental da genialidade, a sabedoria lenta da antiguidade, a gramática poética dos presságios, a íntima conformidade do abandono, a perdição frígida dos sonhos, toda a indolência da alma, toda a estranha lógica dos navegadores, o hábito cínico das divindades, os estigmas da lucidez e o contágio exponencial da poesia. Urge voltar a inventar a prática celebração da genealogia, a solidão das cores do arco-íris, a prosódia das imagens, a prepositiva interpretação dos estigmas, a autoridade divina da vulgaridade, os poemas suspensos, os poetas oblíquos, a extensa nomenclatura dos lábios, o desespero enfático das cidades, o elogio dos coitos invertidos e a reversibilidade das metáforas. Os corpos fixam-se na obcecada transcendência do desejo e mostram-se disponíveis para as dúvidas íntimas.  O tempo cansa os corpos e os olhares e transforma as almas e o lirismo subtil dos símbolos. Deus é agora um delírio crepuscular que domina a vontade das metáforas e o nome secreto das injustiças e a inspiração atormentada das formas e o desejo lírico das enumerações e a sábia virtude dos murmúrios. Deus filtra a loucura e persiste na sua ortografia do pecado e da moral. As intuições observam-nos, o crepúsculo incendeia-se, as tardes iluminam-se de profecias e tornam-se obscuras. Procuramos a raiz indómita da loucura, a matemática erótica dos sonhos, o choro das sombras, a memória amarga da sabedoria, a epiderme da música e do choro, os jardins suspensos das cidades afogadas, a voz divina das ruínas, a eternidade mórbida do pecado e da absolvição. As aves influenciam o inverno e voam na direção do desespero. As formas ficam assimétricas pelo desígnio imortal da estética, do misticismo, da tristeza, do estudo das almas em movimento, da descoberta da sombra que produzem as cores e do desenho ausente da realidade. Todos agora procuramos a evidência do mar, a solidão dos horizontes brancos. Todos os versos são uma possibilidade de ordem multiplicada. O mar entra-nos pelo quarto dentro. Recuperamos do esquecimento do corpo, da regulação da obscuridade, do movimento reflexo do coito, da perspetiva interior do abandono e da morte. A harmonia regula o desgosto. A luz foi-nos restituída pela variante musical das manhãs. As imagens transformam-se em energia poética. Por isso os místicos veneram as escritas insólitas. Os poetas andam à chuva. E molham-se de infinito.


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Quarta-feira, 12 de Fevereiro de 2014

Meninos e gaiteiros


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Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

Varandas de Chaves


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Segunda-feira, 10 de Fevereiro de 2014

Pérolas e diamantes (75): o tempo dos desalmados

 

O poeta inglês Coleridge disse que a fé poética é a suspensão da incredulidade. A encenadora Beatriz Batarda, nestes tempos de prosa dura, vai um pouco mais longe ao afirmar que lhe parece que as palavras já não chegam para definir, ou enquadrar, tudo o que estamos a viver.

 

Parece que a “Corte” (o governo, o presidente e o parlamento) existe para unicamente servir o poder e não os cidadãos. Beatriz Batarda exprimiu, e eu subscrevo por inteiro, “que a nossa sanidade está em risco”.

 

Entretanto os portugueses continuam indecisos entre se devem ser, ou não, ativos na delineação do seu caminho, e do caminho do país, insistindo numa posição demissionária e afastada, responsabilizando sempre os governantes e desconsiderando o poder individual que possuem. 

 

Claro que nem eu nem o estimado leitor sabemos bem qual o caminho que esta rapaziada do governo nos propõe ao sujeitarem-nos a tanto sofrimento, mas já sentimos bem toda esta ausência de orientação, todo este vazio de ideais, todo este silêncio da pobreza que está a vir ao de cima como uma enxurrada. 

 

A verdade na política, tal como na vida, pode até não existir, mas necessitamos de acreditar que existe e que é possível encontrá-la.

 

Eu sou daqueles que não subestima a capacidade dos outros nos entenderem da forma que somos: tendenciosos, irados, emotivos, entusiastas, racionais, irónicos e persistentes.

 

Mas a realidade não nos faz favores. Afinal quem é o culpado de todo o silêncio que se ouve nas nossas aldeias, interrompido por vezes pelo sino das igrejas a tocar, ou pelo ladrar de um cão, também ele já velho e rouco, ou pelo suspiro cansado dos idosos que se aquecem nas nesgas de sol das ruelas estreitas?

 

E ali estão eles tristes, resistindo e olhando para a beleza bravia das giestas, das urzes, dos tojos e das carquejas, cobertos ainda por algum orgulho de terem a mesma idade das árvores velhas que lhes deram os frutos e a lenha com que alimentaram e aqueceram os filhos.

 

As velhas tascas rurais são agora pequenos snacks com mesas de fórmica onde se bebe cerveja e se vê televisão.

 

As casas foram abandonadas e as ervas crescem entre as ruínas. As capelas estão fechadas e por ali apenas mora a solidão. São aldeias fantasmas onde muito de vez em quando, como um raio de sol no inverno, se vê uma criança a correr atravessando a rua. Um pouco mais à frente vislumbram-se mais alguns velhos que riem para fora e choram para dentro.

 

Quando falam nota-se-lhes uma enorme resignação nas palavras. Ali não se passa nada. Apenas, por vezes, as manhãs são claras. Ali tudo possui a indiferença e a lentidão da morte. Tudo ficou de repente demasiado velho, demasiado triste. As sombras tomaram conta das nossas aldeias, do nosso território, das nossas vidas.

 

Por ali a voz humana já não tem lugar, já não faz sentido. Ali murmura-se. Ali já não há namorados, nem corpos sadios que se possam amar e reproduzir.

 

Nas cidades, cujo paradigma é Lisboa, foram as pessoas menos responsáveis, mais egoístas e gananciosas, as que atingiram o poder e agora sobem na sua improvisada carreira.

 

E continuamos com os jeitinhos, rejeitando as soluções duradouras, não querendo ver que as questões atuais são tipicamente universais. Tanto na província, como na capital, os políticos continuam a insistir em procurar soluções de curto prazo.

 

E chegamos ao cúmulo de “socializar” as perdas do setor financeiro, enquanto se “privatizam” os lucros do Estado.

 

As nossas “elites” políticas são as mais medíocres de sempre, pois limitam-se a dar lições sem dar o exemplo.

 

Ensinaram-nos a dizer que nós não somos a Grécia. Aos espanhóis ensinaram-lhes a dizer: nós não somos como os portugueses. Os italianos aprenderam a dizer: nós não somos espanhóis. Por isso é que os “senhores financeiros” que mandam realmente no mundo sorriem imenso. Por vezes até às lágrimas, para pensarmos que estão comovidos com a nossa situação.

 

Essa é a razão pela qual o discurso político é uma mentira premeditada, uma evasão semântica, uma ambiguidade vulgar e anacrónica. O nosso governo exerce um poder informe, esquivando-se à realidade do sofrimento e da desgraça, falando por meias palavras, mas caraterizando-se por obedecer cegamente aos ditames da Alemanha e dos seus correligionários.

 

Uma coisa é certa e sabida, esta rapaziada que tem agora os destinos de Portugal nas suas mãos, desconhece quem somos, o que somos, abomina a nossa identidade e tem vergonha da nossa cultura.

 

Por isso é que desinveste na saúde e na educação, persegue a investigação e os investigadores portugueses e maltrata a cultura.

 

Porque sabe que a educação e a cultura são os espaços nobres onde se multiplicam os princípios e os direitos humanos e também o ideal democrático. 

 

Estes nossos governantes, quer autárquicos, quer nacionais, simplesmente não possuem ética, não têm convicções, nem responsabilidade. Limitam-se a querer o poder pelo poder. Estão incrustados nos órgãos de decisão e vivem num regime de sucessão eterna, quase dinástico, opressivo mesmo.

 

Estes políticos não têm honra nem dignidade. Não têm orgulho.  Não são homens de Estado. São, quando muito, como diz o fundador do PSD, Miguel Veiga, “políticos de aviário”.

 

De facto, “vivemos tempos desalmados”. 


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Domingo, 9 de Fevereiro de 2014

Na feira


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Sábado, 8 de Fevereiro de 2014

Na feira


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Quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2014

Na feira - Observando


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Quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

Poema Infinito (184): o desassossego da criação

 

Sinto agora o frio sossego da neve pisada por mim e o silêncio que cai como as folhas. Sou um homem exposto. Sou como um rio que se afoga nas suas próprias águas. A tua boca é uma rosa molhada pela chuva que o vento desprezou. O esquecimento e o abandono doem-nos. O sono corrompe os beijos. Fico de olhos parados observando um pianista entrar num velho bar logo pela manhã. E depois sair para a rua e passear nos jardins e falar com os pássaros e olhar as flores que sorriem dentro da sua perfeição. Sei que o céu está lá em cima porque sinto o seu azul perfeito. As pessoas riem-se dos namorados e os namorados riem-se das suas ilusões e das desilusões das pessoas que já gastaram as suas ilusões a desiludirem-se. As árvores descansam nas horas apagadas da tarde. É bom sentir ainda o segredo das coisas vivas e ignorar os caminhos concluídos. Os homens esquecem-se da vida e giram os braços e reparam em tudo à sua volta. Foi neste lugar que nasceu a inocência. É bom lembrar viagens que a gente gostaria de fazer e os amigos que se aproximam das nossas conversas. Os teus olhos estão cheios de riquezas íntimas e de emoções imaginadas. É bom pensarmos na alegria dos livros e nas horas passadas a lê-los. É bom pensar nos poetas com cara de anjos e nos anjos com cara de poetas e na sua admiração feliz e na sua ternura no momento da criação. É bom vê-los suspirar de alívio ao lembrarem-se que os olhos dos amantes são perfeitos e que por isso falam verdade. É bom esquecermo-nos do destino e da vontade irreprimível de escrever para contar tudo aquilo que a gente ainda não assinalou. Já não sei se é bom ter a saudade escondida no coração. O tempo agora está diferente e isso provoca-nos uma estranha impressão de atordoamento, como quando a dor consegue fugir das feridas. Quando fechamos os olhos conseguimos ver o tempo a ter tempo de abrir um buraco para a infância e outro para muito mais além. O vento liberta-se e fica com vontade de chorar. A Eva voltou a sentar-se no barro. E o Adão acompanhou-a. Ambos têm os olhos vazios. Ele não reparou nela, só lhe disse que era infeliz como todos os outros homens. Depois calou-se. E ali ficaram a escutar a noite e o campo e as árvores velhas e a música do silêncio. Desde o pecado original que carregam, como mendigos, as suas bocas mortais e os seus sexos pecaminosos. E o Diabo provoca-lhes sede e dá-lhes insónias em forma de comprimidos anticoncecionais. E carrega-os de pesadelos inférteis. Os seus cabelos negros ficam brilhantes. Falam pouco. Recordam-se do frio de Deus e das cicatrizes nos corpos macerados dos mártires. E de beberem água e de se banharem vestidos com as suas peles de serpente. E lembram-se também dos crepúsculos que ficam sempre cinzentos e dos seus desejos serem enfiados dentro da Arca da Aliança e de não precisarem da verdade para nada e de prometerem, por causa disso, honrar o nome do Senhor. E recordam-se de sentirem o vento trazer-lhes as palavras constrangidas da salvação. Adão e Eva são agora prisioneiros da sua solidão de amor e de pecado. Andam sempre a fugir dela e a ela regressar. E confessam ao seu Senhor que a sua vida é amarga e que continuam a sonhar com o paraíso de onde foram expulsos. Eles dizem amar o ideal que não conseguiram cumprir e por isso pedem a Deus que os vista de nuvens, ou que os transforme em peixes ou que lhes dê asas de avião. Lamentam-se de serem apenas sombras da tarde e de pensarem coisas leves e estúpidas. Deus, como sempre, apenas lhes responde, bastante constrangido, com palavras misteriosas. 


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Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014

Na feira


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Segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2014

Pérolas e diamantes (74): cavalos não identificados, segredos das grandes mentes e incumprimentos camarários

 

Afinal o cavalo que provocou, no dia de Natal, o trágico acidente de Évora, do qual resultaram quatro mortos e quatro feridos graves, não estava registado em Portugal. As autoridades nacionais já vieram esclarecer que têm o número do chip (identificador eletrónico) do equídeo e que ele não corresponde a Portugal. Ou seja, o cavalo não foi adquirido nem nasceu em terras lusitanas.  

 

Estou em crer que muito provavelmente o fatídico corcel foi o que participou no filme de Béla Tarr, “O Cavalo de Turim”, que se terá esgueirado da película da mesma forma que o “Exterminador Implacável”, viajando do futuro para o passado para eliminar a raça humana.

 

Rogério Copeto, o oficial de relações públicas da GNR de Évora, que está a compilar os dados relativos aos acidentes provocados por animais no ano passado, só na área de intervenção desta força de segurança, disse que, até outubro de 2013, aconteceram 1700 acidentes no país, com animais. E que destes, cerca de 50 envolveram cavalos. Mas o estranho é que apenas este não tem registo em Portugal.

 

O cão é o animal que mais acidentes provoca, mas normalmente os danos são apenas materiais, “enquanto que a colisão com um cavalo”, esclareceu o oficial Copeto, “é mais grave, devido ao porte”.

 

Mas estou em crer que não era bem disto que hoje vos queria falar. A minha intenção era partilhar convosco alguns dos segredos das grandes mentes, que fui buscar ao novo livro de Mason Currey, “Daily Rituals: How Great Minds Make Time, Find Inspiration, and Get to Work”.

 

O compositor e pianista Erik Satie, por exemplo, caminhava mais de 20 quilómetros por dia para ir e voltar de Paris e, pelo caminho, ia compondo música. Beethoven, por seu lado, levantava-se ao nascer do Sol, tomava café e a seguir trabalhava. Depois almoçava algo ligeiro e passeava durante toda a tarde. Ao início da noite jantava fora e ia ao teatro. Por volta das dez da noite, o mais tardar, ia para a cama. Pois sabia que deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer.

 

Por falar em crescer, foi ao ler a capa do jornal “Negócios” que me deparei, não com um cavalo surgido do nada, mas antes com uma notícia que me pôs à beira de um ataque de nervos. Não pela surpresa, mas antes pela confirmação de um roubo deliberado por parte do governo do PSD/CDS. Fiquei a saber que por ser funcionário público, por ano, Pedro Passos Coelho e o Paulinho das Feiras, me extorquem quatro salários. E que mesmo assim, a dívida pública vai subir cerca de 10 pontos percentuais, ultrapassando os 136% do PIB.

 

Se calhar é melhor voltarmos aos génios. Mozart, por volta dos seus 20 anos, era penteado às seis da manhã, vestido às sete e começava a compor às nove. Até à uma da tarde ainda arranjava tempo para dar lições de música. A seguir almoçava. À tarde ou dava concertos ou continuava a compor até às vinte e uma. Depois visitava a sua amada Stanze. Por volta das onze da noite regressava a casa. Compunha mais alguma coisa e ia para a cama por volta da uma da madrugada. Dormia apenas cinco horas e lá voltava ele ao seu penteado, etc. E seguia esta rotina religiosamente.

 

Por falar em religião, D. Januário Torgal Ferreira, em entrevista ao jornal i, disse que “os católicos deste governo não deviam comungar”, pois possuem “problemas de consciência gravíssimos. Gravíssimos.”

 

Por falar em rotina, o ex-bispo das Forças Armadas lembrou que os nossos atuais governantes estão rotinados, e até viciados, na perseguição aos mais idosos, aos funcionários públicos e aos pensionistas.

 

Mas voltemos às rotinas das grandes mentes. Mahler e Benjamim Britten também se fartavam de caminhar. Kierkegaard muitas vezes chegava a casa e começava logo a tomar notas ainda antes de tirar o casaco e o chapéu. Hemingway e Virginia Woolf escreviam de pé. Proust dormia todo o dia e escrevia toda a noite deitado apenas apoiado sobre um cotovelo. Já Nabokov começou por escrever de pé, depois progrediu para a posição sentada e, por fim, como o alentejano da anedota, resolveu experimentar deitado.

 

Descartes gostava de trabalhar deitado e detestava levantar-se cedo. Contra a sua vontade, aceitou a tarefa de ensinar filosofia à rainha Cristina, da Suécia. Para isso, recebeu ordens para começar as suas lições às cinco da manhã. No espaço de algumas semanas estava morto, vítima de pneumonia.

 

Definhada, e à beira da falência, também está a Câmara de Chaves. D. Januário Torgal Ferreira, na citada entrevista, afirmou que “as pessoas que têm vocação política têm de ter também uma vocação de competência”. O que, pelas provas dadas, não é manifestamente o caso dos autarcas do PSD que têm gerido os destinos da nossa autarquia.

 

De facto, a Câmara de Chaves vai receber menos 2,8 milhões de euros do FEF devido ao incumprimento dos limites de endividamento municipal. O despacho por incumprimento foi publicado em Diário da República. A nível nacional foram apenas oito as Câmaras incumpridoras. O que diz bem da competência técnica e política desta gente que teima em nos desgovernar.

 

Questionado sobre esta desautorização, e por este corte nas finanças da autarquia, António Cabeleira teve a desfaçatez de desvalorizar esta situação argumentando que não é grave, “pois como o dinheiro é retido e não retirado, o plano de pagamento das faturas em dívida passa a ser pago pela Direção Geral de Impostos e não pela Câmara de Chaves, como até aqui”.

 

Ou seja, o Estado Central, por causa do incumprimento da Câmara, vai passar a ser ele a pagar aos legítimos credores da nossa autarquia, para que o dinheiro transferido não seja gasto em propaganda política em vez de ser utilizado para honrar os compromissos assumidos por obras já realizadas e não pagas.

 

António Cabeleira, em vez de reconhecer que a gestão camarária do PSD local é incompetente e contraditória com os interesses dos flavienses, resolveu vir para os jornais afirmar que esta decisão do seu governo é “injusta”, argumentado que quem tem culpa é a legislação aprovada em novembro de 2011.

 

Na sua perspetiva a culpa é da lei e não dos incumpridores. É preciso ter lata. De facto, e estendendo o argumento de D. Januário, os católicos desta Câmara não deviam comungar, pois os seus problemas de consciência são gravíssimos. Gravíssimos.

 

Mas voltando às mentes brilhantes, sabiam que Balzac bebia 50 chávenas de café por dia e que… Bem vistas as coisas, a quem é que isso interessa?


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Domingo, 2 de Fevereiro de 2014

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Sábado, 1 de Fevereiro de 2014

Fonte termal - Vidago Palace


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