Segunda-feira, 31 de Março de 2014

Pérolas e diamantes (82): em defesa do Manifesto dos 70

 

Os acontecimentos e os comentários dos últimos dias sobre o Manifesto dos 70 – que é uma reflexão elaborada por um grupo de cidadãos a propósito de questões de importância fundamental para a vida dos portugueses, tanto no curto como no longo prazo – são muito esclarecedoras sobre o estado da nossa sociedade e dos seus atuais líderes.

 

Muito se fala da sociedade civil, mas todos sabemos que mesmo sendo um dos conceitos mais propalados por quem gosta de se pronunciar em nome dos outros, é, ao mesmo tempo, uma das conceções mais obscuras e indeterminadas da nova teoria política.

 

No entanto ela existe, a tal sociedade civil. Ou melhor, até existem duas, para mal dos nossos pecados. Uma que serve de apoio, e de argumento, ao Governo e uma outra que quando se manifesta é de imediato menorizada ou diabolizada.

 

A reação ao Manifesto dos 70 é disso exemplo paradigmático. O Governo e os partidos que o apoiam não se cansam de apelar à iniciativa da dita sociedade civil para se unir e intervir no sentido de apontar um caminho para sairmos da crise, passando por cima das diferenças ideológicas e partidárias.

 

70 personalidades, entre elas Adriano Moreira, Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite, Carvalho da Silva, Vítor Martins, Sevinate Pinto, António Saraiva, Vieira Lopes, João Cravinho, Teresa Beleza e Francisco Louçã, resolveram subscrever um documento onde se defende a restruturação da dívida portuguesa.

 

Bastou isso para que os defensores do Governo, e da austeridade a todo o custo, viessem para os jornais, as rádios e as televisões afirmar que o Manifesto é, no mínimo, inoportuno.

 

Ou seja, a primeira resposta dos nossos governantes, e dos seus correligionários, à tomada de posição da denominada sociedade civil foi negar a evidência, defendendo que a proposta é inoportuna por ainda ser cedo demais para abordar tão sensível questão.

 

Fácil é deduzir que se o documento saísse mais lá para diante argumentariam que seria despropositado por ser tarde demais para falar disso. Isto é, na sua perspetiva, o debate sobre a reestruturação da dívida é ainda extemporâneo e mais tarde será inútil.

 

Mas como viram que os argumentos não pegaram na opinião pública, resolveram recorrer às armas do costume, o insulto, a desqualificação e, o que é ainda mais grave, a deturpação do que lá vem escrito.

 

O apelo à participação da sociedade civil, por parte dos nossos dirigentes, no sentido de se construírem soluções de interesse coletivo, afinal não passa de uma atitude hipócrita que não consegue esconder a sua falta de cultura de cidadania e revelar a ausência do verdadeiro espírito democrático.

 

Por isso é que tentaram diabolizar este contributo para modificar, ou melhorar, as decisões dos responsáveis políticos, tentando dissuadir, de uma vez por todas, o genuíno debate de ideias, empobrecendo de forma irredutível a nossa democracia, que eles não honram nem apoiam.

 

Os neoliberais do costume, devotos confessos da senhora Merkel e dos mercados especuladores e agiotas, vendo que a sua tese da inevitabilidade do empobrecimento foi posta em causa de maneira séria e sustentada em fortes argumentos, desnortearam-se, desunharam-se e atiraram-se aos subscritores do Manifesto apelidando-os de defensores da dívida eterna.

 

Mas a verdade é que em nenhum ponto do documento se fala que não podemos pagar o que devemos e muito menos se sugere um perdão da dívida.  

 

Para que conste, o que lá vem escrito é que temos de saldar a dívida até ao último cêntimo, que temos de cumprir os compromissos assumidos com os nossos credores, só que em melhores condições do que aquelas que atualmente existem.

 

Isto é, com juros mais favoráveis e com maturidades mais longas, para que seja possível compatibilizar o crescimento económico e a criação de emprego com o cumprimento das nossas obrigações.

 

Até porque todos já percebemos uma coisa: estes níveis de austeridade estrangulam a economia e não a deixam crescer. E sem crescimento económico não há emprego para as pessoas. E sem emprego não há dinheiro para as famílias. E sem pessoas que produzam não existe dinheiro para honrar os nossos compromissos.

 

Está claro que estas verdades incomodaram tanto Passos Coelho como Cavaco Silva. Até mais o primeiro-ministro que o estático e seráfico presidente da República.

 

Exasperado, o chefe do Governo, segundo o insuspeito Expresso, “forçou” mesmo a demissão de dois assessores de Cavaco que se atreveram a assinar o Manifesto. Isto em apenas 24 horas.

 

Tanta coragem não revelou o senhor presidente da República com outros consultores que participaram em iniciativas políticas. E por causas bem mais gravosas. Basta lembrar que tem na sua Casa Civil gente que inventou falsas notícias contra o anterior governo, que participou em iniciativas do PSD e até em lutas internas do mesmo partido.

 

Estou em crer que perante a posição pública do primeiro-ministro, em muitas das cabeças dos subscritores do Manifesto dos 70 surgiram estas palavras de Diderot: “Se pouco me estais grato pelo que vos digo, muito me agradecei o que vos não digo.”

 

PS - Foram 70 as personalidades de várias franjas políticas e sociais portuguesas que subscreveram o manifesto em defesa da reestruturação da dívida pública do país. E logo depois, 70 economistas estrangeiros, muitos com cargos de relevo a nível internacional, expressaram o seu apoio ao documento que tanta celeuma gerou entre os servos do costume.

 

As suas palavras foram simples e claras: “Apoiamos os esforços dos que em Portugal propõem a reestruturação da dívida, no sentido de se obterem menores taxas de juro e prazos mais amplos”.


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Domingo, 30 de Março de 2014

Padres na procissão


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Sábado, 29 de Março de 2014

Músicos na procissão II


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Sexta-feira, 28 de Março de 2014

Na procissão


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Quinta-feira, 27 de Março de 2014

Poema Infinito (191): tudo e nada

 

Os homens trocam brevemente de cabeça enquanto as estações mudam de sítio. Os sonhos dão a volta à terra. O mundo continua a ser uma bola de cristal cheia de segredos. Sobre ele estende-se um manto de palavras. O teu nome é o nome do mundo. Os nomes são frágeis. Alguém os escreve sobre uma mesa redonda e chora. Sobre o peito dos criadores dorme o mapa do desalento. As paisagens são bravas e o tempo é descontínuo. O vento varre os campos. Cegamos quando vemos tudo. O céu está imóvel. Os corpos vacilam. O amanhecer do mundo é uma visão densa. Deus levanta os olhos lá do alto do seu domínio e contempla o ciclo furioso das águas. O mundo é uma câmara escura onde o tempo é incessante. Nos teus olhos a luz torna-se circular e dança e agita-se com medo de morrer. Essa luz é ao mesmo tempo júbilo e tristeza. As vozes aparecem antes dos rostos e percorrem todo o espaço do medo. O tempo flutua. A visão dos gestos é agora lenta. A esta hora os poemas só encontram sombras. Sinto o tempo a sussurrar-me a sua impaciência mortífera. Os seus braços ficam luminosos e tentam abraçar-me. Dos montes sopra a melancolia. Feixes de emoções percorrem-me a memória. Tudo se dissolve no ar e flutua. O tempo fica mais apertado. Os olhos procuram os sinais da origem, os gestos de Deus no início do universo, mas só veem sombras estelares. Estou no interior da casa. O seu silêncio vibra. O tempo trabalha a matéria e o vazio e depois desliza pelos símbolos escuros. O tempo aumenta. O tempo é luz. O tempo queima. A velocidade da luz chega primeiro que a própria luz. O tempo constrói os seus próprios labirintos. A morte é a imperfeição absoluta porque absorve todo o tempo. As mãos de Deus também chegam tarde e tocam todas as coisas que já desapareceram. Os sedimentos da memória caem como finas partículas atómicas e depositam em nós o brilho denso da poalha. O tempo alimenta-se de coisas perdidas e de pequenos destroços dos rostos e dos sonhos perdidos e dos nomes dos lugares e do desaparecimento. O tempo por vezes é um eixo imóvel de desespero. O tempo devora os povos e as paisagens e as horas. Estranho a velocidade da noite e o movimento das estrelas falsas e penso no bosão de Higgs. A matéria nasceu dos golpes violentos do nada quando a realidade era uma devastação cega. A matéria apareceu de repente à velocidade das imagens excitadas. Foi quando Deus fechou os olhos porque viu toda a matéria a ferver. Deus ficou irado e criou o tempo e as erosões e os tumultos e o desaparecimento e os milénios e a ausência e a sorte e a imensa fluência do universo e os buracos negros e os ruídos do Big Bang e a solidão infinita do céu e a gravitação da matéria e o vácuo e as palavras frias e as explosões de loucura e o silêncio dos astros e toda a matemática da desordem e toda a violência das radiações e toda a desordem do universo e os labirintos temporais e a luz intensa da mágoa e a turbulência dos quantas e a solidão das estrelas. Então o espaço aumentou e a luz aumentou e o tempo também aumentou. E Deus nada fez. Alguém por Ele nos criou. Então as águas começaram a agitar-se, a luz começou a mexer-se e o dia chegou à velocidade das formas e da vontade. Daí a nossa intensidade mortal, daí as palavras que movem o pensamento, daí a equação alucinada da vida. Daí a aceleração dos corpos e a cega experiência da memória. Daí nós. E vós. E eles. Daí o tudo. Daí o nada. 


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Quarta-feira, 26 de Março de 2014

Músicos na procissão


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Terça-feira, 25 de Março de 2014

A ver passar a procissão


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Segunda-feira, 24 de Março de 2014

Pérolas e diamantes (81): o triunfo dos interesses

 

Em Portugal os interesses triunfam sempre. É uma mancha que nos acompanha desde sempre.

 

A crise porque passamos veio por a nu uma outra triste realidade social: é difícil criarmos uma classe média robusta, é difícil garantirmos uma ascensão social um pouco mais generalizada, como deveria ser em democracia.

 

Em Portugal faltam elites, por isso é lógico que se criem. Mas é na mediania que temos de subir de nível.

 

A mudança tem de ser, desculpem o chavão, qualitativa, ou não será mudança nenhuma. Temos de ser mais competitivos, mas produtivos, gostar mais da qualidade, exigi-la no que fazemos e recebemos. E ter mais cultura. O caminho é por aí.

 

Prova de que os interesses triunfam sempre é o facto de a Justiça ter deixado prescrever a multa de um milhão de euros a Jardim Gonçalves, o ex-presidente do BCP, a que foi condenado no âmbito de um processo do Banco de Portugal. Um juiz do Tribunal de Pequena Instância Criminal fez as contas e chegou à conclusão de que as nove contraordenações, bem como a citada multa, tinham prescrevido em março de 2013.

 

Prescrita está também a seriedade, e a palavra, do primeiro-ministro, que desde 2011 afirma que os cortes salariais e pensões e os aumentos de impostos são provisórios. Durante os últimos anos, Passos Coelho vendeu esta versão aos portugueses e, o que é ainda mais grave e sério, ao Tribunal Constitucional, para este não poder declarar inconstitucionais os cortes sistemáticos que fez. E continua a fazer.

 

Declarou-o sempre que foi questionado. Os cortes eram provisórios. E temporários. E excecionais. E apenas tinham um horizonte: o final do programa da troika.

 

Ora agora, o primeiro-ministro foi ainda mais claro: os salários e as pensões não voltam aos níveis de 2011. Isso é que era bom. Embora, diga o senhor, os cortes na função pública sejam temporários.

 

Todos nós sabemos como se apelidam, na nossa terra, as pessoas que durante vários anos dizem uma coisa e depois fazem outra.

 

A juntar às suas palavras, convém lembrar alguns números, do enorme drama social porque estamos a passar. Mais de 500 000 portugueses têm os salários penhorados por dívidas fiscais em 2013, num universo de cerca de 5 000 000 de trabalhadores por conta de outrem.

 

O que agora sabemos, e o primeiro-ministro não disse, é que a sua agenda política era outra, a que estava guardada a sete chaves na gaveta da sua secretária.

 

O que sempre quis, e quer, e com toda a determinação, é transformar Portugal num país de baixos salários. Lembram-se da sua aposta nas exportações? Ora a sua fórmula para o conseguir baseia-se numa economia interna irrelevante para que as pessoas ganhem 500 euros, paguem uma enormidade de impostos, e dessa forma sobejem alguns produtos para exportação.

 

Mas o mais grave é que o modelo nem é genuíno, é antes um ditame da EU e do FMI. Passos Coelho é apenas o “verdadeiro presidente da junta”, como caricaturava Herman José. O primeiro-ministro limita-se a ser o mensageiro desta política de destruição das regras básicas da democracia.

 

A sua estratégia está agora à vista de todos e passa pelo desmantelamento sucessivo e irrevogável do Estado Social, criando insegurança nos cidadãos para que deixem de lutar pelos seus direitos.

 

A alternativa será, para a grande maioria dos portugueses que decidirem por cá ficar, optar entre um emprego mal remunerado ou o desemprego. Passos Coelho não lhes deixa outra alternativa.

 

Por isso é que cresce entre nós a indignação, a impotência e o desespero. E, caros leitores, atualmente já não podemos falar de irresponsabilidade governativa. Isto está no limiar da perversidade, onde apenas são visíveis os piores interesses do grupo, ou grupos, que nos governam, onde só contam os interesses da parte do aparelho partidário que dizem representar.

 

Agora os portugueses sabem que estão a viver na pele de Sísifo, levando a pedra pela encosta acima e ela, mesmo antes de chegar ao cume do monte, cai sempre e rebola encosta abaixo.

 

O primeiro-ministro de Portugal é apenas o político da irrelevância e da irresponsabilidade social e económica.

 

O manancial de esperança que vendeu aos portugueses afinal não passou de uma pechincha de feirante. Depois do produto adquirido chegámos a conclusão que era uma contrafação ordinária.

 

Vemos na televisão alguns dos portugueses ricos queixar-se que andam deprimidos. Coitados. O que eles ainda não repararam é que os pobres estão desesperados.

 

Para o governo entrou muita gente. E por variadíssimas razões. O que agora sabemos é que nenhuma delas foi governar.

 

Uma virtude teve esta crise de regime: mostrar que os partidos foram conquistados por dentro pelos seus aparelhos. Depois da conquista, fecharam-se em si próprios e transformaram-se em grupos de poder e com poder.

 

Pacheco Pereira já tinha avisado, e olhem que ele sabe do que fala: “A crise de lugares, empregos, salários, benesses tornará a competição dentro dos partidos cada vez mais dura, visto que os partidos serão uma das saídas rápidas para aceder a um lugar remunerado, para que menos qualificações se exigem.”

 

Mas o “bom” povo continua a indignar-se nos cafés e a comentar a quem o quer ouvir: isto só lá vai com uma revolta popular. Só que depois votam sempre nos mesmos.

 

Enquanto assim for, os interesses triunfarão indefinidamente. 


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Domingo, 23 de Março de 2014

Na ponte


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Sábado, 22 de Março de 2014

No carnaval


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Sexta-feira, 21 de Março de 2014

Contando os pontos


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Quinta-feira, 20 de Março de 2014

Poema Infinito (190): tenho-te sobre o coração

 

Amanheço livre como um deus e o teu corpo abre-se como se fosse um barco. Tudo se quer a seu tempo. Nem antes, nem depois. A terra invade os nossos corações com todo o vagar. Sobre o céu avançam os cisnes. O estio começou a caminhar cedo. Os teus olhos são uma renovada promessa de água. Ao longe ouve-se o interior da terra a ferver. A voz inamovível do sangue sob os umbrais acorda os corpos que são pó. A memória transfere-se para outro sítio. A terra é agora luz. O mar mudou com o outono. Pecamos com as mãos que pousam sobre o feno. A noite desce pelas árvores e pelos caminhos. E pelas casas. Convocamos o fogo e a respiração que arde. Convocamos a fixação dos olhos que são fogo. E o vagar do verde. E a caligrafia das folhas e o reino oblíquo do desejo e todos os corpos que se abrem às aves. Convocamos ainda o repouso do mar e o rigor de todas as casas e o sopro da origem e o modo elementar do fogo. A memória é exígua e o solo está árduo como o centeio. O amor é como uma febre. Dá-se a transumância dos nomes. Os sinais de fogo crescem com o crepúsculo. Abrem-se as flores à criação do mundo. O solo é uma carta de sinais. As espigas são como espadas. O tempo avança. Manadas de cavalos cavalgam dentro do esquecimento e fecundam-se. É este o ciclo das mutações onde os textos rompem a alegria da infância e impõem uma nova idade cega. A outra morada é uma diferente germinação onde moram novos corpos e onde o fogo permanece como origem. A boca toma posse do corpo e prova-o e determina-lhe a idade. De novo os olhos estão repletos de luz e prontos a viver e pousam sobre a terra e sobre os frutos e fazem da madrugada um lugar aberto à paixão. O silêncio apela ao delírio. Muito pôde a noite quando as aves e as ondas cresciam sobre a praia e sobre o vento. A terra é a evidência dos sorrisos. Ainda nos sangram os lábios de inocência. O corpo é terra livre. Voamos na direção das aves. O tempo invoca as colheitas e a idade das mãos de quem as faz. Sobre a erva fresca descansam os corpos cansados. As bocas têm desenhos de alegria. Nas casas as arcas rejubilam com a promessa das colheitas. O meu rio íntimo és tu, onde gosto de despertar. Aí as aves são ternas e o leito ondula com a ternura das margens. Abril é uma evidência de criação que regressa sempre. É com ele que volto ao meu tempo de paz, que regresso ao silêncio da casa, ao desprendimento do vento, ao amor conjugado da terra e do fogo. O mal é um monólogo frio, uma abreviatura divina, o tempo quando adoece. O dia fica inundado de trevas e cede ao sismo das águas e à voragem da escuridão. A liberdade ainda cresce dentro dos homens, apesar de a desfolharem como se fosse um teorema. A liberdade ainda é uma fragância que aprende a paz e nos tempera a certeza. Por vezes o mar muda de sítio e os navios acenam com os seus mastros de fogo. Cânticos heroicos espalham-se pelas ondas. Alguém sugere um duelo de sóis. Os olhos ficam com o sentido da terra e refletem os vestígios da criação. Enfio-te no dedo um anel de fogo. As águas repousam. A origem permanece precisamente aí, entre os teus seios, no limite sedoso do teu sexo, onde habitam os sinais de fogo, onde os corpos evidenciam o seu proveito, onde a boca se transforma em fruto, onde o silêncio delira, onde o tempo sabe a madrugada e o mar cresce com a sua proposta de infinito. Tenho-te sobre o coração, nesse repouso de água tépida. Vou na direção das aves com a boca cheia de palavras inocentes. Sinto ainda com mais força a tua ondulação. Os teus braços são as margens doces e serenas do meu rio íntimo. Sinto a duplicação. Tenho-te sobre o coração. 


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Quarta-feira, 19 de Março de 2014

Na procissão


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Terça-feira, 18 de Março de 2014

De bicicleta na ponte


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Segunda-feira, 17 de Março de 2014

Pérolas e diamantes (80): pormenores

 

Flaubert dizia que tudo está no pormenor. Por isso lhe dava muita importância. Muitas vezes os escritores captam coisas que as outras pessoas não valorizam, jogando com vários aspetos da realidade que passam despercebidos à generalidade dos indivíduos.

 

Eu só me apercebi desse fator quando ouvi alguém do Governo, na tentativa saloia de isolar os números do nosso invisível crescimento económico, afirmar que em Portugal existem duas realidades contraditórias: o país, que melhora, e as pessoas, que empobrecem a olhos vistos.

 

Ou seja, nesta perspetiva milagrosa, apesar dos portugueses estarem a viver pior, o país está melhor.

 

Este é o “pormenor milagroso”.

 

Na nossa cidade o “pormenor milagroso” também sobreveio. Apesar de uma dívida autárquica imensa, apesar de se ter enterrado e desbaratado dinheiro a rodos, a cidade parece, ao que dizem os nossos autarcas, que está melhor, mas as pessoas estão a viver pior, algumas muito pior mesmo. 

 

Parece que, na perspetiva de quem nos governa, estamos naquela experiência mística de atingir o nirvana. E lá continuamos a viver, experimentando a dor física, os prazeres físicos, a saudade, a alegria, a tristeza, mas de uma maneira diferente porque, agora sim, sabemos o que é atingir esse nível supremo de bem-estar espiritual.

 

E assim esperamos durar, tristemente privilegiados pelo tempo que nos toca viver. Tudo isto é muito shakespeariano.

 

É como se fossemos aquele homem que está a observar uma festa de forma a pensar noutra coisa no meio da festa. Talvez numa festa de comédia ou, provavelmente, de tragédia. Esperamos todos que a alusão seja mais eficaz do que a expressão.

 

Sim, agora parece que todos nós temos direito à opressão e ao sufoco. À mentira.

 

Que estranho país o nosso, que se dedica presentemente à imigração, que é outra forma de dizer, ao desaparecimento. É como se o fracasso fosse o nosso destino. O fracasso voluntário.

 

Como se não bastasse a desilusão política, outra se lhe veio juntar. Numa entrevista de Jorge Luis Borges a Osvaldo Ferrari, deparo-me com a seguinte confissão do escritor argentino: “Acho que nunca li um livro na íntegra.”

 

Como se não bastassem os políticos, eis que os escritores se empenham em nos desiludir.

 

Conta-se que a empregada da Natália Correia, com quem a cadela da escritora embirrava, um dia foi mordida com tal fúria que teve de ser levada às urgências do São José.

 

Aí os médicos tentaram averiguar se o animal estava vacinado. Contactada por telefone, a escritora terá exclamado: “Sei lá. Mas que raio de interesse tem isso.” Do outro lado alguém terá explicado: “É que a rapariga pode correr riscos se não soubermos.” Então a escritora disse: “E a cadelinha?” Silêncio. “A cadelinha é que me preocupa, já me inspirou um poema e uma crónica, por sinal muito interessante, agora a criada não, nunca me inspirou nada, nem um verso.”

 

Fazendo uma analogia, podemos afirmar que o Governo se assemelha em tudo a Natália Correia, para quem nós somos a criada e o país é a cadela.

 

Convém no entanto salientar que ao nosso primeiro-ministro nem o país lhe inspira sequer um verso.

 

Oscar Wilde dizia que é a natureza quem imita a arte e não o contrário. Conta-se que o escritor estava uma vez em casa de uma senhora que o levou à varanda para que ele visse o pôr-do-sol. Ele assim fez. Quando voltou a entrar comentou: “Nada de especial. É apenas um Turner da pior época.”

 

Ou seja, o que o escritor queria dizer é que a arte pode ensinar-nos a ver de forma diferente.

 

Borges defendia que os políticos são, em geral, leitores atrasados. Um escritor francês, de quem agora não me lembra o nome, disse que as ideias nascem suaves e envelhecem ferozes. E é bem verdade.

 

Basta lembrarmo-nos do socialismo e do fascismo. Começa-se pela ideia de que o Estado deve dirigir tudo, que é melhor que haja uma instituição que dirija as coisas em vez de tudo ficar ao abandono e ao caos ou, quando não, às circunstâncias individuais. Daí chegou-se ao comunismo e ao nazismo.

 

Toda a ideia começa por ser uma bonita oportunidade, mas depois, quando envelhece, é sempre usada para a tirania e para a opressão.

 

Ou seja, as ideias a princípio são inocentes. O problema é que depois ficam terríveis. Ao liberalismo também lhe pode acontecer o mesmo. Então se for defendido e implementado por gente do calibre político e intelectual de Miguel Relvas, só podemos esperar o pior.

 

Vivemos divididos entre o mito e o conto de fadas. O mito do desenvolvimento do país por parte dos partidos do poder e o conto de fadas do futuro promissor prometido pela oposição.

 

Todos ouvimos o conto de fadas como um divertimento. Já o mito é uma palavra respeitável, só que não tem correspondência com a vida das pessoas. Com a realidade. 


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Domingo, 16 de Março de 2014

Na procissão


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Sábado, 15 de Março de 2014

A mulher do algodão doce


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Sexta-feira, 14 de Março de 2014

Flores à janela


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Quinta-feira, 13 de Março de 2014

Poema Infinito (189): água

 

Tu desapareces-me assim de repente embrulhada numa batalha de sílabas suspensas e as palavras desfazem-se como que por milagre. Os corpos anulam os muros. As chuvas abafam a terra. E eu desenho o tempo que é solidão e desaparecimento. As pessoas passeiam no parque e os monstros surgem de todos os lados. Sente-se o fogo e a paz rigorosa do envelhecimento. Alguém acende um cigarro dentro de um filme francês como se isso despertasse a monótona inquietação dos sexos. As zonas eróticas proletarizaram-se. Dentro dos palácios os sexos são de veludo. Sua majestade dirige-se ao banho arfante. Entretanto a cidade volta a morrer como se fosse no cinema. O vento eleva as folhas das árvores e as saias das mulheres e varre as ruas. Sombras enormes apagam os edifícios. Os espíritos devoram os lírios e observam os movimentos dos vivos. O medo espalha-se pelos canos da água. Nas copas da cidade os gatos sorriem. O vento faz crescer as vozes e leva-me consigo. Criaturas aladas voam pelo meio do medo e roubam os sonhos aos adolescentes. Os sonhos ficam frios e cortam como facas afiadas. Dez dedos abrem uma cama onde alguém se deita sozinho. A cama transforma-se num lago. Os olhos dos pássaros acariciam a penumbra e deslizam sobre a água do rio. Eu seguro-me às palavras e sinto que a dor faz parte do sistema geral da humanidade. Descubro que o universo é móvel por fora e imóvel por dentro. Por isso desaparece quando fecho os olhos. Vejo Deus a separar as águas para afogar os inimigos do seu povo. Por isso os mares produzem ondas enormes de inquietação e remorso. E os homens deslizam por cima do álcool que bebem continuamente. O mundo está repleto de mágoa. Uma luz nua desfaz a memória dos rostos antigos. O silêncio é uma concha repleta de inquietação e carícias. Ninfas cantam entre o arvoredo e alvoroçam as sementes e os pássaros. Os pássaros transformam-se em fogo. E sobem ao céu. Deus diz que quer amar o mundo e sorri como se estivesse em pânico. Os demónios ateiam metáforas e cansam o tempo e inventam novas máquinas do medo. Os homens insistem em cantar a desgraça. As crianças perguntam pelos versos. Deus inventa uma nova língua. Os faunos alimentam-se agora de imagens datilografadas e estruturam o amor. Um camponês calcula a sua necessidade de chuva e leva consigo a sua tristeza líquida. Os profetas estudam a distância perfeita para se iniciar um novo oráculo. Desenho um novo mapa afetivo dentro do meu cérebro. Dormes no meu colo. A razão é uma nova tempestade. Os corpos não conhecem o que explicam os livros. Por isso os mestres dizem cobiçar o amor e os ecos da terra e os arquipélagos da memória. O tédio é tão variável como os sentimentos. Os poemas quebram-se. A loucura torna-se fulgurante. Os mártires vigiam os velhos templos como antigamente. O amor é branco. O passado é impassível. A cintilação candente dos milagres atravessa o horizonte como se fosse uma estrela. Sou agora uma memória aberta onde as palavras se despenham. As imagens ganham novo sabor e arfam e tornam-se infatigáveis. Adivinhei que caminhavas para longe e que atravessavas as sombras. Tudo revive no caos. O vento sacode as lâminas do tempo. A solidão sobe para cima de nós. E fala. E fala. A solidão fala como uma máquina do tempo. Uma chuva imoral desaba sobre nós. O amor é uma infatigável obscenidade. Os seus frutos tecem-se na seda virgem. Ninguém foge do destino das águas do nascimento.


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Quarta-feira, 12 de Março de 2014

Jogando o sapo II


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Terça-feira, 11 de Março de 2014

Jogando o sapo I


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Segunda-feira, 10 de Março de 2014

Pérolas e diamantes (79): CIMes, tachos, potes e panelas

 

Aos portugueses, e em dose dupla aos flavienses, aconteceu-lhes como aos burros dos pobres, tocou-lhes carregar com uma carga muito superior à que podem suportar.

 

Ao nível autárquico, as novas folhas que surgiram, apesar de terem nascido na primavera, já cheiravam a outono.

 

Alguma razão têm os ladrões filósofos quando afirmam que nada no mundo se faz sem roubar. Ou seja, para se conseguir alguma coisa temos de privar alguém dessa mesma coisa.

 

A mim já me avisaram que devo proceder como o mudo Badini e por isso tomar cuidado com aquilo que digo.

 

Mas eu não aprendo. A minha avó dizia-me que os seres humanos que se dedicam à política são como as serpentes venenosas. Há as que nos matam com um beijo e as que nos aniquilam com um abraço. E também existem as que reúnem as duas qualidades. Essas são as que chegam ao topo do poder.

 

Sabem qual é a diferença entre um político e um sábio? O político, num naufrágio, salva o seu cartão partidário e a sua lista de contactos. O sábio salva o homem que se afoga. 

 

Os políticos, neste caso, os autárquicos, apesar de nos dizerem que traçam o seu caminho com uma régua, nós sabemos que andam sempre às voltas, dando voltas a si mesmos e a todos nós.

 

Tudo isto vem a propósito de uma nova instituição pública que surgiu em Chaves quase no segredo dos deuses e que tem o nome pomposo de Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega. Os seus estatutos ocupam 25 páginas e teimam em criar a ilusão de que a citada “Comunidade” serve para alguma coisa de útil.

 

Se lhes disser que o pai da criança é o inenarrável Miguel Relvas, no tempo da sua passagem pelo Governo, talvez se faça mais luz sobre esta farsa.

 

As suas atribuições são, sem tirar nem pôr, as de qualquer autarquia local.

 

Um artigo desde logo me chamou a atenção, o 45º, que diz, e passo a citar, que “a Comunidade Intermunicipal pode contrair empréstimos, a curto, médio e a longo prazo junto de qualquer instituição autorizada por lei a conceder crédito, em termos idênticos aos dos Municípios”.

 

Dito desta forma até parece ser uma prerrogativa normal e corrente. Mas para nos apercebermos do alcance da coisa podemos, e devemos, dar uma vista de olhos ao seu plano de atividades e orçamento. 

 

A CIM-AT é composta de pelos Municípios de Boticas, Chaves, Montalegre, Ribeira de Pena, Valpaços e Vila Pouca.

 

Tem como objetivo, dizem os pais desta misteriosa instituição, garantir a articulação dos Municípios na materialização de um Planeamento Estratégico, aproveitar sinergias existentes, otimizar recursos, procurando atrair investimento. Ou seja, é mais uma instituição cheia de boas intenções, das muitas que abundam pelo país fora e que não servem para nada de útil e de concreto.

 

Lá pelo meio, o documento refere vacuidades e subtilezas disfarçadas de estudos sob nomes pomposos tais como “Avaliação da Subvenção Global e do Programa Territorial de Desenvolvimento de Trás-os-Montes”, “Estudo de Sustentabilidade das Estruturas de Proteção Civil”, “Estudo de Valorização do Potencial Cinegético e Piscícola” e “Plano de Ação da Rede Viária Municipal”.

 

Mas a coisa começa a fazer sentido quando chegamos à parte dos Recursos Humanos e ao Mapa de Pessoal. A proposta traduz a composição do Secretariado Executivo Intermunicipal, com um Primeiro Secretário e dois Secretários Intermunicipais. Dos três, apenas dois são remunerados. O Primeiro Secretário e um dos Secretários.

 

Agora adivinhem lá quem é o Primeiro Secretário? Ora pois, só podia ser um ex-presidente da Câmara. E do PSD. Efetivamente é João Batista. E isto já se sabia mesmo antes das eleições autárquicas. Daí o ex-autarca flaviense ter decidido apoiar António Cabeleira, pois os cargos já estavam destinados e com nome, remuneração e tudo. Quem está no poder sabe sempre o passo que se segue e a cadeira que está vaga.

 

O Governo do PSD criou as CIM para distribuir tachos pelos seus apaniguados. Mandou-os primeiro explicar e executar a extinção das juntas de freguesia para depois, com o dinheiro assim poupado, criar os tais cargos de Primeiros Secretários e Secretários remunerados.

 

Ou seja, retirou o dinheiro a quem necessitava, a quem fazia política de proximidade, para o entregar de mão beijada aos baronetes dos partidos do poder que a mais não aspiram do que ter uma secretária, um computador e uma cadeira de couro que os faça sentir-se importantes.

 

Mas vamos aos números. A dita Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega, que não faz falta para rigorosamente nada, tem um orçamento de 651 000 €. As receitas correntes, procedem de, e passo a citar, “Bancos e outras instituições financeiras (100 459 €); Outros (?) (142 184 €), DGAL (142 174 €); FEDER (310 877 €); Receitas de capital – FEDER (96 473 €).

 

Agora reparem como o dinheiro de todos nós vai ser desperdiçado: despesas correntes - 8000 €; ajudas de custo - 3000 € (ora…?); despesas de representação - 16 679 € (adivinhem…?); outros suplementos e prémios – 5000 € (lá…?); subsídio de refeição - 16 679 €; subsídio de férias e Natal – 10 879 € (para…?); Caixa Geral de Aposentações – 8 613 € (quem?); Segurança Social – 8 039 €; gasóleo – 2 500 € (ora adivinhem lá para quem?); comunicações – 2 500 € (ora adivinhem lá…?); representação dos serviços – 5 000 € (ora adivinhem lá para quem?); estudos, pareceres, etc. – 128 000 €; outros bens (?) – 187 000 €; outros trabalhos especializados (?) – 80 000 €; equipamentos informáticos, etc. – 110 951 €.

 

Podemos informar os estimados leitores que o tacho de Primeiro Secretário da CIM é remunerado com 45% do vencimento do Presidente da República, cerca de 4 000 € mês. E que o cargo de Secretário (neste caso Secretária e militante do PSD de Vila Pouca) recebe cerca de metade, aproximadamente 2 000 € mensais.

 

Ou seja, apenas em ordenados, ajudas de custo e outros gastos com os senhores secretários e de funcionamento, a citada CIM – AT gasta por ano, cerca 150 000 €. O que corresponde a cerca de um quarto do citado orçamento.

 

Além disso, a CIM é um órgão não democrático, porque não foi sufragado pelos cidadãos. E, estou em crer, é um balão de ensaio para criar uma estrutura que a médio prazo poderá vir a substituir os municípios, com o mesmo argumento que foi utilizado para extinguir as freguesias, os hospitais e os tribunais: a desertificação do Interior. 

 

Esta é a grande reforma do Estado feita pelo PSD.

 

PS – Ironicamente, ou não, o PS votou favoravelmente o orçamento. Não fosse o representante do MAI, esta farsa orçamental tinha sido aprovada por unanimidade.

 

Está visto, e confirmado, que a política dos interesses, nesta partidocracia, invoca, e sobrepesa, sempre, os interesses individuais em desfavor dos direitos coletivos. 


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Domingo, 9 de Março de 2014

Gente ao fundo


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Sábado, 8 de Março de 2014

Conversando


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Sexta-feira, 7 de Março de 2014

Passeando na natureza


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Quinta-feira, 6 de Março de 2014

Poema Infinito (188): o medo e a queda

 

Uma pomba assustada sai de dentro de ti. A tua boca fica translúcida como uma rosa húmida. A cidade transforma-se numa narrativa onde a luz flui como um caudal de chamas. Bandos de crianças flutuam na memória das avós. E as avós descascam ervilhas e apertam, sem querer, dentro dos seus olhos as imagens dos pássaros que voam por cima do rio. E olham os gatos que se aquecem ao sol e alcunham os dias que crescem e correm para fora do tempo. Os anos sobem-lhes aos ombros. Por isso erguem as mãos e brincam com os sorrisos como se comessem maçãs. E dizem que já não podem ser nada. A igreja respira no fundo da rua. Veem-se orações a subirem ao céu como se fossem fumo. Desejo agora uma cor só para mim. É com ela que lembro a minha avó amassando o pão. O forno aquece a imagem da minha infância. A tristeza obriga-me a comer as lágrimas. A minha aldeia voa como se fosse uma dádiva generosa. Mas é apenas uma ruína bizantina. Nas suas casas sombrias pousam agora os mochos de asas grandes e olhos frios. Os caracóis sobem pelas paredes e secam. As pombas já não põem ovos. As montanhas que a rodeiam sorveram todo o ar. Do lado de fora um mago toca a flauta. Alguém entra no labirinto e canta uma cantiga de água. O som sufocante é um sinal de desespero. Deus e o Diabo voltam a conciliar-se. Cada um fica com a sua metade. Os homens leem livros ocos e não param de falar. Voltamos à cidade. Na cidade cabem todos os números e nela morrem todos os sonhos. Por isso é tão visitada. Ligo-me ao mundo através de um delicado fio. Daí o meu desassossego. Já ninguém se encontra nos jardins. Sinto o medo das tempestades a invadir-me. Há sempre algo que devemos esquecer. Para quê querer tudo se tanto faz. O melhor é guardar a fala de Ossip Mandelstam para sempre e ficar com a sua estrela espelhada. E lembrar os pais e os amigos e os irmãos e encontrar quem se perde nas florestas esquecidas. As primaveras estão cada vez mais frias e a sua beleza dispersa-se pelo espaço. Por isso nos dói a alma. Vivemos sem sentir o mal e apenas ouvimos o que se diz de nós. Por isso as casas ficam tão estáticas e vazias escoando as memórias pelos canos. Os telefones ficam espantados. As crianças brincam com o ar e riscam o chão com formas verdes. Dos nossos lábios nascem murmúrios assustados. Ardo como uma vela na noite. Os rios correm verticalmente na direção das montanhas. E vigiam-nos os sonhos. Os cordeiros de Deus sorriem irritados. Desalmado é quem contempla a sua própria sombra. A cidade por vezes fica aberta e é visível a sua alucinação. Mergulho no tempo e emudeço. Perco-me no céu de Dante. Sonho com carícias florentinas. Sirvo-me da força e do silêncio. É possível que esteja perto do ponto de loucura. Acordo dentro de catedrais de cristal onde a luz é tão escrupulosa que dói. As linhas são puras e as palavras silenciosas. As pessoas têm os rostos abertos e proclamam-se devedoras de toda a culpa. Silvam as flautas, as mulheres dançam ostensivamente as suas ancas, assam-se cabritos, come-se a fruta. Os homens proclamam a sua raiva e caluniam o seu deus de fogo e sangue. Os anjos rasgam a terra com as suas espadas. Tudo isto se repete indefinidamente. Tudo é apenas uma promessa, um contorno que baloiça como um barco, uma vaga noturna. Os velhos sinos das igrejas abafam as preces dos que não se conseguem calar. Há palavras que são relíquias santas. Com elas não se podem violar as promessas. Apenas elas nos podem salvar do abismo. Por isso é que o medo é inseparável da queda. 


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Quarta-feira, 5 de Março de 2014

Anelhe


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Terça-feira, 4 de Março de 2014

Passeando


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Segunda-feira, 3 de Março de 2014

Pérolas e diamantes (77): o triunfo dos cucos

 

Nascer em Portugal é uma condição que pesa muito a cada um de nós. Claro que a uns mais do que a outros. No entanto…

 

No entanto cá estamos e penamos, para mal dos nossos pecados. 

 

Sempre que me deprimo, chego à conclusão que, se não tivesse nascido aqui, talvez vivesse um pouco melhor. Mas também penso que se tivesse nascido noutro sítio me deprimia identicamente. Por isso é que ainda por aqui estou e daqui já não consigo sair.

 

E cá estou eu como um pardal, em equilíbrio instável, esticando as minhas patas finas, procurando espaço para pousar exatamente onde quero.

 

Naquele ponto de equilíbrio em que, como apregoava Nietzsche, nem o tumulto do mundo nem a calma dos distantes céus nos tolhe a visão clara.

 

No fundo, sou um cético. E vejo-me constantemente dentro de um paradoxo. Reconheço, e reconheço-me, como tendo sempre uma expectativa e, ao mesmo tempo, possuindo também uma certeza, a de que nunca poderei satisfazer a sede de justiça ou ultrapassar a angústia da morte.

 

Apesar disso, ou por isso mesmo, persigo e defendo o princípio da realidade. E a realidade diz-nos que os regimes democráticos estão banalizados. Mesmo conservando ainda o fator essencial das liberdades públicas.

 

O poder político democrático atual é muito frágil, porque está subalternizado, o que é fator de satisfação para todos aqueles que nunca foram democratas. E, o que é ainda mais grave, está sujeito a outros poderes mais fortes que o manipulam.

 

Quer queiramos, quer não, são as possibilidades que não podemos aceitar aquelas que vão determinar o nosso destino.

 

Aprendi com Camus que nunca se chega à liberdade plena nem se escapa à ideologia. Mas também sei que procurar pensar pela própria cabeça, estar informado e procurar saber, são sinais de independência e autonomia. 

 

A dificuldade, como dizia Julien Brenda, está na resistência à tentação de traição. Devemos, isso sim, esforçar-nos por não nos atolarmos na ideologia e, por vezes, libertar-nos dela.

 

Todos sabemos que as ideologias são sempre redutoras. Não lhes reconheço já nenhuma vantagem. Toda a ideologia, como afirmava Augusto Gil, é sempre uma viseira baixada sobre os olhos.

 

Eis-nos chegados ao tempo do triunfo dos cucos. No PSD, os pássaros novos expulsam do ninho os fundadores do partido.

 

António Capucho tem razão, esta deriva da caça às bruxas por parte de Pedro Passos Coelho, transformou o PSD num partido neoliberal e radicalmente conservador.

 

O excomungado fundador do PSD vai mesmo mais longe ao afirmar que “o PSD ultrapassou pela direita o CDS-PP, que, apesar de tudo, ainda tem alguns valores democrata-cristãos que são respeitáveis”.

 

Pela mão do cuco, lá estamos a voltar à ética, e poética, salazarista de pobretes mas alegretes. A missão superior deste executivo neoliberal consiste na imposição da pobreza, não só como estado de alma, mas também como realidade. E até como moral social.

 

Passos Coelho, com aquele seu sorrisinho de raposa manhosa, lá nos vai mentalizando explicando que Portugal está a viver agora segundo as suas possibilidades. Esta é a sua esperança e o seu horizonte político.

 

De uma coisa se pode gabar o primeiro-ministro. Segundo um estudo da Santa Casa, há uma percentagem significativa de licenciados a viver como sem-abrigo em Lisboa. Esta é a sua vitória e a grande conquista do Governo.

 

Passos Coelho também diz que ficámos mais competitivos. E tem razão, atualmente somos a mão-de-obra mais barata da União Europeia e estamos a aproximar-nos a passos largos da China e dos países do Terceiro Mundo. Esta foi a sua grande reforma, baixar os custos do trabalho como fator de competitividade.

 

E a tão propalada reforma do Estado é outra ficção deste Governo. Portugal chega ao fim do programa de ajustamento sem ter transformado nada de estruturante e significativo. A única realidade visível é o empobrecimento do país e dos portugueses, a destruição da classe média, devastada por uma enxurrada de impostos selvagens, o nivelamento por baixo de tudo quanto é serviço público e o convite à emigração por parte dos nossos jovens.

 

Passos Coelho apenas acredita nos mercados e nas suas leis. Os mercados são o seu Deus e as suas leis a Bíblia que lhe inspira o caminho da destruição do país.

 

Manuel João Vieira definiu bem o que se passa em Portugal. “Hoje, os governos são uma espécie de Circo Cardinali, constituído para ser um interface entre o poder económico e as pessoas, para fazer de conta que as pessoas ainda podem modificar alguma coisa através dos partidos.”

 

Desta vez vou terminar com a poesia de Luís Filipe Castro, do livro “A Misericórdia dos Mercados”: “Os Mercados são simultaneamente o criador e a própria criação / Nós é que não fazemos falta.”


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Domingo, 2 de Março de 2014

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