Sábado, 31 de Maio de 2014

Paris - Metro de superfície


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Sexta-feira, 30 de Maio de 2014

A carroça


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Quinta-feira, 29 de Maio de 2014

Poema Infinito (200): o pecado de Deus

 

Cresce tanto a saudade como as árvores nos montes. A paisagem é a mesma. A saudade não. Necessito de cavalgar para conhecer os caminhos. Os vestidos das mulheres ficam longos como o tempo. O tempo longo que brilha. O tempo que cavalga. A beleza nasceu sem cálculo e sem palavras. Os teus olhos possuem a textura do veludo. Alguém junta as palavras prazer e dor e depois reza. Agora cavalgo dentro da noite. As palavras ficam luminosas como estrelas. Todos esperamos sempre por alguma coisa. Pela claridade do dia, pelos olhos que brilham, pelas mãos que acariciam. Alguém canta uma canção triste. Raparigas com os cabelos flutuantes acenam a quem passa. Por vezes é difícil distinguir o sonho da realidade. Há sempre muito céu por detrás das nuvens. Alguém grita como se lhe tivessem rasgado o sonho. O inimigo está sempre perto de nós a arder ou a rir-se. Alguém diz que o seu sonho correu para dentro da noite e que por isso não pode ser acordado. Lentamente as casas vão-se apagando. As orações são rezadas devagar e entram pelos quartos dentro. Tudo fica mais claro na minha cabeça. As janelas gritam. Alguém corre pelas escadas acima, começa a brilhar e incendeia-se. O silêncio amadurece e fica vazio. As horas ficam ainda mais pesadas. As anjas mostram as suas bocas cansadas a Deus e pedem-lhe que as liberte da divindade. Têm saudades de terem saudade. Têm saudades do pecado. Querem parecer-se com os outros e sentarem-se no jardim e serem beijadas e copuladas. Deus fala-lhes da melodia que as suas asas produzem quando voam e de não possuírem angústia. Lembra-lhes a sua justeza imperturbável, a gravitação vital em torno das estrelas. Glorifica-se por ser o centro imóvel dos astros, por ser o autor do Livro do Princípio e do Fim. As anjas choram. E ficam escuras de desejo. Deus permanece justo e imperturbável. Tudo começa a ficar mais longínquo. Deus anuncia às anjas que as vai tornar hermafroditas. Elas ficam desiludidas e tristes. Depois separam-se. Deus afirma: Eu sou o vosso Senhor. Eu sou o tempo. Eu sou tudo. Alguém escreve longas cartas e pede a Deus que arredonde os frutos nas árvores. Os caminhos ficam iluminados. Alguma dessa luz pousa nos meus dedos. As anjas choram no mundo. Deus chora o mundo. As horas inclinam-se como corpos metálicos. Deus eleva-se no meio de chamas. As anjas bebem o silêncio e aprendem o espaço e o tempo dos mortais. Alguém canta canções tristes. Sinto o brilho das páginas em branco. As palavras ficam imóveis. A escuridão aperta tudo dentro de si. As anjas transformam-se em imagens vacilantes. As mãos tremem-lhes. Sentem que vão ser novamente condenadas a construírem catedrais, a levantarem Roma, a aplicar mosaicos no chão do céu. E ainda a encobrirem o pânico, a glorificar o silêncio, a sonhar o sonho dos humanos, a deixarem-se esculpir em granito para serem assentadas em pelourinhos, a comunicarem aos outros para não terem medo quando elas estão cheias dele, a serem monólogos de solidão, a serem bocas fechadas ao prazer, a segurarem a hora da morte, a envolverem a sua pureza imposta em espadas de fogo, a serem tão estéreis como as areias do deserto, a serem vizinhas de Deus sem o amarem, a serem o sinal imortal da mortalidade. Deus olha para elas e então lembra-se que construiu o mundo com as mãos a tremer. Esse é sempre o pecado da primeira obra de qualquer artista. 


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Quarta-feira, 28 de Maio de 2014

Guardadores de sombras


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Terça-feira, 27 de Maio de 2014

Introspeção


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Segunda-feira, 26 de Maio de 2014

191 - Pérolas e diamantes: não há acordos grátis

 

Era eu ainda miúdo quando ouvi falar pela primeira vez em altruísmo.

 

Lembro-me de escutar o reverendo a fazer o elogio a um senhor lá da terra, falecido recentemente, que, quando numa batalha qualquer foi ferido, não sei agora onde, e lhe foi oferecido um golinho de uma aguardente muito boa por parte de um camarada de armas, respondeu-lhe que nesse momento estava a rezar e que, por isso, o deixasse de fora da rodada e oferecesse a sua parte ao vizinho da maca ao lado, que estava bem mais necessitado do que ele.

 

“Esse espírito de sacrifício altruísta”, dizia o senhor abade, que gostava de molhar a palavra em boa aguardente velha, “era o que queria ver em vocês, meninos, especialmente em ti, João. E quantas vezes já te disse para não te pores a olhar para mim com esse ar emproado e averiguador.” Naquela altura limitei-me a engolir em seco.

 

A resposta encontrei-a apenas mais tarde, quando li a seguinte observação do imperador Marco Aurélio: “Acontece-te algo? É bom que assim seja. Faz parte do destino do universo que te está reservado desde o início. Tudo o que te acontece faz parte da grande teia.”

 

Diz-me a experiência que não adianta que nos tirem um peso de cima porque mal nos distraímos, logo outro peso, muitas das vezes um bocado maior, cai-nos logo em cima outra vez. Este é um jogo que não se pode ganhar.

 

Desta vez queria falar de realidades ligeiras, de coisas engraçadas. De episódios de sucesso. Por exemplo, do triunfo dos porcos no país. De facto, uma empresa de Rio Maior produz mais de 350 mil animais por ano, apenas em Portugal. É uma fartura de suínos. Em tempos de vacas magras medram, e multiplicam-se, os porcos.

 

De Boticas chegou-nos um aviso, e também um contributo, a bióloga Sónia Magalhães informa: “Os nossos cágados estão em perigo.” Ó pobres coitados! Mas também nos tranquiliza com o título da sua palestra: “Cágados, um Futuro a Construir.” E deixa um alerta: “É muito importante não largar espécies exóticas na natureza.” Quer sejam cágados ou animais de outras espécies, acrescentamos nós. É que as espécies exóticas devoram as autótones.

 

Estava eu nesta boa disposição, quando, ao abrir o jornal, dou de caras com a entrevista do senhor presidente da Câmara de Chaves.

 

Diz ele que se lembrou de fazer o balanço de meio ano de governação.

 

Todos os que por cá vivemos sabemos muito bem que nestes últimos seis meses nada na cidade foi feito que mereça, sequer, uma nota de rodapé. Mas o senhor presidente acha que não é bem assim. Por isso resolveu surpreender-nos com as suas boas intenções que, na sua douta opinião, passam por concluir obras, as tais da Santa Engrácia, e por consolidar as contas públicas, cujo défice já vai nos 60 milhões de euros. E a procissão dos números apenas ainda vai no adro.

 

Diz-nos o senhor presidente, com aquela carga de demagogia que lhe é muito caraterística e que nos intranquiliza a todos, que o concelho conseguiu captar algum investimento. Um na área da produção e armazenamento de cogumelos e outro na área da metalomecânica. Cá esperamos para ver. E sentados, como é prudente fazer-se.

 

Referiu que “os últimos 12 anos foram de investimento ímpar para a cidade” e afiançou que esse investimento foi “fundamental para o futuro”.

 

Concordamos que o “investimento” foi ímpar, já a dívida é par. O “investimento” foi realizado por políticos irresponsáveis e inconsequentes e a dívida galopante, que daí resultou, vai ser paga por todos nós.

 

O dito “investimento” criou um buraco de 60 milhões de euros. Essa é a realidade. Um buraco financeiro gigantesco. Já as obras apenas as conseguimos enxergar por um canudo.

 

Por isso é que refere que vai construir piscinas, reparar pavimentos, requalificar a rede viária municipal e os espaços verdes e promover o turismo.

 

A ser assim, afinal onde é que este poder autárquico gastou o nosso dinheiro? Onde estão as obras? Onde para o pilim?

 

Mas para palavras loucas orelhas moucas. Não é assim, senhor presidente?

 

Estamos em crer que foi por essas e por outras que resolveu afirmar que está bastante satisfeito com o acordo de governação estabelecido entre a Câmara de Chaves e o MAI. Só que isso que o senhor presidente afirma é falso. Rotundamente falso.

 

O único acordo que existe é uma atamancada combinação celebrada entre o senhor António Cabeleira, em nome de PSD local, e um senhor vereador, eleito em nome do MAI, que, nesta circunstância, apenas se representa a si próprio.

 

Nenhum eleito do Movimento, com a exceção de João Neves, participou em qualquer reunião com o PSD. Em nenhuma.

 

Não existe nenhum documento que fundamente, justifique ou esclareça em que consiste, ou se baseia, o enigmático acordo.

 

O putativo pacto é de conveniência. Apenas.

 

Serve, sobretudo, para estabilizar o instável poder de um e para outorgar um poleiro ao outro.

 

Pois que lhes faça bom proveito à barriguinha e ao peito. De uma coisa estamos certos: dali nada resultará de positivo, nem para o nosso concelho, nem para as nossas gentes.

 

O senhor presidente admitiu publicamente que o acordo deixou de imediato cair em saco roto a auditoria às contas da Câmara, proposta pelo eleito do MAI e aprovada por maioria.

 

Tal como os almoços, não há “acordos” grátis. 


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Sábado, 24 de Maio de 2014

Sorriso


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Sexta-feira, 23 de Maio de 2014

No carnaval


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Quinta-feira, 22 de Maio de 2014

Poema Infinito (199): invocação

 

Tudo o que é belo se afasta com a velocidade da água dos rios. Tudo se transforma. Todos desaparecemos, um a um. Por isso sonhamos com a aurora. Por isso desejamos ter a serenidade dos grandes ramos das árvores solitárias dos bosques. Por isso murmuramos baixinho o vagar do desejo, enquanto a erva cresce na terra inquieta. Por isso as águas cintilam nos nossos olhos. Por isso morremos como os meteoros, a arder. As pombas dentro de nós são luminosas. As horas, de cansadas, declinam o amor. Este é o tempo da paixão e do esquecimento. Este é o tempo das almas exaustas. Dos beijos que se inclinam nos nossos lábios. Das lágrimas que caem como folhas de outono. Por isso o amor é uma criança descalça que trepa a neve com delicadeza. Por isso serei sempre um jovem louco que acredita em prodígios. Podem os outros vacilar, eu não. Apesar do meu rosto solitário. Possuo dois pés errantes. Tenho duas asas desprotegidas, como o arcanjo Miguel. Inclino-me perante as estrelas. Deus dilui-se nas águas que flutuam. No silêncio. No medo. Por isso a efémera beleza humana entristece a eternidade. Os deuses são loucos por almas inquietas. Por isso a tristeza vai alterando os nossos rostos. O passar do tempo aproxima-nos mais da tristeza. Os olhos ficam húmidos com o orvalho. E as estrelas ficam indiferentes. O amor agrava-se com as palavras. Também o tempo tem o rosto transfigurado. Sentimos a voz do vento como uma superstição. O tempo, esse inimigo inexorável, goteja a nossa decadência. Apesar do nosso espírito inquieto se alimentar do fogo, da angústia e da memória. Com o passar do tempo, as palavras têm tendência a amargar. Por isso as almas pecadoras fazem ricochete nas portas do céu. Com o coração cansado, penetramos no crepúsculo. O tempo muda de sítio. Tu ficas com o cabelo luminoso, com os olhos cintilantes e com o sexo resplandecente. Tu és a semente do fogo. As tuas mãos, como folhas esplêndidas, despertam-me o sexo. Este é o tempo de nos perdermos nos beijos. As palavras ajustam-se ao seu significado mínimo. Há quem sonhe em incendiar de novo Troia para igualar o desejo da morte. É impossível saber-se toda a verdade. Nem Deus tem coragem de aceitar essa derrota. Por isso, os loucos exultam com o mistério. Com o divino mistério da matéria e da vida. As memórias desaparecem como que por milagre. A fantasia da razão torna-se inoportuna. Tudo muda desde o princípio dos tempos. Por isso é que as aves voam para longe e com elas levam o olhar dos visionários. A beleza transformou-se num molde. Dela foi retirada o sangue e o deslumbramento. Presentemente já não sabe para o que serve. O amor é agora uma fúria que parte para lugar incerto. A madrugada é uma cavalgada fantástica. Regressamos a tempo de um novo coito para morrermos mais um pouco. Com os corpos inclinados, acendemo-nos como piras divinas. O pecado não é nosso. Nossa é a luz. Nossa é a alucinação. A sensualidade é uma gloriosa recordação que flutua no espaço como uma nave iluminada. Por isso alguém desenhou os céus onde cintilam as lágrimas da paixão. Por isso os lábios são vermelhos de sangue. Por isso a memória dilata e se torna doce. Por isso crescem flores de macieira nos teus cabelos. Este é o momento de invocar o espírito das palavras antigas. 


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Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

Jogando o fito


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Terça-feira, 20 de Maio de 2014

A senhora das couves


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Segunda-feira, 19 de Maio de 2014

Pérolas e diamantes (90): o medo dos espelhos

 

A História, por muito que afirmem o contrário, não é urdida por mãos inocentes.

 

Mas hoje não quero pensar nisso. Afundo-me no sofá, troco de óculos, acendo o candeeiro, leio. Depois dormito. Sento-me seguidamente junto à janela de onde vejo o sol a pôr-se. Dou-me por contente por ainda não ter de pagar imposto por isso.

 

Sinto-me a desaparecer.

 

A minha cidade também perde a pouca luz que lhe resta. Está velha e acabada. Em ruínas. Escangalhada. Fecho os olhos e sinto-a a perder ainda mais luz. Talvez para sempre.

 

Afinal as cidades também morrem. As cidades também se abatem.

 

Esta altura do dia é boa para aprender a rendição. A música, tal como a luz e como a cidade, também minga, até se extinguir.

 

Os silêncios, por estes lados, são suficientemente amplos, para absorverem qualquer tipo de comportamento. Qualquer tipo de resistência.

 

Por aqui, aldrabão e aldrabado dão as mãos e põem-se a atravessar a realidade assobiando para o lado. Como se nada fosse. Como se nada valesse a pena.

 

Descobri que as avenidas rectilíneas construídas para se poder marchar nelas se transformaram em sinuosos carreiros que, como formas orgânicas, obedecem, tal como os caminhos de cabras, às leis do menor desconforto.

 

Então onde mora a verdade? Sim, onde mora? E a honestidade? Onde para ela? O melhor é esquecer ambas. Já nem a realidade existe. Só escombros. Só vacuidade. Só silêncio e desistência.

 

Ouvi dizer, quando era criança, que não devíamos olhar para o espelho porque podíamos ver o Diabo por detrás do vidro.

 

Agora temos medo. De tudo. Até da nossa cara refletida no espelho.

 

Vejo nos rostos das pessoas aquele tipo de expressão amigavelmente canina. Presentemente já não vale a pena chorar pelo futuro. Este é um tempo desesperado. Um tempo de gente aflita.

 

Sejam quais forem as lisonjas que prestemos à razão, à moderação e ao compromisso, permanecemos ou leões ou cordeiros. Os cordeiros serão mortos. Os leões, quase todos eles, serão domados.

 

As conveniências e os procedimentos corporativos pesam demasiado.

 

Existem no mundo maquinarias dedicadas à injustiça. Esse é o maior empreendimento da atualidade. Antigamente também existiam algumas forças ativas que visavam equilibrar as coisas. Hoje não sei onde elas param. Se é que ainda existem.

 

O tempo da modernidade transformou-se em ópera bufa. A prontidão com que os políticos aparecem nos programas de entretenimento para se exibirem e assumirem o papel de palhaços, constitui a única forma de redenção democrática.

 

O povo, na sua poltrona, observa os políticos no papel de bobos da corte.

 

A ironia, quando não a deixamos morrer, mata.

 

Dizem que as boas histórias nunca falam das vitórias mas das derrotas estrondosas. Nenhuma vitória de Napoleão é tão célebre quanto a sua derrota em Waterloo.

 

Veja-se também Jesus. Se ressuscitou, o seu símbolo devia ser o de um homem feliz, fora do seu túmulo, a acenar a todos os crentes. E não crentes. Mas não foi essa a imagem escolhida. Os seus seguidores preferiram retratá-lo no momento da sua derrota, no momento em que estava a agonizar pregado na cruz. Prestes a desistir.

 

E isto porque o ser humano apenas se impressiona com a derrota. Apenas a derrota é eterna. A vitória é transitória.

 

Afinal a sorte é o fator mais importante para alcançar o êxito. O talento conta para muito pouco.

 

A generalização da incompetência e da ociosidade garantem que a mediocridade triunfe em Portugal. 


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Domingo, 18 de Maio de 2014

Na feira


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Sábado, 17 de Maio de 2014

Na feira


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Sexta-feira, 16 de Maio de 2014

Poldras do Tâmega


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Quinta-feira, 15 de Maio de 2014

Poema Infinito (198): as orelhas de Vincent van Gogh

 

Ilumina-se a casa por dentro como se fosse um templo. A chuva do dia cai devagar. Alegro-me por ouvi-la cair. Todo o templo está brilhante. A casa acende-se. Eu sonho por dentro das grandes esfinges do Egipto. E escrevo. As minhas mãos ficam transparentes como a chuva. Por entre as palavras erguem-se as pirâmides. O tempo é um abismo. Escrevo versos com luz, com a luz antiga do amor e da morte. Os deuses envelhecidos olham-me desconfiados com os seus olhos diagonais pulverizados de silêncio. As deusas dançam com um brilho fixo nos olhos. A sua suposta sensualidade é de ouro. Por isso abrem as mãos e delas desprende-se a luz da cegueira. Nós abrimos também as mãos e delas solta-se uma feira iluminada pelo luar. A noite pega fogo. As árvores levantam-se no ar. O pó da realidade é levado pelo vento. A minha infância está agora em todos os lugares e chora. E também ri de forma vaga. O amor termina em segredo, como se tivesse os olhos macios e escuros de tanto esperar. Alguém se esconde por entre as árvores. A sua forma é longínqua e incerta. E chora. Por vezes fala com os mortos. A sua voz é imperfeita. Várias princesas sonhadas saem dos livros com as mãos cheias de lírios. Vincent van Gogh, dentro do seu autorretrato, fixa o tédio. Do seu sonho escapam os corvos famintos. Desta vez pinta uma noite longa. Diz que não consegue iluminar os óleos para retratar o pranto da manhã que se avizinha. Chora porque vê a luz morrer, porque a sente lavada, sem nitidez. Apenas consegue retratar o seu desassossego, a sua ilusão inquieta. Diz que o seu pensamento ficou cego. Que o vento que agita a seara do seu quadro sofre demasiado por ser fixo. Até a sua alegria é sofrimento. Aos seus olhos, apesar do céu ser azul, as curvas são invisíveis. Invisíveis e inúteis. As horas estorvam-no. Na sua alma chove continuamente. Por vezes ouço-o dentro da minha cabeça a enlouquecer. A disfarçar-se de chuva, a estorvar a alegria. Do seu pensamento surge a origem da loucura e da genialidade. Eu habito nessa distância. A luz e as cores do seu mundo são assombrosas. E as casas e as flores e os moinhos e as pontes e os camponeses. E o céu. E as searas. O seu jardim está semeado de solidão. Nos outeiros mora a mágoa. As fadas engolem as paisagens e não engordam. Deus segredou-lhe o sentido da vida. Venho de longe como o mar. O sonho por fim encontra-me. Os meus sonhos são luas frias envoltas em gestos de dor. Venho de longe, como a noite. Venho de muito longe, como a luz. A saudade é agora distância. Por detrás dos girassóis de Vincent escondem-se fadas maliciosas que copulam com gnomos dourados. Transformo-me em metáfora e escrevo crepúsculos. Lembro-me de Cleópatra, e do seu coração em forma de pórtico, a dançar nua no meio de serpentes venenosas. Cleópatra é agora uma das loucas estrelas brilhantes num quadro de Van Gogh. Agora faz sentido a evocação das estrelas e as mãos que apertam os sonhos. Agora faz sentido a saudade enigmática. E as sombras de Deus no deserto. E o tédio. E a mágoa. E a tranquila imperfeição da vida. O silêncio desce e fica imóvel. E frio, como o firmamento. A vida segue a sua consciente rota para lado nenhum. O destino esconde-se. O tempo ficou horizontal e leve como fumo. Chove. Chove na cidade longínqua. Beijo-te já com os lábios cansados de tanto segredar cânticos. Os meus passos são tristes. Sinto a ausência dos teus olhos. Estremeço. As palavras vibram dentro do seu sentido. A luz agora é absolutamente exata. Van Gogh pode finalmente cortar a outra orelha. 


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Quarta-feira, 14 de Maio de 2014

Ponte Romana


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Terça-feira, 13 de Maio de 2014

A menina e a espada


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Segunda-feira, 12 de Maio de 2014

Pérolas e diamantes (89): abandonos

 

Disseram que foi com o anterior governo que entrámos na bancarrota financeira, mas, com este, sem sombra de dúvidas, desembocámos na bancarrota moral, que é a mais perigosa de todas.

 

O povo já não tem confiança nos líderes. Pudera! Basta olharmos para quem nos governa a nível central, e a nível autárquico, para ficarmos com pele de galinha e com os pelos do corpo todos eriçados.

 

Os historiadores hão de olhar para este período da nossa história como a era integrada da desintegração.

 

Apesar de vivermos numa aparência de “normalidade” do Estado, e dos seus serviços, existe um caos crescente, que a burocracia ainda se esforça por manter para que a sociedade funcione. Mas este estado de coisas não vai durar muito. A sociedade portuguesa atual está presa por arames.

 

E é apenas a semântica o que divide os partidos. Para eles, os principais responsáveis pelo descalabro, o desfecho é a renegociação, a restruturação ou o perdão. Tudo soluções que só afundam ainda mais o buraco em que nos meteram.

 

É evidente que o Estado português está a contrair-se dia a dia. Os serviços básicos estão a diminuir drasticamente, quer a nível da quantidade, quer ao nível da qualidade. Estou a falar, por exemplo, na Educação, na Saúde, na Justiça e na Segurança Social.

 

Convém lembrar que metade da população portuguesa depende de apoios sociais.

 

Dados mostram que um milhão de portugueses vive uma situação de privação material severa, não tendo sequer capacidade para aquecer a casa ou para fazer face a uma despesa inesperada.

 

Por todo o lado, fecham serviços que são imprescindíveis à vida e ao bem-estar das populações.

 

Em Chaves isso acontece com uma frequência inusitada, perante a inépcia, a desistência e o conformismo do poder local.

 

O caso mais recente é o do Pólo da UTAD. O senhor presidente da câmara apenas se limitou a dizer que a culpa é de Lisboa. É pouco. É muito pouco para quem foi eleito alardeando aos quatro ventos mil e uma promessas na defesa intransigente dos interesses de todos os flavienses.

 

Esta Câmara tem pautado toda a sua atuação em conformar-se com as políticas de abandono sistemático levadas à prática pelo Governo Central.

 

Convém lembrar que foi no tempo, e no modo, deste poder autárquico que o Hospital foi mutilado, o Tribunal desqualificado e a Universidade levada pelo vento.

 

O senhor presidente da câmara de Chaves, posto perante este desastre local, apenas se revela entusiasmado com a sua pequena ilusão chamada de Eurocidade Chaves-Verin. Mas é tão zeloso do seu brinquedo que se “esqueceu”, estrategicamente, de convidar para nela participarem os concelhos do Alto Tâmega. Até nisso se revelou um político de vistas curtas e de projetos sem dimensão regional.

 

Este poder autárquico, endividado até à ponta dos cabelos, apenas faz com que as coisas pareçam acontecer.

 

Zeloso do seu domínio, e defensor da burocracia, limita-se a administrar regras e regulamentos que, invariavelmente, bloqueiam a iniciativa e minam o dinamismo.

 

A sua tensão de tentar funcionar burocraticamente para fins não burocráticos, pois a gestão de um município é muito diferente da gestão de um gabinete, é uma camisa-de-forças que tolhe todos os movimentos que aparecem impulsionados pelas diferentes forças socais e políticas.

 

Devem pensar que como a curva por vezes desce, também um dia subirá. Mas, cá para nós que conhecemos esta gente vai para muito tempo, o mais provável é que não.

 

O povo lá diz na sua sabedoria ancestral: O que torto nasce, tarde ou nunca endireita. 


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Domingo, 11 de Maio de 2014

Na feira


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Sábado, 10 de Maio de 2014

Na feira


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Sexta-feira, 9 de Maio de 2014

Na feira


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Quarta-feira, 7 de Maio de 2014

Poema Infinito (197): destino

 

Daqui vejo o mar de montanhas e as vagas sucessivas dos ramos ondulando ao sabor do vento. O verde avança. O azul avança. O amarelo avança. O navio de nuvens brilha na espuma do teu olhar. Os nossos movimentos são curvilíneos. As mães cantam o seu canto delicioso. As guerras estão agora sossegadas dentro dos livros. As palavras que hoje utilizei adormeceram há pouco. Hoje a sua vibração revelou-me novos sentidos para a vida. Os poetas glorificaram a descendência natural do big bang. E elevaram-se sem o justificar. Eu comecei a escrever o futuro com as palavras apressadas. Espero de ti as coisas principais. Sempre esperei. Em ti vibram o orgulho e os cânticos antigos. Nasci em forma de peixe e percorri muitos rios. Nasci outra vez em forma de pássaro e voei sobre muitas terras. Vivi em floresta e bebi água de muitas fontes. Ouvi as madrugadas a chorar e o tumulto das multidões embrutecidas. Guardei para sempre dentro de mim a chuva, a neve e as estrelas de maio. E também as rochas e as flores do Larouco. E o voo dos falcões nas montanhas e o canto surdo dos eremitas e a solidão dos cedros das necrópoles. Identifiquei a fé e o tempo. Pisei o solo divino da minha aldeia. E vi o globo terrestre a girar. E os seus continentes ancestrais. E também senti perto de mim o futuro e os vastos espaços que o rodeiam e os sonhos que mudam repentinamente de sítio. Observei num auditório o tempo projetado e a sucessão de homens que o perseguiam com passo firme e regular e com os rostos voltados para todos os lados. Todos os olhares se voltaram na minha direção. Desejei então circundar-te de ternura para não desaparecer. Estudei os tempos antigos e os grandes mestres. Também eu sou filho da antiguidade. E dos poetas e dos filósofos e dos artistas e dos inventores. E dos mártires. Sei agora que nada há de mais importante do que o mérito. Invadiu-me então a chama das coisas, a manifesta vigilância das formas visíveis, a satisfação da espera. Aprendi a escrever os poemas da mortalidade, a compor o cântico das circunstâncias, a dirimir as armas do descontentamento, a acariciar os rostos insaciados, a percorrer os caminhos resplandecentes, a reconhecer a geografia do teu corpo, a expressar os meus poemas como se tivessem alma e corpo e sexo. E tudo. Aprendi que o amor tem alegria e dor. E que não chora, nem se lamenta. Aprendi que nada subsiste por si mesmo, que são as estrelas que justificam a Terra, que são os homens quem justifica a religião, o amor e o ódio. A poesia insinua a infância. A poesia é o visível do invisível. Eu sou o poeta das palavras que são coisas que são palavras, do espírito que é matéria, das dúvidas que desaguam noutras dúvidas. Por isso a vida se expande como o universo. Sinto o futuro a enrolar-se à minha volta enquanto eu faço o meu passeio matinal pelo meio das nuvens. E oiço a terra e sinto a sua vigorosa altivez. Por isso escrevo o poema infinito nas suas mínimas partes porque um dia serão o todo. Como olho os objetos do universo que um dia serão o universo inteiro, quer se expanda, quer se encolha. A idade aí vem com a sua terrível beleza. A idade a meditar no seu silêncio. E eu não hesito e embarco no navio feito de livros e memórias. E rio como quem chora. Assim creio cumprir com o meu destino, que não é destino nenhum. 


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Terça-feira, 6 de Maio de 2014

Inclinações


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Segunda-feira, 5 de Maio de 2014

Pérolas e diamantes (88): o milagre português

 

Eu lembro-me. Sim, eu lembro-me do Portugal onde a autossuficiência era a regra. Uma terra de camponeses que viviam como no tempo de Jesus, o Nazareno. Camponeses que chamavam sua à aldeia isolada onde viviam e cultivavam as suas terras.

 

Era a agricultura que alimentava e sustentava a população.

 

Todos criavam o seu próprio gado. Toda a gente cultivava as suas próprias colheitas: um pouco de centeio, uns pés de milho, batatas, couves, tomates, cebolas e pimentos. E cevavam o porco. O estrume recolhido nas cortes dos animais alimentava a terra que, por sua vez, alimentava os aldeãos, que alimentavam o gado que arava a terra.

 

Lembro-me que na década de setenta, muitos transmontanos, fartos de tanta miséria, decidiram rumar a outras terras.

 

Cerca de 50% dos homens válidos emigraram, dos quais 75% trabalhavam na agricultura. Era nessa altura Trás-os-Montes a região mais pobre do país mais pobre da Europa. Passados quarenta anos voltámos ao mesmo. À pobreza e à emigração.

 

Olhando mais para trás, em cerca de oitocentos anos, podemos constatar que existiu, num momento ou outro, um estadista íntegro, um político honesto, um líder sábio ou um jurista competente e justo. Houve até políticos de valor, homens de largos horizontes, dirigentes lúcidos e generosos.

 

Segundo rezam as crónicas, alguns vice-reis da Índia regressaram de lá mais pobres do que para lá tinham ido. Mas são apenas as raras exceções que justificam a regra.

 

Nada nos seus feitos explica tanta estátua espalhada por aí ao deus dará, em rotundas, praças e jardins, tantas comemorações e tantos discursos bombásticos e vazios.

 

Em oito séculos de História, mais do que as probidades isoladas ou a benfeitoria de um ou outro governante, o que mais avultam são os crimes contra o povo. 

 

Por isso é que as várias mudanças de líderes partidários, de chefes de governo, ou mesmo de regime político, interessam cada vez menos aos portugueses. Ao longo de séculos apenas sobrou para si a pobreza e a repressão. Por isso é que aprendeu a contar apenas consigo mesmo. Por isso é que emigrou. E vai continuar a emigrar. Está farto do desdém a que sempre são votados os pobres e oprimidos.

 

J. Rentes de Carvalho, também ele emigrante, além de um excelente escritor, transcreve no seu livro Portugal – A Flor e a Foice, um excerto de C. R. Boxer, em The Portuguese Seaborne Empire, o seguinte: “Os Portugueses têm demonstrado ao longo dos séculos uma notável capacidade de sobrevivência à má governação, vinda de cima, e à indisciplina vinda de baixo.”

 

E ainda as palavras de um jesuíta italiano que fez a viagem até à Índia com uma leva de emigrantes portugueses: “É pasmoso ver a facilidade e a frequência com que os portugueses saem para a Índia. De Lisboa partem cada ano quatro ou cinco galeões cheios deles, e muitos embarcam como se não fossem muito mais longe que uma légua de Lisboa, levando consigo uma camisa, dois pães, um queijo, um boião de marmelada, e nenhuma outra provisão.”

 

Apesar da enorme distância no tempo, basta ver as fotografias dos anos setenta, ou dar uma espreitadela ao telejornal, para nos inteirarmos de que a emigração recente para os países ricos da Europa pouco difere da que nos foi relatada pelo jesuíta.

 

Mas nós somos assim. Exportamos mão de obra e, como dizia Eça de Queirós, importamos tudo: “Leis, ideias, filosofias, teorias, ciência, modas, pilhérias. Tudo nos vem em caixotes pelos paquetes.” E agora até a novíssima moda da austeridade a todo o custo. “A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas”.

 

Conta Rentes de Carvalho que nos tempos da rainha que morreu louca, D. Maria I, (“doida ninfomaníaca” minada pela religião), tinham-se projetado estradas “e o primeiro cuidado foi lavrar em Lisboa colunas monumentais para marcar as léguas. Cada marco tinha um relógio de sol; mas como, às vezes, a légua acabava à sombra, debatia-se qual era preferível: errar a medição ou ficar o relógio de sol sem luz. Por se não chegar a um resultado, deixaram de fazer-se as estradas.”

 

Tal como Oliveira Martins (História de Portugal e do Portugal Contemporâneo) e Rentes de Carvalho, também eu me admiro permanentemente com o facto de há tantos séculos serem “diminutas as mudanças de atitude do bom povo português em relação à res publica e aos que a tratam como coisa sua”.


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Domingo, 4 de Maio de 2014

Janelas


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Sábado, 3 de Maio de 2014

Fanfarra Kaustica em Montalegre


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Sexta-feira, 2 de Maio de 2014

Olhares na feira


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Quinta-feira, 1 de Maio de 2014

Poema Infinito (196): aflição

 

O menino armado em guerreiro partiu para o futuro, ele que era o amparo de sua mãe. Os outros apoderaram-se das terras. E aprenderam a beijar as mãos assassinas que lhes mataram os filhos. E cantaram alto: a loucura é a nossa pátria. Alguns homens ficaram ricos. Os outros apenas se apoderaram do assombro e quiseram ser semelhantes a Deus. Então Deus espantou-se. E os homens ricos também se espantaram. E começaram a olhar uns para os outros como se fossem desconhecidos. E também quiseram ser semelhantes a Deus para não terem de suportar a velhice dolorosa. Os homens ricos lembraram aos restantes o infortúnio e a desgraça que estavam para vir. Eles responderam que sentiam alegria no seu coração. E que apenas esperavam que os seus filhos regressassem da guerra. A maioria apenas conseguiu recuperar os seus corpos mortos. Então Deus considerou que eles eram dignos de compaixão e deixou-os chorar, como sempre faziam. Saciado o pranto, foram-se dali. A sua dor ressoava nas paredes das casas por onde passavam. Todo o desejo abandonou os seus corpos. Aflitos, deixaram sossegar as suas almas, sabendo que as lamentações de nada lhes valiam. Assim chegaram à terra divina. Aí os homens foram ensinados de que a humanidade atormenta os seus filhos, que a velhice é eterna, que os deuses são perseguidos pela desgraça. Então os homens abandonaram o campo divino e aceitaram a sua condição de sempre. E para sempre. Tornaram-se nómadas e erraram por montes e vales e viram cidades e conheceram outros povos e outros espíritos. Depois fizeram-se ao mar. E suportaram-no como puderam. E salvaram vidas. Alguns enlouqueceram. Outros ficaram insensatos. Outros viram o dia do seu regresso morrer entre as ondas. Entre eles, o menino armado em guerreiro viu o vento enfunar as velas e ouviu as ondas escarlates ressoarem em torno da proa das naus, que deslizavam sobre o mar aberto rumo ao infinito. Depois soprou uma brisa favorável e suave. E ele deslizou no sono. Lembrou-se então dos afagos de sua mãe quando estava doente, como ela se postava à cabeceira do seu pequeno leito, como lhe falava de mansinho, como lhe contava histórias de lindas deusas gregas e lhe descrevia os seus vestidos brilhantes. Recordou a forma como lhe descrevia os homens sadios e veneráveis. E lhe descrevia as auroras que despontavam lá fora. E falava-lhe do Paraíso como a morada dos deuses e de como lá tudo era seguro e eterno: os ventos eram sempre mansos, a chuva não molhava, a neve não cobria o chão e as nuvens nunca tapavam o céu. Lá tudo era abundância: nunca faltava a carne e o pão, nem o vinho nos odres ou nas cabaças. O azeite era puro. Os rios eram belos e a sua água puríssima, abundante e cristalina, capaz até de lavar a roupa mais suja do pai e de toda a família. A erva era tão doce, que a carne dos animais sabia a mel e a cardos. As pessoas banhavam-se no rio e saíam da água puras como anjos. Ungiam-se com óleo cristalino e comiam as merendas nas suas margens, sempre sorrindo, enquanto as roupas secavam com os raios de sol. Os meninos jogavam à bola, as meninas cantavam e dançavam e os deuses lançavam as suas flechas através dos montes, divertindo-se como se fossem homens bons e genuínos. Mas um dia um pequeno deus roubou uma bola de ouro a outro pequeno deus e começou então uma guerra. Isto fez com que o deus maior acordasse mal disposto e proferisse: Quem é o responsável por esta disputa? Ai de mim que são os habitantes da terra que tanto amo. Julgava-os hospitaleiros e respeitadores dos deuses. Ai deles. Assim não sendo, condeno-os a serem violentos, selvagens e injustos. Cego pela ira, o deus maior saiu de entre as nuvens e, com mão vigorosa, cortou os genitais para nunca mais. Então o menino armado em guerreiro acordou a sorrir, mesmo a tempo de ver a onda que o engolia. 


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Feira dos Sabores


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