Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2014

Vidago - Palace

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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2014

Vidago - Palace

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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2014

220 - Pérolas e diamantes: a corrupção e o BCI

 

Basta olhar à nossa volta, tanto aqui bem perto de nós como lá para os lados da capital, para nos apercebermos de que quase todos os políticos tradicionais, pertencentes ao designado Bloco Central dos Interesses (BCI), utilizam a política para seu benefício pessoal.

 

Alguns dos políticos que foram presos, ou se encontram sob investigação, pertencem a uma geração que andou sistematicamente a beneficiar grupos económicos em prejuízo dos portugueses.

 

O nosso sistema de governação tem permitido a corrupção, todos o sentimos e sabemos. José Sócrates é um dos atores mais marcantes e mediáticos, porque foi primeiro-ministro durante muitos anos. Mas desta vez teve o azar do seu lado.

 

Nas duas últimas décadas temos tido governos, maiorias governamentais e parlamentares, permissivos à corrupção. Desde logo porque a organização da nossa vida política se baseia no sentido de utilizar os recursos dos portugueses em benefício de particulares, de famílias poderosas, de grupos económicos pouco escrupulosos e dos partidos políticos essencialmente pertencentes ao BCI (PSD/PS/CDS).

 

A política é corrupta, todos o sabemos e sentimos. Mas desde que entrámos na Europa, a existência da corrupção política que se sente em Portugal cresceu exponencialmente.

 

Por exemplo, ao nível das PPP, como sugere Paulo Morais, basta dar uma vista de olhos pelo Diário da República para nos apercebermos que a legislação que lá se publicou é muito habilidosa, pois confere benefícios, de forma inaceitável, às empresas privadas. Sempre com o pressuposto de que os lucros vão para os privados e os prejuízos ficam para o Estado.

 

Quem consegue admitir um negócio que rende 30% ao ano, sem sequer correr qualquer risco, quer favorecer alguém. É isso que acontece com as famigeradas PPP.

 

Ou seja, quem produziu essa legislação não está a defender os portugueses. Taxas de 30% ao ano são completamente obscenas.

 

Por exemplo, em 2011 a função pública teve um corte nos salários de 900 milhões de euros. Curiosamente, essa foi a verba que três grupos económicos (Mota-Engil, Espírito Santo e grupo Mello) meteram nos cofres, por despacho do governo Sócrates. Prejudicaram-se três milhões de pessoas para se beneficiarem três famílias.

 

Não é por acaso que dos órgãos de administração das grandes empresas de construção fazem parte todos os políticos que estiveram ligados ao setor das obras públicas nos distintos governos do BCI (PSD/PS/CDS).

 

Sabemos que existem deputados da Nação que também exercem funções privadas relacionadas com a atividade que tutelam a nível político. Esses senhores vão para deputados com a nítida intenção de obterem informação privilegiada que beneficie os grupos económicos onde trabalham.

 

Perguntarão os estimados leitores o motivo pelo qual os nossos homens públicos não conseguem afrontar os políticos corruptos. Pela simples razão de que dependem deles.

 

Os políticos em Portugal limitam-se a desempenhar o triste papel de paus mandados ao serviço dos grandes grupos económicos.

 

Paulo Morais afirma, e com razão, que o centro do poder legislativo no nosso país, em matéria de maior relevo económico, são as sociedades de advogados, que, curiosamente, coincidem com os interesses dos grupos económicos a que estão associadas. Os governos, por incrível que pareça, apenas se têm limitado a serem correias de transmissão dos grandes grupos económicos.

 

Depois é triste assistir a António Costa, líder do PS, vir para os órgãos de comunicação afirmar que devemos deixar para a política aquilo que é da política e para a justiça aquilo que é da justiça, opinar sobre futebol e taxas de dormida em Lisboa, mas quanto ao argumento substantivo da corrupção política não conseguir afirmar que ela tem tudo a ver com a política e muito pouco com a justiça.

 

A corrupção política em democracia apenas se consegue combater com uma mudança política. Não existe outro caminho. Daí ser necessário, e urgente, mudar o nosso paradigma de representação parlamentar. Para isso têm de surgir novos partidos constituídos e dirigidos por pessoas impolutas e acima de qualquer suspeita. Não existe outra solução credível.

 

PS - Mais uma vez, e para que os flavienses não fiquem com a impressão, incorreta por certo, de que o acordo estabelecido entre o PSD de António Cabeleira e o vereador eleito em nome do MAI, não foi a derradeira tentativa para que a prometida, e devida, auditoria externa às contas da CMC não vingasse, aqui fica mais uma vez o nosso apelo ao senhor presidente da autarquia flaviense, e aos seus distintos vereadores, para que, em nome da transparência e do bom nome da Câmara de Chaves, aprovem uma auditoria externa às contas da CMC. Passaríamos todos, de certeza, a dormir um pouco mais tranquilos. Só um pouquinho, mas, mesmo assim, já era qualquer coisa.

 

PS 2 – E, também em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior, da qual foi insigne presidente, até 2013, o risonho vereador João Neves (ex-MAI e atualmente do PSD), pois quem não deve não teme; certos de que aquele que tão insistentemente reivindicou, durante toda a campanha eleitoral, uma auditoria às contas da CMC, com toda a certeza verá com bons olhos e até enaltecerá fervorosamente, uma auditoria realizada às contas do seu íntegro mandato.


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Domingo, 28 de Dezembro de 2014

Em Versalhes

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Sábado, 27 de Dezembro de 2014

Em Versalhes

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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2014

Em Versalhes

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Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2014

Poema Infinito (230): o poeta e as crianças

 

O que será da criatura sem o seu criador? Os homens não são apenas protocolos animais. Possuem a gramática expositiva da Terra. Tudo se mancha de verde. As aves ficam fortes. A madrugada vem em intervalos, presa nas gotas de orvalho. Os líquenes e o musgo espalham-se pelo meio das árvores que adivinham o tempo. Eis que chega o encantador de palavras. Ninguém o reconhece, porque já comeu muita tristeza. Nos aquários os peixes mergulham na sua solidão. O amor lava as pedras. Os pássaros governam os seus poleiros construídos nas árvores. Os homens desviam os seus olhos do luar. Escorre deles todo o silêncio acumulado. O poeta continua com o seu rosto assombrado pelo uso doméstico. Os corpos principiam a arder como se quisessem destruir o amor. Em cima do muro, os meninos assobiam raios de sol. As folhas caem sobre os telhados das casas, sobre o rio, sobre o silêncio. Os profetas escoram as suas dúvidas utilizando o tempo. As pessoas voltam a ser indícios, por isso saem de dentro delas e constroem as suas casas com pilares e vigas de esperança. Cada coisa possui o seu préstimo intrínseco. Tudo nos leva a coisa nenhuma. As pessoas sem importância sobem a escada da poesia e repõem as palavras no seu devido lugar. Depois escondem-se atrás delas, como se tivessem vergonha do ato que praticaram. As crianças começam a entender os jardins, a musicalidade das ruas, a transparência dos livros. De tarde, desenterram os sonhos, agitam-nos e acendem as estrelas com um simples olhar. As janelas abrem-se para deixarem entrar as borboletas. O poeta transforma-se numa concha e pensa que a poesia é a loucura desencadeada pelas palavras. As estrelas sobem aos corpos das borboletas e viajam pelos montes. Os meninos são agora desenhos de pássaros que enfiam nos seus bolsos o rio da aldeia. O rio desagua neles. Começa a chover palavras. O poeta viaja na sua madrugada branca. Transporta a aldeia dentro dos olhos. As crianças procuram, com as suas mãos pequenas, coisas para as suas coleções. Dentro das árvores nascem as vozes dos poetas. As crianças abrem os seus rostos e deitam-se no musgo. Os líquenes invadem as bocas em destruição dos sábios. O poeta atrasa o seu relógio do tempo. O sol engravida as borboletas. Os pássaros adquirem a transparência das águas do rio. Os peixes ficam com as escamas transformadas em pétalas. O poeta arruma o tempo em prateleiras. A boca dos poderosos enche-se de ruínas. Ali está Deus parado há mil anos sentado no seu trono de mil pedras infinitamente nuas e frias. Os seus profetas vivem de tudo aquilo que desiste. São como insetos de máscaras claras. A solidão tem o seu rosto. O poeta aprecia as árvores e o som que o vento produz nelas. As palavras atacam-no como se fossem febre. As suas mãos transformam-se em nuvens. Os seus sonhos são como lagartixas de rabo cortado. Os seus poemas transformam-se em utensílios inúteis. São como janelas abertas para o nada. As borboletas morrem de encontro ao verde. O poeta aprende que para o ser necessita sempre de passear no chão. O seu rosto adquiriu a forma das raízes que inventam as crianças.


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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2014

Curiosidade

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Terça-feira, 23 de Dezembro de 2014

Em Versalhes

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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

Três continhos para o Natal + 1 de bónus

 

1 - Estrelinha imaginária

 

Alguém saltou o muro da escola e ficou a olhar para o céu, estupefacto. Uma estrelinha imaginária começou a crescer na testa da menina. Um pouco mais atrás uma criatura alada cantarolou um cântico litúrgico. Soprava uma ligeira brisa quando a águia se lançou voraz sobre o coelho companheiro da Alice no País das Maravilhas. O Gato das Botas começou a tocar a flauta do Flautista de Hamelin e levou todos os ratos para a sua herdade. Agora engorda-os e vende-os já mortos para uma cadeia de supermercados devidamente embalados e congelados. Branca de Neve divorciou-se do Príncipe Desencantado e voltou para os seus anões. Afinal, tirando a altura, os anões são homens como os outros. Têm tudo o que é necessário e no devido sítio. Desculpem o desabafo. A menina das trancinhas de prata transformou-se em Catwoman e foi passear pelos céus de Lisboa. O Malhadinhas voltou à sua terra natal, comprou um carro desportivo e joga videogames. O Cantiflas aceitou o papel de super-homem e fez uma revolução em Cuba. Fidel Castro chorou de riso. Soprava uma ligeira brisa no Malecón quando um anjo bom levou a alma do ditador cubano para o céu. Logo de seguida, Charlie Brown anunciou ao povo cubano que era livre. Decididamente, o Snoopy anda a tomar alguma substância alucinogénia.

 

2 -Foda-se Pai Natal

 

Foda-se, Pai Natal, repito, e restante família. Acabaram-se os postais de Boas-Festas. Essa era já a minha vontade desde há muito tempo, mas não a podia exprimir assim tão abertamente. Eu já tenho tudo aquilo o que posso ter. Até tenho um blog. Só não tenho o que mais quero. Que são as estrelas no meu bolso para as dar à Luzia. E foi isso sempre o que eu mais quis. Dar-lhe estrelas. E também dar as estrelas e os planetas ao Vasco e ao Axel. E oferecer, desembrulhadas, as constelações mais longínquas ao meu pai e à minha mãe, que já não posso ver, mas de quem sinto imensa falta. E recompensar os cantos de trigo e os rebuçados que a minha avó me deu pondo-se no teu lugar quando a abandonaste num Natal longínquo de 1966. Foda-se Pai Natal. Desculpa Pai Natal. Eu sempre pensei que não existias, mas agora sei que existes e que és uma grande merda. Simbolicamente, claro. E isso é muito pior do que se verdadeiramente não existisses. Transformaram-te em realidade, uma dura, crua e sinistra realidade. Uma obsessão. Uma conspiração contra os sentimentos, contra a beleza, contra a fraternidade. Contra a simplicidade das sensações mais íntimas e mais puras. Tu és só presentes. Tu és só presente. E os ausentes? Hã? E os ausentes? Onde estão os ausentes? Só cintilas com dinheiro. Só sorris no meio do desperdício e da futilidade. Só ajudas os que têm. Só iludes os que não são capazes de sonhar. E os ausentes, que tanta falta me fazem, onde estão? Foda-se, Pai Natal, deixaste que te transformassem num velho de barbas branquinhas todo vestido de vermelho. E, ainda por cima, gordo. Muito gordo. E que se ri como um comentarista de rádio que dá peidos sonoros, roucos, untuosos e vernáculos. Foda-se, Pai Natal, dás pena. Apetece mesmo dar-te com o pinheirinho artificial nas trombas e depois pôr-te à geada, enrolado em luzinhas intermitentes. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar.

 

3 - Fugir

 

Meia-noite e há silêncio nas ruas. A festa é só amanhã, mas eu prefiro ir-me embora já hoje. Eu não gosto de festas. São manifestações pouco adequadas à minha maneira de ser. O convívio dá-me urticária e também me provoca tonturas e espasmos maniqueístas. Nas festas, ao contrário das outras pessoas, fico irascível, mal disposto, nervoso e começam-me a piscar os olhos sem sentido. Mas é sobretudo o barulho, aquilo que mais me perturba. E não há festa sem barulho. E eu não posso com o barulho. Assusta-me. Portanto, quando há festa no meu bairro fujo para a minha aldeia e ali passo dois dias desprezíveis mas sem dores de cabeça. E isso basta-me. Lá estabilizo as minhas preocupações existenciais. Sobretudo vivo de pequenas, mas preciosas, recordações. O olhar da minha avó. O cantar da minha tia. O choro da minha irmã. O vento assobiando nos ramos das árvores. O sol iluminando a igreja. A chuva regando os campos. A sombra deslizando na tarde. O paciente correr do rio. Os animais regressando dos lameiros ou do trabalho. Os homens e as mulheres cantando enquanto regam o jericó. O lento crepitar da lareira. O subtil e paciente ferver do caldo. O cozer das batatas no pote. O estrugir do arroz de tomate na panela. O simpático bater dos vizinhos na porta da cozinha. O vinho bebido pela caneca. No fim do dia adormeço sonhando com o impossível regresso ao passado.

 

Bonús – Tudo me lembra

 

Tenho saudades infinitas do som da chuva quando batia no zinco da parede de minha casa em noites frias e turbulentas de Inverno. Tenho infinitas saudades desse período mágico em que aprendia a sonhar com o lento cinzelar do tempo na cara da minha avó.
Tenho ainda infinitas saudades da luz clara do amanhecer em alvoradas inundadas de neve e frio. Tenho eternas saudades de pisar a neve dos caminhos pela primeira vez.
Tudo me lembra: os sons do vento, o gemido dos gatos, o ladrar monótono dos cães, o cantar das almas do purgatório, a conversa dos gigantes do Larouco, a agitação frenética das folhas mortas dos carvalhos, o tilintar das moedas no bolso do meu pai, o fumo a sair das chaminés tristes, o chorar das crianças desalentadas, o piar dos mochos, o brilho das geadas, a lareira a arder, a agitação do vento gelado fustigando as ovelhas, as palavras repetidas das missas de domingo, as brincadeiras em torno de um banco ou em cima de uma árvore, as nuvens a fugir no céu, o brilho das estrelas cadentes, o cheiro do feno, o cantar dos grilos nas tocas, os voos noturnos das bruxas, o grito aflitivo dos dementes, o sorriso discreto das vacas, o rastejar das cobras e dos lagartos, a água a correr nas pedras do castelo, o colher do musgo para o presépio, o corte picante dos ramos de azevinho, a água a ferver nos potes, o torrar do pão ao lume, a matança do porco, a leitura de histórias nas manhãs gloriosas de domingo, o sorriso apaziguador de minha mãe, o meu pai, o meu pai, o meu pai, e as minhas irmãs, e os meus amigos.


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Domingo, 21 de Dezembro de 2014

O ilusionista

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Sábado, 20 de Dezembro de 2014

No barroso

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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Com o rebanho no barroso

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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

Poema Infinito (229): o algoritmo da inspiração

 

Leio o mundo com a enigmática sensação do desânimo. De um lado tudo está escrito, do outro tudo está por escrever. Sofremos com a ausência do que é concreto. A realidade é um objeto separado de nós. As ideias sofrem o reflexo do isolamento, como se fossem objetos sem corpo. As palavras isolam-se e repetem-se como se fossem gestos que se fixam e projetam. A sobriedade azul do céu desce sobre a tarde dolorosa. As aves partem. As aves quebram-se como se fossem arquipélagos da insónia. O horizonte transformou-se num parágrafo longo. Tu dizes-me que existes por entre a curvatura das nuvens. Desse modo, a intimidade fica abstrata. Eu sei que surgi do nada e que a ele regressarei. Quando to lembro, os teus olhos transformam-se em lagos. Amanhece. O dia começa a dissipar o desespero das montanhas. A ideia da terra enlouquece o camponês. O meu desejo é trágico. Alguém altera a direção dos ventos e a melancolia da luz. Os sentidos evoluem até se transformarem em sons. As múltiplas zonas do tempo estabelecem os espaços poéticos. A voz desesperada das fêmeas incita ao exorcismo do desejo. É outro o pecado original. É outra a origem do mal. Escrevo um novo livro sobre o dialeto dos gestos, sobre o peso das palavras, sobre a evocação íntima das imagens. A realidade pendura-se em cima das formas visíveis. A estupefação dissemina-se pela superfície imóvel dos homens. São agora visíveis as invisíveis bocas metálicas dos deuses. A intuição induz o poeta à comoção das palavras. O tempo transforma-se numa tonalidade vertiginosa. A expectativa continua a ser a do sofrimento. O excesso de emoção desenha-nos o itinerário dos sentimentos. O teu rosto vai para longe. As convicções são cada vez mais temporais. A vida continua a ser estranha, apesar de simples. O sonho transforma-se em violência. Um obscuro desejo de transformação toma conta de mim. O espaço fica móvel como se fosse uma serpente. O chão fica instável. Nenhuma culpa me perturba o espírito. Os profetas transformam-se em representantes ventríloquos de Deus. A cidade ficou mais estreita. Nela trabalham agora os anjos construindo edifícios carregados de superstição, mesmo sabendo que os homens que a habitam suportam a divina pulsão da destruição. Deus criou-os loucos, capazes de crer em espíritos equívocos, aptos a conciliarem todos os mistérios com a duvidosa vontade da clarificação. Capazes, também, de evocarem as lendas e fundi-las com a razão. As profecias dos livros são o seu destino. Dizem que os horizontes ficaram irracionais porque se obstinaram em difundir os seus presságios de luz e agnosticismo. Preocupamo-nos com a exatidão dos sentimentos, com as evidências da memória, com a complexidade dos espíritos, com o olhar louco das esfinges, com o sistema algorítmico da diversidade, com a compreensão iluminada dos amantes, com a ressurreição dos mitos, com o princípio cego das circunstâncias, com o medo do efémero, com a fragilidade acidental das imagens. Preocupamo-nos ainda com as metáforas proibidas da incerteza, com a efémera eternidade de Deus, com o tempo previsível da nostalgia, com a compreensão salvífica dos sonhos, com a eternidade da degradação, com a cruel mitologia da religião, com o paradigma da morte, com a vulnerabilidade das palavras solitárias e com o pressentimento luminoso dos nossos rostos. Finalmente, a natureza mistura-se insolitamente com o mundo. A transcendência é o princípio fundamental da verdade.


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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014

Ovelhas no barroso

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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2014

Em barroso

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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2014

219 - Pérolas e diamantes: o BCI e a Alternativa

 

A carga dos impostos atingiu em Portugal níveis de autêntica extorsão, protegida por lei. Quer o poder central, quer o poder local, não se cansam de continuar a carregar as pessoas com taxas e taxinhas para todos os gostos e feitios. Num lado somos taxados como contribuintes, noutros apelidam-nos de munícipes. Mas no final vai tudo dar ao mesmo. O desgraçado do português chega ao final do mês com muito menos dinheiro.

 

Feitas as contas, apurou-se que entre o primeiro dia do ano e o dia 6 de junho subsequente, cada português trabalha única e exclusivamente para pagar impostos. Isto no que diz respeito à denominada carga fiscal, constituída pelos impostos pagos obrigatoriamente ao Estado e os descontos relativos à Segurança Social.

 

As taxas e taxinhas não estão englobadas nestas estatísticas. Qualquer dia a nossa autarquia começa a exigir-nos o pagamento de uma taxinha pelo ar que respiramos e uma taxa pela utilização dos passeios, caminhos e estradas. Isto é se já não as pagamos de forma encapotada, que é o mais provável.

 

A ironia de tudo isto é que três anos de sacrifícios brutais, feitos de forma metódica e planeada pelo governo do PSD/CDS, obedecendo a uma ideologia neoliberal pura e dura, destruíram a maior parte do tecido económico português e não produziram, afinal, resultados minimamente satisfatórios e duradouros.

 

Para explicar melhor aquilo de que falo, vou recorrer às palavras de Marco António Costa, vice-presidente e porta-voz do PSD.

 

Numa entrevista ao DN, relativamente ao emprego, o senhor, com a eloquência que o carateriza, afirmou que “a verdade é que foram criados 160 mil postos de trabalho no último ano”. O jornalista, atento, perguntou-lhe a seguir: “E quantos foram destruídos: «Foram destruídos muitos mais…» ”

 

Os políticos lusos são mesmo assim, por isso é que muitos deles estão atualmente às turras com a Justiça em casos de fuga ao fisco, branqueamento de capitais e corrupção. Enquanto outros não se atrevem a auditar externamente as contas da sua gestão autárquica.

 

Afinal para que raio serviram estes três anos de devastação?

 

Os portugueses começam a estar mais do que fartos deste sistema político capturado pelo Bloco Central dos Interesses (BCI), constituído pelo CDS/PSD/PS. No fundo são eles os principais culpados pela corrupção que assola o sistema democrático e republicano português, crise que explica a insatisfação com o regime. O que é verdadeiramente preocupante.

 

A insatisfação com o sistema político é consequência da impotência política dos governos face à crise económica e social.

 

Todos assistimos impotentes e desiludidos à debilidade da nossa democracia. É urgente que as nossas opções individuais de voto se concentrem em novas formações partidárias constituídas por pessoas impolutas e visceralmente honestas.

 

É urgente acabar com este triângulo vicioso. Se não, como o provam os últimos acontecimentos mediáticos, esta gente acaba com o país.

 

PS – Diz o filósofo que não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir. Mas nós ainda acreditamos que o político sério e honrado, tudo faz, para que as contas públicas sejam transparentes.

 

Por isso mesmo renovamos o apelo ao senhor presidente António Cabeleira, e aos seus distintos vereadores, João Neves incluído por inteiro, para que aprovem uma auditoria externa às contas da autarquia.

 

É que o buraco da dívida camarária é de tal dimensão que tememos que nos arraste a todos para dentro dele e nos devore.

 

Além disso quem não deve não teme e à mulher de César… o senhor presidente sabe, com toda a certeza, o resto do refrão.

 

Assim o saiba rematar, não apenas com as palavras, mas, sobretudo, com a ação.

 

PS 2 – E, já agora senhor presidente, também em nome da transparência, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior, da qual foi digno presidente, até 2013, o gracioso vereador João Neves (ex-MAI e atualmente do PSD), pois quem não deve não teme; certos de que aquele que tão entusiasticamente reivindicou, durante toda a campanha eleitoral, uma auditoria às contas da Câmara de Chaves, com toda a convicção verá com bons olhos, e até aclamará fervorosamente, uma auditoria realizada às contas do seu honrado mandato.


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Sábado, 13 de Dezembro de 2014

Sorrisos

Lumbudus - Douro - Out. 2014 134 - Cópia.JPG

 


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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2014

Em Tourém

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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2014

Poema Infinito (228): levitações

 

Toda a vontade é criadora. Os frutos maduros são uma triste novidade todos os anos. Varejaste-me como a uma árvore repleta de frutos. Recolheste-me os instantes. As tulhas estão repletas de tempo e centeio. A beleza apodrece. A alegria táctil corre por nós como um rio pela montanha abaixo. Esse rio não vai desaguar a nenhum mar. O seu destino é fazer desenhos na areia. Lembro-me de sairmos à rua para semear atitudes. Atirávamos a imagem dos nossos corpos contra os espelhos das janelas. Os dias não tinham cancelas. Mas as casas tinham olhos. E espaços vazios. E intimidades. Hoje passa por nós a inquietação. A solidão alivia-se em nós. Nas nossas veias sossega o frio. Os olhos revelam inscrições perturbadoras. A povoação parece um girassol aberto. O meu coração sossega com o ar fresco que tudo purifica. O ar que se respira fica tão audível como o silêncio dos cenários naturais que nos envolvem. Olhar para ti torna a presença do céu desnecessária. A eternidade acusa o tempo de supérfluo. A perplexidade cresce nos meus olhos, como se eu recusasse a tua inquietação. Nenhum poeta nega os berços de espuma da linguagem. Molho as palavras no mar da alquimia. A carne fica incandescente com o desejo e com a emoção de te possuir. Cá de cima, observamos o lago e o seu fundo transparente. Os profetas continuam a lançar setas de fé e a acender os círios ao pé dos corpos amortalhados. Os deuses inimigos travam entre si as batalhas de sempre. Todos querem conquistar o mundo e as suas almas delirantes. Descobrem no triunfo a trágica ironia da decadência. A terra é sedutora e o céu já lhes está a ficar pequeno para tanto anjo. O mundo já não procura orações, mas poemas. Já não tem salvação. Debruçamo-nos na janela do silêncio a ver passar o tempo. A procissão deu a volta ao adro. Recordamos o esquecimento e a doçura das linhas do rosto das mães. Adivinho e compreendo os teus sinais de luz: a aproximação do desejo, os sonhos exaustos, a claridade densa do amanhecer. A nudez suspende-se na noite. O sexo é outra encarnação. Daí o gosto de pecar e a volúpia do arrependimento. A distância da separação torna-se agressiva. Por isso é que os homens invejam os deuses e os deuses desejam os homens. Por isso é que os deuses arrefecem os beijos e fazem resfriar o sangue e transformam as carícias em protestos e envilecem todos os gestos de amor. Prendo-te dentro do labirinto dos meus braços. No seu interior, o tempo caminha e descaminha, anda para a frente e para trás. Fica em pânico. Lá fora o sol ilude-se com as linhas do mundo. Ardo dentro de ti e choro lágrimas de fogo e tranquilidade. O que o infinito lê, o desengano enfeita. Os espíritos olham os caminhos, as fontes, as sementes e os campos e abrem-se como se fossem úteros vegetais. Os homens levitam. Os animais que apascentam levitam. Levitam as pedras e os poemas do assombro e dos milagres, que são como as folhas coloridas de outono. Acende-se a saudade dos rios, a angústia balança-se entre as suas margens, as horas ficam obstinadas como se fossem papiros antigos. As asas das aves pertencem a uma outra vida. O seu motivo mais forte reside na sua ânsia pelas despedidas. O céu debruça-se sobre o mar e ambos se fundem no azul que os absorve. Por detrás da verdade está sempre outra verdade. Lágrimas furtivas caem-nos dos olhos. A felicidade é instantânea como uma imagem viva. 


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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2014

Observando

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Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014

Pitões das Júnias

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Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2014

218 - Pérolas e diamantes: deixem a Justiça funcionar

 

Já fui muito de esquerda, moderadamente de esquerda, agora sou apenas um agnóstico que acredita na propriedade privada e nas forças do mercado. Mas considero essencial diminuir as desigualdades do capitalismo e colocar a riqueza nacional ao serviço do interesse geral e da comunidade.

 

Tudo isto vem a propósito de como durante a vida nos vamos iludindo, e sobretudo desiludindo, com a política e os políticos. Alguns dos quais atualmente estão presos, mas a grande maioria continua impune e em liberdade.

.

Depois do rápido arquivamento do inquérito a Pedro Passos Coelho relativo à Tecnoforma, da demissão de Miguel Macedo por razões mal explicadas e de o caso dos submarinos continuar submerso em águas profundas, surgiu de repente o caso do eng. Sócrates, agora mais conhecido pelo preso nº44.

 

Parece que Portugal possui instituições que funcionam, onde o poder judicial é independente do poder executivo e onde a investigação é levada até ao fim.

 

Duarte Lima foi condenado a 10 anos de cadeia.

 

E Sócrates?

 

Antes de mais nada, permitam-me que diga aquilo que penso sobre a atividade política do senhor. É evidente que a ele se deve boa parte da modernização de Portugal, sobretudo ao nível das infraestruturas, mas também a agilização da administração pública, a aposta séria na educação, o incremento da investigação científica e a implementação vanguardista da energia sustentável. 

 

Até aí acompanhei-o. Depois instalou-se a incerteza. Começaram a surgir sinais evidentes de que a nossa dívida revelava um caráter exponencial de endividamento, que o défice estava fora de controlo e que os contratos de PPP’s eram ruinosos, pois pagavam-se por eles rendas excessivas. Além de que era notória a apropriação do aparelho do Estado por parte dos boys do PS. Surgiram então anúncios de projetos públicos megalómanos e de utilidade duvidosa.

 

Foi a partir de 2008 que a derrocada começou. Uma coisa não consigo perdoar ao ex-primeiro-ministro: o ter-me mentido. A mim e a todos os portugueses. Entre 2009 e 2011, quando Portugal já se estava a afundar, como o Titanic, José Sócrates, com aquele seu arzinho seráfico, veio para os órgãos de comunicação social espalhar a mentira de que tudo estava bem. 

 

Agora está detido por suspeita dos crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção.

 

Claro que merece a presunção de inocência. Mas não devemos esquecer que os magistrados do Ministério Publico, que lideraram a longa investigação, e o juiz que decretou a sua prisão preventiva, também merecem a confiança de que estão a agir de forma rigorosa, séria e competente.

 

Claro que muitos dos socialistas, liderados por Mário Soares, vieram logo para a praça pública afirmarem a inocência de Sócrates e que o que lhe estavam a fazer era uma infâmia. Que merecia outro tipo de tratamento.

 

Ora vamos lá a ver se nos entendemos: não podemos andar a exigir que a justiça funcione igual para todos e depois, quando alguém influente ou poderoso é detido, sobretudo se pertencer ao “nosso” partido, passarmos a desconfiar da atuação dos juízes e magistrados.

 

Chegou mesmo a ouvir-se a políticos da cor partidária de José Sócrates defenderem que a atuação da justiça coloca o regime em causa.

 

Mas não é disso que se trata. O que põe o regime democrático em causa não é a atuação dos magistrados e dos juízes, é antes a incapacidade das lideranças partidárias conseguirem separar a vida privada da sua atuação pública, misturando vida profissional com vida política, e esta com os negócios.

 

Muitas das pessoas que estão hoje na política – e eu conheço bastantes –, sobrepõem as amizades pessoais e as conveniências individuais, ao interesse público que dizem defender.

 

É aqui onde reside a principal explicação para a podridão que alastra nos partidos do poder.

 

Agora todos temos de dar razão a António José Seguro quando fez questão em se distanciar da governação do seu camarada de partido José Sócrates. Afinal estava do lado certo da História. E as suas palavras, proferidas em julho de 2014, soam a algo de premonitório: “O País tem zonas de podridão. É preciso retirar o lixo porque, por baixo, existe um País e uma gente fantástica.”

 

Se o ex-primeiro-ministro José Sócrates for considerado culpado dos crimes graves de que o acusam é, sem sombra de dúvida, um dos maiores génios da dissimulação e do embuste.

 

 

 

PS – Diz o filósofo que o irresponsável também trabalha contra si mesmo.

 

Porque sabemos que nem o senhor presidente da Câmara de Chaves, nem os 3 vereadores do PSD, e muito menos o trio de vereadores do PS, trabalham para aquecer, e muito menos contra si mesmos, vimos mais uma vez solicitar a vossas excelências a aprovação de uma auditoria externa às contas da nossa autarquia, pois quem não deve não teme e à mulher de César… etc.

 

PS 2 – E, também em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior, da qual foi insigne presidente, até 2013, o risonho vereador João Neves (ex-MAI e atualmente do PSD), pois quem não deve não teme; certos de que aquele que tão insistentemente reivindicou, durante toda a campanha eleitoral, uma auditoria às contas da CMC, com toda a certeza verá com bons olhos, e até enaltecerá fervorosamente, uma auditoria realizada às contas do seu íntegro mandato.


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Domingo, 7 de Dezembro de 2014

Poesia e hortaliça

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Sábado, 6 de Dezembro de 2014

Carvalhos e lameiros

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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014

Espaço

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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2014

Poema Infinito (227): a exata plenitude do abandono

 

O tempo calou-se definitivamente nas paredes da casa velha. O tempo cumpriu a sua tarefa: tornou-se leve como o destino. Os olivais presos nas colinas começam a descorar com os anos. A música das cigarras foi engolida pelo pó e pelo abandono. As mulheres já não se debruçam sobre a água para lavar a roupa. O seu sorrido desordenou-se e desapareceu. A sua memória é ténue e amargurada. Todas as maravilhas sonhadas eram improváveis. Apenas o abandono está presente na sua exata plenitude. O espaço da desilusão permanece intacto. O sol derrama-se no chão. Os poucos turistas, inacreditavelmente portentosos, atropelam a calma cerimoniosa da aldeia. O chão está morno e silencioso. Os velhos dilatam-se pelo espaço como embaixadores demitidos. Todas as janelas que dão para os jardins estão fechadas. Só os pardais avançam aos saltos com a sua tranquila segurança da brevidade da vida. O abandono é o proprietário sem rival dos lugares. Os aldeões olham os turistas com a sua altaneira indiferença e sorriem para dentro. Todos são peritos na teoria energética das reverências, das ordens e das súplicas. A sua vontade é o esquecimento. Foram vítimas de tortuosos amores e desamores. Zelam pelo sossego do seu passado suprimido. As suas sombras são severas. Os seus gestos autoritários. São como as sentinelas pálidas do purgatório. A sua vida continua ácida e insignificante como sempre foi. Todos conseguiram atingir a dourada plenitude do desaparecimento aleatório. Resgataram todos os dias da sua existência. Algumas mulheres lavam o caminho do cemitério e da igreja. O verão cheira a húmus e a desintegração. O velhote mais velho conta a um turista a história de um amigo que lhe morreu nos braços quando foi atingido por um guarda, no tempo do volfrâmio. Ao turista nasce-lhe uma aura de prazer e de júbilo. Outro turista fotografa-o desprendendo palavras de agradecimento. Outro, ainda, enumera as virtudes dos sorrisos. Afirma que as rugas são as dádivas generosas dos anos. As paredes das casas exibem sem vergonha a sua nudez rigorosa. As ruas estão cheias de chagas. As suas pedras irregulares e gastas expõem e celebram a sua história. São como guerreiros mudos e anónimos. Das guerras regressa-se sempre cansado e carregado de medos e memórias. Tudo passa a fazer parte da loucura: as noites ensurdecedoras, os caminhos carregados de pânico, a vertigem do medo, a ira da morte, o sangue que escorre pelo chão, as manhãs carregadas de infortúnio. Depois sobrevém a saudade: os dias perfumados pelas macieiras, as vozes das mulheres que desciam até ao rio para lavarem as suas roupas e para se banharem nas águas frescas, o vapor que subia dos potes, o cheiro a cordeiro assado, o odor das especiarias e das ervas de cheiro, o sol inclinado na pele mimosa das raparigas, o jubiloso cantar das cigarras, o anúncio do fim dos combates e a retirada dos indecorosos sitiantes. E assim, a um ano outro ano sucede e na húmida penumbra das casas em ruínas da aldeia, as paredes de granito intemporal oxidam-se com os líquenes que nelas desenham estranhas e indecifráveis linhas. Em todas as terras existe este mesmo céu exibindo o signo do perpétuo esquecimento. A sua eterna vocação, e evocação, é o nada. Alheias a tudo isto, as ovelhas e as vacas pastam nos lameiros. O último turista tira a derradeira fotografia e sorri para o último habitante da aldeia que já se sente junto aos seus amigos mexicanos de Comala.


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Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014

Luz

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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014

Gestos

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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2014

217 - Pérolas e diamantes: recuperar a Esperança

 

Não me sai da cabeça uma frase de António Pires de Lima, o cínico entertainer parlamentar, e também gerente do Ministério da Economia, pois não consigo perceber se ela é uma habilidade semântica ou uma rematada imbecilidade. Na dúvida, aqui a deixo inteirinha para que os estimados leitores possam decidir naquilo em que eu fui manifestamente incompetente.   Ei-la, a tal pérola: “A recuperação do investimento é como «ketchup» e golos do Ronaldo: quando começa ela vem em golpes mais fortes.”

 

Cá para mim, isto tem tudo a ver com o clima eleitoral que se aproxima. Ninguém sabe ao certo qual a margem de manobra para o PSD e o CDS cumprirem as promessas que vão fazendo e com as que se preparam para fazer. Mas mais legítimo é perguntar sobre qual o nível de credibilidade do PS para cumprir as promessas que anda a proclamar, como os feirantes dos Santos. 

 

Cá para nós, que os conhecemos há muito tempo, a resposta é simples: a margem de manobra é nula. E quem tiver dúvidas, é favor consultar o último relatório de avaliação da Troika.

 

Os partidos tradicionais são constituídos por uma maioria de pessoas medíocres que apenas raciocinam na lógica da salvaguardada dos seus próprios interesses.  O caso mais paradigmático, e recente, é o do ex-primeiro-ministro José Sócrates.

 

Enquanto cidadãos, na velha tradição democrática e republicana, todos os portugueses se devem sentir sinceramente lesados pela forma como o país tem sido gerido nas últimas décadas.

 

Vivemos na lógica do salve-se quem puder.

 

Quarenta anos desta nossa democracia partidocrática, baseada no poder exercido invariavelmente pelo PSD, CDS e PS, levou-nos a tocar o fundo.

 

O resultado está aí à vista de todos: um Estado falido; empresas com maioria de capital estrangeiro defendendo os interesses de terceiros; e uma dívida que nos asfixia a todos.

 

Portugal é já um Estado insolvente, desacreditado e abúlico.

 

A modernização visível assenta em infraestruturas de discutível pertinência, feitas à custa de empréstimos externos, e não da criação de riqueza interna, que nos estão a custar os olhos da cara.

 

Mas, pior do que isso, é que no interior do sistema, cresceu, e prolifera, um mundo de cumplicidades entre o Estado e o mundo dos negócios, que tolhe qualquer réstia de esperança.

 

É evidente que a insolvência do Estado advém da nossa indigência cultural e moral. E de estadistas do calibre de Dias Loureiro ou José Sócrates.

 

O PSD e o PS, para já não falar do CDS, possuem o mesmo tipo de discurso porque, bem vistas as coisas, alimentam-se da mesma dependência da máquina do Estado. Daí o facto de o discurso político nacional ter estagnado.

 

É urgente, e necessário, o ressurgimento de uma terceira alternativa. Uma alternativa séria, competente e independente.

 

No fundo, Portugal continua a ser o mesmo que o retratado em 1871, por Eça de Queirós: 1 - “O país perdeu a inteligência e a consciência moral.” 2 – “A prática de vida tem por única direção a conveniência. “ 3 – “Não há princípio que não seja desmentido.” 4 – “Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.” 5 – “Alguns agiotas felizes exploram.” 6 – “O Estado é considerado, na sua ação fiscal, como um ladrão e tratado como um inimigo.” 7 – “O país está perdido.”

 

Não sabemos se o país está perdido. Mas uma coisa intuímos: é fundamental que apareça algo de novo que nos dê esperança, com outros intérpretes, com nova postura, com diferente cultura, com distinta ética. Com outra moral.

 

 PS – Para que os vereadores do PS da CMC também se ponham de acordo quanto à sua verdadeira posição relativamente ao pedido de auditoria externa às contas da CMC – até porque não é bonito atirar um calhau ao (ex-) vereador do MAI e esconder a mão relativamente à posição de um seu vereador que, num primeiro escrutínio votou favoravelmente a realização de uma auditoria externa às contas da autarquia flaviense, para depois, numa segunda fase, dar o dito por não dito, e votar em sentido inverso –, vimos por este meio solicitar mais uma vez ao senhor presidente António Cabeleira, que, pelos vistos sofre de surdez crónica, e aos seus distintos vereadores, que tenham a coragem de assumir a necessidade de uma auditoria externa às contas da autarquia. Pois quem não deve não teme e à mulher de César… etc.

 

 PS 2 – E, também em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior, da qual foi insigne presidente, até 2013, o risonho vereador João Neves (ex-MAI e atualmente do PSD), pois quem não deve não teme; certos de que aquele que tão insistentemente reivindicou, durante toda a campanha eleitoral, uma auditoria às contas da CMC, com toda a certeza verá com bons olhos, e até enaltecerá fervorosamente, uma auditoria realizada às contas do seu íntegro mandato.


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