Quinta-feira, 30 de Abril de 2015

Poema Infinito (248): a sombra e a luz

 

 

De noite os pássaros transformam-se em medo e a adolescência regressa por momentos como se fosse a pele morta de uma cobra atravessada pela memória. Durmo em cima do sossego e da inquietação. Os espelhos sinalizam a vida. Sinto o profundo medo de te perder. Sou como um veleiro que começa a perder as madrugadas, onde apenas o vazio possui dimensão. Os corpos inocentes continuam a ferir-se no esplendor do ressurgimento. A dor é outra. A cidade mudou de rio. Os amigos dormem dentro do sono dos gatos. As almas dos desaparecidos segredam-me as insónias e soltam os ventos que espelham a visão demorada do sentido da vida. A noite deambula pela melancolia lunar dos corpos. Nos meus olhos surge a sombra dos restos esquecidos, a sua hesitação frágil, a sua humilde aflição, os seus sonhos mortos. As insónias são como as cerejas, atrás de umas vêm outras. E outras. E ainda outras. As fantasias são como sonhos aflitos e densos, naufragando no branco frágil do tempo. As bocas são como raízes espalhando a saliva por todo o corpo. Os teus olhos escondem as paisagens onde antes podia beber a humidade do musgo, onde os dedos magoados percorriam as curvas do tempo, quando corria pelas ruas enquanto o mundo se reduzia à dimensão de um berlinde envolto pelas mãos exíguas dos amigos que tentavam em vão desvendar os segredos noturnos dos pinhais. Foi então quando tentei perceber as palavras e os corpos e a quem pertenciam os choros longínquos dos caminhos, ou o som vegetativo do silêncio, ou as construções que ficaram por erigir. Quando abria os olhos, as flores não estavam no sítio onde as tinha sonhado e o teu rosto desaparecia no fundo do sonho, que era como um mar longínquo e paralisado. Ficaram-me as mãos nos sítios certos. Ao menos isso. Com elas principiei a desenhar a tua luz na terra e a aparar a tristeza das lágrimas mais antigas e autênticas. Comecei a observar os objetos e o tempo que o tempo demorava a devorá-los. Impiedosamente. Deixei de ser marinheiro ou pastor, perdi a sabedoria remota dos ofícios e ignorei deliberadamente o ardor dos corpos estendidos no orvalho e a beleza notívaga que se desprendia do fogo do desejo. O prazer chegou com o aroma denso dos frutos, com a fecunda alegria dos odores a terra e a erva. No entanto, o mundo que me rodeava permanecia inaudível e perdido, como se fosse uma fotografia colocada dentro de uma gaveta. A caneta aprendeu a imobilizar a vida por detrás de cada palavra. O som dos objetos adquiriu novo sentido. Deitámo-nos pela primeira vez sobre o feno, como nos poemas mais cómicos. As primaveras ficaram frescas como o mar e sobre elas estendemos os dedos, imitando as aves. Os astros começaram a deslizar no firmamento enquanto os rouxinóis debicavam o outono dentro das cerejas. As palavras tremeram dentro da sua solidão, como se fossem casas abandonadas. Observei no teu corpo o reflexo da claridade da água, a densidade transparente das memórias, a realidade corrigida pela fantasia, a liquidez das madrugadas. As horas principiaram a afastar-se da sua unidade temporal. Comecei a escrever e a escutar o surpreendente rumor das ondas do mar. Caminhei pela minha adolescência registando todos os meus possíveis futuros gestos. A tua boca ganhou a luminosidade das galáxias.


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Quarta-feira, 29 de Abril de 2015

Douro

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Terça-feira, 28 de Abril de 2015

Estaleiros no Douro

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Segunda-feira, 27 de Abril de 2015

237 - Pérolas e diamantes: o contrário do contrário

 

 

Confesso que sinto prazer em folhear a revista do Expresso, agora em tamanho grandioso, com letra grande, fotos enormes e temas muito bem escolhidos. E o prazer é redobrado porque já me vai faltando a vista e sobretudo a paciência para o jornalismo de trazer por casa que inunda os jornais portugueses.

 

Mas foi no Jornal de Negócios que li algo que me intrigou profundamente, pois não consegui descortinar o protótipo do destinatário, ou destinatários, da respetiva mensagem. Ou, talvez, da figura, ou figuras, inspiradora de tão nefasto retrato.

 

O constitucionalista Jorge Miranda, homem desde sempre ligado ao PPD (atual PSD, quem diria), denunciou o facto de que “o sistema do poder local tem funcionado pior, tem sido um centro de grande clientelismo, da corrupçãozinha, de alguns tiranetezinhos.”

 

Em quem estaria a pensar o professor de Direito que acaba de editar o livro Da Revolução à Constituição? Qual terá sido o figurino, ou figurinos, inspirador de tão grave acusação? O que saberá o senhor e nós desconhecemos? Será mesmo verdade que o poder local é um centro difusor de clientelismo, corrupção e tiranetes? Eu, cá por mim, não acredito. Pelos exemplos que conheço, posso afirmar que o poder local é exatamente o contrário… do contrário.

 

Pela leitura do Expresso fiquei a saber que a venda da TAP vai render ao Estado português cerca de 1,2 mil milhões de euros, que é o montante da dívida da empresa. O negócio promete. Este Governo sabe muito bem aquilo que anda a fazer.

 

No mesmo jornal li que o maior negócio conseguido pelo grupo Lena, do amigo de José Sócrates (que continua preso preventivamente por indícios de corrupção, fraude qualificada e branqueamento de capitais), Carlos Santos Silva (que continua preso preventivamente por indícios de fraude qualificada, branqueamento de capitais e corrupção), na última década, foi o da construção de 50 mil casas na Venezuela de Hugo Chávez, num valor que poderá envolver os quatro mil milhões de dólares. Só pelo projeto, o amigo do ex-primeiro ministro cobrou 15 milhões de euros.

 

Penso então nas palavras que li no livro O Mistério da Légua da Póvoa, de Agustina Bessa Luís: “Não há maior desejo do que o desejo da verdade. Mas ela inspira terror, ninguém a quer ter por hóspede, nem sequer por vizinha.” O que me remete para Maupassant: “Felizes os que se satisfazem na vida, os que se divertem, os que estão contentes.”

 

Boris Cyrulnik, talvez inspirado em pessoas como José Sócrates, ou Pedro Passos Coelho, escreveu que a agressão esconde o desejo de seduzir.

 

Entretanto, tal como os animais, a maioria do povo vive porque vive, sem nunca sentir a mais pequena necessidade de justificação.

 

Da dúvida generalizada passamos à dívida generalizada, sem que nada aconteça, sem que nada suceda aos seus fazedores. A vilanagem continua a fartar-se à grande e à francesa.

 

Já todos percebemos que o afastamento crescente, talvez abissal, entre a população e aqueles que falam em seu nome, os políticos do BCI (PSD/CDS e PS), conduzirá necessariamente a algo de caótico, violento e imprevisível. Entretanto, os portugueses continuam, na sua grande maioria, emersos na apatia e na resignação.

 

Vai sendo tempo de despertarmos para a realidade. É chegada a altura de, porque os partidos do BCI não mudam, mudarmos nós de partido. Continuar a votar nos protagonistas deste estado de coisas é ou rematada estupidez ou masoquismo doentio.

 

 

 

PS – Tchékhov dizia que “a arrogância é uma qualidade que fica bem aos perus” (ou talvez aos pavões que são aves de cauda mais vistosa). Por isso, mais uma vez solicitamos ao senhor presidente da CMC e aos seus distintos vereadores, que aprovem uma auditoria independente às contas da nossa autarquia. Quem não deve não teme.

 

PS 2 – Em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior.

 

PS 3 – Era um ato de coragem redentora, o senhor presidente deixar-se de desculpas de mau pagador e pôr fim ao deplorável espetáculo dos esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro – Outeiro Seco.


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Domingo, 26 de Abril de 2015

Interiores

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Sábado, 25 de Abril de 2015

No Rexo - Alhariz

O RExo - Poesia 070 - Cópia.JPG

 


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Sexta-feira, 24 de Abril de 2015

São Sebastião - Couto Dornelas

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 014 - Cópi

 


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Quinta-feira, 23 de Abril de 2015

Poema Infinito (247): eternidade

 

 

Persegue-me a luz, o fogo, a própria sombra do sol. Abro as mãos como se fossem asas. A força de voar é agora demasiado intensa. Estremece-me a boca. Os braços unem-se e fecham-se num abraço. Sinto-me como Deus quando criou o dia e a noite. Sofro uma espécie de explosão interior. Encarno de novo a natureza fiel da infância. A aurora extravasa as estações. Os prados chupam a água. Venho de um outro lado, onde o sempre e o nunca não existem. As mãos escondem o teu corpo. Sonhas-te a ti própria. Os dedos fazem e desfazem o mundo. As mãos esvaziam-se. A aurora expande-se. Esquecemo-nos do tempo. Temos pressa de voltar a ser. A nudez apaga-se sempre ao fim da noite. Os corpos ganham forma e consciência. Esse é o seu tormento. A passagem furtiva do amor. Do derradeiro amor. Na cama os corpos tornam-se mais simples e explícitos. Os sexos adquirem a liquidez do universo dando consistência às vagas impetuosas que os nossos corpos desenham. Oriento-me entre os teus seios, as tuas coxas, o púbis. Oriento-me entre a sombra e o fundo provocado pelo calor. Os lábios abertos sobre todo o horizonte da cama. De tarde vamos ficar à espera da tempestade, aguardando o som das abelhas que devastam as colmeias. De seguida vamos atear uma fogueira, mesmo que as mãos nos tremam. Preencheremos o tempo retendo a sua luz e o seu calor e desenhando a palavra amor com os lábios. Brincamos com o gosto de nos enlaçarmos. O desejo foi restabelecido. Tornou-se mais pesado. Olhamos o espaço que se estilhaça, as linhas dos corpos, as bocas húmidas, as línguas projetadas sobre as contínuas vagas de prazer. As mãos adquirem o poder da colheita, os olhos incendeiam-se como relâmpagos, os sexos sublevam-se e ardem como palácios incendiados pela loucura. Os nossos corpos definem a tempestade do amor. Somos duplos nos nossos devaneios. O amor tem a forma do mar. Por isso as mãos se abrem como flores quando sentem os primeiros raios de sol. As horas e as cores adquirem a consciência da finitude. Entre nós dorme a infância com a sua confiança doirada pelos devaneios. Aprendemos tudo e não aprendemos nada. A razão não se esclarece com enganos. Continuamos teimosamente a pensar que o dia é a terra das cores e que as mãos se destinam a fazer carícias. Acolhemos todos os prodígios, todos os mistérios, toda a luz que captamos. A memória regressa como uma forma de salvação. O desejo costuma assaltar-nos quando despertamos. Os seus olhos observam-nos como se fossemos imagens refletidas num espelho. Observamos o tempo a passar com a sua textura etérea e corrosiva. Sinto a carícia da imagem das maçãs do teu rosto, o fiozinho de calor deixado pela tua boca, o sussurro dos teus seios, os teus olhos verdes que nascem na noite como clarões resplandecentes. A memória conta-nos por vezes histórias bonitas como se fossem pássaros que dormem dentro dos nossos sonhos. Nós somos o refúgio da claridade um do outro, o sol que se aproxima dos mantos de neve que refulgem, as janelas que se abrem de par em par, as mãos que descobrem os sorrisos, o estremecimento com que se vê nascer um filho. Quando nos olhamos tudo fica mais límpido e tranquilo. A tua espera é uma forma estranha de libertação. Sobre o teu corpo o meu corpo se estende. A eternidade é esse momento.


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Quarta-feira, 22 de Abril de 2015

São Sebastião - Couto Dornelas

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 013.jpg

 


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Terça-feira, 21 de Abril de 2015

São Sebastião - Couto Dornelas

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 015.jpg

 


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Segunda-feira, 20 de Abril de 2015

236- Pérolas e diamantes: o verdadeiro e o falso

 

 

Lá continuamos a correr para o abismo com um sorriso pepsodente espelhado no rosto, em tudo semelhante ao dos nossos governantes. Todos colaboramos como se esta atitude fosse a mais normal do mundo.

 

Os políticos do regime (PSD/CDS e PS) continuam apostados em nos infernizar a vida com as palavras mansas do costume. A lógica que os move deriva apenas dos tiques de conservação ou aproximação ao poder, sem se interessarem verdadeiramente pela situação do país.

 

Passos Coelho foi votado pelo mesmo sistema de ilusões que deu corpo político a Sócrates: através da mentira sistemática. Ambos nos mentiram, mas parece que os eleitores querem continuar a ouvir essas mentiras porque são confortáveis.

 

A “verdade” com que nos mentiram deve abrasar atualmente a boca de muita gente.

 

Existem poucas dúvidas de que somos um país pouco desenvolvido, com sérios problemas de crescimento económico. A nossa pobreza advém de múltiplos fatores. O principal reside na estreiteza de pensamento e ação dos políticos que nos têm sucessivamente governado.

 

Falta-lhes tudo, sobretudo princípios e cultura. São quase como uma horda de bárbaros. Detestam os que não possuem paciência para a ignorância presumida e institucionalizada. Apreciam a subserviência. Eliminam tudo o que tem qualidade para não terem termo de comparação.

 

Em Portugal o ridículo não mata, nutre. A troca de cadeiras entre os que entram e os que saem é sempre temporária. As lideranças fátuas permitem fazer carreiras na sombra dos gabinetes, onde impera sempre a obediência e o respeitinho. Constituem uma espécie de família remediada vivendo dos patrocínios, dos padrinhos e das clientelas.

 

Daqui resulta a avassaladora mediocridade da nossa vida política, onde as pequenas habilidades pessoais são postas ao serviço dos interesses instalados e da gestão das carreiras partidárias.

 

Quando se deparam com os múltiplos problemas que fazem parte da atribulada vida dos portugueses elaboram logo um discurso espaventoso, mas agem com a maior das incompetências nos atos.

 

O resultado está à vista: todos foram postos à prova e daí nada resultou de positivo. O PSD e o CDS beneficiam atualmente dos meios de governação e o PS alimenta-se do cheiro a poder.

 

Estas tribos poderosas que constituem o Bloco Central dos Interesses (BCI) aprenderam ardilosamente a retórica convicta dos ludibriadores, que faz com que as pessoas não consigam distinguir o verdadeiro do falso, exercendo essa arte com tais requintes de malvadez que, mais do que convencer quem os ouve, corrompe a vontade de lhes fazer frente e de resistir ao engano.

 

Antes Sócrates, e agora Passos Coelho (isto para não falar dos tiranetes de província), em vez de apostarem na política populista da distribuição apriorística de benesses, concentram-se sobretudo na prática de uma habilíssima manipulação das pessoas, controlando-as pelo medo e pela eficaz presença mediática, pela exímia prática do domínio do jogo mediático.

 

Os portugueses que estiverem satisfeitos com este estado de coisas devem continuar a votar nos partidos do BCI (PS, PSD/CDS), mas a nossa mensagem tem de ser outra e destinada a todos aqueles que estão desacreditados da política e que já não votam.

 

Para esses é necessária uma mensagem de esperança e de confiança. É necessário que voltem a acreditar na política, pois o problema é que temos sido mal governados e desgraçadamente dirigidos. As nossas elites, em muitos aspetos, traíram os interesses do povo, mas é na política que temos de resolver os problemas do país. Em democracia não existe outro caminho. A resposta tem de ser necessariamente democrática e sinceramente republicana. Essa é a alternativa.

 

 

 

 

PS – Tchékhov dizia que “a arrogância é uma qualidade que fica bem aos perus” (ou talvez aos pavões que são aves de cauda mais vistosa). Por isso, mais uma vez solicitamos ao senhor presidente da CMC e aos seus distintos vereadores, que aprovem uma auditoria independente às contas da nossa autarquia. Quem não deve não teme.

 

PS 2 – Em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior.

 

PS 3 – Era um ato de coragem redentora, o senhor presidente deixar-se de desculpas de mau pagador e pôr fim ao deplorável espetáculo dos esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro – Outeiro Seco.


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Domingo, 19 de Abril de 2015

Em Versalhes

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Sábado, 18 de Abril de 2015

Em Versalhes

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Sexta-feira, 17 de Abril de 2015

Em Versalhes

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Quinta-feira, 16 de Abril de 2015

Poema Infinito (246): erro criativo

 

 

Aproximas-te de mim como um murmúrio. Eu sou a árvore com as folhas mais altas. Os meus ramos hão de fazer uma fogueira com labaredas intensas. A visão dos homens continua a devorar toda a beleza do mundo como se fosse carne em sangue. Os homens continuam a alimentar-se da desordem que as imagens do tempo provocam. O espaço brilha. Os sussurros são leves. O vento perfuma o dia e faz reluzir as macieiras. Os dedos continuam a afastar o escuro que ainda nos habita. Escrevo os teus delírios de fêmea. O desejo devora-nos vindo de dentro dos nossos corpos. É o tempo da procriação. As magnólias fixam a luz interiormente. No seio da casa algo de muito misterioso faz brilhar os quartos. Procuro-te onde és mais visível. Onde as cores são mais profundas, quase indistintas, quase brancas. Quase pretas. Sinto de novo a urgência das palavras, a desarrumação dos elementos azuis, como fosse necessário descobrir o mistério do batismo. A terra treme. A atmosfera oscila. Sinto a necessidade de colocar uma nova ordem nos objetos. Quanta mais luz, mais cegueira. As tuas mãos extraem do granito rosas ocultas. O dia transformou-se num sítio difícil. As palavras são intrinsecamente lácteas, possuem uma corola compacta de sentimentos e propagam-se como isótopos radioativos. As minhas mãos trabalham a alma. A alma é agora um novo abismo. Nele as palavras resplandecem e morrem inclinadas. Os teus olhos são como rubis instantâneos. Iluminam tudo em seu redor. Olhas o caminho. Dás-me a mão. Os poemas vão preenchendo as folhas do caderno imbuídos da sua sombria habilidade em fabricarem o caos a partir da combinação apriorística das palavras. Pelos versos sobem os planetas exorbitantes. O amor transforma o tempo numa meteorologia sucessiva. A carne habita os nomes. Por vezes sinto que enlouqueço as palavras. Então os dias ficam mais poderosos. Começam a arder de dentro para fora, como se fossem pedras preciosas dementes depois de descobrirem a sua ociosa inutilidade. Como se fossem estrelas aterradas e carbonizadas segundos após o big bang. Olhamos a terra e as árvores constituídas por gotas de tempo e paciência. No paraíso, os santos ficam com os olhos grandes e os rostos molhados. Deus sopra-lhes ao ouvido a verdade absoluta. As víboras do pecado fervem à temperatura da liquidez do ouro de que são feitas. Os lobos lambem as mãos dos seus donos. A água das fontes estremece de tão perfeita transparência. Os descendentes de Adão continuam a moldar Evas com as suas mãos giratórias. Elas embebedam-se sorvendo a água da fonte do pecado. Deus abre as pedras para ver o infinito estremecendo à procura do seu princípio e do seu mais que improvável fim. A vida dos deuses é incalculável. É como a escrita dos poetas. Nos pastos do paraíso, os animais começam a elevar-se rumo ao céu como se fossem feitos de hélio. O mundo continua a ser um sítio íngreme. Debruço-me sobre as paisagens. Os meus dedos deslizam pelas montanhas. A noite vai ficar invisível para os homens. Os pecadores sentem tristeza por experimentarem a fragilidade do barro de que são feitos. Deus fala-lhes da fulguração da massa que os originou, da sua composição atómica. Diz-lhes que podem brilhar no escuro, se forem pacientes. Ao entrarem no buraco negro é que descobrem que são efetivamente pirilampos. O Criador também se engana. Cheio de boas intenções está o céu cheio.


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Quarta-feira, 15 de Abril de 2015

Em Versalhes

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Terça-feira, 14 de Abril de 2015

Em Versalhes

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Segunda-feira, 13 de Abril de 2015

235- Pérolas e diamantes: Nasrudin e o jerico

 

 

É cada vez mais inquietante a insatisfação e o desânimo que tomou conta dos portugueses e, particularmente, dos transmontanos. É preocupante a descrença que se instalou na política e nos políticos e a falta de confiança no Estado e nas instituições democráticas. Estas frustrações e deceções levam inevitavelmente à apatia, ao conformismo e à decomposição da própria vida democrática.

 

Daí o desprezo dos portugueses pela mediocridade dos bonifrates do momento, que passam depressa da prudência dos bastidores para as luzes da ribalta.

 

É tempo de conferir de novo à política a sua plena dimensão ética e de enfrentar, sem complacência, todas as mistificações em que os tempos que correm são pródigos.

 

Se não é possível mudar os partidos, mudemos de partido. Apoiar e votar nos mesmos que nos levaram por três vezes à pré-bancarrota é rematada estupidez.

 

Depois dos constantes escândalos públicos que são noticiados todos os dias envolvendo os principais partidos do Bloco Central dos Interesses (PSD, CDS e PS) e escutando as desculpas esfarrapadas dos principais visados onde declaram que são insultos à sua pessoa, é caso para concluir que a verdade no nosso país se tornou um insulto. 

 

A vulgaridade da política portuguesa acolhe sem distinção falsidades, mitos, suposições, invenções e lérias. Alguns têm mesmo o atrevimento de apelidar tudo isto de bom senso. E mesmo que assim fosse, convém lembrar, como muito bem o faz Mário de Carvalho, que “o senso comum confirma, não interroga; acata, não discute; conforma-se, não se rebela; repete, não indaga”.

 

Daí a prisão preventiva de José Sócrates, as dívidas de Passos Coelho ao fisco, a incrível história dos submarinos de Paulo Portas, a espantosa licenciatura de Relvas, os aforros inauditos de Cavaco Silva, os mirabolantes robalos de Armando Vara. Lá diz o velho ditado chinês: “Quando a árvore cai, espalham-se os macacos.”

 

Com razão se tratavam os jovens espartanos à fome, avisando-os: “Roubem, mas ai de vós se fordes apanhados.” Eram outros os tempos. A perícia está em infringir a lei sem que o crime seja notado. Seja em cinco euros, cinco mil euros ou em 5 milhões de euros depositados em bancos espanhóis. Ou suíços. Ou luxemburgueses.

 

Então cá pela província, vemos a maioria dos nossos políticos (devidamente assessorados por gente de tal maneira ignara e hilariante, a discorrer sobre os mais diversos assuntos sem a menor reflexão) remeter-nos de imediato para “a personagem do rei Artur de Mark Twain discorrendo sobre a árvore das cebolas” (Mário de Carvalho – Letras sem Tretas).

 

Ainda com a ajuda de Mário de Carvalho, lembro a imagem dos nossos dignos autarcas semelhando um tal pastor de almas americano que um dia proclamou: “Para quê ensinar outras línguas na América se a Jesus bastou o inglês?”

 

Por isso é que o poder procrastina (literalmente “deixa para amanhã”) e a oposição faz o mesmo. O alegado poder cumpre a função de dramatizador e a suposta oposição completa a peça com o papel de desdramatizadora.

 

Por isso é que a mim me saem textos, um pouco à Machado de Assis (por favor perdoem-me a tola imodéstia), com a tinta da galhofa mas com a pena da melancolia.

 

As desculpas esfarrapadas do autarca da minha terra tentando justificar a enorme falta de coragem, para não lhe chamar outra coisa, em autorizar uma auditoria às contas da Câmara que gere, ou a ignomínia que representam os esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro-Outeiro Seco, como se estivéssemos numa vilazeca marroquina, lembra-me uma das imensas histórias de Nasrudin (um filósofo e sábio populista turco, lembrado pelas suas histórias engraçadas e anedotas).

 

Um dia recusou-se a emprestar um burro a um vizinho, com o pretexto de que o tinha cedido a um primo seu. Ainda a desculpa estava a ser dada quando o burro começou a zurrar atrás da porta da corte. O vizinho, como é normal, zangou-se e disse: “Mestiste-me.” Nasrudin replicou: “Estou indignado. Acreditas mais em mim ou no jerico?”

 

 

 

PS – Tchékhov dizia que “a arrogância é uma qualidade que fica bem aos perus” (ou talvez aos pavões que são aves de cauda mais vistosa). Por isso, mais uma vez solicitamos ao senhor presidente da CMC e aos seus distintos vereadores, que aprovem uma auditoria independente às contas da nossa autarquia. Quem não deve não teme.

 

PS 2 – Em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior.

 

PS 3 – Era um ato de coragem redentora, o senhor presidente deixar-se de desculpas de mau pagador e pôr fim ao deplorável espetáculo dos esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro – Outeiro Seco.


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Domingo, 12 de Abril de 2015

Cortando o pão

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Sábado, 11 de Abril de 2015

O pipo e o fumo

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Sexta-feira, 10 de Abril de 2015

Matabicho

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Quinta-feira, 9 de Abril de 2015

Poema Infinito (245): a iluminação das palavras

 

 

O mar enche-nos os olhos num banquete de azul. O céu está cheio de lágrimas. Debruçamo-nos sobre as ondas. A sua verdade é serena. Todas as imagens refletem os nomes de quem amamos. Até o maior rio começa numa gota de água. O sonho dá-lhe o corpo. Depois há de ser corrente e saltar fragas e rasgar desfiladeiros e possuir montes e vales. Dormimos na sombra do tempo, no mesmo sítio onde as horas serenas se esgotam, onde o silêncio é como uma lua eclipsada feita de seda e eternidade. Observo o teu corpo a reanimar-se. Possui a curvatura dos versos, das serranias invulgares e a velocidade perpétua dos ventos alíseos. Os meus primeiros poemas eram de neve e tinham ovelhas mansas que renasciam todos os anos. Neles aparecia a noite de Natal e todas as imagens conhecidas do presépio, uma criança tímida a chorar e a rir e a visitar os sonhos leves das outras crianças enquanto as suas mãos discretas e doces teciam distintos poemas que eram novos sonhos. Depois os poemas de neve derretiam com o calor da esperança e eu adormecia como se fosse um anjo perturbado. A velha terra nativa agasalhava-nos a todos. De longe chegavam os filhos pródigos com as malas carregadas de bugigangas e saudade. Despiam-se dos preconceitos como se fossem árvores a perder as folhas. Os negrilhos começaram então a morrer sem razão aparente. Os dias começaram a murchar como as flores mais belas. Os espíritos do tempo apressavam-se para tomarem o seu lugar nos comboios a carvão. O amor era apenas uma sugestão de movimento. Fechávamos os olhos para atravessarmos as pontes. A vida respondia-nos a soluçar. Ouvíamos as palavras que ainda não possuíamos como se fossem gotas de orvalho. Tentávamos bebê-las. Os homens começaram a aparecer no futuro como se fossem guerreiros dos limbos. Tudo andava para trás, como nos sonhos mais densos. O amor nasce da amargura e da solidão. Por isso é redentor. As noites começaram a diluir-se no mundo. Os corpos despiram-se. A carne ficou ardejante. Os poemas empunharam as suas máscaras anónimas e transformaram-se em rostos proibidos pela sensatez. O desejo adquiriu o instinto da fome e multiplicou-se. Começámos então a fabricar as divindades através da imaginação. Os nossos gestos adquiriram o sossego ritual do tempo. O céu transformou-se num arquipélago ora azul, ora cinzento. Os teus olhos ganharam a dispersão do verde e a tranquilidade do mar sereno. O tempo começou a fluir com a estranha arquitetura das ilhas. Os deuses definiram-se como homens ricos. Os homens contentaram-se em representar o papel de santos pobres. Os deuses começaram a beber o vinho por taças de ouro. Os pobres santos engorgitaram o ar da humanidade aos gritos. Os brinquedos continuam a ocupar o espaço dos enigmas, por isso os desmancho para os tentar compreender, para lhes adivinhar a lógica do seu saber feito de fingimento. A tua serena ironia inquieta-me porque me devolve a minha em eco. Fujo da saudade porque me sugere a inutilidade das flores tingidas de cores perfeitas. A saudade faz-me sempre lembrar uma criança magoada pela futilidade do tempo, desejosa de se libertar da angústia do presente. Lembro-me de quando o futuro me provocava náuseas. Hoje é como um malmequer com as pétalas já tiradas. Os poetas cantam na sombra o amanhecer das manhãs do mundo. As naus repletas de palavras nuas continuam a sair dos portos pela alvorada. O seu sol continua a iluminar as profecias.


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Quarta-feira, 8 de Abril de 2015

Peto de Lagarelhos

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Terça-feira, 7 de Abril de 2015

Na feira

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Segunda-feira, 6 de Abril de 2015

234 - Pérolas e diamantes: o princípio do fim do círculo vicioso

 

 

E o fado continua. Não o da Amália, mas a cançoneta acusatória entre António Cabeleira (PSD) e Nuno Vaz (PS).

 

Primeiro apareceu NV nas páginas do jornal a afirmar que as Caldas de Chaves estão em banho-maria. E tem razão.  O problema é que com este tipo de oposição ficamos todos cada vez mais na mesma, pois se a gestão de AC/PSD é aquilo que todos sabemos, a oposição do PS/NV é insonsa, triste e retórica. Bem diz o nosso povo, se de um lado chove, do outro troveja.

 

Um meu amigo faz questão em lembrar que basta olharmos para a atual liderança apriorística do PS flaviense para ficarmos todos com pele de galinha. Digo-lhe que é um exagerado. Ele ri-se muito, mas muito mesmo. E continua o seu passeio pela cidade tentando encontrar explicação para o estado deplorável em que se encontra a maioria das habitações do centro histórico.

 

Logo a seguir, possivelmente com as bombinhas de cheiro na pasta, construídas aproveitando-se dos esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro, António Cabeleira recorre também ao jornal para reafirmar que “é objetivo do executivo manter uma política de verdade e de transparência”, contrariamente “à política de mentira e demagogia praticada pela oposição”.

 

Encontro de novo o meu amigo e leio-lhe a passagem citada. Ele, talvez um pouco nervoso pelo espetáculo ruinoso que observou no centro histórico de Chaves, volta a rir-se muito, mas muito mesmo. Eu, desta vez, acompanho-o. Os amigos são para as ocasiões.

 

AC/PSD informa-nos que “sobre tudo e sobre nada se inventam números e dizem-se coisas que não podiam passar sem termos uma reação”. Basicamente diz que a dívida não é de 60 milhões de euros. Mas a nós, que já andamos nisto vai para algum tempo, os 60 milhões parecem-nos até um número curto para a dívida da CMC. Daí o não nos cansarmos de pedir uma auditoria externa às contas da autarquia. Auditoria de que o senhor presidente foge como o diabo da cruz. Mas adiante.

 

Sobre o tarifário da água, relembrou que foi o PS quem colocou a câmara neste cenário, tendo sido o “Dr. Nuno Vaz, chefe de gabinete do Dr. Altamiro Claro, que aconselhou o Dr. Altamiro” a aderir ao sistema multimunicipal e “também sabemos que quem estava a defender a ideia era o Dr. Alexandre Chaves que veio a ser, e durante muitos anos, o presidente da empresa águas de Trás-os-Montes, que nos impôs estes preços”.

 

Acusou o PS de Chaves de demagogia e de estar mal preparado. O que até é verdade, sim senhor. E terminou dizendo que os políticos do século XXI devem sempre falar verdade. O problema, na nossa modesta opinião, é que tanto AC/PSD como NV/PS são políticos do século XX.

 

Mas desta vez, talvez porque, “a credibilidade e verticalidade do líder do PS, Nuno Vaz, bem assim como a sua competência profissional foram colocadas em causa”, o PS de Chaves resolveu poupar o seu dirigente e vir para os jornais falar sob o manto diáfano de um comunicado à imprensa, tentando dar um arzinho de esquerda.

 

O documento está carregadinho de números, números e mais números, números para todos os gostos, para concluir, o PS, que a dívida é mesmo de 60 milhões de euros.

 

E, em forma de pergunta, o PS lança o repto (aquele porque nós incansavelmente pugnamos todas as semanas), ao senhor presidente, afirmando que se “AC não tem medo que os seus números sejam desmentidos, como aconteceu no passado recente, então por que razão não permitiu que fosse cumprida a deliberação da câmara que determinava a realização de uma auditoria financeira?”, pois “a verdade e a transparência não se apregoam, praticam-se no dia-a-dia”.

 

Este fado hilário, cheio de meias-verdades, de grandes efabulações e grossas mentiras, sobre as governações do PSD e do PS, tanto a nível nacional como local, fez-me lembrar uma tira de BD que partilhei no FB, onde aparece um burro vestido de fato e gravata, a argumentar o seu sentido de voto desta forma: 1º quadrado: “Como o PSD me enganou, votei PS e mandei o PSD à fava, comigo não brincam!” 2º quadrado: “Como o PS me enganou, votei PSD e mandei o PS à fava, comigo não brincam!” 3º quadrado: “Como o PSD me enganou, votei PS e mandei o PSD à fava, comigo não brincam!” 4º quadrado: “Como o PSD me anda a enganar, vou votar no PS e mandar o PSD à fava, comigo não brincam!”

 

Sabem que mais? É já mais que hora de acabar com este círculo vicioso.

 

 

 

 

PS – Tchékhov dizia que “a arrogância é uma qualidade que fica bem aos perus” (ou talvez aos pavões que são aves de cauda mais vistosa). Por isso, mais uma vez solicitamos ao senhor presidente da CMC e aos seus distintos vereadores, que aprovem uma auditoria independente às contas da nossa autarquia. Quem não deve não teme.

 

PS 2 – Em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior.

 

PS 3 – Era um ato de coragem redentora, o senhor presidente deixar-se de desculpas de mau pagador e pôr fim ao deplorável espetáculo dos esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro – Outeiro Seco.


publicado por João Madureira às 07:15
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Domingo, 5 de Abril de 2015

Em Versalhes

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Sábado, 4 de Abril de 2015

Em Versalhes

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Sexta-feira, 3 de Abril de 2015

Em Versalhes

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Quinta-feira, 2 de Abril de 2015

Poema Infinito (244): procriação dramática

 

 

A minha solidão está agora saciada. Sobre mim debruça-se a melancolia de um dia agonizante. Sentem-se os gritos da terra e o seu eco é como uma sombra religiosa. Persente-se o ruído das armas de batalhas que por aqui se travaram. No horizonte surge a memória lenta dos guerreiros sobreviventes. Ouvem-se os seus passos percorrendo o tempo. Adivinha-se o sobressalto dos campos e o medo das casas desertas com os seus corredores sombrios. O vento transporta o cheiro denso do litoral, o salgado barulho do mar. Alguns animais alimentam-se da casca ácida das árvores e de certos arbustos selvagens. Chegamos ao cimo do monte. Alguém grita no vento que é chegada a hora de nos trazerem as religiões virtuosas sepultadas nos grandes livros antigos. Eu prefiro as aves, o teu corpo, os dedos, o desejo informe dos teus lábios, a excessiva grandeza do abandono. Voo contra a chuva. Afasto-me da terra. Lembro-me dos gestos subtis da minha avó quando lavava os longos cabelos brancos, da forma lúcida como limpava as toalhas de linho, da maneira simples como explicitava verbalmente as suas reflexões religiosas, da maneira densa como bebia o café feito numa caneca de barro negro, da forma decidida como afagava as tábuas gastas do escano, da masseira ou da arca onde guardava o centeio, os enchidos ou o dinheiro para o seu funeral. Parecia um escultor que dos seus esboços banais desenhados a lápis criava peças impregnadas de autêntica mitologia divina. Tudo isso me envolve como uma névoa antiga. Agora frequento o som ocasional das suas palavras doces e antigas, como se fossem esconjuros despachando as maldições ou invocando os espíritos transitórios. Cá do alto observo os cultos ancestrais que voltam a estar na moda. O velho Baco continua a ser inconsciente e as suas histórias dão outra vez sede e sono. É o deus perfeito para as cidades de província. Os velhos continuam a gostar de o ouvir, de lhe beberem as palavras carregadas de álcool e distração. As cidades ficam assim ainda mais imprevisíveis, como se fossem relíquias algébricas. Os sonhos são como presságios interditos. Os teus lábios murmuram o regresso. As minhas asas transformam-se em linhas, os meus gestos dissipam a turbulência. Quanto mais alto mais azul. Essa é a inteligência mecânica do ar. Brilham-me os olhos depois de acordar. A escrita fica ambígua, como se hesitasse entre as duas margens da paisagem. O tempo possui a mesma nitidez concreta das imagens que não existem. Na maioria dos rostos descubro a alegria penetrante que encobre a tristeza e o silêncio. Alguém tenta desenhar as almas em desordem convencido de que nada é real. Os dias e as noites descem sobre nós como se fossem aves inevitáveis. O medo é como um delírio. Os poemas murmuram o medo do poeta. O seu olhar lexical alerta para a concisão do arqueamento das montanhas, para o tempo interrogativo das crianças, para a alegria sombria do silêncio, para a provocação efémera dos corpos, para a infinita incerteza das sangrentas feridas de Deus, para o vertiginoso excesso do destino e da tragédia. Embebedo-me de luz. É lenta a aprendizagem das metamorfoses de Deus. Dos livros de História ecoa a expectativa morta dos gritos dos mártires. Todos os poemas possuem a fidelidade do desaparecimento. É inglória a obsessão pela escrita. São inglórios os rios invocados, o amor descrito, a alma humana e as suas múltiplas variações e mistificações. Todos nascemos da embriaguez dramática de um desejo.


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Quarta-feira, 1 de Abril de 2015

Em Versalhes

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