Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015

267 - Pérolas e diamantes: o estado das coisas

 

 

Portugal é um país invejoso. Repare-se por exemplo no tom pomposamente difamatório e hipócrita que tantas vezes carateriza a cobertura televisiva de determinados acontecimentos, ou interprete-se o quão satisfatório é para as pessoas verem os outros portugueses serem humilhados.

 

Tudo isto originado e produzido pela televisão. Umas vezes em direto e outras em diferido. De facto, a vida dos portugueses tem o formato e a qualidade dos folhetins televisivos. É artificial e quase sempre medíocre.

 

O jornalista, e ensaísta inglês, Malcolm Muggeridge referiu esta triste evidência quando se deu conta que “a televisão não foi inventada para tornar os seres humanos desprovidos de conteúdo, mas é uma emanação da vacuidade deles”.

 

Os chineses possuem uma fórmula simpática e inteligente de abençoar as pessoas dizendo: que possas viver em tempos desinteressantes.

 

Quando oiço a gente que pertenceu ao famigerado governo de Passos Coelho e Paulo Portas falar do sucesso da sua governação lembro-me sempre de um meu amigo que quando alguém, muito compenetrado, lhe disse isso se riu tanto que caiu do sofá. 

 

Quão admiravelmente eles argumentaram, e argumentam, baseados em factos errados e respondendo sempre num tom que é constituído por duas partes de brincadeira e apenas uma parte séria.

 

Tristram Shandy conta que os antigos Godos da Alemanha se fixaram primeiro na região entre os rios Vístula e Oder. Depois assimilaram os Hérulos, os Rúgios e outros clãs dos Vândalos. Possuíam estes povos o sensato hábito de debaterem sempre duas vezes as coisas de importância para o Estado.

 

Uma vez faziam-no sóbrios e outra bêbados. Sóbrios para que não lhes faltasse prudência e bêbados para que não lhes falhasse o vigor.

 

Dessa forma também agia o pai do opinativo Tristram. Sempre que alguma questão difícil e de maior gravidade necessitava de ser resolvida na família, e para a qual fosse necessária ao mesmo tempo grande sobriedade e grande vigor e determinação, ele reservava a noite de um domingo de cada mês, bem assim como a noite de sábado imediatamente anterior, para a debater na cama com a sua esposa. Desta forma gerou o hilariante Tristram.

 

A isto chamava o senhor, um tanto humoristicamente, os seus leitos de justiça.

 

Mas porque duvidava um pouco da bebida, o progenitor de Tristram Shandy adaptou o procedimento, reservando no entanto toda a filosofia a ele inerente.

 

Em todas as discussões delicadas, quando previa que não conseguia dar um passo sem correr o risco de ter “as suas senhorias, ou as suas reverências” a caírem-lhe em cima, escrevia tudo com a barriga cheia e depois corrigia em jejum. Ou então escrevia em jejum e só depois corrigia com a barriga cheia.

 

Quando escrevia de barriga cheia, fazia-o como se nunca mais tivesse de escrever em jejum enquanto vivesse, isto é, livre das preocupações e dos terrores do mundo.

 

Mas quando redigia em jejum, a história já era completamente diferente, pois manifestava pelo mundo toda a consideração e respeito possíveis.

 

Também eu manifesto pelo mundo toda a consideração e respeito possíveis e “mostro-me dono de um quinhão tão grande (pelo menos enquanto dura o jejum) dessa virtude subalterna da discrição como os melhores de entre vós”.

 

Penso que tal procedimento “vos há de fazer bem ao coração. E à cabeça também, contando que o entendais”.

 

Os políticos que já lá vão, sobretudo Cavaco Silva, mas também o Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, fazem-me lembrar Proteu, o Velho do Mar da mitologia grega, que tinha o dom da profecia, mas que mudava de forma sempre que o interrogavam, para evitar responder.

 

Eles são todos tão modestos que dão pena. Tal como o pai de Tristram, vou terminar recorrendo à prolepsis (resposta antecipada a um argumento), referindo que a modéstia –  tal como a fome, a sede, ou o sono –, não é boa nem má, ou vergonhosa ou outra coisa qualquer. É apenas uma forma hábil de se referirem a Diógenes.


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Domingo, 29 de Novembro de 2015

A Ana e o João

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Sábado, 28 de Novembro de 2015

No Rexo - Alhariz

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Sexta-feira, 27 de Novembro de 2015

A menina, o gato e o cão

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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2015

Poema Infinito (278): movimento perpétuo

 

 

A vida repousa sempre num novo movimento. Criamos altura para observarmos a origem das tentações. As palavras fermentam e os corpos acendem-se. Medimos a palmo o tempo e a irrealidade. As vibrações dilatam-se e expandem-se dentro de uma atmosfera luminosa. É tempo de presságios e leis assombrosas. Os bárbaros acendem as tochas e iniciam a sua espera. As mãos trabalham as variações terrestres. Com séculos de atividade ainda ninguém foi capaz de remover as estrelas. É chegado o tempo de libertar os génios. As mãos do conhecimento escrevem o nascimento de uma nova existência, a linguagem telúrica dos vulcões, as marcas do amor e da morte, o olhar dos animais que tudo percebem, as noites luxuosas, os tanques transbordando de tédio e eternidade, as estações da perda, as lamentações imperfeitas. Tudo isso nos pede um adeus. A vida macera as criaturas, dá-lhes alimento e oxigénio. Sobe-lhes a temperatura. A natureza depõe os restos da chuva a nossos pés. Os álamos escondem o sussurro da voz dos deuses. O reino breve do esplendor perfuma as paixões e envelhece o tempo. Os rostos são como precipícios fátuos. Chegamos a finisterra. Aqui a paisagem foi podada com golpes de violência. A exposição dos promontórios vai de extremo a extremo. Completamos toda a indiferença da matéria, a sua perdição, a sua inocência, o advento das epifanias divinas. De repente a terra termina. O esplendor do mar sustem-nos e alimenta-nos. No cerne das ilusões está sempre a distância. O sol paramenta a terra com igualdade. A nossa respiração fica quase exata. A inocência coloca sobre as costas dos incautos o esplendor da perdição. Os cumes desorientam-nos. Volta a chover. Os caminhos manifestam-se de uma maneira estranha. São cada vez mais desconformes. A água banha o seu sossego e a precipitação das plantas. Durante a viagem somos surpreendidos pelo movimento aparente da astronomia. O céu fica repleto de ícones. Os homens aprendem o princípio da incerteza. A voz dos deuses perde a sua luz excessiva. A existência fica um pouco mais branda. Sobram-nos os vestígios da memória. As fábulas falam-nos da perda, do roubo das cores, da inversão gestual dos animais, dos trejeitos da mentira, de todos os sistemas da ilusão, da indigência recorrente do tempo, da exatidão do conhecimento. Tudo o que quer permanecer oculto está à superfície, mesmo os anjos que se autoiluminam e que praticam em si o êxtase sagrado da amputação. As suas asas estiram-se em movimentos negros. São a encarnação dos seus próprios gestos. Os seus olhos dilatam-se para observar e reter os últimos testemunhos da encarnação divina. Os corpos movem-se na direção de quem os ama. Depois dos sobressaltos desce sobre nós a tranquilidade. Bem-aventurados sejam os ciclos lunares, os eclipses, a música das festas, o ar fresco da noite, as mãos enganadoras do delírio, a impaciência das sombras originadas pelo álcool, as metáforas dos ritmos de jazz, a melancolia das palavras mais tímidas, o instinto de inspirar e expirar, o silêncio do tempo, as emoções exatas, e até as inexatas, a alegria dos rapazes e das raparigas sobre as ondas, a posição do sol, a passagem do vento, os corpos densificados pela aurora, o início e o fim de cada poema, o som da ramagem das árvores, o princípio que origina a luz da primavera e a decantação de todas as leis humanas. Ficamos agora à espera de uma outra espécie de paixão. A voz do tempo apura os gestos mais simples. Um novo conhecimento exige sempre uma nova cerimónia.


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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2015

Assando castanhas

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Terça-feira, 24 de Novembro de 2015

Observando

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Segunda-feira, 23 de Novembro de 2015

266 - Pérolas e diamantes: o medo e o sonho dos outros

 

 

Vivemos tempos de violência e desnorte. As divisões tornam-se de novo evidentes e muito sérias: direita contra esquerda e islâmicos contra cristãos.

 

O preocupante é que parece não existir tempo para refletir, pois temos de agir agora. Muitos pensam que não é possível fazer nada, apenas nos restando esperar sentados o desenrolar dos acontecimentos.

 

Este caminhar da Civilização Ocidental em direção ao Último dos Homens já foi, segundo Slavoj Zizek, diagnosticada por Friedrich Nietzsche, pois considerava que o ser humano é uma criatura apática sem grandes paixões nem grandes lealdades, incapaz de sonhar, cansado da vida, não tendo coragem para assumir os riscos, limitando-se à procura do conforto e segurança, descobrindo a felicidade pelo piscar dos olhos.

 

Aí está pois a política do medo com a sigla de S Z: “Teme o teu próximo como a ti mesmo.”

 

Atualmente renunciámos às grandes causas ideológicas, apoiando e elogiando a administração eficaz da vida, ou pouco mais do que isso.

 

Segundo o psicanalista e filósofo nascido em Liubliana, esta “atitude administrativa” significa que a gestão especializada da nossa vida tem de ser despolitizada, socialmente objetiva e com a coordenação dos interesses ao nível zero da política, pois a única forma possível de introduzir a paixão nesse campo, de mobilizar ativamente as pessoas é através do medo, o elemento constituinte e fundamental da subjetividade de hoje.

 

Essa política do medo, como não podia deixar de ser, centra-se na defesa contra o assédio ou a vitimização.

 

A correção política, na sua forma neoliberal, é o paradigma da política do medo, pois assenta na manipulação das grandes massas populares: “É a união aterradora de pessoas aterradas”.

 

A tolerância neoliberal ensina que o “outro” está muito bem onde está, lá nos bairros suburbanos, desde que a sua presença não seja intrusiva. Ou seja, desde que ele não seja efetivamente “outro”, mas uma extensão mal disposta e provavelmente andrajosa de nós mesmos. Tem de adaptar-se aos valores culturais que definem a sociedade que os acolhe e perceber a máxima: “Este país é nosso. Ama-o ou deixa-o”.

 

O que daí resulta é o nosso direito a não ser assediados, a permanecer a uma distância segura dos outros.

 

Mas as nossas sociedades democráticas são extremamente vulneráveis à violência, como o provam os atentados de Paris.

 

O inimigo anda espalhado por aí, mas, como disse Wendy Brown, “um inimigo é alguém cuja história não se ouviu”.

 

Hannah Arendt tinha razão: “A experiência que temos das nossas vidas pelo lado de dentro, a história que contamos a nós próprios sobre nós próprios dando conta do que fazemos é fundamentalmente uma mentira – a verdade reside no exterior, naquilo que fazemos.

 

Por isso é que a consciência ética ingénua dos terroristas não pode deixar de nos surpreender, pois estas pessoas que cometem terríveis atos de violência contra os seus inimigos são pessoas calorosas e manifestam mesmo uma humanidade ativa relativamente aos membros do seu próprio grupo. 

 

Os fanáticos islamitas não são propriamente gente inculta. Muitos deles são até mentes brilhantes, como é disso prova irrefutável o manuseamento de ferramentas tecnológicas altamente sofisticadas.

 

Mas eles preferem esquecer as humanidades, sujeitando-se a um processo de esquecimento. Zizek chama-lhe denegação fetichista: “Sei, mas não quero saber o que sei, e por isso não sei”. Ou melhor: “Sei, mas recuso-me a assumir inteiramente as consequências desse saber, pelo que posso continuar a agir como se não o soubesse”.

 

Segundo o filósofo e psicanalista esloveno, a divisa cristã: “Todos os homens são irmãos”, significa que aqueles que não aceitam essa fraternidade não são homens.

 

Dá depois o exemplo da mobilização deste paradoxo por Khomeini quando, numa entrevista concedida a periódicos do ocidente, pretendeu demonstrar que a revolução iraniana era a mais humana de toda a história: os revolucionários não tinham liquidado uma única pessoa.

 

Um jornalista surpreendido perguntou-lhe então sobre as execuções capitais noticiadas pelos meios de comunicação. O líder espiritual, e também temporal, iraniano contestou serenamente: “Esses que foram mortos não eram homens, mas cães criminosos”.

 

Talvez a resposta a esta onda de intolerância e violência esteja no amor.

 

Lacan definiu que “o amor é dar-se alguma coisa que não se tem…”. Slavoj Zizek completa a definição do modo seguinte: “…a alguém que não a quer.”

 

Mas uma coisa inquietante sim sabemos. O filósofo francês, nascido em Paris, Gilles Deleuze, bem avisou: “Quem se deixa apanhar pelo sonho do outro está lixado.”


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Domingo, 22 de Novembro de 2015

Sacré Coeur - Paris

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Sábado, 21 de Novembro de 2015

Paris

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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2015

Paris

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Quinta-feira, 19 de Novembro de 2015

Poema Infinito (277): caligrafias

 

 

Fui invadido pela consciência infinita dos elementos. Eu que acredito na imortal satisfação de tudo o que é mortal e finito. Todas as emoções são transitórias e todos os olhares são fragmentados. Adormeço à procura da clareza da poesia. Todos os sentidos são percursos que tentam vencer a inércia. As palavras sucedem-se umas às outras sem que nada se altere, nem a lógica, nem a vida, nem o seu sentido. São agora evidentes os sintomas da dissolução. Tudo é irreversível. Sobretudo a alegria, na sua composição mais espessa. E também a ilusão, na sua espessura de gelo fino que queima o imediatismo dos gestos, o desenho limpo da tua boca, a compreensão do universo, ou o fim catastrófico do amor. Fragmentos de um renovado apocalipse estabelecem entre si as frágeis ligações que irão criar um novo mundo. Os sentimentos dividem-se e transformam-se em gotas de água. A chuva cai em círculos. O tempo sofre os efeitos daquilo que provoca, a dormência efetiva dos corpos. O tempo reparte sabiamente o desejo de ver a probabilidade cultivada da angústia, a aventura dos golpes da casualidade. As palavras agarram-se a nós como lapas e ascendem à memória, fazendo-nos avistar as grandes montanhas do interior, as formas variáveis do clima, os sulcos dos arados no renovo, a própria cor dos sentimentos, a circulação da luz nos nossos olhos, o irregular esboço do desejo. Dentro das casas sente-se a deslocação equilibrada da loucura das mães, o barulho das vozes dos filhos, a ânsia permanente dos contadores de história e dos escrevinhadores de poemas. Lá fora corre o rio como um poema cansado. A noite sobrepõe-se ao sono. O vento bate nas janelas. Ouvimos perfeitamente o bater e asas de uma borboleta no outro lado do mundo. Preparamo-nos para o dia seguinte. A ciência dos velhos manuais tornou-se inútil. O seu infinito já não está ao nosso alcance. Sentimos o afastamento da chuva. Escutamos os gritos da noite. Estudamos o pormenor da loucura que deu origem à construção das pirâmides. O hábito das divindades é quase eterno. Navegam nos nossos lábios os murmúrios do regresso. Todas as hierarquias são construídas com idiomas outonais, nelas pousam as aves risíveis das metáforas. O lirismo esvai-se em símbolos. A loucura possui uma caligrafia muito própria. A claridade contém o seu próprio desenho. Imaginamos o movimento natural dos sonhos, a intensidade esbatida da luz, a violenta solidão dos esquecidos, a tristeza furiosa dos desígnios, a realidade do movimento das sombras. Os barcos aproximam-se da praia. Os pescadores fartaram-se de apanhar palavras. Mesmo as aves ficaram perplexas. Dizem que desta vez Cristo as vai multiplicar e dá-las à multidão que o segue. A realidade do mundo e da condição humana continua a ser um enigma. Os lugares da infância exigem novo regresso, mas o volume dos corpos já não é o mesmo, nem os reflexos, nem a tradição. Os rostos são atualmente contemporâneos do desgosto. Já ninguém liberta as cores da tirania das superfícies mais sólidas. As influências mudam a sensibilidade. Temos a consciência repleta de objetos desnecessários. As imagens estão repletas da energia das convenções. Os poemas afirmam a negação. Os criadores de almas vegetam de país em país. Persisto na perseguição do processo contínuo da inspiração. Em vão. O elogio da arte é um dogma surdo.


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Quarta-feira, 18 de Novembro de 2015

Paris

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Terça-feira, 17 de Novembro de 2015

Paris

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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015

265 - Pérolas e diamantes: coisas do Mafarrico

 

 

A política tem apetência pelas leis da simetria.

 

Todos sabemos que o diabo, por ser calculista e dissimulado, é muito dado à intervenção política. Por isso é que a gente de direita o encosta à esquerda e o pessoal da esquerda o cola à direita.

 

De facto, o demónio tanto é um funcionário humilde e cumpridor das ordens que lhe dão sem discutir, acreditando servir a pátria, mesmo praticando as suas patifarias reacionárias, descobrindo estupefacto que aprecia a ordem e a hierarquia, sendo por isso profundamente conservador.

 

Como, por outro lado, o mafarrico é também um exaltado cidadão que contesta todas as ordens impostas pela sociedade burguesa e os seus lacaios, menos as do diretório partidário a que é fiel, crendo servir o seu povo, mesmo executando os seus desaforos revolucionários, ou libertários, ou igualitários, descobrindo que ama a organização, a comunidade e a Internacional, sendo por isso profundamente progressista.

 

Tanto a direita como a esquerda são, à imagem e semelhança do seu mestre, velhas raposas matreiras, protagonistas de muitas vitórias e outras tantas derrotas, e também capazes de apresentar as últimas como se das primeiras se tratasse.

 

A verdade é que Mefistófeles deu sempre uma mãozinha a todos os grandes líderes.

 

Mas numa coisa temos de convir, agora já não se mune dos velhos instrumentos de tortura e por vezes até agita nas mãos o seu raminho de oliveira.

 

Estou em crer que atualmente é tão centrista que reza para que a breve trecho seja possível um bloco central em Portugal. E quando o diabo reza é porque já está por tudo. Os extremos que se cuidem. Valha-nos Deus.

 

O mafarrico é mafarrico porque nunca acredita plenamente em ninguém, nem em Deus, e parte sempre do princípio de que cada verdade contém em si mesma uma mentira.

 

Foi ele quem nos ensinou que a utopia comunista não residia na teoria mas antes na maneira de a transpor para a prática. Como são disso prova irrefutável os milhões de vítimas contabilizados pelas organizações internacionais.

 

A submissão, uma vez interiorizada, atrofia o ser humano até ao fim da sua existência. O diabo sabe-o melhor do que ninguém.

 

O mafarrico não sabe discutir, argumentar e fundamenar. Apenas é capaz de mandar e obedecer.

 

O diabo é mesmo malvado porque só existe na alma de cada ser humano. Os ataques terroristas em Paris são disso o máximo exemplo paradigmático.

 

Por vezes transforma-se num insuportável comentador televisivo, ou num dos inenarráveis apresentadores de concursos para mentecaptos ou ainda num dono de televisão que diz prestar um serviço público quando não permite que se difunda mais do que lixo telenoveleiro envolto em papel celofane.

 

Travestido de personagem bíblica, divaga sobre sermões da montanha, camelos que não entram, com vossa licença, no cu da agulha; sobre parábolas de ricos avarentos que morrem sequinhos como as palhas; no milagre da multiplicação dos pães, dos peixes, dos chouriços e dos tachos, panelas e potes para a gente séria dos aparelhos partidários; nos porcos desalmados que se lançam ao vazio estragando tanto presunto, febras e rojões, questionando o auditório com a irrazoabilidade de para se salvar alguma coisa ter de se perder tanta outra.

 

Por isso é que o diabo nos tenta com a sua tese de que se Cristo viesse de novo à Terra, a História da Humanidade não sofreria qualquer alteração.

 

O diabo é tão dissimulado que criou uma espécie de síntese entre a verdade e a sonegação de determinados factos sem nunca se poder afirmar que está a mentir. 

 

Convém não esquecer – pelo menos eu não esqueço – que foram os diabretes da direita neoliberal, liderada por Passos Coelho e Paulo Portas, que durante quatro anos de “ajustamento”, e de forma silenciosa, iniciaram a dissolução dos principais organismos do Estado, estigmatizando os funcionários públicos, cortando forte e feio nos salários, congelando as promoções e progressões nas carreiras, desmotivando de forma intencional e assertiva todos os que trabalham na administração central, regional e local.

 

Mas parece que chegou o tempo do esconjuro. Não sei é, se os exorcistas são capazes de tamanha tarefa.

 

Vade retro Satanás!


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Domingo, 15 de Novembro de 2015

Paris à noite

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Sábado, 14 de Novembro de 2015

Dormitando no comboio

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Sexta-feira, 13 de Novembro de 2015

À espera do comboio em Versalhes (III)

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Quinta-feira, 12 de Novembro de 2015

Poema Infinito (276): a espera

 

 

A espuma dos dias foge-nos debaixo dos pés. Eleva-se a neblina sobre o leito do rio. Subimos a encosta a cavalo. Os nossos olhos ocultam-nos o mar. As pessoas fogem atrás das nuvens. Os simples mortais revelam desejos imortais. O tempo da caça já passou. Agora cantam-se hinos humedecidos por lágrimas e sangue. As pontas dos meus dedos tocam o teu rosto. Dos teus olhos descem lágrimas. Tremem-te os lábios. Os teus suspiros estão cheios de calor. Cavalgamos durante dias. Envolve-nos uma paz sinistra. As aveleiras e os carvalhos gotejam o tempo. Os nossos olhos avistam finalmente as ilhas. Sentamo-nos à beira mar e esperamos. Esperamos o tempo que for preciso. Reparamos nas árvores, agora mais densas e altas, na sua casca rugosa, no fumo leitoso dos pântanos, na areia cinzenta, na orla árida, no verde da erva, na inclinação disfarçada das terras, nas aves que partem para longe, no lamento perpétuo do mar. Este silêncio é tão antigo como a escuridão ou a luz. Rumores de amor e morte atravessam o solo e instalam-se na alma dos crentes. Os marinheiros baixam-se no vazio da noite e afogam-se antes da cintilação do sol. Sob a luz das estrelas, o povo adormece formando uma amálgama de corpos nus. Os chefes envolvem-se em mantos brancos e afastam-se para a zona mais escura do tempo. Nós refreámos os cavalos. A espera continua. O rei sai da zona densa e empunha a seu gládio de ouro. Um homem com insónia permanente fala da sua antiga casa e de todas as obras que ajudou a construir com a ajuda das mãos. Diz que aprendeu a meditar à luz das estrelas. Fala das longas batalhas do passado. Os seus sonhos são agora fumo. Da sua boca saem apenas dúvidas. Os seus lábios movem-se lentamente, como se rezasse entorpecido pelo fumo acre dos seus sonhos. Envolve-nos uma fadiga maior do que a terra. Continuamos à espera. Flocos de neve penetram em nós como chamas geladas. Uma música suave envolve a nossa tristeza. Invade-nos a memória da dor e do sofrimento de séculos. As reminiscências do sofrimento são lançadas ao mar como se fossem pedras. Os cavaleiros da aurora saem vivos das ondas e cavalgam pelos caminhos mais antigos. Nas igrejas tocam os sinos. Tudo o que é sagrado se verga ao poder da glória. As almas mais desesperadas riem-se de desprezo. Os pobres esperam resignados a sua morte e são abençoados pelo homem do báculo. Aos mais jovens brilham-lhes os olhos. Os mais velhos erguem a cabeça e gritam cantos de raiva. Os seus sonhos são como ilhas. As suas lágrimas são maiores do que bagos de uva. Os seus cabelos parecem nuvens brancas e dispersas. Entoando cânticos de guerra, festejam os antepassados. Os mais novos, com os rostos secos como restolho, gritam que os deuses estão mortos há muito. Depois montam os seus cavalos, agitam no ar as suas espadas e cavalgam para oeste. Os velhos lastimam tudo o que é novo: a esperança e o vigor da juventude. Todos os sonhos são mortais. O homem do báculo ergue os olhos ao céu e começa a soluçar. A sua tristeza não consegue morrer. As palavras ficam ainda mais amargas. Os nossos rostos empalidecem, os nossos olhos brilham, os nossos lábios entreabrem-se, os nossos braços acenam. As sementes de fogo que deram origem ao tempo crepitam e brilham na enorme fogueira que arde no meio do campo. Também elas hão de definhar e morrer, por mais que espreitem e brilhem, por mais que cintilem. Chegou a hora de irmos embora. Já sopram os grandes ventos e as estrelas dispersam-se pelo céu. As velhas recordações dizem-nos que nos havemos de voltar a perder como quando éramos crianças. 


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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2015

À espera do comboio em Versalhes (II)

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Terça-feira, 10 de Novembro de 2015

À espera do comboio em Versalhes

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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2015

264 - Pérolas e diamantes: quem cala consente

 

 

É tristemente universal o processo que leva a que a lógica dos interesses se sobreponha quase sempre à lógica dos princípios.

 

Por isso vemos nas televisões cenas comoventes de pais e filhos a chorarem nos aeroportos antes de partirem os voos que levarão os mais jovens para terras onde possam ganhar o pão que a sua ingrata pátria lhes nega.

 

No final das suas vidas dirão como o Príncipe de Ligne que têm tantas pátrias que já não sabem a qual pertencem.

 

E a vida de quem faz alguma coisa tem sempre formas de ser vista e comentada: gentilmente por parte de alguns e maledicentemente por parte da maioria. Mas já estamos habituados ao insulto indolente, impune, venenoso e preferencialmente anónimo.

 

Desses também eu tenho tido a minha parte e não espero que eles diminuam, mas o tempo endurece e o desprezo, como muito bem diz Rentes de Carvalho, é uma arte que se aprende.

 

Somos gente que aprecia o sol, habituada às terras mansas das veigas e dos outeiros, a deixar descer o olhar pelos declives suaves das nossas serras, a observar a mansidão clara dos nossos riachos, a fazer compromissos, a discutir infindavelmente nos cafés assuntos da treta, a passear lentamente nos finais da tarde entre um sorriso e um sarcasmo, a sofrermos com pena dos outros que ainda são mais humildes do que nós. Enfim, gostamos de gemer.

 

Nós por cá reunimos para comer e beber em caprichado desalinho, onde cada um por vezes grita a defesa das suas desvairadas ideias, quase sempre opostas à dos outros, apenas pelo prazer de ver como os outros fazem a sua pragmática ginástica mental para as defenderem. Somos barulhentos, superficiais e também exagerados.

 

Não me interpretem mal. A minha intenção não é distribuir rótulos de bom ou mau segundo as circunstâncias e as conveniências. Nisso são muito bons os outros. Eu exponho o que sinto e vejo, escrevo as minhas observações e até imito opiniões, que são necessariamente unilaterais. E talvez cheias de defeitos. Mas defini-las como maliciosas ou de má-fé é atribuir-lhes propósitos que não podem ter.

 

Há muito que abandonei o mito dos povos amáveis. E o nosso não é exceção. Talvez a lenda sirva como cartaz turístico, mas a verdade é que somos tão amáveis como os outros. Os portugueses apreciam as gracinhas inócuas e as piadas desdentadas.

 

Por cá reinam os burocratas de vistas curtas, mandam os fanáticos dos tachos partidários e governam os homens dos compromissos com a troika. Para conhecer o vilão é meter-lhe o poder na mão.

 

Os de fora consideram-nos um bando de relapsos.

 

E o meio literário continua como no tempo de Alexandre Herculano: um “prostíbulo”.

 

Numa carta a Bulhão Pato, Herculano atacava os que vendiam “a sua integridade moral ao demónio da corrupção”, denunciava “os protegidos e dependentes dos poderosos”, que faziam com que “os homens de espírito independente fossem vistos como uma espécie de leprosos”.

 

Alguém definiu Herculano como “o homem menos cumprimentadeiro de Portugal” porque na sua integridade literária tinha o costume de “medir as palavras pela consciência e não pela conveniência” e por isso se via sujeito ao “martírio”.

 

Num seu texto, Luiz Pacheco afirmou: “Dizer a verdade, toda a verdade, só a verdade, nada mais do que a verdade (a nossa, tão pequenina e tosca, tão atarantada e confusa, por vezes) – que prazer! que suprema ventura! Mas… Falemos em voz baixa. Como sagazmente descobriu o Abelaira, a palavra é de oiro… está tabelada, sobrecarregada de taxas, de imposições, proibitivas, penas pesadas… por isso, às vezes nos sai tão cara… às vezes, ficamos tramados, arriscamo-nos a perder o emprego, sei lá que mais. As palavras são um perigo, comprometem; os silêncios, sim, esses frequentemente compensam, porque quem cala consente, e é isso mesmo que se pretende: o assentimento geral, fundamentado (com otimismo fagueiro) no grande silêncio geral, a paz tumular das consciências.”

 

Os artigos laudatórios que por aí aparecem são quase uma forma de mostrarmos o nosso subdesenvolvimento, sobretudo cultural.

 

Quanto a mim, louvar quase nunca é bem-querer.

 

Desta vez vou mesmo atrever-ma a terminar com a letra do Fado “Cansaço”, eu que não aprecio essa canção típica dos bairros mouriscos de Lisboa: “Tudo o que faço ou não faço / Outros fizeram assim / Daí este meu cansaço / De sentir que quanto faço / Não é feito só por mim.”


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Domingo, 8 de Novembro de 2015

Cozinha de São Sebastião - Couto de Dornelas

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 035 - Cópi

 


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Sábado, 7 de Novembro de 2015

Jardim da Estrela - Lisboa

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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2015

Ponte D. Luís - Porto

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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2015

Poema Infinito (275): o sorriso do desaparecimento

 

 

Os que não avançam intrepidamente nunca chegam à vitória. Quem conquistou os montes abrigados foram os exércitos inimigos. A nós faltou-nos a ousadia e a convicção. Como sempre. Os invasores atingiram as colinas extremas e puderam sentir nos seus rostos o vento velho e frio que dizem vir do mar. Nós ficámos com o desânimo cravado no coração. Como sempre. Para que servem os chefes? Para que serve o sacrifício de tantas vidas? A paisagem é agora estéril. As terras ficaram desertas e são varridas pelos temporais. A imagem do mar apagou-nos a alma. Os homens dormem agora em cavernas enquanto os barcos dos triunfadores sulcam os seus sonhos. O que haverá do outro lado do tempo? Durante o inverno o resto da gente partiu, sem destino certo, sempre em frente, como lhes ensinaram. Ninguém sabe o que procura. Fomos vencidos na época das guerras. Fomos vencidos em tempo de tréguas. Venceram-nos até nos tempos de paz. Agora vemos os outros elogiarem a sua mediocridade, fazendo pouco dos nossos artistas e dos nossos filósofos, da nossa estética, da nossa política e do que se ensina nas nossas escolas. E sorriem. Sorriem sempre. E olham para nós. Começámos a deambular pelos bares, como nos ensinaram. Porfiámos em ouvir os velhos a falar da sua velhice e da velhice que nos começa a tocar. Maldizemos o vício que nos impediu de tomar consciência do nosso próprio estado. As crianças começaram a desenhar imagens obscenas em largas folhas de papel branco. Esse exercício ocupa-lhes os dias. Os seus pais atormentam-se. Já poucos nos lembramos do regozijo de uma noite de festa. Eles, os outros, o inimigo, riem-se à nossa custa. Nós murmuramos de braços abertos e pronunciamos frases impercetíveis com medo de sermos compreendidos. Abrimos os braços e obstinamo-nos no nosso próprio silêncio. Os vales estão repletos de geada. Ventos contrários fustigam os que teimam em cavalgar. Erguem a mão direita e choram. Sentem que os seus corpos se tornaram estéreis. Sentamo-nos no chão e esperamos que alguém cante. Apenas se ouvem murmúrios. Os mais determinados levantam-se e falam do outro lado da vida. Da alegria. Do sofrimento. As suas vozes cortam o tempo. Alguns ainda conservam a esperança de se tornarem raízes. Nos cumes dos montes as árvores balouçam, o céu fica cinzento de trovoada. Praticamos a proibida lei dos presságios, a álgebra animal, a difícil engenharia das manipulações. As autoridades preparam-se para combaterem o silêncio sangrento da rutura. Reinventam a incómoda herança da civilização. Elogiam a paranoia, a reversibilidade das metáforas, as hierarquias invernais, os idiomas com que se fabricam as fronteiras, a vulgaridade aristocrática, a genealogia da cor, a longínqua obliquidade da prosódia. Os homens sempre conseguiram sobreviver às heresias, às expressões disformes da verdade, à transcendência dos pretextos, às filosofias mais lúcidas, à linguagem obediente das religiões, às perguntas dos que nos observam. Ao esquecimento. Agora recusam a compreensão. Transformaram a injustiça em delírio. Dominaram a vontade da virtude. Equilibraram a sua sensibilidade com a arbitrariedade. Ainda temos esperança de podermos regressar aos lugares da nossa infância, onde o ventre da terra atrai os animais e faz medrar as plantas. Ali as mães ainda cantam a divina certeza do desaparecimento enquanto procuram a raiz profunda da loucura. Aí, entre as ruínas, um poeta solitário continua a iluminar as tardes com medo de não chegar a ver a noite.


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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2015

Ribeira - Porto

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Terça-feira, 3 de Novembro de 2015

Clérigos - Porto

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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2015

263 - Pérolas e diamantes: melodrama pafiano

 

 

Leopoldo Brizuela, no seu melodrama lisboeta, escreveu duas frases que resumem muita da nossa cegueira: “De que cor é o céu? É da cor da nossa incapacidade de ver…”

 

Todos os homens públicos se afanam na inglória desdita de salvar, ou condenar, os pobres. Nunca admitem a hipótese de pura e simplesmente os deixarem em paz.

 

Caros leitores, um partido, ou melhor, uma coligação que não consegue diferenciar a verdade da mentira é porque já não crê que a sua mensagem seja autêntica.

 

Desde já peço perdão a todas as almas mais sensíveis e crédulas, mas creio profundamente que o célebre discurso do senhor presidente Cavaco Silva que indigitou, pela segunda vez, Pedro Passos Coelho como putativo primeiro-ministro de Portugal, foi escrito por um comité composto por Miguel Relvas, Assunção Esteves, Marco António Costa, António Barreto, Francisco Assis, Alberto João Jardim e o Darth Vader.

 

Atualmente é difícil sobreviver em Portugal. Mas os portugueses lá o vão fazendo com algum estilo e certa substância.

 

Anda por aí muita gente a falar sobre assuntos em relação aos quais não sabe muito, mas que fala como se comunicassem coisas deveras importantes.

 

Encontram-se disseminados na nossa sociedade muitos rancores e muitas invejas que, bem vistas as coisas, fazem sempre sofrer mais quem os tem do que aqueles a quem são dirigidos.

 

Entre os portugueses está espalhada a tendência de puxar os outros para baixo.

 

Existe um certo ressabiamento quando as coisas correm melhor aos outros do que a nós. Há muita gente com qualidade a quem tudo corre mal. E existe ainda outro tipo de portugueses a quem tudo corre bem. São os que têm uma sorte danada.

 

Dizem os mais espertos neoliberais que vivemos acima das nossas possibilidades. É bem verdade. O nosso destino deve ser uma mistura de país subdesenvolvido com um estado mínimo, miserabilista, amante da assistência, cultor da caridadezinha e amigo dos pobrezinhos.

 

Vivemos acima das nossas possibilidades na educação, na saúde e na segurança social.

 

Devíamos poupar a vida toda para comprar a casa em idade provecta, ir ao médico quando estivéssemos para morrer, andar de burro ou de camioneta, ir ao restaurante apenas nas bodas e nos batizados, fazer emigrar metade da família, ir a Fátima todos os anos, mas a pé, frequentar apenas escolas profissionais e trabalhar de sol a sol por uma malga de caldo e uma garrafa de tinto.

 

Esta gente cortou as tais gorduras do Estado e o que daí restou foi apenas um esqueleto. Quando esta crise acabar o país terá recuado décadas no seu desenvolvimento.

 

Todos os políticos que enriqueceram de um dia para o outro fizeram-no utilizando as amizades transversais entre os diversos partidos, pois possuem sempre grandes amigos no partido adversário, relação que é sempre recíproca. Essa é a garantia de que os mecanismos de proteção mútua funcionam.

 

Por isso é que os partidos políticos no nosso país detêm a hegemonia da representação política. Ninguém chega a autarca, secretário de estado ou ministro sem usar os aparelhos partidários e a sua rede de influência. A sua força de pressão é essencial.

 

Convém não esquecer que a tímida e pálida recuperação económica que dizem existir foi conseguida porque centenas de milhares de portugueses estão desempregados, ou foram obrigados a emigrar, porque perderam os seus salários, porque ficaram sem casa e sem carro para os entregarem ao banco, porque viram a sua empresa falir e porque muitos jovens não podem estudar pois pura e simplesmente os seus pais não possuem meios para os sustentar.

 

A classe média ficou pobre e os pobres ficaram ainda mais pobres. Este é o milagre de anos de governação PSD/CDS.

 

Sim, eu sei que não são os únicos culpados, mas também sei que foram os que estão no governo quem piorou as coisas de uma maneira quase insuportável.

 

Não consigo entender, e muito menos perdoar, quem transformou o desemprego em “flexibilidade do mercado de trabalho” e o corte do subsídio de Natal em “desvalorização fiscal”.

 

Nem eu nem cerca de 60% de portugueses que votaram contra a famigerada PàF.


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Domingo, 1 de Novembro de 2015

Margem do Tâmega

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