Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2015

Poema Infinito (283): tempo descontínuo

 

 

 

Proclamam os ventos que os homens não dormem nesta noite. O filho pródigo regressou a casa muito assustado, mas enganou-se na porta e não conseguiu subir as escadas. As suas terras foram engolidas pela enxurrada. As flores dos vasos das varandas murcharam. Na cidade, as praças ficaram vazias e as pombas foram perseguidas pelos mendigos. O fogo da lareira crepita vagarosamente. O pão endurece no armário. A água para o caldo já ferveu várias vezes. Não tarda que o dia se apague. Os bolos perderam a doçura. Os suspiros das mulheres são cada vez mais profundos. O rio continua a guardar o segredo dos nossos passos. A floresta é um labirinto. O seu chamamento é triste. Já ninguém acode à aflição das mães. As palavras atrapalham-se nas suas bocas. As suas memórias adormecem. As arcas guardam os antigos poemas engrunhados pelo tempo. Por vezes o sol adormece nos telhados. Os domingos ficam impregnados do cheiro do linho e da lã. Os sonhos são sonhados do avesso. Dormem dentro de nós. E nós dormimos dentro da tarde. A idade cuida dos nossos gestos mais pequenos. Os quadros antigos ficam cada vez mais solitários. Neles, os familiares mais antigos apertam as mãos para se acostumarem ao inverno permanente. Os seus olhares possuem a cor da luz da lua. O crepúsculo instalou-se nas paredes da casa. A vida doba a sua meada e espera. Os animais afastam-se das suas crias. Os avós contam histórias aos netos deliberadamente carregadas de datas, nomes e circunstâncias. Evitam os detalhes, a intranquilidade dos lugares, as personagens estranhas, os desejos, os demónios, o feitiço dos corpos, os gestos hesitantes, o símbolo do tempo que guarda as lembranças mais vagas e desprendidas. Por vezes perdem o sentido do tempo e tateiam às cegas o seu destino. Pela manhã, os corpos abrem-se como se fossem flores tranquilas absorvendo a luz azul e demorando-se na tranquilidade momentânea de um afago. As memórias chegam carregadas de espectros. Os amantes acreditam poder curar os seus desejos com palavras e infusões de malmequeres. Vivemos na época das incertezas. As mulheres gordas que pesavam dentro dos quadros dos pintores clássicos deram-se conta que são figuras transitórias e puseram-se a fazer dietas rigorosas e a praticar exercício físico. Agora são como livros brancos. Vivem em silêncio, sem memória, como formas incertas que adormecem à sombra doentia das figueiras. Os seus olhares são tão aleatórios como as estrelas atordoadas pela distância percorrida e pela que lhes falta percorrer até se extinguirem. É assim a eternidade, uma espécie de neblina cintilante acampada num vale de sombras onde o céu adormece e tudo espera. Aproxima-se um tempo descontínuo. Os caminhos levam-nos para longe. Os lugares são apenas lembranças viradas a poente. Os frutos continuam a crescer devagar, demorando-se no desenho redondo da forma. Tudo tem o mesmo nome. Alguém assobia uma velha canção triste. O vento ainda assobia do mesmo lado da casa. O medo e as sombras ainda descem as paredes da mesma forma. Mas eu agora sou outro. As palavras com que invoco a vida demoram cada vez mais a regressar ao seu local de partida. As noites dobram-me o sono. Sonho com as viagens que nunca farei. Eu sou o filho pródigo que nunca saiu de casa, apesar de ter comprado cavalo, sela, estribo e esporas. As razões de um possível regresso interromperam-me sempre a vontade de partir. Aplaudo a compaixão, mas os meus deuses são efémeros. A divindade é uma outra forma de conspiração.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2015

No bosque

_JMD9386 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 29 de Dezembro de 2015

A videira

_JMD3253 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2015

A sexualidade das pequenas coisas

 

 

O meu amigo M. chegou ao pé de mim, sentou-se, pediu um café e pôs-se a bebê-lo como só ele o sabe fazer. O seu porte é distinto, mesmo a tomar café. A sua maneira de o pedir ao empregado, a forma distinta como abre o pacote de açúcar, seja ele uma pequena bolsa rectangular ou cilíndrica, a maneira como o mexe, em movimentos lentos e exactos, como quem desenha uma circunferência com o auxílio de um compasso kern, surpreende qualquer um. Já vi pessoas a deterem-se no acto de tomar as suas bicas por se sentirem verdadeiramente impressionadas com a habilidade e o porte eletivo do meu amigo na execução perfeita do ato de tomar café. Mas, e para o amigo leitor se inteirar melhor do seu prazer, podemos igualmente acrescentar que o meu amigo M. toma a sua bica como se o fizesse pela primeira vez, como quem se regozija com a primeira namorada, como quem saboreia o primeiro beijo ou como quem se prepara para ter a primeira relação sexual.

 

Mas para chegarmos até aí, primeiro vamos deixar falar um pouco o meu amigo. «Caro João, ontem o meu filho chegou a casa com os bolsos cheios de preservativos, como no dia em que pela primeira vez foi à escola e o encheram de rebuçados. Só que desta vez vinha da universidade, da festa de recepção aos caloiros. Além de uma pasta, uma bata, blocos de notas, roteiros, um lista telefónica das Páginas Amarelas, um cordão com aloquete, uma proposta de abertura de conta numa instituição bancária, um cartão multibanco provisório e duas esferográficas, ofereceram-lhe vários e distintos preservativos em embalagens criativas, com distintos sabores, com ergonomias curiosas e mesmo um exemplar luminescente para a parceira, para, mesmo no escuro, saber sempre o que procurar e onde poder encontrar o membro fálico do mancebo sem ajuda do GPS do telemóvel. Ora, caro amigo, mesmo sabendo eu que a distribuição dos preservativos são uma forma de combater as doenças sexualmente transmissíveis, também são como que um apelo a que essas mesmas relações se efetuem. É um pouco como a história do ovo e da galinha. O meu filho mostrou-se desde logo interessado em utilizar tudo o que lhe tinham oferecido no kit universitário, afirmando que por algum lado se deve começar a vida universitária. E que se ela é constituída por sangue, suor e estudo, o melhor é começá-la com as experiências mais aprazíveis. Os psicólogos dizem que ter uma relação sexual no momento da entrada para universidade ajuda a libertar a libido e por isso mesmo é uma forma estimulante de potenciar as relações intergrupais que são essenciais para criar os laços de amizade e integração no grupo. “Representa o mesmo que no teu tempo”, disse ele para mim, “entrar com o pé direito”. Ao que eu lhe respondi: “Essa curiosa expressão utilizávamo-la como um amuleto, um talismã, um esconjuro. Mas dar preservativos como quem distribui rebuçados de distintos sabores e cores aos jovens parece-me um pouco excessivo. Olha, meu filho, lá diz o povo na sua sabedoria, o que não é visto não é lembrado. De seguida atendi o telemóvel e a conversa ficou por ali. Mas não deixa de ser irónica a circunstância de lhe oferecerem o objeto que permitiu o equívoco da sua gestação”.

 

O meu amigo M. foi um jovem adiantado para o tempo. Na época em que nos formámos, um preservativo era a modos como a teoria heliocentrista de Galileu no seu tempo, uma convicção contestada por quase todos. Por isso se fez forte e, numa ida a Lisboa em viagem de estudo, deslocou-se a uma farmácia e pediu um preservativo. Como a farmácia estava a abarrotar com pessoas a solicitar fósforo-ferrero para administrar aos estudantes por ser época de exames, nem sequer lhe pediram para mostrar o bilhete de identidade. A partir daí nunca mais deixou de transportar nos bolsos das calças o seu preservativo de estimação. Demorou foi muito a utilizá-lo. Não porque lhe faltasse a ousadia e a vontade. A ala feminina é que não lhe aparava os lances. Fizesse frio ou calor, chovesse ou nevasse, o meu amigo trazia sempre nos bolsos das calças o lenço, as chaves de casa e o preservativo. Apesar da fortaleza do invólucro, a textura começou a dar de si. Com o passar do tempo, e com a intensidade dos apelos da carne, um dia, um glorioso dia de primavera, o meu amigo conseguiu alcançar os seus objetivos. Passados nove meses nasceu o seu primeiro filho. Quando o questionámos sobre o facto, limitou-se a confessar que o preservativo lhe tinha saído furado. Naquela altura não havia ainda uma lei a exigir que os produtos exibissem o seu prazo de validade.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 27 de Dezembro de 2015

Na adega

Santo Ovaia, etc 126 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 26 de Dezembro de 2015

Na feira

Romanos em Chaves, 2015 018 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2015

Na feira

Romanos em Chaves, 2015 010 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2015

Poema Infinito (282): a densidade do pecado

 

 

As flores nas leiras parecem mulheres condensadas pela névoa. O sol torná-las-á suplicantes, comovidas, ansiosas. Humanizámos as árvores. Arde a carne, porque é humana. A inquietação torna-se insana. A água vai para além do horizonte. O dia perdeu-se dentro da sua transparência. Um novo tempo está para surgir. A saudade esconde-se dentro da gente. Um dia regressará retemperada pela bruma. A memória voa alto como as aves mais corajosas. Aleluia ao teu corpo e à tua límpida alegria. A nossa verdade fica assim mais concreta. As bruxas da nossa infância pregam o medo lá em baixo. Aos seus olhos até as montanhas são ilusões. Todas as naves que daqui saíram foram construídas com pinheiros perfumados. As suas tábuas abrigaram sempre os marinheiros da fúria do mar. Navegando nos oceanos, os céus pareciam-lhes ainda mais ilimitados. Não conseguiam arredar o pânico. Casaram os sonhos com o espanto e abriram ainda mais os olhos para conseguirem seguir os astros. Uma nova certeza traz sempre consigo um novo brilho. Os homens ajoelham-se. E rezam. E engolem em seco o orgulho e a vaidade. Nascem-lhes pequenas asas de dor. A sua humanidade é sombria. A dor da fome não passa. O frio e a neve fazem-lhe invocar o agasalho do calor do verão. As ondas altaneiras são sinais de salvação. Grandes naus, enormes tormentas. Apenas deram à praia os náufragos que tinham escrito nos olhos o seu destino de poetas. A tristeza agravou-se-lhes nos tempos da adolescência, quando as raparigas lhes liam gloriosos sonetos vegetais e passavam as tardes a observar os caminhos que iam desembocar nas estrelas. O amor era tão ténue como o risco luminoso de um pirilampo na noite mais escura. As mulheres mais belas enchiam os seus lenços de lágrimas porque os homens eram todos uns brutos que montavam minotauros em vez de cavalos alados. Não havia disponibilidade de heróis indispensáveis. Esses estavam ocupados a rasgar o céu que lhes convinha. Era esse o seu destino. As suas mães e os seus pais tinham-lhes ensinado a conquista da glória como a sagração universal. Nela apareciam as virgens, os pastorinhos doentes e visionários, a luz cortada pelas azinheiras que a todos atingia e depois se transformava em orvalho. Os bichos do monte eram harmoniosos e todos tinham vontade de dormir logo a seguir aos milagres. Os pássaros de voos mais curtos fingiam abrir um pouco mais as asas para acompanharem a santa até às alturas. Depois o sol girava e as nuvens também, provocando uma cegueira momentânea que a todos atingia. Os sons mais estridentes diluíam-se no ar. Posteriormente as pessoas enfiavam-se dentro das suas conchas e rezavam até adormecer. Aprenderam a fechar os sonhos, a carregar a inocência como um virtude caprichosa, a andar de joelhos para se libertarem dos pecados. Transformaram-se em devotos frágeis e em organismos cobertos de heras e superstições. A história descalçou-os e deixou-os ao frio e ao vento. A memória transformou-se numa pedra tumular. As suas palavras são escuras. A sua confiança é turva. O seu conhecimento humano é feito de dor e arrependimento. Um misticismo vago amplia as pombas e o dorso dos cisnes. As fadas cavalgam em cima de ninfas. Os anjos queixam-se de falta de amor. Deus transformou-lhes os sexos em rosas e cravos. Por isso são escravos da sua impotência. A sua carne é vegetal. A simplicidade imerge dentro de si. Não existe oração que lhes valha.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2015

Cozinhando no pote

JMD_4725 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 22 de Dezembro de 2015

Na conversa

_JMD9383 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2015

270 - Pérolas e diamantes: MRS, caso ou acaso?

 

 

Aí está Marcelo Rebelo de Sousa, o comentarista, no seu máximo esplendor.

 

Ao contrário de Cavaco, que o catapultou para o Conselho de Estado, ele raramente tem certezas e frequentemente se engana.

 

Melhor para ele. Enganar-se é a fórmula perfeita para voltar a tentar.

 

Para além de comentador político, MRS é uma personagem bem ficcionada e promovida pela TVI.

 

Ideologicamente é um vazio, mas possui um trunfo: a sua ambiguidade.

 

É homem para defender uma coisa e o seu contrário. E sempre com ar de quem é entendido em tudo. O homem não consegue definir quem é nem aquilo que é. É sempre aquilo que for preciso que seja.

 

É tão eloquente como um catálogo de vendas de taparueres ou então como a revista promocional da Bertrand. A sua ideologia é silenciosa como convém.

 

O seu máximo valor idiossincrático é uma espécie de mínimo múltiplo comum entre a esquerda, que tolera, e a direita, que lhe serve de pretexto para se candidatar. São estes os seus autocolantes de campanha.

 

Depois de assistir à primeira entrevista de MRS à SIC, e pegando na ideia de uma crónica de Vasco Pulido Valente sobre Cavaco, podemos dizer que o Doutor Sousa falou à populaça na TV. De início, como convém, e pedagogicamente, como é seu timbre e feitio, o Doutor Marcelo não disse nada. Logo de seguida, e de perna cruzada, sentado no sofá, investido de vacuidade, o Doutor Rebelo nada disse. Depois, circunspectamente, o Doutor Sousa não disse nada. E, por fim, afagando o nó da gravata e alisando a sua voz “sinusitoide”, o Doutor Marcelo nada disse.

 

A notória displicência argumentativa do Doutor Rebelo, não lhe permite dizer nada, nem quando faz um esforço enorme para dizer alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja, afinal, não dizer nada.

 

Uma coisa deixa claro a quem o ouve: o homem acredita em tudo aquilo que diz.

 

Utiliza as palavras para nos enrolar. Torrentes delas. Mas palavras leva-as o vento. Há um provérbio judeu que diz: Quanto mais forte é o vento mais lixo levanta.

 

Marcelo Rebelo de Sousa esforça-se quase até à exaustão para dar a ideia de um perseguidor da qualidade.

 

Esforça-se para avivar a memória dos mais antigos militantes do PPD. Enumera sempre as virtudes de Sá Carneiro.

 

Claro que até pode afagar o busto do líder carismático do PPD, mas falta-lhe o golpe de asa de Sá Carneiro. E também uma Snu que lhe dê consistência e transmita paixão.

 

Sá Carneiro era um ser invulgar, um homem carismático, uma personalidade superior. Não um catavento mediático, como é conhecido MRS no partido de que diz ser insigne militante.  

 

MRS é apenas uma ideia de senso comum, um moralista mediano e um comentador de ténis circunstancial. Fugiu sempre da adversidade para procurar, e refugiar-se, na popularidade.

 

O Doutor Rebelo é um talento eminentemente conjuntural. Tão conjuntural como os livros de campanha.

 

O Doutor Sousa pensa já ter os nossos votos na algibeira. Mas talvez se engane.

 

O Doutor Marcelo nunca poderá ser um presidente essencial (e bem necessitados estamos de um), apenas poderá representar o papel de um presidente acidental.

 

Longe vá o agouro.

 

O Doutor MRS trabalhou afanosamente para ser um caso, pesando permanentemente os argumentos, os livros e os mergulhos.

 

O seu maior defeito, que muitos julgam virtude, inclusive o próprio, é que nunca conseguirá afastar de si a ideia de que sempre viveu mediaticamente da promiscuidade entre política e jornalismo.

 

Com certeza que o seu amigo Ricardo Salgado lhe ensinou que os pobres comem com fome as febras que lhe põem na frente e que os ricos manjam com apetite as lagostas que lhes servem. E que o champanhe se bebe sempre sem sede.

 

O homem tudo fez para ser um caso, mas, por mais que lhe custe, não passa de um acaso.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 20 de Dezembro de 2015

No Porto

_JMD9308 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 19 de Dezembro de 2015

No Porto

_JMD9302 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2015

No Porto

_JMD9239 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2015

Poema Infinito (281): a impossibilidade do destino

 

 

Os comboios cabem dentro de todos os sonhos do mundo. O tempo dos nossos já passou há muito. A saudade é agora outra. O mistério reside atualmente na impossibilidade do destino conduzir as carroças que antigamente cruzavam os caminhos até terras desconhecidas, onde a realidade desaparecia por debaixo das pedras, onde a humidade se infiltrava nos muros e o musgo nascia vencido pelo verde dos lameiros. A sensação que permanece é a da permanência de um sonho, da lealdade das árvores, do propósito das janelas, da realidade interior de todas as coisas. A história não nos marcou. O que nos determinou foram as estórias, o momento das conquistas futuras, a certeza da luz das claraboias, as horas passadas nas mansardas, as aspirações mais altas, as incertezas mais lúcidas, a claridade azul do verão, os sons ouvidos pela gente, a filosofia dos segredos, as paredes sem portas, as cantigas infinitas sopradas pelo vento, a certeza do sol, a incerteza da chuva, a terra inteira, a via láctea, tudo aquilo que é indefinido, a transcendência do assombro. E a amargura. Sobretudo a amargura rápida da caligrafia. E também a rapidez dos versos recitados. Tudo isso nos marcou com o seu selo de fogo. Por isso nos lembramos das deusas gregas, das princesas e dos trovadores, das marquesas longínquas, das estátuas vivas e dos célebres tempos dos nossos avós. Agora as ruas são de uma nitidez absoluta. E também as lojas e os passeios e os carros que passam. Tudo isto nos pesa nos olhos. Envelhecemos a olhar para os espelhos, a criar outra realidade, a tentar desmentir o tempo, a retirar dos versos a inutilidade da sua essência musical. A saudade que sentimos não é passado nem chega a ser futuro. Temos que aproveitar o tempo, as suas linhas, os seus bocados mais preciosos, os pensamentos com que construímos o dominó da vida. A história reflete-se nas suas próprias gravuras, na sua paciência, na sua consciência fatídica. Nós conservamos a suave elegância do existir. As memórias são como brisas, como folhas de árvores involuntárias titiladas pelo zéfiro, como poeira sideral. No centro delas ainda continua a rodopiar o pião ao ritmo do nosso sossego. Um sol vago pavoneia-se pelas casas paradas dando mais ritmo ao movimento das pessoas que andam. A demência humana é sempre maior do que os espaços onde ocorre. A intenção de conquistar o mundo devia ser sempre um projeto para depois de amanhã. Apesar de seguirmos sempre pela mesma estrada, a realidade leva-nos para outro sonho. Viajamos acompanhados pela simetria dos deveres, pelas suas consequências, pelo sacrifício da chegada. O devir é para os loucos do passado, para os homens do momento, para os que sonham com a fervura densa da glória. A Humanidade já aprendeu a viver com as suas amarguras, com os versos escritos pelos outros. Os velhos utensílios da lavoura apodrecem onde foram arrumados pela última vez. Decompõem-se junto aos anjos da redenção. As árvores mais antigas recolhem toda a angústia do dia. Inquieto-me com a ideia dos frutos que darão no verão. Sinto o boi Ápis a ruminar na corte. As parábolas bíblicas deixaram de me entusiasmar. Já me esqueci do seu sentido. Está na hora de arrumar a mala. A monotonia mata-me. Triste condição esta de ser poeta menor, de ter de dizer adeus às fadas, de engolir o tempo junto com o óleo de fígado de bacalhau. Agora acordo sem sonhos, embrulhado em metafísica e seriamente enjoado com a poesia de Álvaro de Campos. Já não sou eu mesmo, tomei o elixir dos eclipses. 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015

No Porto

_JMD9238 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 15 de Dezembro de 2015

No Porto

_JMD9237 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015

269 - Pérolas e diamantes: o estrondo

 

 

Vaidoso, vulgar, manipulador, demagogo, narcisista, cínico, estatista, burocrata, maníaco, altivo, autocrata, despótico, carismático, egocêntrico, justiceiro, pseudo-iluminado, bimbo, banal, curto, limitado, paroquial, parolo, prepotente, medroso, sem brilho, sem dimensão, arrivista, reacionário, obtuso, confuso, cego, surdo, esquálido, interesseiro, inepto, simplista, oportunista, populista, mediano, salazarzinho de subúrbio, imitação barata, vingativo, tosco, arrogante, um bom hipócrita, pequeno, piroso, pusilânime.

 

Desta forma lisonjeira foi Cavaco Silva caraterizado pelo extinto jornal Independente, dirigido então pelo “irrevogável” Paulo Portas e pelo menino do laço, Miguel Esteves Cardoso.

 

Os autores da compilação são os jornalistas Filipe Santos Costa e Liliana Valente, autores do livro O Independente – A Máquina de Triturar Políticos.

 

Desafio os leitores mais ousados a tentarem riscar um único desses atributos imputados ao senhor presidente Aníbal sem que lhes não pese a consciência por estarem a faltar à verdade.

 

De uma coisa temos a certeza, é que tanto Cavaco Silva como Pedro Passos Coelho, bem assim como o inexprimível Paulo Portas, sempre acreditaram que a governação de um país tem de ser de indiferença face ao empobrecimento generalizado dos portugueses, com a ideia peregrina de que o empobrecimento é moralmente bom pois não só purifica como regenera.

 

No fundo, para eles a pobreza é uma virtude… nos outros. O Estado, qual demónio incandescente, tudo o que toca torna impuro. No fundo sentem que a troika, que eles ajudaram a entrar no país, é uma espécie de castigo divino para redimir os portugueses.

 

Contas feitas, o senhor Passos e o inefável Portas, retiraram a centenas de milhares de portugueses cerca de 25% do poder de compra, gente que está longe de poder ser apelidada de remediada. E nem uma palavra de consolo conseguiu transmitir-lhes.

 

Para eles, o desemprego é apenas uma abstração numérica, uma estatística, uma infelicidade, enfim: o destino.

 

Claro que os tempos são duros e o espaço de manobra acanhado, mas, santo Deus, o entusiasmo verbal com que anunciavam a aplicação das medidas mais gravosas era quase obsceno.

 

O Governo anterior caiu com enorme estrondo porque a maioria dos portugueses percebeu que o discurso fleumático de PPC e PP esteve sempre prisioneiro de meia dúzia de generalidades e vacuidades sobre o país, o seu tecido económico e social, cativo de outra meia dúzia de ilusões, refém de convicções pífias sobre receitas económicas e colado a lugares-comuns sobre a necessidade dos sacrifícios.

 

Estou em crer que não sugeriram a flagelação, o látego e o cilício por considerarem que ainda não se encontravam reunidas as condições para a purificação dos portugueses ser aceite sem alguma revolta. Mas vontade não lhes faltou.

 

A sua estratégia assentou sempre no medo, pois sabem que ele é eficaz como garante da passividade. Depois de interiorizado, o medo conduz à ideia da sua inevitabilidade. Mas o medo é também uma arma de dois gumes, quando termina ou enfraquece, potencia a vingança.

 

Manuel António Pina sempre esteve convicto de que um bom verso tem certamente mais hipóteses de durar do que um primeiro-ministro, ou um presidente. Escreveu numa das suas crónicas que “daqui a 50 ou 100 anos, o mais que algum rato de Universidade provavelmente conseguirá dizer sobre Cavaco Silva depois de ter vasculhado em todos os arquivos, é que foi um primeiro-ministro do tempo de Eugénio de Andrade”. Sobre a sua presidência, estou certo de que nem em nota de rodapé algo será encontrado.

 

No fundo, são eles os responsáveis pelo triunfo da mediocridade e da vulgaridade. Os sonhos de liberdade, de justiça e paz estão hoje reduzidos ao tamanho de um cartão de crédito nas mãos dos empresários de sucesso.

 

Os nossos políticos e governantes são como os chefes de uma repartição do Estado. No fundo limitam-se a executar as decisões tomadas por outros.

 

O corretor da Bolsa de Londres, Alessio Rastani, definiu bem o seu sonho de lobo em relação aos cordeiros que somos todos nós: “O nosso trabalho é ganhar dinheiro com a crise. Todas as noites sonho com mais uma recessão”.

 

Faço votos para que o programa do atual governo não seja mais um exercício de ficção. Não quero que o sonho de Alessio Rastani se transforme outra vez no nosso pesadelo.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 13 de Dezembro de 2015

Vendedora de castanhas

Santos 2014 008 (2) - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 12 de Dezembro de 2015

Fotógrafos

montalegre+matança abobeleira 2014 257 - Cópia.j

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2015

Fotógrafos

montalegre+matança abobeleira 2014 238 - Cópia.j

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015

Poema Infinito (280): anunciação, salvação e novamente pecado

 

 

Sinto o amor do lado contrário depois de olhar o teu corpo deitado sobre os impulsos que me levam a beijá-lo com a força sincera e bruta das sugestões. São os gestos parados do tempo o que silencia as bocas. Também eu quero amar o sol e a terra e o calor do céu e a loucura da razão. Não consigo pedir perdão nem ter medo da vergonha. É tempo de fazer penitência, de ser disforme, de ser mau. De ser bom. E de ter paciência. Morrem de frio as pobres flores, perdendo lentamente o nome e ganhando calmamente o gelo. O amor é cada vez mais raro porque precisa de confirmar as palavras com que é apregoado. As mulheres prometidas morrem abandonadas pelo tempo e pelas sombras. Dizem que apenas buscam um pouco de ternura. Mas aparecem sempre tarde. Quando chega a noite sentam-se à lareira e entram continuamente no conto errado. Não vale a pena falar do que já lá vai. Do ar carrancudo dos velhos, da mudança das ideias, da razão, da muitíssima razão do que nos irá acontecer, dos que causam a injustiça, dos que a justificam, dos que a santificam, dos que a veneram, dos que lhe são fiéis. Nós rezamos e cantamos como os outros, com notas discordantes, com arranjos de garganta e pelos mesmos motivos ocultos. Toda a realidade é incómoda. São as pedras que definem as montanhas. É a pena o que conserva o penitente, a que lhe desenha o rosto, a que planeia o significado transcendente do santo sudário. Verónica foi certo dia mãe de um filho incerto. Pariu-o a sete de janeiro e ninguém se opôs. Ninguém, como se isso fosse um feito glorioso. Apenas o anjo da guarda disse que o poderia ter concluído com melhores modos. Depois deixaram-na envolta no seu próprio silêncio e nos seus instintos menores. Os que assistiram, despediram-se delicadamente, sem alegria, sem tristeza. Todos rezaram imbuídos da mais sagrada das ignorâncias. O mundo deixou então de ser mundo e passou a ser outra coisa. Quando se perde a inocência, começa outra forma de vida. Já não se treme quando se mexe e analisa o sexo. Depois chega a ânsia lá de longe. E a lógica. E o canto das sereias. E a sagrada teologia que nos ensina com que linhas Deus cose o nossa vida. Os poetas são sempre os primeiros a cair na hipérbole da anunciação. Os poetas veneram a lua e adormecem. Quando sonham juram lutar pela sua salvação. E escrevem que choram, e fingem mesmo quando fingem que não fingem que choram. Todos os homens possuem uma mesma raiz. Por isso se carregam de pecados e humedecem as mãos com que mataram Caim. E lavam-nas imitando a ilusão de Pilatos. São netos de Moisés, por isso galgam os montes e acordam sempre no fim dos sonhos. Comem incessantemente a metade de cada milagre. E distribuem o pão. E devoram a tristeza por necessidade. Cumprem as ordens. E aprendem a engolir o orgulho. São descendentes de Job. E da sua pobreza. Chamam a verdade aos gritos, mas em vão, como em vão invocam o nome de Deus. E abrem a boca para mostrarem o abismo que nela encerram. O velho Deus açoitou-os muitas vezes. Quase sempre injustamente. Pretendia extirpar-lhes o pecado original pela raiz. Não conseguiu. Então amassou o barro e gerou outro homem e desse homem gerou uma mulher. E depois a mulher pariu muitos filhos. Filhos que tiveram desejos e sonhos e que passaram a desejar ir para o céu. Agora no céu mora um Deus que os enche de amor passivo. É assim o jardim celeste: um fragmento de culpa e outro de ingenuidade. Louvado seja o Senhor.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2015

Alhariz - Baile

_JMD3015 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 8 de Dezembro de 2015

À procura da ponto

_JMD1570 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015

268 - Pérolas e diamantes: confissões de um provinciano

 

Chegou agora a vez dos intelectuais entrarem em guerra e de usarem as palavras para desencadear os devidos efeitos colaterais na populaça. Exemplo paradigmático é o de Clara Ferreira Alves atirando fogo sobre as elites: “Temos políticos muito ignorantes”.

 

O nosso diário mais popular, o CM, resolveu, por seu lado, disparar sobre o novo executivo de esquerda: “Costa chama cega e cigano para o Governo”. Com prosa tão elevada, não ficava nada mal que o nosso jornal de referência terminasse a tarefa, sugerindo-lhes nós, para a palermice ficar completa, que os seus jornalistas se atrevessem a escrever “preto no branco”: “Monhé lisboeta chama para o Governo negra, cega e cigano”. Assim ficava o recado dado sem as discriminações evidentes.

 

Já agora talvez até não fosse má ideia sugerir (à cautela, pois têm grandes probabilidades de acertar) que no executivo socialista também estão representados os homossexuais, maçons e até judeus.

 

Já o prestigiado escritor espanhol (madrileno?) Javier Marías deu uma entrevista ao ípsilon onde se fez porta-voz de um antiportuguesismo militante e serôdio. Este intelectual castelhano decidiu lançar mísseis balísticos contra o nosso melhor treinador de todos os tempos dizendo: “Mourinho foi o pior que aconteceu ao Real Madrid em toda a sua história. Não só por ser uma personagem venenosa e contrária ao espírito tradicional do clube, mas também por ser péssimo treinador”.

 

Não satisfeito com a tirada assassina, este admirador de Shakespeare, que encontra inspiração para os títulos dos seus livros nas obras do dramaturgo inglês, profetizou: “Tenho a impressão de que este ano, no Chelsea, os jogadores estão a perder de propósito para se livrarem dele.”

 

Afinal os castelhanos ainda não esqueceram Aljubarrota nem a nossa velhíssima aliança com a Inglaterra.

 

Nós por cá, indiferentes às más-línguas e invejas seculares, lá vamos fazendo a nossa vidinha de todos os dias. Como europeus periféricos, quase suburbanos, empenhamo-nos em exercer cabalmente a nossa vocação de compradores fanáticos. Fazer compras, para nós, é como dançar o vira. Aos fins de semana lá vamos para as grandes superfícies dar liberdade à nossa veia consumista.

 

Depois ficamos inseguros e confrontamo-nos com o eterno dilema cristão: Devemos conquistar a felicidade ou deveremos ser infelizes para que os outros possam ser felizes?

 

Gostamos de ficar sentimentais, como sucede com a gente rude. Por isso simpatizamos com os políticos que exibem a sua generosidade, todos falinhas mansas, muito, mas mesmo muito, simpáticos, visitando eleitores pobres e idosos em misericórdias, sorrindo, beijando crianças, cumprimentando toda a gente com o ar mais aprazível do mundo… e desaparecendo logo que as câmaras das televisões se desligam.

 

E apreciamos aqueles comentadores que quando lhe fazem a pergunta que encomendaram ao apresentador do programa respondem sempre que a questão tem várias respostas. De seguida catalogam-nas em A, B e C; sendo que a C vem depois da B e a B logo a seguir à A. Mas também temos de contar com a D, a E e muito possivelmente com a F.

 

São pessoas chatas. Alguns de entre nós, os mais educados, consideram que os Marcelos, os Marques Mendes, os Santanas e os Vitorinos, são chatos, não por quererem, mas porque já nasceram assim. Argumentam que ninguém nasce chato por intenção, tal e qual como não se possui um nariz como o do Pinóquio, ou o do Sócrates, porque nos apetece.

 

Outros, nos quais me incluo, acham que as pessoas são chatas deliberadamente. É uma opção pessoal. O que eles verdadeiramente apreciam é o prazer de ouvir a sua própria voz, quer ela seja nasalada, rápida, arrastada ou simplesmente rrridícula…

 

Nós por cá costumamos dizer que alguém possui tendências artísticas quando diz que leu para aí mais de vinte e cinco livros, que consegue pronunciar Baudelaire corretamente e que sabe distinguir um champanhe Moët & Chandon de uma garrafa de espumante da Raposeira, ou um Brie de um Camembert.

 

Os snobes fascinam-nos. Mesmo os revolucionários que sonham com a sociedade onde todos lerão Shakespeare nos transportes públicos e aprenderão a tocar saxofone ou flauta transversal.

 

Kipling escreveu que cada um tem o seu medo, ou coisa parecida. O meu medo é esse mesmo: o medo de ter medo deles.

 

Afligem-me porque são pessoas que combinam em doses certas a beleza, a experiência, a vaidade e a crueldade. Tudo isto embrulhado com o papel celofane da ingenuidade.

 

Pobre de mim, que sou tão provinciano.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 6 de Dezembro de 2015

Feira dos Santos - Chaves

Santos 2015 (1) 191 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 5 de Dezembro de 2015

Feira dos Santos - Chaves

Santos 2015 (1) 128 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2015

Feira dos Santos - Chaves

Santos 2015 (1) 011 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito (1)
|
Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2015

Poema Infinito (279): o pesado silêncio da germinação

 

 

Bebemos o orvalho da manhã como se fossemos cabritos do monte a mamar nas tetas das suas mães. Corremos às fontes de prata sorrindo de contentes. Roubámos a alma aos saltimbancos e perseguimos o destino. As terras começaram a cantar mais cedo como se fossem aves inquietas. Pintamos nos olhos um do outro a esperança com a mesma luz que ilumina os quadros de Vermeer. E dançamos nos céus de Espanha com os olhos feéricos idênticos aos de Picasso quando pintou o Guernica. E ficamos tristes. Mas depressa chega a nós a alegria dos poetas e o contentamento dos olhos das aves quando sobrevoam as searas e chegamos a dançar nus nas bodas de Canã. Ficámos com os dedos leves e os pés em fogo. Um novo dia é uma nova esperança. As manhãs são como meninos que balbuciam chegadas enquanto as suas mães tocam o desengano com as mãos carregadas de paciência. As memórias são rasas como as pedras da eira. Com elas limpamos o tempo das mágoas e nele colocamos os sonhos. O amor já não é só espasmos. As mãos mexem-se agora lentas como violetas. Sentimo-nos crescer dentro do nosso vagar, como o faz o lago em dias de chuva mansa. Os juncos melodiosos vão e vêm com o vento. Revivemos a vida dentro da própria vida. No interior da terra germina o grão. Cheira a sol e a erva cortada. Regressam os sonhos e com eles os barcos perdidos, os poetas mortos, Cristo convocando os apóstolos, a estética das palavras mais sérias, a imagem fixa dos nenúfares descendo o Nilo à procura de Moisés e Deus lavrando o monte Sinai. As línguas de fogo do Espírito Santo alcançam as cabeças descobertas dos anjos que tratam os penitentes com a divina piedade dos ícones mais antigos. A sua bondade envelheceu tanto como o carvalho que faz sentinela na praça central da aldeia. As boas intenções de Deus por vezes ofendem os seus discípulos. A saudade que sentimos hoje tem um travo salgado. É como o desejo e a sua extensão mais abstrata. Acendem-se na casa as candeias antigas, o filho pródigo nunca aqui chegou. Perdeu-se irremediavelmente no caminho. O amor entardece indeterminadamente. O calor da lareira beija-nos os corpos nus. Fomos anjos nos dias de novena, chorando por vermos as nossas mães chorarem. Sibilávamos o sexo dentro da sua inocência. Recusávamos as carícias mais demoradas. Brincávamos com as palavras mais dóceis. Os nossos sorrisos tinham a singeleza das flores que roubávamos nos silvados. Tínhamos cabelos de oiro, como os anjos. Os nossos olhos possuíam o sossego da candura e as nossas mãos eram puras como o trigo das searas. O mal era tudo o que sobrava da ideia de Deus. E um dia começámos a perder as manhãs como os pássaros perdem as penas sem darem conta. A chuva invadiu-nos os sonhos e as memórias transformaram-se em salas vazias. O tempo dobou toda a lã das ilusões e embuçou as casas com a neblina da ausência. As noites são agora frescas. Os caminhos ficaram ainda mais sozinhos. As almas já não ardem no purgatório, enrolam-se como as folhas das oliveiras quando têm frio. A luz ficou mais íntima. Já ninguém procura a verdade. A esperança é apenas um quadro pintado por Picasso. Deus é cada vez mais um silêncio demasiado pesado. Nós somos o seu pecado mais redimido.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2015

Feira dos Santos - Chaves

Santos 2015 (1) 024 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito (1)
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9



28
29
30


.posts recentes

. Carnaval de Verin

. 348 - Pérolas e diamantes...

. Pormenor

. Barroso

. Bombeiros

. Poema Infinito (360): A f...

. Bombeiros

. Bombeiros

. 347 - Pérolas e diamantes...

. Feira dos Povos - Chaves

. Feira dos Povos - Chaves

. Feira dos Povos - Chaves

. Poema Infinito (359): Chu...

. Feira dos Povos - Chaves

. Feira dos Povos - Chaves

. 346 - Pérolas e diamantes...

. Dois amigos

. Sorriso

. Sorrisos

. Poema Infinito (358): O d...

. Vendendo pão

. O sapateiro de Chaves

. 345 - Pérolas e diamantes...

. Interiores bovinos

. Festa dos Povos - Chaves

. Bois na feira

. Poema Infinito (357): Ond...

. O coelho

. No trabalho

. 344 - Pérolas e diamantes...

. São Sebastião - Vilarinho...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Couto de Dornelas (III)

. Poema Infinito (356): O a...

. São Sebastião - Couto Dor...

. S. Sebastião - Couto de D...

. 343 - Pérolas e diamantes...

. A gaivota (III)

. A gaivota (II)

. A gaivota

. Poema Infinito (355): O n...

. Maresias (II)

. Maresias

. 342 - Pérolas e diamantes...

. HAZUL - Porto

. The Augustus no Porto

. A ponte é uma miragem...

. Poema Infinito (354): Um ...

. Interações

. Diversões...

.arquivos

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar