Segunda-feira, 29 de Fevereiro de 2016

279 - Pérolas e diamantes: as sombras eternas

 

 

Aprendi com Sir Kenneth Sefton Boyd, o amigo do espião perfeito, que não podemos perder o que não temos, nem sentir falta do que nos é indiferente, nem podemos vender aquilo que não é nosso.

 

Bagão Félix garante que não vai voltar à política porque não gosta de “correr na pista dos interesses”. Desinteressou-se. Já não gosta das elites. Talvez porque, na sua perspetiva, pertence à “elite dos valores”. Elite que se encontra em perigo de extinção como o lince da Serra da Malcata, o lobo Ibérico ou o burro Mirandês.

 

Em Portugal, afirma Bagão Félix, “as nossas elites são as elites dos interesses”. São do género a que pertencia um bom cabo britânico de Argylls que, logo após a 2ª Guerra Mundial, quando os russos lhe ofereceram baldes de madeira cheios de caviar, em troca dos seus plum puddings, se queixou, no início do jantar ao seu oficial, que a compota lhe sabia a peixe. Pudera!

 

Contentamo-nos com existir. Existimos a duzentos à hora, mas a vida interior está parada.

 

Alberto João Jardim afirmou recentemente que Passos Coelho acha prestigiante andar debaixo das saias da sra. Merkel. E até confessou que votou sempre no PSD menos nas últimas eleições. E bem lhe custou. Magoou-o lá dentro. Pudera!

 

São Paulo, segundo Teixeira de Pascoaes, foi o intérprete de Deus, por divina graça do remorso. O remorso foi transmitido a Judas, companheiro íntimo de Jesus, tão íntimo que o traiu. Pedro, o eleito, negou-o. Pedro sobreviveu. Judas, mais humilde, enforcou-se numa figueira.

 

Teixeira de Pascoaes acha que o remorso do suposto traidor se converteu em autodestruição. Judas não pôde emendar a iniquidade, como Pedro. “Ofertou a sua vida ao grande crime e o seu nome à inconsciência malévola do mundo. Aquele beijo traidor arde ainda na sombra da noite em que prenderam Jesus.”

 

Foi também Teixeira de Pascoaes que nos avisou que nem a ilusão tem nada de ilusório, nem a realidade tem nada de real. Mais vale assim. Desta maneira ninguém se magoa.

 

Por isso é que Alberto João se atreveu a afirmar que se Pedro Passos Coelho ficar no PSD “leva outra banhada”.

 

Pesaroso, confessou que saiu de bem com o povo e mal com o partido. Acontece sempre assim.  “As sociedades secretas estavam interessadas na minha substituição.” Pois!

 

Sensibilizados, citamos-lhe São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé.” Quem não sonha está morto. O mundo, assim como está, não vale nada. É preciso estarmos conforme a nossa fantasia.

 

Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto, diz-se cansado do centralismo de uma persistente mentalidade colonial. Na sua opinião existe “uma certa intelligentsia lisboeta constituída por parolos da província que acampam na capital e que, para mostrarem serviço, têm de parecer mais centralistas.” O seu avô, que era lisboeta, queixava-se sempre disso. Rui Moreira não disse nada sobre outra certa intelligentsia portuense que também despreza o resto do Norte de Portugal.

 

Ele, montado no seu rocinante, não cede à tentação de trocar os bês pelo vês, como talvez preferissem os tais de Lisboa, para quem os autarcas cá do Norte são uns tipos vagamente barrigudos, que fumam charuto, dizem disparates e querem inaugurar um mictório público.

 

Nós, que somos o Norte do Norte, já vimos fazer isso, ou ainda melhor.

 

Mas cá continuamos a viver e a resistir, pois, como os santos, baixamos os olhos para continuarmos a suportar o sol. Não o escondemos com uma peneira.

 

Não podemos terminar por hoje sem uma pitada de cultura. Ou melhor, muito melhor, vamos falar do ministro da Cultura, João Soares. O Expresso definiu-o como europeísta, maçon, agnóstico, apaixonado por poesia e fã das forças armadas. Reparem bem: fã das forças armadas.

 

Durante os últimos anos trabalhou no quadro parlamentar ligado às questões de Defesa e a nível internacional com a OSCE, organização ligada à segurança e cooperação europeia. António Costa, olhando para o seu impressionante currículo, nomeou-o… ministro da cultura.

 

Como escreveu Teixeira de Pascoaes, as sombras parecem eternas… ao luar.


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Domingo, 28 de Fevereiro de 2016

São Sebastião - Couto Dornelas - Sorriso

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Sábado, 27 de Fevereiro de 2016

São Sebastião - Couto Dornelas - À espera

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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2016

São Sebastião - Couto Dornelas - Potes

Dornelas-potes - Cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2016

Poema Infinito (291): o nível do olhar

 

 

As leis da vida possuem as características interiores da visibilidade, o escrúpulo das prescrições axiomáticas da relatividade, a síntese da teoria do caos. Mas nenhum escultor minucioso é capaz de tornar visível o seu interior. Quase todas as realidades ameaçam o peso expressivo dos objetos. Os exércitos matam sempre na direção mais útil. Onde ontem passavam os cavalos, atualmente circulam os tanques. A vida é agora habitada pelas marcas dos conquistadores. O clima muda mais do que as pessoas. Os imperadores desapareceram das mitologias. Os unicórnios saíram da nossa imaginação. A inteligência é engomada e domesticada pela crueldade e pela indiferença. Os filhos são mais ferozes, especializados nas leis da necessidade, nos grandes raciocínios da subserviência, no cálculo mental da repetição e da exigência. A brutalidade é mais espontânea, os espaços académicos mais denunciadores, as biografias mais gastronómicas, a utilidade mais pérfida, as obras-primas mais éticas e a mediocridade mais estética. Os cabrões são mais traiçoeiros, o tempo mais revelador e os segredos mais negros. O povo agora come muito. A sua língua e os seus costumes são comestíveis. Até muito nutritivos. Cada contribuinte é um somatório de alimentos digeridos que paga imposto pelo oxigénio que consome, pela água que gasta e mesmo pelos sonhos que tem. De nada lhe serve dizer que os sonhos não são induzidos. Os indivíduos perderam o desejo do contacto. Agora direcionam as interpretações, dirigem os movimentos eróticos, descrevem os caminhos antes de caminharem e definem a beleza antes de a sentirem. Não conseguem descrever a pessoa amada. Atualmente planeia-se tudo. Os filhos, as férias, a beleza, a tristeza, o alento, o desalento, a curiosidade, os sistemas mentais, o sucesso de uns e o insucesso de outros, o futuro, os gráficos e as tabelas da felicidade, aquilo que é agradável e desagradável, a bondade possível e a maldade necessária, aquilo que é sagrado, os vários tipos de olhares. Presentemente projetam-se as crenças, a paciência e os seus diversos tipos, a direção dos olhares, a fome e a abundância, as doenças, tudo aquilo que é sagrado e tudo aquilo que é profano, os nomes abençoados e os nomes amaldiçoados. Definem-se as letras malditas, o alinhamento das ruínas, os milagres, aquilo que é antigo e o que é moderno, a crença na ciência e a cientificidade do sobrenatural, a racionalidade dos cidadãos.  Planeia-se a vontade, a necessidade, as linhas da imaginação, o circuito dos ventos, as tempestades. Definem-se os inimigos mesmo antes de o serem.  Programa-se a confiança, a verdade, a mentira, os valores, a realidade, os dias e as noites, os acontecimentos, o futuro e até o passado. Concebem-se as técnicas de governo e as especialidades da oposição. Prevêem-se as catástrofes e quando elas teimam em não aparecer, provocam-se. Atribuem-se medalhas aplicando o método contracetivo das temperaturas. Organiza-se o universo segundo a nossa vontade, apelando à ironia dos escombros. Aplica-se a tecnologia adequada ao cansaço, às desilusões, às ilusões, às utopias, às ideologias mais radicais, à mecânica dos destinos, às frases implícitas, às rezas, aos sonhos, aos pesadelos, à vida, à morte, às crenças, à fé e ao tempo. Aperfeiçoa-se a atividade da língua, a fisionomia do deslumbramento e a fragilidade da poesia. Os acontecimentos da vida continuam a desenvolver-se debaixo do nível do nosso olhar. E ninguém se apercebe.


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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016

São Sebastião - Couto Dornelas - À espera

Dornelas- Mulheres - Cópia.jpg

 


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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2016

São Sebastião - Couto Dornelas - Mesa

Dornelas - HM - Cópia.jpg

 


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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2016

278 - Pérolas e diamantes: a concisão da insinceridade

 

 

Vendo a guerra de guerrilhas terrorista, bombista e malabarista a alastrar pelas cidades da Europa e a campanha contra o Daesh a alastrar no Médio Oriente, lembro-me de um provérbio Abecásio que diz: “Se a água se incendiar, como é que se pode apagar?”

 

Os abecásios e os georgianos tiveram uma guerra civil há bem pouco tempo, de contornos um pouco sinistros. A implosão da URSS continua a fazer tremer a terra com as suas réplicas.

 

A escola e a cultura da guerra está impregnada na matriz da humanidade. Na Abecásia, quando nasce um menino, os parentes oferecem-lhe um punhal de ouro. Ao lado do punhal penduram um chifre para o vinho.

 

Os abecásios bebem o vinho pelo corno, como se fosse um copo, por isso apenas o podem pousar na mesa depois de o engorgitarem até ao fim. É o alibi perfeito para a borracheira. Depois é só pegar no punhal. O ouro exige mais ouro. A guerra mais guerra. E a borracheira, nova borracheira.

 

Olga V., no livro O Fim do Homem Soviético – um tempo de desencanto, de Svetlana Aleksievitch, conta que um dia os georgianos e os abecásios bombardearam uma jaula de macacos. À noite, os georgianos perseguiram alguém pensando que era um abecásio. Quem mais poderia ser? Feriram-no. Ele gritava, como é natural. Por seu lado, alguns abecásios descobriraram-no e logo pensaram que era um georgiano. Quem mais poderia ser? Perseguiram-no, dispararam contra ele. Quando amanheceu viram que se tratava de um macaco ferido. Tanto abecásios como georgianos declararam uma trégua e foram salvar o macaco. “Se fosse um homem matavam-no… Eles andam como zombies. Acreditam que estão a praticar o bem. Mas será possível praticar o bem com uma metralhadora ou um punhal?”

 

Isto é Kusturica em estilo puro… e duro.

 

Então vamos lá encher de novo os chifres e beber. Vai a cima e vai abaixo, vai ao centro e bota baixo.

 

Por isso é que os homens e as mulheres para semente rareiam.  

 

Na Rússia de Putin apareceram uns cartazes que foram muito além da imaginação ao poder do Maio de 68: “Vocês nem imaginam quem nós somos.” Ou este que traduz o bloqueio democrático da nossa sociedade: “Eu não votei nestes patifes, votei noutros patifes.”

 

É mesmo verdade, não existem revoluções de veludo. O campo de batalha é sempre ocupado pelos saqueadores.

 

Gritámos nas ruas que o povo é quem mais ordena. Qual o quê! Os comícios são espetáculos políticos baratos. O circo é bem mais interessante.

 

O povo nunca decide nada, são os indivíduos ilustres aqueles que dispõem as peças do xadrez político a seu belo prazer. Na partição do brinde, eles ficam constantemente com o bolo e a nós toca-nos sempre o buraco, que é ainda menos do que a fava do bolo-rei.

 

Não faz sentido mudar de governo se nós próprios não mudarmos.

 

A grande tese de Darwin não se baseia, como erradamente muitos pensam, na ideia de que são os mais fortes aqueles que triunfam. Darwin chegou à conclusão de que os vencedores da luta pela sobrevivência são os seres mais capazes de se adaptarem ao meio ambiente. São os medíocres aqueles que sobrevivem para perpetuarem a espécie.

 

O filólogo russo Sergei S. Averintsev disse que construímos as pontes sobre os rios da ignorância, mas que, entretanto, as torrentes mudaram o leito dos rios.

 

O futuro, por mais que nos custe a admitir, é absolutamente imprevisível.

 

Perguntaram um dia a Nabokov porque é que juntava os problemas de xadrez com os poemas. Respondeu que os problemas são a poesia do xadrez, pois exigem do compositor as mesmas virtudes que caraterizam toda a arte digna desse nome: originalidade, invenção, harmonia, concisão, complexidade e uma esplêndida insinceridade.

 

Para completar o ramalhete, eu acrescentar-lhe-ia a arte da política, desde logo pela sua admirável “insinceridade”.

 

O meu sonho foi idêntico ao do original escritor, pois sempre ambicionei vir a ter uma longa e excitante carreira como obscuro conservador de lepidópteros num grande museu.

 

Sei que falhei, mas foi por pouco. Mas as borboletas continuam aí à mão de semear.


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Domingo, 21 de Fevereiro de 2016

Pose - São Sebastião - Couto Dornelas

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Sábado, 20 de Fevereiro de 2016

Sopa - São Sebastião - Couto Dornelas

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Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2016

Pão - São Sebastião - Couto Dornelas

Dornelas- H e pão - Cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2016

Poema Infinito (290): a espera das horas

 

 

Nasci submisso à minha insatisfação, não sei mentir, não sei enganar, não me sei conformar, defini sair mesmo antes de entrar no paraíso. Habituei-me a descascar o tempo com a minha navalha e nele gravar a minha fúria interior. O seu canto compromete toda a eternidade. Ergo então a minha voz e canto o céu e a terra com a ventura dos rouxinóis, objetivando a cruel intemporalidade dos moinhos, os gritos que as nortadas transportam, a violência faminta da ternura e do desamparo. Adquiri em pequeno o instinto adaptativo dos bichos, sem conseguir ainda definir quando a razão se baseia no assombro, na beleza ou é apenas fruto da sua defesa legítima. O sol levanta-se sempre do mesmo lado, daquele em que eu adormeço. Os seus raios rasgam o céu e iluminam de repente a pupila dos videntes que enfeitiçam as noites. Estão abertos os portões da madrugada. O vagar toma conta das horas. Os dias gotejam dentro das ampulhetas. Aí adquirem a sua fria cadência, o azedume, a profunda nitidez de negativo fotográfico. A obstinação humana cresce por detrás de cada gesto, de cada grito. Desço por dentro de mim. Aí encontro a inocência, a nudez da claridade, o assombro, os abismos perpétuos, a noturna embriaguez do desejo, o heroísmo hiperbólico dos poetas. A vontade é cercada pela sua negação. A força transforma Sansão na sua própria inaptidão. O seu corpo é a sua própria cadeia. A sua teimosia é coisa de cabeleireiro. Mais cedo ou mais tarde, todos os muros acabam por ceder. A rebelião degrada-se. O desespero consome-se a si próprio. A paixão, despois de rasgar a própria carne, transforma-se em sereia, que é um dos resultados do pecado original. Por isso os versos de amor são salgados e os segredos são tão fingidos como o mais cândido dos corais. O tempo continua a correr depressa, cada vez mais depressa. Leva-nos em braços, embalando-nos com os seus movimentos de pasmo e adulação. Escuto-lhe a intenção, o seu tropel agoirento. A todos nos sacrifica por veneração ao seu deus desconhecido. As horas que passam são como pedras lançadas a um poço. A esperança devora-nos com a boca aberta. As palavras recusam-se a sentir os sonhos. Estas palavras são sábias. Sabem que os jardins mais bonitos estão repletos de flores ausentes. A sua semente está dentro de mim. A minha memória continua cheia de poemas. De pouco me serve. As palavras sintetizam imagens. Os versos demoram. As horas esperam pelos poetas. Os poetas esperam pelas horas. Da noite ergue-se a madrugada. Nenhum sinal celeste anuncia o próximo milagre. Os adivinhos já não conseguem adivinhar. Os anos são infinitos. As teias do tempo ensinam-nos o instinto das rotinas. Teimamos no entusiasmo de empurrar os cegos contra a claridade. O destino aperta-nos contra a exatidão da demora. Afinal somos de outro passado. Os deuses desistiram dos feiticeiros, já não acreditam nos limites dos seus encantamentos nem nos raros momentos de inspiração dos poetas. Nem no milagre de um poema. Os deuses passaram a crer em teoremas indemonstráveis, na impaciência do mar, nos versos que fulminam, no transe hipnótico das horas, nos génios que se alimentam de lume e da fantasia das bombas. O céu é agora um paraíso desértico imenso, sem proibições, suspenso no olimpo, tão inútil como um labirinto natural, onde a eternidade tem o preço do fingimento e a aceitação do sossego como arma universal.


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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2016

Mesa - São Sebastião - Couto Dornelas

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Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016

Potes - São Sebastião - Couto Dornelas

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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2016

277 - Pérolas e diamantes: a tristeza e a desilusão

 

 

Nós somos aquilo que vivemos e também o fruto amadurecido de tudo o que descobrimos. Basta ler Elena Ferrante, a grande amiga genial, para a memória ter razão.

 

Na nossa terra as relações entre as pessoas ainda se fazem de forma plebeia. Parece que estamos todos numa festa para onde fomos convidados, ajaezados à burguesa, lutando pela comida e pela bebida, discutindo quem deve ser servido primeiro e melhor, indiferentes ao chão que cada vez fica mais sujo com o vai e vem dos empregados, enquanto fazemos brindes entre sorrisos alarves e apartes ordinários.

 

Somos plebeus bem bebidos, encostados ao ombro de quem nos acompanha, rindo com a boca escancarada, por causa dos dichotes carregados de alusões sexuais.

 

Logo após, toma conta de nós a tristeza e a desilusão.

 

Os homens carregam-se de defeitos pensando que são virtudes. Têm falta de caráter, falta de lealdade e ostentam a ingratidão.

 

A vida dá-nos um tipo de conhecimento que quase sempre chega tarde de mais.

 

Agora transformam-se os animais domésticos em filhos e os pobres em animais domésticos.

 

Já ouvi por aí dizer a casais que “até têm dois filhos”: um cão e um gato. E que os alimentam com comida biológica e dietética comprada em lojas da especialidade. Aos filhos dá-se tudo do melhor. Mesmo que isso implique sacrifícios.

 

Da única coisa que sempre gostei no meu país foi da natureza, da paisagem, sobretudo dos montes onde nasci. Isso, sim, vale a pena!

 

Diz quem o tem que é vergonhoso amar o dinheiro. Devemos amar os sonhos. Por isso é que os que o possuem vão à igreja amar o próximo como a eles mesmos e colocar uma moeda na bandeja das oferendas. Não uma nota, pois a ostentação é em si mesma um pecado. Pecar por pecar, que pequem os outros.

 

Afinal todos sonhamos. Apenas não compreendo para onde corre esta gente com tanta determinação.

 

Depois chegam as memórias. Afirmamos que estes tempos que vivemos são uma confusão. Alguns riem-se quando alguém mais atrevido, nostálgico ou brincalhão, lembra os bons velhos tempos do salazarismo.

 

É a nostalgia. Será a nostalgia? Ou será mesmo medo. Afinal muitos sonham com abandonar o país para nunca mais.

 

Era (é?) a liberdade, o caminho para o socialismo, a liberdade e a igualdade. Era a alquimia. Corremos para a frente e chegamos. Só que ninguém sabe aonde.

 

Agora é preciso pensar. Pois é. Mas parece que ninguém nos ensinou a pensar.

 

A sociedade continua a dividir-se entre os que compram e os que não podem comprar. Isto não agrada a ninguém.

 

Bem vistas as coisas, somos uns românticos.

 

Prometeram-nos um lugar ao sol. Presentemente, os experimentalistas sociais, voltaram com a palavra atrás e dizem que chegou a altura de vivermos segundo as leis de Darwin. Apenas assim haverá abundância para todos. O problema é que a escola não nos ensina dessas coisas, não ensina a viver segundo as leis do mais forte. Esta lei traz apenas a abundância para os mais capazes. Os outros, os mais “fracos”, andam agora a caminho dos centros de emprego.

 

Heinrich Heine, considerado o último poeta do romantismo, definiu bem esta desilusão neoliberal, quando escreveu: “Semeei dragões e colhi pulgas.”

 

Já se ouve dizer por aí que o melhor é mesmo não fazer nada. Nem bem, nem mal. O mais indicado é não nos metermos na política.

 

Afinal, as pessoas mais temíveis são os idealistas.

 

Temos que aprender a amar a pátria de longe. Talvez desta forma ela ganhe algum encanto.


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Domingo, 14 de Fevereiro de 2016

Sacré Coeur - Escadarias e Basílica

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Sábado, 13 de Fevereiro de 2016

Sacré Coeur - Escadarias e Basílica

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Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2016

Sacré Coeur - Luzia, Axel, João Vasco

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Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2016

Poema Infinito (289): a luz assustada dos batismos

 

 

Nas habitações excêntricas as paredes são pintadas com insónias repletas de luzes e trevas, vozes, olhares e bebedeiras. Também nelas se escondem núpcias e outros fenómenos atmosféricos. Ao fundo, na zona dos quartos, as palavras ciciadas significam, para os amantes, para os enfermos ou para os agonizantes, Deus na sua expressão de sopro, de ríspido esplendor ou de joia extenuante. As mãos permanecem junto à cabeça. No escuro, o sonho levanta-se estranhamente límpido. Relâmpagos de luz metafísica queimam-nos a vista. A solidão é de novo uma palavra. Lá fora multiplicam-se as faces, as imagens com várias consciências, o alerta do fogo, as pedras convulsas. Todos trabalhamos na perspetiva aterrada do louvor, da obra ao negro, da irrealidade das estações, dos sistemas nervosos caprichosos, das plumagens das aves mais vistosas. O mês de maio salta pelas colinas como um potro inofensivo. As crianças mergulham dentro do seu próprio batismo. Os seus nomes transmudam-se. Os seus nomes pousam sobre a água benta, sobre o sal, sobre as mãos que abençoam. Os seus nomes são como sopros, tendo no seu centro as cores mais puras e selvagens. O vento arrasta as nuvens que contemplam a noite com uma atenção deslumbrada. O mundo da infância é intuitivo. A álgebra que lhe está inerente é uma qualidade de música, uma espécie de mapa astronómico. A infância bebe a água exposta como uma coisa completa, mexe no barro como Deus quando criou o homem. A sua arte baseia-se na olaria gigantesca. Deus é uma espécie de suspiro lunar, que bebe e olha tudo o que é misterioso como se não tivesse mistério nenhum. A adolescência, quando se desenvolve e multiplica, cria sempre uma espécie de arte abrupta. A maturidade, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por se servir dela. A arte transporta a melancolia humana e o instinto animal. A face de Deus é chamejante, multíplice, faustosa. A cara de Deus é o rosto da arte abstrata, a substância humana em brasa. A avó fecha a noite no quarto dos fundos. A noite vai. O dia vem. O dia abre a sua cauda de orvalho e vibra. O vento espalha as imagens pelo horizonte. O céu alarga o mundo. A luz desenha as árvores, os canteiros, as pedras, as flores, as teias que prendem as gotas de rocio. A luz assusta as flores mais bravias e lavra a primavera e dança com as raparigas. A memória devora os nomes. Os gestos doces das mãos erguem o tempo que constrói as fábulas. O dia ordena o espaço. O tempo sela os corpos e os corações. As palavras respiram a profundidade dos livros, descobrem a insondável beleza do caos, transformam os números em imagens. As bocas enchem-se de diástoles e ficam frias. Os sons correm e transportam dentro de si palavras abertas que fazem lembrar magnólias. As bocas ficam intransponíveis, os retratos embriagados, a beleza multiplica-se nas mãos que fazem estátuas de silêncio e torna-se urgente. O amor aparece e desaparece como sempre o fez. E fará. Durante a tarde, os textos mais sóbrios evaporam-se. As raízes das árvores ficam brancas. Os rostos das mulheres enchem-se de cânticos e deslumbram as catedrais e a cor vermelha das maçãs. A tarde é agora como um aquário onde alastra a insidiosa perfeição da natação dos peixes. As crianças ficam imóveis como as promessas de amor. A cidade fica espantosamente linear. As flores trocam o silêncio das cores pelo alvoroço dos perfumes. Chega a noite como se fosse uma frase escrita no fim de um poema. O amor faz-se com o odor vagaroso dos nossos corpos e com a pavorosa iluminação das letras maiúsculas. Hoje não há tempo para ejaculações precoces.


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Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2016

Sacré Coeur - Subida

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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2016

Sacré Coeur - Carrossel

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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2016

276 - Pérolas e diamantes: a agulha e o buraco

 

 

O sofrimento transforma-se em conhecimento. Por isso é que os laicos são uma espécie de cínicos peripatéticos. Aleksandr Soljenitsin pôs na boca de uma sua personagem as palavras da sua avó: “As agulhas prestam enquanto têm buraco, e as pessoas, enquanto têm alma”.

 

Mas a vida é assim mesmo, geralmente o sentido das coisas surge-nos finalmente claro quando o seu conhecimento já não nos serve para nada.

 

Por isso me rio daqueles que imaginam ser oximoros vivos e andantes, quais primatas vaidosos. Atrevo-me por vezes a pensar se são mesmo aquilo que parecem. E chego à conclusão que não senhor. Ninguém é aquilo que parece.

 

Passam a vida disfarçados. Mas, como escreveu Martino, o narrador de N., de Ernesto Ferraro, qualquer máscara acaba por revelar precisamente o que pretende ocultar.

 

Um dos entrevistados de Svetlana Aleksievitch (O Fim do Homem Soviético) resume tudo numa frase: Os merdocratas destruíram tudo… estamos enterrados na bosta.

 

Não são as grandes vitórias que tornam um país grande. Portugal é disso exemplo paradigmático.

 

Só quem é nada é que pode ser aquilo que os outros imaginam que ele seja. Têm a sua própria legitimidade: estão isentos de passado. Os mais corajosos chegam a autarcas ou mesmo a ajudantes de ministros. Escrever policiais, biografias políticas ou livros de receitas dá uma grande ajuda.

 

Paulo Portas, nos bons tempos do Independente, bem avisou: “O que se diz, e parece certo, é que há medíocres a mais. (…) Regra geral, o chefe de gabinete subiu a secretário de Estado, o diretor-geral ascendeu a ministro e o cacique paroquial chegou a deputado. Uma vez promovidos calaram-se. O sistema foi posto em silêncio…” e não há declarações de voto que disfarcem a subserviência.

 

Claro que já os oiço a dizer: Uma vez mais o mal está no olhar crítico que só descobre desgraças em tudo o que nos rodeia. A esses eu respondo: pois sim senhor, mas o que nos rodeia é a própria realidade.

 

Slavoj Zizek lembra que a esquerda europeia até já morreu. E duas vezes. A primeira sob a forma de esquerda comunista totalitária e a segunda sob o formato de esquerda democrática moderada, que, nos últimos tempos, tem perdido, de forma gradual, terreno em Itália, França e mesmo na Alemanha. No seu ponto de vista, este processo pode ser explicado pelo facto de os partidos centristas, e mesmo conservadores, terem adotado numerosos pontos programáticos tradicionalmente de esquerda (Estado Social, direito das minorias, etc.), “a tal ponto que, se por exemplo, uma Angela Merkel apresentasse o seu programa nos Estados Unidos, seria acusada de esquerdismo radical”.

 

A verdade é que temos de modificar a nossa maneira de pensar. Atualmente vivemos, como diz o filósofo New Age, “num estado de denegação fetichista: sabemos muito bem o que terá de acontecer mais cedo ou mais tarde, mas, apesar de o sabermos, não somos capazes de acreditar que será assim”.

 

A “verdadeira realidade” é, por exemplo, sustentada pelos grandes “humanitaristas” como Brad Pitt, que faz maciços investimentos no Dubai.

 

Aos lusitanos aconteceu-lhes o mesmo que à fruta normalizada pela Europa. Agora não há bons nem maus portugueses, há simplesmente portugueses indiferentes, cidadãos anódinos, gente cinzenta e medíocre. Dá pena. E, além do mais, é mentira.

 

A patetice pegou moda. Do CDS ao PCP é tudo tão provinciano que aflige. Chegamos ao cúmulo de já não nos sentirmos portugueses e de não sermos sequer ibéricos, quanto mais europeus. Eu, por causa das coisas, pego no meu transmontanismo e vou à vida. Não me atrevo a mais. Sou como sou e disso não peço desculpa a ninguém.

 

Por isso é que votar vai sendo cada vez menos uma satisfação para se transformar num grande sacrifício.

 

A razão da desilusão está na génese e na militância dos partidos. Sei que dentro deles há muito quem rosne, mas ninguém tem a coragem de morder a mão que lhe dá de comer.


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Domingo, 7 de Fevereiro de 2016

Reflexos

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Sábado, 6 de Fevereiro de 2016

Porto

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Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2016

Ponte Luís I - Porto

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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2016

Poema Infinito (288): palavras de cinza

 

 

A certeza das casas é a solidão. A das ruas é a sua serenidade descontínua. A das aldeias, as suas fogueiras perpétuas. E a certeza das cidades alimenta-se do segredo que se acende todas as manhãs. Os fantasmas incandescentes abraçam a noite possuídos pelo seu móbil irracional. Eles vêm ter comigo e idealizam as suas memórias, recordando aquilo que nunca tiveram, aquilo que nunca foram, aquilo que nunca viveram. Rompem então a placenta do tempo, acrescentando mais vinte e quatro horas ao milagre das doze badaladas da infância. O nosso inverno adormece de novo, mais pobre ainda do que o outono, alimentando-se da possibilidade da primavera. Leio nos teus olhos o improviso dos meus, o abraço do crepúsculo, a ilusão da novidade dos dias, o brilho dos poços, o desenho das nuvens, a urgência de outro céu, os sonhos animados por alienígenas perdidos no nosso planeta. Abro as portas do teu corpo e leio nele como num livro. Ainda resta em mim algo da alma castigada dos meus antepassados. O meu olhar adivinha a música que rompe a madrugada e me deixa absorto como uma medusa. As palavras já não são como dantes, já não têm o mesmo fogo, já não possuem a mesma volúpia, já não contêm o mesmo ardor. Nem a mesma urgência. Já não emergem na nossa boca como preces, já não ardem dentro de nós. Agora fingem o passado, a beleza dos rostos, a utilidade dos jogos, o desconforto do saber, a ilusão antiga do amor, o sentido da vida, a suposta emoção do afetos, a necessidade do medo, a voragem das ideias, o abismo dos enganos, a paz imorredoira da literatura, a beleza insensível da poesia, a amizade do grilo falante. Fingem ainda a amizade e as suas consequências. As palavras fantasiam-se de pássaros absurdos e voam leves como penas. Desejam pertencer ao peso do mundo. Resisto ao pânico das horas vegetais. É assim que tem de ser. Dentro desta manhã encontro a manhã seguinte e dentro de um outro sonho o esquecimento. Não pretendo ser a vítima mais óbvia da revolta, nem um juiz da moral e da estética alheias. Espero pela palavra súbita, justa e perfeita. Pela luz que consiga iluminar as folhas gastas da minha vida, os mil percursos trilhados sem proveito, a exigente transparência da verdade. Algumas palavras disfarçam mal a pavorosa impotência do sentir, a cristalização emergente das frases mágicas. Algumas palavras regressam a casa mesmo antes do filho pródigo, apesar de lhe pertencerem por direito próprio. Ninguém ainda aprendeu a decifrá-las, a imaginar o seu espanto, o seu terror, a estranha sensação de, mal ditas, transfigurarem os rostos, arruinarem a carreira dos alquimistas, formularem dúvidas tão poderosas que apenas os grandes milagres podem resolver. Quem escreve coisas simples desconfia sempre dos simples sentimentos que elas provocam. Ninguém consegue ler corretamente as convicções, o respeito, o elogio e a admiração, sem cair na vulgaridade. É como o fingimento secreto do primeiro dia em que se aprendeu a ler. É necessária sempre uma mentira para iludir o desespero, e é sempre indispensável o tédio para dissimular e abrir as portas dos enigmas. Os rostos são as personagens principais das histórias reais. Daí o seu confuso absurdo. No fim encontramos sempre o medo, as palavras que o provocam, o lume que as queimou, a cinza fria da tarde, a dor e os lugares outrora irresistíveis e que agora são apenas silhuetas abstratas esculpidas por um alfabeto que se agrega até ao infinito.


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Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2016

Douro - Porto

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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2016

Porto

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Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2016

275 - Pérolas e diamantes: a plebe e os plebeus

 

 

Rindo-se generosamente orgulhoso como um pavão, o meu amigo disse: “És como um velho e sensato mocho que habita as bonitas florestas dos livros, pois quanto mais ouves menos dizes, e quanto menos dizes mais ouves. Um homem sensato é aquele que ouve e nada diz.”

 

Os amigos são para as ocasiões, pensei.

 

Olhei então para ele e sorri, fazendo-me distraído. O meu amigo que é homem de boas leituras, inspirado em Flann O’Brien (At Swim-Two-Birds; Uma caneca de tinta irlandesa), atirou-me com o trocadilho murmurado por Dermot Trellis: “Ars est celare artem” (arte é esconder a arte).

 

Para vilão, vilão e meio. Arremessei-lhe com uma flor filosófica atribuída a Platão: “Tentar uma troca de favores com os deuses é um pensamento que só pode nascer na mente mercantilista de um ateu”.

 

Rimo-nos os dois. Fazemo-lo algumas vezes, para não chorar. Nós conhecemos bem os lobos, quer seja pelo focinho, quer seja pelas garras ou simplesmente pela atitude ameaçadora. Um lobo não deixa de o ser, mesmo quando dorme.

 

Com a nossa idade, com os lutos e as derrotas, até as pequenas coisas se nos tornam intoleráveis. Mesmo o murchar de uma flor ou o agonizar de um animal nos ferem profundamente.

 

No inverno morrem os pássaros de frio. Caem das árvores como frutos maduros. 

 

Assistimos agora ao triunfo dos plebeus. Sinais dos tempos. Ai a plebe, a plebe. Até Napoleão gostava dela e chegou mesmo a apreciá-la devotamente. Por isso foi imperador.

 

A plebe foi sempre um alfobre de heróis. Foi com a plebe que a revolução triunfou e os talentos de classe se revelaram. Foi com ela que o engenho humano restaurou os seus direitos. E foi com os seus filhos prediletos que Napoleão conquistou um império e capturou as pirâmides do Egito.

 

Os melhores marechais de Bonaparte vieram da plebe. Augereau era filho de um pedreiro; Murat, de um estalajadeiro; Ney, de um taberneiro; Lannes, de um moço de estrebaria; Lefebvre, de um moleiro; Drouot, de um padeiro; e o nosso conhecido Masséna era filho de um mercador de vinho e azeitonas.

 

Vive la France.

 

Tudo isto me transportou até 1814, ou melhor, até ao capítulo XII das Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde o plebeu brasileiro (crioulo?), Machado de Assis (neto pelo lado paterno de escravos negros libertos, filho de um pintor de construção civil e de uma lavadeira açoriana), nos lembra, através do dito Brás, que nove anos antes o imperador Napoleão estava no máximo esplendor da glória e do poder. Só que o pai de Brás, o tal Cubas, insistindo na força de persuasão da nobreza da família, acabou por se convencer que nutria, em relação ao imperador europeu, um ódio puramente mental.

 

Era isso pretexto para renhidas disputas lá em casa, porque um seu tio João (ai estes Joões!), possivelmente “por motivos de classe e simpatia de ofício, perdoava no déspota o que admirava no general. Já o seu tio padre era inflexível contra o corso. Pudera!

 

Brás Cubas lembrava-se de lhe terem oferecido um espadim novo, por alturas do Santo António, brinquedo que lhe interessava mais do que a queda de Napoleão. Nunca mais se esqueceu desse facto. Nunca mais deixou de pensar que o espadim de cada um é sempre maior do que a espada de Bonaparte.

 

Ensinaram-me que devemos ser fiéis aos princípios. Até sacrificarmo-nos por eles. Mas talvez Quincas Borba, outro personagem de Machado de Assis, tenha razão quando confessa que nunca tentou conciliar princípios, mas homens.

 

Os nossos homens de Estado são tão importantes como o brasileiro Rubião, que, quando num jantar se despediu dos outros comensais, falando de política e de putativos governos de que tinha obrigatoriamente de fazer parte, mergulhado na sua irreversível loucura, “referiu vários factos de guerra. Por exemplo, tinha restituído a Alemanha aos alemães; era bonito e político. Já havia dado Veneza aos italianos. Não precisava mais território; as províncias do Reno, sim, mas havia tempo de as ir buscar.”


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