Quinta-feira, 31 de Março de 2016

Poema Infinito (296): por vezes

 

 

Criamos a amizade nas lonjuras íntimas dos campos, onde a terra é destra, o fogo é solitário, o ar é forte e a água é assombrosa. O mundo abraça-nos. Nós abraçamos o mundo. O campo é aberto, a terra firme e os homens comandam os seus cavalos pela tarde fora, atravessando a tristeza. O mundo, por vezes, fica estranho. Aprendi a acender a minha voz no amanhecer, quando regresso do teu corpo com o assombro dos costumes, sonhando exaltações, dissipando a ternura, lembrando-me das cidades antigas, da água doce que encontrei na tua boca, dos teus lábios memoráveis, da solidão da beleza, da variedade das noites, de todas as aproximações à intimidade, da ventura. Da aventura. Das desventuras. Atravessei o mar. Sonhar, por vezes, não é nada fácil. Conheci muitas terras, vi arrabaldes infinitos, saboreei numerosas palavras em múltiplas línguas, passei, e passeie, por ruas feridas de morte, onde o céu se fechava, onde os anjos eram ocasos. Onde a claridade ardia. Os pesadelos eram insistentes e as distâncias abatiam-se sobre nós fazendo doer o horizonte. O mundo, por vezes, fica inútil, diminuído, traiçoeiro, cheio de muros. As tardes transformam-se em espanto. A ideia de imortalidade fica sozinha. Ou, por vezes, acompanhada da sua sombra. As noites ficam retas como avenidas. O tempo destroça as horas, recolhe os nossos passos e devora a extensão da luz das estrelas. O tempo chega sempre adiantado e alonga-se com as distâncias. Ilumina-se com a solidão. Flagela os caminhos. As ruas ressurgem imóveis usurpadas pela devoção. A cidade, por vezes, fica cheia de esquinas. Disseram-me que os meus antepassados vieram das antigas terras do nascente. Agora, os seus descendentes recuperam as casas e a luz que eles trouxeram fixa nos olhares. Agora, os seus descendentes sangram as memórias guardadas como tesouros e cantam salmos ao poente. E rasgam as sombras. E emparedam o destino. E adquiriram o hábito de, por vezes, se sentarem nos pátios observando as tardes de domingo, enquanto esculpem pequenas estátuas de deuses cegos. As crianças ouvem falar em carrosséis e nas aventuras infinitas dos ginetes de lata e no sabor salgado das praias e no caudal infinito que estabelecem as mãos que trabalham. Do barro feito com a água do rio construíram-se as cidades e fundaram-se as pátrias. Dos troncos das árvores fizeram-se os barcos que aproveitavam quase sempre as correntes falsas. As estrelinhas amarelas marcam no céu sempre os sítios mais longínquos. Milhares de homens abalaram pelo mar. Milhares de homens vieram pelo mar. Encontraram-se. Aconteceram então as desgraças. As sereias desvairaram as bússolas. Os homens dormiam alheados das mulheres. As cidades dividiam-se ao meio e ficavam mais expostas à chuva e ao vento. Desde então, os homens passaram a partilhar um passado incerto. O tempo, por vezes, alarga as sombras, inclina o esplendor das manhãs, estende as tardes, anoitece os baldios, apropria-se dos becos sem céu e impede que a felicidade, por vezes, chegue à memória. Há coisas felizes que, por vezes, nos alegram a alma: a lembrança dos jardins das casas, a vida benigna das flores, a existência delicada das cores, a misteriosa lisonja dos afetos, a roda laboriosa do vento, a honra das casas, a vertigem dos campos semeados, as frinchas subtis que a água abre na terra, as cancelas, os carreiros, o sonho das árvores, a luz dispersa no olhar de quem ama e, por vezes, a eterna encruzilhada que nos observa lá do canto do céu.  


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Quarta-feira, 30 de Março de 2016

No monte

montalegre+matança abobeleira 2014 262 - Cópia.j

 


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Terça-feira, 29 de Março de 2016

Na ponte

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Segunda-feira, 28 de Março de 2016

283 - Pérolas e diamantes: o cordel democrático

 

 

 

A vida humana, já mo dizia minha avó, é o maior esbanjamento económico da natureza. Quando estamos preparados para começar a tirar rendimento da nossa experiência humana, morremos. E os que nos sucedem vão ter de começar do zero.

 

Afinal o que é a alma humana em pleno século XXI? Afinal onde param as fadas da modernização e do bem-estar?

 

As ideias deixaram de ser um bálsamo para passarem a ser um castigo.

 

Vivemos num tempo sem deuses e com homens (e mulheres, porque não dizê-lo por mais que isso custe aos cultores do politicamente correto) desinteressantes, dirigido por carreiristas e indivíduos corruptos, onde o capitalismo financeiro, com a cumplicidade ativa dos conservadores e neoliberais, agora fingidos de sociais-democratas, se empenham vorazmente no desmantelamento do Estado Social.

 

A narrativa e o argumentário perseguem-nos e moldam-nos o pensamento. É o medo vertido em expressões inconclusivas: descontrolo da dívida pública, quebra da poupança, crédito mal parado, necessidade imperiosa de reduzir despesas sociais e a urgente reforma das leis laborais. É o velho conto do vigário. A crise. A puta da crise.

 

A mando desses senhores convertemos as leiras em baldios e os pomares em eucaliptais. Atualmente os muros delimitam apenas espaços vazios e estéreis.

 

Mas temos de reconhecer que algo mudou: deixaram de nos tratar como escravos e passaram a tratar-nos como criados.

 

E nós, bem adestrados, passámos a utilizar o mecanismo psicológico das crianças que se imaginam invisíveis ao tapar os olhos com as mãos. Se não me vês, eu também não te vejo.

 

Tal como os nossos corpos, também as ilusões morrem e fedem depois de mortas. Independentemente dos perfumes com que as borrifemos.

 

Continua a ser bonito guardá-las. Chegámos mesmo a pensar defendê-las firmemente até ao fim. Mas até o bom vinho vai azedando dentro do pipo.

 

Agora, à semelhança dos bancos, a Comunidade Europeia, passou a intervencionar os Estados.

 

Mandam-nos a casa os homens vestidos de preto. Os cangalheiros financeiros passeando na brisa do Tejo com as suas pastas carregadas de discos externos.

 

Há quem sorria com as penhoras. Nada do que nos possa importar os afeta. Serve-lhes até de diversão.

 

As elites endinheiradas acreditam na liberdade individual. Sobretudo na deles. Creem na vontade e no esforço. São os vencedores que gastam o que ainda lhes resta de energia nos spa, nos court de ténis ou ainda nos luxuosos ginásios privativos, onde encontram outros vencedores como eles, que os ajudam a enriquecer graças a uma teia de influências que denominam de sinergias.

 

Foram ambiciosos, depois fantasiosos. Atualmente entretêm-se em ser mitómanos sociais.

 

Eles falam de transações de propriedades, trespasses, quintas que escrituram em nome de ex-mulheres, amigos, sobrinhos, cunhados, sogros, mães ou pais, alguns deles com alzheimer, ou outra espécie de senilidade, e falsificam até as assinaturas, tornando-os proprietários de apartamentos, lojas comerciais, sociedades de importação e exportação, pomares e até negócios escuros.

 

Alguns deles, muito poucos, vão parar à cadeia. Outros saem de lá como heróis. Mas a grande maioria safa-se sempre. Para que a planta cresça é necessário fertilizá-la com adubo ou estrume.

 

Nós somos como pássaros vivos com uma das patas presas por um cordel a quem dizem: Vá lá, voa, para que raio queres as asas?

 

Que rica democracia a nossa!


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Domingo, 27 de Março de 2016

Passeando na feira

Santos 2014 003 (2) - Cópia.jpg

 


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Sábado, 26 de Março de 2016

Na natureza

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Sexta-feira, 25 de Março de 2016

Á espera da procissão

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Quinta-feira, 24 de Março de 2016

Poema Infinito (295): trilogia do desaparecimento

 

 

Das margens do tempo regressam as manhãs gloriosas da infância, as suas sombras, os corpos matinais a agitarem-se como lagartixas, a permanência dos olhares, os galopes em cima dos ramos, a frescura da água, as voltas do tempo, a sede das tardes, a família junto ao lume. E regressam também as ruas e as esquinas das casas e os ninhos dos pássaros e os sonhos. E regressam ainda, lá da margem do tempo, os pais e as mães, ainda com os olhos cheios de estrelas e de destino, guardando-nos no meio das brincadeiras, olhando bem lá para longe, onde ainda morava o futuro. Éramos nessa época tão transparentes como o vidro das janelas das casas onde jogávamos às escondidas. Os cães também eram pequenos e ladravam de mansinho para não nos assustarem, nem eles se assustarem. As palavras bem empregues faziam com que fossemos capazes de comer a sopa sem nos engasgarmos. Os nossos olhos conseguiam sintetizar as linhas das montanhas que guardávamos em segredo debaixo das almofadas. E sonhávamos com o canto dos grilos e com o canto dos pássaros. Pensávamos que os animais falavam. Éramos tão inocentes que metíamos os pobres bichos em gaiolas para acolhermos os sons e guardávamos as cascas das nozes para navegarmos rio abaixo. Tocávamos os tambores e atirávamos seixos para caparmos o rio e amassávamos a lama para criarmos um novo homem e uma nova mulher, como nos ensinaram que Deus fez. Guardávamos a floresta e as flores e as giestas e os gnomos e os coelhos. Viajávamos dentro dos jardins e enchíamos as mãos, as bocas e as camisolas com a tinta que retirávamos das pétalas das flores. Durante a noite, escutávamos os ruídos do crescimento e tremíamos de medo. As noites eram enormes. Os nossos olhos eram grandes. O silêncio dormia ao nosso lado. Apanhávamos as amoras nas silvas dos caminhos. E também íamos às uvas, quando era tempo delas. Os cachos possuíam uma gravidade própria. O tempo é incansável. Agora teima em espalhar ausências, em alongar os olhares, em encher de lembranças os velhos caminhos das aldeias e os poucos bairros antigos das cidades. O tempo enche tudo de saudade e trepa pelas paredes, como heras. Os caminhantes começam a perder os caminhos. As recordações são agora devaneios. O lume aceso já não erradia a mesma luz intensa, nem possui o mesmo calor de outrora. As flores são mais descoradas e quase não têm cheiro. As arcas já não escondem tesouros. Já não nos crescem nas mãos carícias selvagens. Agora é tudo tão educado e tão previsível que nos faz chorar. Os homens e as mulheres desejam estar sozinhos. Os sorrisos são de plástico. Não surgem, nem se desvanecem. São contínuos. Algumas palavras continuam a rimar, mas já não fazem sentido. O lume continua aceso, mas apenas nas fotografias. O nosso mundo é uma galeria de imagens tão perfeitas que ninguém acredita nelas. As palavras recortam a realidade. Os poemas ficam em silêncio. A minha infância está resgatada numa bola de cristal, o céu é feito de mil palavras, os beijos furtivos continuam escondidos dentro dos envelopes, o perfume das flores tornou-se enjoativo, as maçãs amadureceram demais, o leite azedou, os espaços abertos começaram a fechar-se e os sonhos ardem dentro de outros sonhos. O amor coze ainda dentro do mesmo pote. O lume vai-se apagando aos poucos. Apagando. Aos poucos. Apagando. O vento lá fora agita os ramos do velho castanheiro. Ouço ainda borbulhar o caldo dentro do pote. Sorrio para a bola de cristal. A eternidade é uma palavra cada vez mais próxima e mais distante. O lume. A luz. A noite.


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Quarta-feira, 23 de Março de 2016

Onde está o bebé?

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Terça-feira, 22 de Março de 2016

Ao sol

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Segunda-feira, 21 de Março de 2016

282 - Pérolas e diamantes: identidade nacional

 

 

Claro que cada ser humano é aquilo que é mais as circunstâncias que o rodeiam. Claro que há por aí toda a espécie de homens políticos. A erva ruim também cresce ao deus dará. O problema é que muito poucos, ou nenhuns, dos nossos políticos atuais, se conseguem colocar ao nível de homens e mulheres de Estado.

 

Nós não possuímos estadistas, temos bonecreiros. Alguns deles são especialistas na arte da fuga ou na da caça aos passarinhos. Por isso é que somos uma espécie de Estado falhado, sem elites inteligentes, sem empresários robustos, sem classe média estável, sem trabalhadores qualificados. E sem cultura.

 

Depois de Abril, a nossa classe política dirigente, curiosa, voluntariosa e com a boca cheia de palavras como igualdade, fraternidade e liberdade, começou a olhar para a Europa e para o mundo desenvolvido e, vendo os seus mentores andarem no trapézio com uma rede por baixo, começou a utilizar o trapézio, mas sem rede.

 

A situação começou a ficar preocupante. E quando as coisas ficaram mesmo feias, chamaram o FMI e outras instituições financeiras internacionais para nos prestarem ajuda. Claro que elas, generosas como são, deram-nos um presunto em troca de um reco. Começou então a nossa fina-flor política a praticar ginástica ainda com trapézio, mas definitivamente sem rede.

 

Atualmente, e bons alunos como somos, sobretudo na matemática, como o atestam diversos estudos nacionais e internacionais, todos nós, políticos, classe média, operários e restante pessoal, lançámo-nos a praticar ginástica sem sequer utilizar o trapézio. E muito menos a rede.

 

É lógico que estamos todos um pouco inquietos. Ao mínimo deslize, estatelamo-nos no chão, sem apelo nem agravo. É a lei da vida… perdão, do mercado. Mas quem não quer ser lobo não lhe deve vestir a pele. Já que os cordeiros estão definitivamente esfolados.

 

Vamos ter que acordar desse sonho obsessivo de ressuscitar tanto como Lázaro e mais do que Jesus Cristo. Pois voltar a nascer já não somos capazes, nem sequer virtualmente. A nossa forma de vida vai ter de passar a ser a realidade.

 

Quanto mais fantasiamos mais perdemos a noção de realidade. O nosso problema é que sonhamos sempre com a realidade dos outros. A nossa versão ficcional tem sempre a elegância doméstica da pobreza honesta.

 

A nossa honestidade é isso mesmo: a pelintrice domesticada.

 

Nós não almejamos voar como os pássaros. Contentamo-nos em vê-los voar. Apenas acordamos quando no sonho os jacarés voadores devoram devagarinho as aves que se concentram na árdua tarefa de cumprir com o compromisso e o costume.

 

Mas já nem a tradição é o que era.

 

Quando regressamos à realidade, já a vida despejou dentro do contentor do lixo a incredulidade e a deceção.

 

Os guardiões da cidade já não sabem para quem trabalham. E os seus descendentes são como o Barão Trepador de Italo Calvino que se revoltou contra a autoridade do pai resolvendo passar a viver no topo das árvores.

 

Nós por cá ensinamos os nossos jovens a estudar para não fazerem exames. Isso só lá mais para a frente, quando a seleção natural tiver imposto as suas leis.

 

De facto, segundo uma reportagem do Expresso, os médicos portugueses estão de novo a tratar as depressões e os doentes bipolares com eletrochoques, provocando convulsões que permitem uma espécie de reset cerebral.

 

Os psiquiatras afirmam que estes velhos métodos são eficazes e seguros. Apesar do sucesso, e da adesão ao tratamento, segundo noticia o semanário (tamanho XXL), a realidade parece estar escondida dentro dos hospitais.

 

Neste país de Abril, de Maio, e também de Novembro, a quem é que a verdade interessa?

 

E então lá vamos nós atras da procissão onde homens ocos transportam santos de pau carunchoso em cima dos ombros.

 

 

PS – Passados que são cinco meses após as eleições, Passos Coelho continua amuado por não ter conseguido formar governo. A “geringonça” esquerdista continua a “geringar” e a “caranguejola” direitista continua a rezingar. O PSD votou contra tudo. A intriga orçamental triunfou. Finalmente temos um orçamento amigo dos cães e dos gatos. Abril chegou por fim aos animais. A Direita, nas palavras de Carlos César, “ficou às portas da democracia” e a Esquerda, na minha modesta opinião, atravessou o Rubicão do ridículo. É tempo de rejubilar. Então rejubilemos.


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Domingo, 20 de Março de 2016

São Sebastião - Couto Dornelas

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 139.jpg

 


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Sábado, 19 de Março de 2016

São Sebastião - Couto Dornelas

Dornelas-IGR - Cópia.jpg

 


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Sexta-feira, 18 de Março de 2016

São Sebastião - Couto de Dornelas

Dornelas-CM - Cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 17 de Março de 2016

Poema Infinito (294): a necessidade do renascimento

 

 

 

Ando às voltas à procura das raízes da velha árvore que vive no quintal. A sua voz ortográfica tem a mesma inclinação das curvas da aldeia, a mesma santidade das zínias, a mesma lisura do manto dos santos, a mesma subtileza dos contos de Gogol. Sou um andarilho que se perturba com a estridência do cantar dos grilos durante o cio. E com a honra dos mochos. Em abril as manhãs oferecem mais ternura às andorinhas, as coisas procuram os seus nomes, os olhares das crianças tornam-se horizontais como os rios, o desconhecimento aumenta. As almas, confundidas com tanta luz, andam mais devagar. As vozes experimentam o silêncio das coisas anónimas e vadiam pelas paisagens com a sua esperança em forma de asa. As vozes estendem-se na direção das bocas. A saudade começa a entardecer. As papoilas assumem a tarde. Leio na água a angústia do voo das libélulas. As auroras consagram-se com o dom dos girassóis e deixam-se pintar por Van Gogh. A noite corrigirá as flores mais tímidas e desatentas. As aves falam com os frutos e as rãs com a água dos charcos. Os poetas continuam a demonstrar ao mundo a semelhança dos nomes. As coisas que não temos são sempre as mais bonitas. Entretemo-nos a acariciar intimidades. Os homens apanham a existência que sentem nas árvores, como se fossem frutos maduros. As crianças pronunciam os verbos como se fossem pardais doentes. Dizem escutar as cores da natureza. Aprendem assim as leis do delírio. Aprendem a desenhar o aroma das árvores e a aflição das pedras perante a sua imobilidade. Os poetas colecionam cadernos semânticos com que mais tarde imprimirão as arcas onde guardarão a essência da poesia. A luxúria deixa-se perverter pela castidade. Todo o pecado será redimido. Todo o pecado será santificado. Os nomes empobrecem a realidade. As crianças repetem as tardes e as tardes repetem as crianças. Os filólogos repetem a erudição. A erudição repele os filólogos. As meninas procuram nos velhos almanaques os versos com que animam as folhas secas que guardam nos herbanários. E cantam poemas repletos de explicações desnecessárias. E choram. E riem. E masturbam-se como se fossem espigas de milho verde ou maçãs cortadas ao meio. Sonham que estão a dormir e que são como canoas e que conseguem descobrir a olho nu as fronteiras do céu e que comem fruta sacramentada. Começaram a cair gotas de chuva puxadas pelo vento que sopra do norte. Descobri que o infinito é incolor, que é vazio de palavras e repleto de inerências, que não tem tempo, que se propaga por vagas sucessivas de analogias, que as palavras são rumores, que o nada aumenta como se fosse tudo. Lá tudo diminui até ao imenso. Então a gramática das horas deixa de fazer sentido, Deus transforma-se num completo vazio, o horizonte fica sem mar e sem azul, a eternidade fica oblíqua e inútil, os ninhos transformam-se em epifanias. Escuto então os séculos dentro das conchas, o seu silêncio iluminado e vejo as paisagens que desapareceram há milhões de anos. Agora percebo a delicadeza dos absurdos, a dor do tempo, a ideia de voltar para casa, as impressões de atordoamento, o mundo maravilhoso das exclamações, o riso encantado da infância, as insónias da adolescência, o diabo que carregamos dentro de nós, a sede mortal de Deus, o sal no batismo, os olhares que nascem com a aurora e que morrem ao entardecer. Agora entendo perfeitamente a necessidade do desejo, a sua truculência e a misteriosa necessidade de renascimento.


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Quarta-feira, 16 de Março de 2016

São Sebastião - Couto de Dornelas

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Terça-feira, 15 de Março de 2016

São Sebastião - Couto de Dornelas

Dornelas - HM - Cópia.jpg

 


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Segunda-feira, 14 de Março de 2016

281 - Pérolas e diamantes: a identificação de um beijo

 

 

Por uma curiosa coincidência, ando a ler dois livros ao mesmo tempo: São Paulo, de Teixeira de Pascoaes; e Judas, de Amos Oz. 

 

Amos Oz, escritor israelita, vive em Jerusalém, onde, na sua opinião, há muita gente que quer ser o messias e salvar o mundo. Ao DN afirmou: “Vão para lá para serem crucificados ou para crucificar os outros. É o destino da cidade desde sempre, porque não se fica indiferente a Jerusalém.”

 

De facto, ninguém consegue ficar indiferente a esta cidade milenar, goste-se ou não dela. “Ninguém se aborrece por lá.”

 

Acusam-no de ser um escritor controverso. Ele responde que escreve romances e não canções de embalar. “O papel da literatura é agitar o leitor e causar a necessidade de reexaminar ideias e crenças. Não estou a vender gelados e guloseimas, esse não é o meu negócio.”

 

Sobre as possibilidades de paz é cauteloso e pragmático: “Levou dois mil anos para acontecer esta coexistência. Daí que seja estranho acreditar que o Médio Oriente fique em paz ao fim de meio século.”

 

O seu livro coloca Judas como o fundador do cristianismo, o que é uma bonita provocação. Oz justifica esta postura com o facto de o beijo de Judas, e do pagamento de 30 dinheiros (cerca de 600 euros) a alguém que era rico, não ser lá muito convincente. Por isso, Samuel, o protagonista do romance, elabora uma versão alternativa. Judas é o mais crente em Jesus, ainda mais crente do que o próprio Cristo. E quando o beijou para o identificar, fê-lo desnecessariamente, pois todos sabiam perfeitamente quem era Jesus.

 

São Paulo também andou por Jerusalém, mas morreu, muito provavelmente, decapitado em Roma, por ordem de Nero. Paulo foi apelidado por alguns dos seus como Anticristo. E chegaram a chamar às suas igrejas sinagogas de Satã.

 

São Jerónimo dizia que é inútil tocar lira diante de um jumento.

 

Segundo Teixeira de Pascoaes, atacado violentamente, o santo reage violentamente, mas é incapaz de odiar. O seu ódio é amor defensivo. Apodera-se do apóstolo a indignação. Escreve então a célebre Epístola aos Gálatas. Afirma os princípios fundamentais do seu Credo. “Afirma e não demonstra. Nem a Verdade se demonstra: afirma-se.”

 

E foi precisamente isso o que fez Ascenso Simões na sua Epístola aos Militantes Socialistas em artigo escrito para o Ação Socialista.

 

O título, violento, diz-nos logo ao que vem: “Rangel – uma cabeça doente.”

 

O deputado socialista por Vila Real zurze no comportamento de Paulo Rangel em Bruxelas, onde tenta “limitar a capacidade do país de se afirmar nas negociações com a Comissão Europeia”.

 

Para Ascenso Simões “Rangel tem para si uma ideia só – existe quando vai para além da decência”. Acusa o deputado europeu do PSD de não estar a defender os interesses de Portugal e, o que é mais grave, ou talvez não, de “não suportar o funcionamento da democracia”.

 

Acusa-o de nos enganar com a sua pretensa prosápia não populista, pois “Rangel é um deputado da direita radical, um insuportável agente que deixa mal Portugal.”

 

Paulo, na sua Epístola aos Coríntios, a primeira conhecida, escreveu: “Uns têm fome enquanto outros estão ébrios.” Andava, também ele, a difundir a Verdade, mas, segundo Pascoaes, ela “é inútil para os ouvidos mentirosos”.

 

Da luta entre titãs resulta sempre “o esqueleto dum arcanjo caldeado nas fornalhas da Babilónia”.

 

Volto a Teixeira de Pascoaes: “A ferocidade, mesmo enlouquecida, tem a sua lógica, obedece a uma direcção intencional, interior a ela mesma e é ela em conhecimento de si mesma. A ferocidade é um ser, como a loucura. (…) A imagem que projetamos nos outros, reflete-se logo sobre nós. Não há melhor espelho. (…) Cada entrudo tem a sua máscara.”

 

E finalizo, citando outra vez o escritor de Amarante: “Trabalhamos, quase sempre, a favor dos nossos inimigos.”   

 

Espero bem que não seja este o caso.

 

 

PS - Li nos jornais que os Bombeiros Voluntários Flavienses possuem novos corpos gerentes. As renovações são sempre saudáveis. E até desejáveis. Mas se as pessoas mudaram, o cariz nitidamente político-partidário acentuou-se. Quase todos os novos eleitos são dirigentes, militantes ou simpatizantes do PS.

 

 

Não estão em causa os indivíduos, alguns dos quais são meus amigos pessoais. O escandaloso é a partidarização de uma instituição humanitária prestigiada, com largo historial, que devia ser apolítica e apartidária. Apenas solidária.

 

 

A lógica político-partidária que continua a presidir à gestão de quase todas as instituições da cidade de Chaves é asfixiante e desprestigiante. O PS queixa-se do PSD. Mas os socialistas caem na mesma tentação e praticam o mesmo credo.

 

 

Os atos ficam com quem os pratica. Bem prega Frei Tomás…


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Domingo, 13 de Março de 2016

Atravessando pelas poldras

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Sábado, 12 de Março de 2016

Nuvens

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Sexta-feira, 11 de Março de 2016

Na exposição

A Corunha - junho 2015 134 - Cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 10 de Março de 2016

Poema Infinito (293): a flor do desaparecimento

 

 

Imagino a graça mágica de semear versos, de tecer poemas, de adivinhar destinos, de libertar Sansão da sua força e das leis movediças da santidade. Procuro, no meio das colunas em pé, as linhas do teu corpo, o dia, a noite e o tempo mais breve com que se mede a eternidade. Alguém descreve a aparência da verdade e sorri conforme viu sorrir as estátuas sonolentas, fechadas na mudez da sua configuração de pedra. Pelos fios do luar descem duendes vestidos de melodias sombrias e param junto de um homem que se ilumina nas chamas da sua fogueira secreta. Os duendes enviam sinais que se perdem no espaço. Desta forma celebram a sua inutilidade. O poeta voa agora através da escuridão em busca da fonte de luz. O tempo por vezes para. Dentro dos templos a luz transforma-se em granito. Os deuses que erguem as mãos já não servem para nada, nem auxiliam ninguém. As almas ficam silenciosas, como os livros. A um canto, uma rosa desobediente amanhece. Dizem que é apenas um milagre vazio. A beleza é moldada em bronze. A César o que é de César. A salvação é quase eterna. A Deus o que é de Deus. Os judeus continuam a percorrer o destino das tribos perdidas. A explicação do mal de que são vítimas não tem fim. O seu rei faz os milagres com as mãos e com os pés e explica-lhes no fim o que é a verdade dividida. Toda a ilusão é trágica, a noite rouba-lhe sempre a luz. Desde que o primeiro homem desejou a primeira mulher, nasceu a lei da incerteza. Depois Deus lembrou-nos que éramos todos irmãos, mesmo aqueles que não o querem admitir. E matámo-nos uns aos outros. E lavámos as mãos. E o medo. E enfurecemo-nos. Deus disse então que toda a fúria era maldade. Que a castidade era um cinto. E que não mentia. Construiu o mundo como se fosse uma sinfonia. De boas intenções está o inferno cheio. A luz que nos guia tolda-nos a razão. Nasceu então a santidade dentro dos homens. E começaram as ressurreições. Os espíritos cobriram-se com mantos, os corpos foram possuídos por espasmos e clarões. As montanhas tocaram o céu. Os anjos ganharam asas. Os homens conquistaram o pecado. A vida ficou em silêncio, como os bichos. Apagou-se então a candeia da criação. As virgens adormeceram. Os amantes ganharam asas. Os anjos cortaram-nas. Deus colheu a luz da verdade e acendeu as estrelas na noite e incendiou os montes. E fez nascer o sol. E obrigou-nos a cantar hossanas. As dúvidas aumentaram. A realidade teceu os ciprestes no paraíso. Os homens cantaram as virtudes do seu Senhor e aceitaram a demonstração de que eram feitos de barro. Depois nasceu o mar e as ondas. A nossa angústia e as nossas emoções ficaram salgadas. O primeiro poeta morreu abraçando a primeira sombra do primeiro cipreste. Deus fechou-lhe os olhos. Iniciou-se a primeira aventura celeste. Ecce Homo botou corpo e figura. E apendeu a ler, a escrever, a contar e a rezar. E a chorar. Fez da paciência a sua erudição. Deus transformou-se no anfitrião da sua própria ausência. O Criador criou a sua própria ilusão. Criou o tempo, o principal anjo da morte. A criação da Criação é o seu mistério mais sombrio. Nem a beleza de Deus resiste à eternidade. O movimento de tudo é o nada. O chão duro não consegue receber a semente. Os milagres apodrecem, mesmo que sejam amortalhados em véus brancos. O cântico da vida é o eterno cântico da aflição. Louvado seja o Senhor.


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Quarta-feira, 9 de Março de 2016

Amizade

A Corunha - junho 2015 097 copy copy - Cópia - C

 


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Terça-feira, 8 de Março de 2016

Jazz em Amarante

A Corunha - junho 2015 018 - Cópia.jpg

 


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Segunda-feira, 7 de Março de 2016

280 - Pérolas e diamantes: lá à frente também chove

 

 

E de repente os pais entraram na discussão política em Portugal. E não foi da melhor maneira. O BE comportou-se como um elefante dentro de uma loja de porcelana.

 

É claro que cada um tem o pai (ou pais) que lhe calhou em sorte. Por exemplo, o pai de Magnus Pym, O Espião Perfeito de John le Carré, era tão aldrabão que se chegava a enganar a ele próprio. E, sobretudo, o que é desprezível, enganava o filho com o amor que lhe devotava.

 

Um dia o filho, já secretário comercial e funcionário encarregado dos vistos da embaixada britânica nos EUA, respondeu em carta a Rick: “Querido Pai. Fico muito contente por aprovares a minha nomeação. Infelizmente não estou em posição que me permita tentar convencer Pandita Nehru a conceder-te uma audiência, para lhe apresentares o teu plano de apostas mútuas no futebol, embora imagine com facilidade o avanço que isso poderia representar para a economia periclitante da Índia.”

 

O BE, mais papista que o Papa, resolveu utilizar a imagem de Jesus num cartaz para fazer uma campanha a assinalar a aprovação da lei que permite a adoção por casais do mesmo sexo, dizendo que “Jesus também tinha 2 pais.”

 

Dois pais também parece ter a brilhante ideia de nacionalizar o Novo Banco: não só o Partido Comunista, o que não é de estranhar, mas também o economista Vítor Bento, ex-conselheiro de Estado, primeiro presidente do ex-BES e um neoliberal assumido.

 

O Vítor economista veio lançar a ideia, peregrina por certo, de que a eventual nacionalização do NB serve para evitar que a consolidação na banca seja liderada por entidades externas. O PCP aplaude de pé. O PS espera sentado que a solução, qual fruto maduro, lhe caia no regaço.

 

Taur Matan Ruak, o presidente timorense, talvez sentindo-se órfão de mãe, resolveu acusar os dois putativos pais da independência de Timor Leste, Xanana e Alkatiri, de beneficiarem amigos e familiares em contratos do Estado, comparando tais privilégios aos que existiam no tempo do antigo ditador Indonésio Suharto, que eles combateram de armas na mão.

 

Matan Ruak disse no Parlamento que Xanana e Alkatiri usam a unanimidade e o entendimento para terem “poder e privilégios”. Bem-vindos sejam pois, estes dois progenitores, ao sistema democrático.

 

Mas voltemos ao BE. Bernardo Ferrão, no Expresso, disse que “imbecil” era a palavra certa para definir o polémico cartaz sobre a adoção gay com a imagem de JC.

 

A mim, que sou agnóstico, a provocação aos católicos deixou-me parcialmente indiferente. Não alinho em guerras ideológicas, nem sexuais e muito menos religiosas.

 

O que me deixa triste é que nem na provocação conseguimos ser criativos. As palavras impressas no cartaz são a tradução de dois placares da St. John’s United Methodist Church, publicitados nos EUA e no Canadá, um em inglês (Jesus had two dads and he turned out just fine) e outro em francês (Jesus aussi avait deux papas!).

 

É o nosso triste fado, nem na “imbecilidade” conseguimos ser originais.

 

Esta esquerda chique e bem vestida faz-me lembrar o tio do João, de um texto de António Mota, que depois de o seu sobrinho soprar as velas do bolo de aniversário, pega num caixote, senta-se no terraço e começa a encher balões. E ali fica toda a tarde: Pfffffffff… Pffffffffff… Pfffffffff…. Depois larga-os. E os balões lá vão subindo, guiados pelo vento, em várias direções. Não sabe para onde se dirigem nem onde vão parar. Nem isso lhe interessa. Acredita que algumas das sementes que levam dentro hão de germinar. Claro que dali poderão nascer algumas papoilas, mas delas nunca uma seara rebentará.

 

Na Tertúlia de Mentirosos, Jean-Claude Carrière refere um conto da tradição chinesa, que passo a contar aos estimados leitores, como forma de conclusão que tem a enorme vantagem de não ser conclusão nenhuma.

 

Um homem caminha lentamente à chuva. Um outro passa por ele apressado e pergunta-lhe: Porque não andas mais depressa? O homem lento responde: Lá à frente também chove.


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Domingo, 6 de Março de 2016

O bailarico

Segirei - setembro 2015 237 - Cópia.jpg

 


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Sábado, 5 de Março de 2016

O sorriso e o caldo verde

Segirei - setembro 2015 232 - Cópia.jpg

 


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Sexta-feira, 4 de Março de 2016

Solidariedade

Segirei - setembro 2015 111 - Cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 3 de Março de 2016

Poema Infinito (292): a lei da ocupação dos espaços

 

 

Sinto nos pés o frio das estações que nos chega num tempo sucessivo como se fosse o mar, ou a alma da tarde, ou o vento que adotou a linguagem das casas de granito. A alegria chega a determinadas horas e demora-se apenas uns minutos. Repara que temos corpo e que a sua sombra lhe advém da luz que não deixa passar. A lei da ocupação dos espaços leva-nos até à rua. Os homens caídos levantam-se. As mulheres descem solenemente os arruamentos desdenhando a arquitetura do destino. Os lugares interiores tornam-se mais definitivos, as bocas mais ousadas e os olhares mais arrojados. O dia começa a vir à superfície. E morde. A manhã transforma-se numa catedral de esperança. Os homens são como sinais na paisagem. Os anjos descem à terra transportando novas possibilidades, pensando que são diferentes daquilo que são. Lembram-nos que Pedro traiu Jesus e que os judeus prometeram matá-lo e que a promessa ficou por cumprir. Por isso os homens agora juntam-se e organizam grandes manifestações de protesto. Uma leve voz sobe à superfície do tempo e lembra-nos os nomes dos países e a lógica infinita das religiões e os rumores do mar e a comoção das paisagens e os gestos esquecidos que inauguram as memórias e as memórias das memórias. E aí permanecem. Precisamente aí onde se desmorona a infância, as praias que a habitam e os sonhos de partida. Abrem-se os portões da quinta por onde entra o vento da vida e os rouxinóis que cantam a leveza dos seus voos e o movimento cirúrgico das suas asas. Os anciãos contam as inconcebíveis aventuras da voz humana. Ouve-se então descer o silêncio pelas vertentes da tarde. A noite está para chegar. Os versos lavram as páginas feitas de terra. Sinto nos nossos passos a firmeza da determinação e a mesma forma do caminhar com que íamos para a escola conduzidos pelo imenso olhar das mães. Os gestos das crianças são sempre decididos. As loucuras cabiam-nos na concha das mãos. As folhas das árvores descreviam os ventos. Acreditávamos que toda a pobreza é transitória. Dirigíamo-nos ao tempo sintetizando a ambiguidade dos campos. Estendíamos as ideias como se fossem mantas onde nos sentávamos. Escondíamos os sonhos em vários lugares para na volta os irmos resgatar. Os homens construíam laboriosamente os muros que dividiam as terras. Os anjos edificavam organizadamente as paredes das tardes antigas. Os deuses criavam as muralhas dos templos bíblicos e definiam a dor e o prazer, a alegria e o choro, a necessidade e a abundância e mandavam calar os pássaros que julgavam inúteis e os homens e as mulheres que só sabiam rezar.  A luz andava de janela em janela tentando decidir-se por onde entrar. As tardes pareciam nunca acabar. O sol fechava-se atrás das nuvens. E nós víamos pontualmente partir as horas e arredondávamos o som das palavras definitivas e abríamos as portas à esperança. Os pastores guardavam o rebanho dos seus pensamentos, os camponeses semeavam batatas e palavras. Todo o caminho feito é na esperança do regresso. Por isso os deuses das viagens orientam as estátuas que nos servem de bússola. A virtuosa solenidade da preparação para as grandes viagens está de regresso. As linhas do teu rosto recompõem-me o mapa mental. Os velhos sinos tocam a rebate. A atmosfera é doméstica, a paisagem quotidiana. Estou repleto de ausência. Pego então nas breves palavras que me deixaste, olho o céu azul e parto. Disseste-me: Quem parte fica sempre com responsabilidade de chegar.


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Quarta-feira, 2 de Março de 2016

Olhares

Matança Abobeleira dez 2015 019 - Cópia.jpg

 


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