Quinta-feira, 30 de Junho de 2016

Poema Infinito (309): os gritos e os murmúrios

 

 

 

O meu olhar fica mais lento quando desce sobre as árvores no verão. Repetem-se as tardes e as sombras. Repete-se o terraço e os sorrisos. Repetem-se as memórias, as palavras, as desilusões. Perto de casa tenho os mesmos sonhos como se estivesse longe. As toalhas que cobrem as mesas estão lavadas e perfumadas. Alguns rostos estão colados aos espelhos. Os olhos refletidos repartem imagens da infância e uma espécie de silêncio antigo. Mesmo as histórias mais recentes repetem as tardes que tardam em entardecer. E lá continuam os montes e o desenho irregular das fragas, o vento, as neblinas madrugadoras, a luz opaca refletida pelo zimbório da igreja de onde desapareceram as estrelas, a fúria lenta dos caçadores e a angústia nervosa e rápida do medo dos animais que vão ser caçados. Lembro-me do muro que separava a estrada dos campos de centeio, onde por vezes nos sentávamos a ver passar o tempo e a recitar as palavras aprendidas durante a escola. Sentíamo-nos como ilhas a crescer no meio do mar. Muitas palavras estavam diante de nós e não as conseguíamos ver. Os gestos das mãos desenhavam as curvas do destino. O amor nunca é bem aquilo que cada um sonha. As árvores também crescem na tentativa desesperada de ganharem a altura do céu. As casas continuam de pé a olharem os campos abandonados. Os sonhos que as habitaram são hoje pó e as recordações de verão são uma espécie de retratos invertidos. Os pássaros calam a tristeza e fazem voos tristes para sul. A nossa memória é um labirinto constituído por pequenas feridas. O cheiro das ervas aromáticas ainda é o mesmo. Continuo a confundi-los. Quando chega a hora de as estrelas descansarem nos telhados, e se me começam os olhos a fechar, ladram os cães lá ao longe acordando a noite e espalhando-me o sono e os sonhos. Vim eu lá de longe para ver se te encontrava. Ainda mora dentro de mim o teu encanto de criança. Do meu já não me lembro. Os gatos mansos enrolavam-se nas nossas pernas e ronronavam as suas perguntas que não procuravam resposta. Havia tantas horas dentro desses dias. Sentávamo-nos à mesa e desenhávamos o tempo enquanto bebíamos leite fresco que cheirava a leite fresco. Comíamos pão com sabor a lenha e ao calor do forno. Naquele tempo não havia mentiras nem enganos e o tempo era uma linha tonta que se prolongava bem para lá do infinito. Tudo isso guardo cá dentro como se fosse uma outra espécie de verdade. Sinto o tempo a respirar em cima de mim. Quando acordo de manhã, as palavras estão tão desfeitas como a cama. Mora dentro de mim uma espécie de inverno lento e sereno. Os sonhos continuam a guardar os meus medos e os meus anseios. Os sons da melancolia atravessam a rua. A inclinação do sol e das sombras perseguem-nos. Por vezes as palavras pesam como um fardo. As crianças desapareceram, os velhos ficaram indiferentes e as mulheres trancam-se em casa à espera da redenção. A aldeia é agora o lugar da chuva e do abandono onde naufragaram as mãos e os lábios dos que mais a amaram. As ruínas provisórias tornaram-se definitivas. A memória, pobre coitada, apenas consegue guardar a sua biografia de forma incompleta. Os seus mortos por vezes gritam, outras vezes murmuram, a sua indignação. Tanto trabalho para nada. Já ninguém os ouve. A conspiração do tempo é definitiva. Os deuses da negação passam todas as noites os olhos pelas suas casas. Depois adormecem. 


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Quarta-feira, 29 de Junho de 2016

O Menino e o Pinóquio

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 008 -

 


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Terça-feira, 28 de Junho de 2016

Jazz em Amarante

A Corunha - junho 2015 019.jpg

 


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Segunda-feira, 27 de Junho de 2016

296 - Pérolas e diamantes: incursões autárquicas

 

 

Através da gentileza do senhor presidente, e pela simpatia profissional da senhora Maria Alves, chegaram até à minha caixa de correio eletrónico as duas últimas atas das reuniões ordinárias da Câmara Municipal de Chaves, com cerca de 100 páginas cada uma.

 

Eu, para não abusar da paciência dos estimados leitores, proponho-me dar-lhes conta do período antes da ordem do dia, que se encontra resumido nas três primeiras folhas de cada ata.

 

A reunião referente ao dia 27 de maio de 2016 foi declarada aberta pelo Presidente quando eram nove horas e quinze minutos. Participaram todos os vereadores.

 

A sessão iniciou-se com a intervenção do senhor Presidente, António Cabeleira, que deu conhecimento a todos os presentes de vária e interessante documentação relacionada com a atividade municipal. 

 

A Câmara, como vem referido na ata, tomou conhecimento.

 

De seguida interveio o vereador do PS, Francisco Melo, para evidenciar a necessidade de construção de um acesso destinado a pessoas com mobilidade condicionada e/ou reduzida, no Jardim do Castelo.

 

O senhor presidente respondeu referindo que a execução a curto/médio prazo do projeto sugerido pelo vereador referido está contemplada no PEDU.

 

O mesmo vereador contou que, em dia de feriado nacional, foi até Orense, e constatou que na autoestrada das Rias Baixas foram colocados MUPIS com informativos sobre a zona termal aí existente. Propôs, então, de forma pioneira, a colocação de um MUPI com a indicação de Chaves, enquanto cidade termal, na nossa A24, pois enquanto os investimentos que o Município fez nas Termas são enormes, a divulgação da instância termal é exígua.

 

Respondeu-lhe o senhor Presidente afirmando que a colocação de MUPIS, junto à A24, está a ser devidamente ponderada, por quem de direito.

 

Interveio a seguir outro vereador do PS, no caso João Moutinho, que, entre diversas coisas, solicitou a colocação de alguma sinalização vertical e horizontal, na Av. do Tâmega.

 

Em resposta à intervenção “acima exarada”, o Presidente da Câmara referiu que a intervenção a levar a efeito está prevista no PEDU.

 

A reunião do dia 9 de junho de 2016 teve início quinze minutos mais tarde que a de 27 de maio. O senhor Presidente procedeu da mesma forma que na anterior. Todos os vereadores estiveram presentes.

 

A Câmara, como vem referido na ata, tomou conhecimento daquilo que tinha a tomar.

 

Na sua primeira intervenção, António Cabeleira, deu conta que se procedeu ao encerramento provisório do Hotel Aquae Flaviae por nele ter sido detetada a bactéria denominada Legionella. Referiu-se à inauguração do Balneário Termal de Vidago e à inauguração do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, dando conta que esta última irá contar com a presença do senhor Presidente da República, em data a definir.

 

Sobre as propostas de agraciações municipais, “deu nota do facto da proposta relacionada com a atribuição de agraciações municipais não ter sido integrada na Ordem de Trabalhos da presente reunião do Executivo, considerando que o PS e o CDS-PP ainda não procederam à indicação do nome do cidadão que, pela sua ação política, deverá merecer tal distinção municipal”.

 

Aqui vou-me permitir um pequeno comentário. Cá, como lá, ou lá como cá, distribuem-se mais medalhas do que sorrisos. Eu até gosto muito de sorrisos. Mas… por qui me fico, pedindo, no entanto, celeridade ao PS e ao CDS na indicação do nome do “seu” cidadão a ser medalhado. Quero crer que a demora não é por falta de gente séria e responsável entre os seus simpatizantes ou militantes.

 

Seguiram-se dois requerimentos do vereador do PS, Francisco Melo. O segundo pedindo que lhe fosse viabilizada, com urgência, uma visita à obra a decorrer no Estádio Municipal. O senhor Presidente manifestou, desde logo, total disponibilidade.

 

O primeiro, solicitando que, após vários pedidos para visitar o Edifício Municipal, sito na Rua Júlio Martins, “que nunca foi realizada por culpa da presidência da Câmara que tem procrastinado na satisfação dos pedidos”, lhe fosse finalmente concedida a respetiva autorização.

 

Protestou ainda por lhe ter sido “dado tratamento desconforme com as competências de acompanhamento da atividade da Câmara” que lhe “são próprias”.

 

Respondeu-lhe, desta vez, o senhor vice-presidente, Carlos Penas, que logo ali agendou a dita visita para a “próxima terça-feira, a partir das 15 horas”.

 

O senhor Presidente, pelos vistos, deixou de procrastinar na satisfação dos pedidos do senhor vereador. 

 

Desde aqui, e desde já, se me é permitido, parabenizo ambos e dois.


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Domingo, 26 de Junho de 2016

Brotas V

Brotas e Barroso - abril 2016 037 - Cópia.JPG

 


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Sábado, 25 de Junho de 2016

Brotas IV

Brotas e Barroso - abril 2016 004 - Cópia.JPG

 


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Sexta-feira, 24 de Junho de 2016

Brotas III

Brotas 2015 033 - Cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 23 de Junho de 2016

Poema Infinito (308): finitude

 

 

Sopra o vento contra os corpos de uma forma muito abstrata. O fogo alteou. Esta é a primeira fogueira do dia. Esta é a primeira ideia da manhã. O mar levanta-se ainda mais verde. Uma ideia é como uma promessa. Possui o mesmo desígnio de redenção. O canário canta na gaiola. Pobre coitado. É loiro e débil. Ele trina. Eu colho os remorsos da sua falta de liberdade. Os sons do violino aveludam a minha consciência. Deus vibra dentro do nada. O tempo é a sua gaiola dourada. Deus também deve ser loiro. Nós somos os seus filhos débeis. Também aprendemos a cantar. Deus é um bom professor. O fogo expande-se como se fosse harmonioso. Os velhos soldados vestem a sua farda e deixam-se morrer de pé, encostados às memórias da sua glória inútil. Os seus olhos já não veem, são como espelhos paralelos que devolvem as imagens. Cantam sozinhos. Leem e deliram. São tão inúteis como poetas declamando ao vento. Com as mãos que mataram agora querem apenas rasgar esse erro. Também eles amaram, antes de matar, mulheres vestidas de branco e de seios fortificados. Sentiam-se anjos bravos fazendo perguntas inocentes às esfinges. Eles eram arrogantes e as esfinges limitavam-se a ostentar a sua plumagem hiperbólica. As suas espadas eram nítidas como estrelas. O tempo gastou-lhes a voz como se esse fosse o seu alimento. Os seus sentimentos continuam a ser como ilhas. Agora sentem-se de novo crianças talhando com as suas navalhas animais domésticos. Não esculpem aves porque, mal adquirem forma, fogem-lhes das mãos em voos rápidos e nervosos. O tempo moldou-lhes a figura como se fossem bonecos de barro dentro de um forno. Todos os dias, as tardes caem sobre si como se fossem armaduras antigas. A sua alegria é uma nova forma de tristeza. Possui o mesmo peso relativo. Caminham em chão firme. Aceitam a terra que pisam porque sabem que esse é o seu derradeiro cobertor. Arrependem-se dos gatos que afogaram no rio, dos beijos que não deram, dos coitos sucessivamente interrompidos. Quando se enganavam, nasciam os filhos equivocados. Eles sabem que a neve faz arder as mãos com o seu frio. Certas memórias doem-lhes como alguns versos doem aos poetas. As manhãs pesam-lhes, as tardes alargam-se, a noite morde-lhes a consciência com o seu espigão. O inverno vive embuçado dentro do seu corpo. Engolem as injúrias como se fossem poetas riscando os seus versos mais atrevidos. Resistem à tristeza enquanto secam por dentro. Aprenderam a resignação como a ensinaram aos burros que montavam. Foram soldados virtuosos, filhos pródigos e monges redentores. Iludiram e deixaram-se iludir. Agora sentam-se à lareira e acendem os cigarros sem filtro com guiços de ponta chamejante. São frutos secos, sementes estéreis, pêndulos que já não oscilam, raízes cortadas. Quando a tarde está soalheira, levam a sua sombra a beber à fonte como antigamente levavam o gado quando regressavam do monte. Até lhe assobiam, para a ajudar a beber, como se fosse um cavalo. A sua sombra é a sua alma. A sua imagem boia na água estagnada. Nas manhãs nevoentas enchem-se de coragem e acariciam as mágoas. Ouvem o caruncho a comer as tábuas do soalho. É assim há anos e anos. Agora prestam-lhe uma atenção redobrada. O sol já não lhes apetece. Até o lume perdeu o sabor. Os olhos já não comem, apenas abraçam o canário e a sua debilidade aprisionada.


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Quarta-feira, 22 de Junho de 2016

Brotas II

Brotas 2015 018 - Cópia.jpg

 


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Terça-feira, 21 de Junho de 2016

Brotas I

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Segunda-feira, 20 de Junho de 2016

295 - Pérolas e diamantes: O Lado de Guermantes

 

Hoje tencionava falar-vos da razão que leva as pessoas que são vítimas da fome, da incúria, da corrupção e da opressão, de cada vez que há eleições, a darem a sua entusiástica aceitação aos políticos que lhes tornam a vida insuportável.

 

Tencionava, mas já não tenciono. De boas intenções está o inferno cheio. A verdade é que desisti do intento porque não consigo atinar com tais desvarios humanos. Cheguei à conclusão de que estão para lá do meu entendimento.

 

Hoje vou levar-vos “Para o Lado de Guermantes”, o volume três do “Em busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, que retrata, durante sete livros, uma época e uma consciência da França desde a III República até à Primeira Guerra Mundial. Daí a multitude de personagens socialmente situadas e psicologicamente analisadas com uma minúcia deliciosa e uma subtileza desconcertante.

 

Para Proust, a realidade autêntica vive no inconsciente e só a magia da memória involuntária a recupera.

 

O duque de Guermantes, por exemplo, tem vaidade na mulher mas não gosta dela. Segundo o narrador da “Recherche”, cada um de nós vê mais belo o que vê à distância, o que vê nos outros. Porque as leis gerais que regulam a perspetiva na imaginação tanto se aplicam aos duques como aos outros homens. E não só as leis da imaginação, mas as da linguagem.

 

Naquela época as pessoas eram delicadas e uma dona de casa não podia atrever-se a enviar um cartão acrescentando à mão: “uma xícara de xá”, “um chá dançante”, ou “um chá musical”.

 

Naqueles tempos tomava-se muito chá logo desde pequenino. Mas conhecedoras da delicadeza, as donas de casa, também não ignoravam a impertinência.

 

Os serões da aristocracia eram bem frequentados. As elites eram genuínas. Não faziam de conta.

 

Por exemplo, a senhora Leroi, uma visita lá de casa, conhecia eminentes personalidades europeias. Sendo ela uma mulher agradável que fugia ao tom das literatas, evitava falar das questões do Oriente aos primeiros-ministros, tanto como da essência do amor aos romancistas e aos filósofos.

 

Uma vez, uma dama mais pretensiosa perguntou-lhe o que era o amor. Ela limitou-se a responder: “O amor? Faço-o muitas vezes mas nunca falo dele.”

 

A duquesa de Guermantes, por seu lado, quando as celebridades das letras e da política lhe rompiam portas adentro, limitava-se a pô-las a jogar póquer. Muitas vezes, elas apreciavam mais isso do que as grandes conversas de ideias gerais a que as obrigava a senhora de Villeparisis.

 

Lá pelo meio de esclarecedores diálogos, Bloch lembra-nos que a divina Atena, filha de Zeus, colocou no espírito de cada um o contrário do que está no espírito do outro.

 

E também falavam de “mentalidade”, na nova “mentalidade” que o caso Dreyfus estava a abrir em França e no mundo Ocidental.

 

O duque de Guermantes, um antidreyfusista, que possuía um caderninho cheio de citações e que as relia antes dos grandes jantares, tomou nota dessa nova palavra e prometeu servir-se dela quando achasse conveniente. Desde logo porque lhe agradava. Naqueles tempos nada era deixado ao acaso.

 

Quando alguém achou engraçado um dito espirituoso de apoio aos dreyfusistas, o duque de Guermantes fez questão de dizer que lhe era indiferente que fosse engraçado ou não. “Não dou qualquer importância ao espírito”, rematou. E podia-o fazer porque estava em sua casa.

 

No seu canto a duquesa, murmurava para o seu círculo mais íntimo: “Ele não pensa uma palavra do que está a dizer. É por certo por ter feito parte das Câmaras, onde ouviu discursos brilhantes que não significavam nada.”

 

Viviam-se tempos conturbados. Os mais esclarecidos tentavam atalhar as manobras antimilitaristas por parte da esquerda mais radical. Mas, avisavam, também não tinham de aceitar as disputas encorajadoras por aqueles elementos de direita que, em lugar de servirem a ideia patriótica, apenas pensavam em servir-se dela.

 

Entretanto, os mais libertários faziam o que sempre fazem: pediam o impossível. Pedir tudo é uma forma de não se conseguir nada. É como arrombar uma porta aberta.


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Domingo, 19 de Junho de 2016

Castelo do Soajo

Soajo - Lumbudus - maio 2015 033 - Cópia.jpg

 


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Sábado, 18 de Junho de 2016

Na Feira

Romanos em Chaves, 2015 006 - Cópia.jpg

 


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Sexta-feira, 17 de Junho de 2016

Olhares

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 138 -

 


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Quinta-feira, 16 de Junho de 2016

Poema Infinito (307): o sossego titilante da ilusão

 

 

Os grandes montes ao sol transpiram sossego. Alguns bichos têm ainda dentro de si o frio da noite. Os homens, entretanto, sonham. Ou fazem que sonham. Os sonhos fazem sempre de conta. Uma chuva lenta desce pelos nossos olhos. Outros olhos nos observam. Por vezes temos a sensação de que o universo é absolutamente oco. O tédio encharca-nos. A memória abandona-nos. A alma esfria-se. O destino é uma interseção de tudo. Só o tempo é sossego. Só o tempo nos desassossega. As consequências da vida misturam o corpo e a alma. Chega primeiro o som da chuva do que a própria chuva. Já nada nos surpreende. Todos os sonhos do mundo são um só. No entanto, o mistério das ruas é distinto. Os pensamentos são impossivelmente reais. O velho conduz a carroça pela estrada do tempo. Esse tempo que é nada e tudo ao mesmo tempo. O comboio parte antes de chegar. As casas velhas das ruas mais estreitas inclinam-se umas para as outras, para se ampararem. Assim podem dividir as sombras e filtrar melhor a luz do sol. Nós somos as ruínas das conquistas futuras, a certeza dos loucos, o propósito mineral das árvores, as aspirações mais nobres e mais lúcidas de tudo aquilo que é irrealizável, a humanidade divina de Cristo, a hipotética razão da filosofia de Kant, uma porta que não tem parede, uma parede que não possui porta, a voz inaudível de Deus, todas as cores da natureza que cabem dentro da cabeça de um cego. Nós conquistamos o mundo mesmo antes de nos levantarmos da cama. Todos transportamos dentro de nós a gloriosa honra de sermos aquilo que nunca seremos. Ensinaram-nos a desprezar as lágrimas, a disfarçar a dor, a iludir a verdade, a admirar os gestos largos sem nada dentro, a inspirar e a expirar de forma moderna, a invocar os espíritos da vulgaridade. Vistas das janelas, as ruas ganham sempre outra nitidez. Vejo no espelho a forma do meu envelhecimento. A decadência é uma máscara. Só pode ser. A utilidade deve ser a coisa mais inútil do mundo. Daí este meu cansaço antecipado, este futuro sem passado, este presente que é sempre um instante mal aproveitado. Quem se fez à história nunca pensou que o máximo que podia alcançar era ser uma imagem desenhada numa parede de barro. As figuras certas contam sempre a história errada. A haver alguma elegância na vida, ela está escondida na persistência dos persistentes, no verbalismo triste dos poetas, no ritmo sossegado das manhãs, nas brisas que titilam as folhas das árvores, nos cinco minutos anteriores ao ato serenamente desesperado de escrever um poema e nos cinco minutos logo após o seu término, nas curvas involuntárias das estradas, no rápido rodopiar de um pião, no estremecimento da atividade da alma verdadeira que se esconde sempre dentro da alma falsa. A rua encheu-se agora de um sol vago. As casas parecem ainda mais paradas por causa da gente que anda cada vez mais depressa. Os seus sorrisos alegres escondem uma tristeza superior, procuram a razão que nunca irão encontrar. A loucura é sempre maior do que os espaços onde habita. O mundo é como o circo da nossa infância. O seu risco é calculado. A vida é idêntica à saudade que temos dele. É este o momento de chegar o nevoeiro, o seu sabor é imperfeito. Os fantasmas ocultos interrogam a sua angústia. Já não sei se sou eu que te sonho, se és tu que me sonhas. A ilusão é a mesma. Andei léguas a deambular. Sonhei com o poema. Sonhei com a sua infinidade. De quem é, afinal, o olhar para quem eu olho?


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Quarta-feira, 15 de Junho de 2016

Formigas humanas

_JMD0829 - Cópia.JPG

 


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Terça-feira, 14 de Junho de 2016

Paris

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Segunda-feira, 13 de Junho de 2016

325 - Pérolas e diamantes: da política ao desperdício ou o desperdício da política

 

 

Foi interessante de ler a entrevista de Durão Barroso ao Expresso. Ele que passou mais de trinta anos ligado à política acaba por confessar que aquilo de que verdadeiramente mais gosta não é da política. A política foi um acidente de que não se arrepende mas que quer olhar com alguma distância.

 

Foi para a política por causa dos debates. Mesmo sem ninguém lhe perguntar, o ex-presidente da Comissão Europeia respondeu que aquilo de que gosta mais não é da política mas da arte, da literatura, do teatro, da música e das artes plásticas. Isso sim é que lhe dá uma grande satisfação. Quem diria?

 

A política fá-la porque às vezes não lhe resiste. E isso já vem dos tempos da juventude, quando militante do MRPP contestava tudo e todos. Depois começou a escalar as prioridades e acabou no PSD. Ele sabe o que os políticos passam e aquilo que valem. Com a escola que tem nenhum de nós duvida.

 

Ele que foi secretário de Estado, ministro, primeiro-ministro e presidente da Comissão Europeia sabe muito bem daquilo que fala. Todos nós acreditamos que sim.

 

Está perfeitamente consciente das agruras da política. E da espuma dos dias. E do pó que o tempo lança sobre tudo. Aquilo que fica é Shakespeare, Camões, Cervantes, Montaigne ou Dante.

 

Os políticos podem ser importantes – os que o são, claro está –, mas ao fim e ao cabo a política é instrumental. 

 

Na sua perspetiva, a política deve evitar o sofrimento dispensável, deve criar as melhores condições, mas aquilo que verdadeiramente nos realiza é a ciência, o conhecimento e a cultura geral.

 

Por vezes parecemos ratos enjaulados dentro da nossa própria liberdade.

 

Importante é sabermos de onde somos e para onde vamos.

 

O problema é definirmos a nossa zona, digo eu. O Centro do país não, porque somos do norte. O Litoral também não, porque detestamos a areia, a água salgada e os escaldões. O Interior é pedregoso, a planície alentejana abrasa, dá-nos cabo dos nervos e o branco cega-nos. Um pouco de luz dá algum jeito, mas os ventos fustigam-nos o poder de decisão. No Minho chove muito e o vinho é verde. A Estremadura tem muita terra calcinada, faz-nos lembrar La Mancha, a terra de D. Quixote. No Ribatejo os toiros bravos (ei toiro lindo?) andam à solta e as rãs não param de coaxar.

 

Olhamos para o mapa e não nos conseguimos decidir: aqui chove, ali neva, acolá queima, além sofre-se com o trânsito. Aqui lembramo-nos de tudo, ali pasmamos com o carnaval, acolá, bem acolá, acolá…

 

O melhor é mesmo viver numa cidade onde o rio passa ao meio, cruzado por uma ponte milenar, onde podemos ouvir o som marulhado das águas do Tâmega, onde podemos apreciar a mistura das cores do poente, onde a água quente rompe do chão aos borbotões, onde as pedras retalhadas guardam memórias em silêncio, onde nas ruas tortuosas ainda passam almas boas, onde as conversas ainda têm o sabor a amizade, onde muitas casas são emolduradas por lindas varandas, onde as memórias são cozidas em lume brando, onde a cor da água se mistura com as lendas e dá origem a fontes misteriosas, onde os silêncios mais profundos são invisíveis, onde as ruas se cruzam e desembocam numa fronteira interior, onde se chora recordando a morte dos heróis, onde os rostos dos mais velhos estão calejados por sulcos de sangue, suor e lágrimas, onde até as rochas são rugosas e os mais dedicados dos seus filhos perseguem eternamente a pedra de Sísifo, onde as casas enlouquecem porque vão perdendo a memória, onde muitos dos dias são deitados fora como se fossem boletins do totoloto não premiados.

 

Onde agora nos apetece escrever com giz nas paredes como antigamente o fazíamos nos quadros ou com o ponteiro de ardósia nas lousas da escola.

 

E onde as resmas de folhas escritas se vão amontoando pensando nós em reciclá-las para não parecer mal tanto desperdício.


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Domingo, 12 de Junho de 2016

Na aldeia

Barroso - abril 2006 024 - Cópia.jpg

 


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Sábado, 11 de Junho de 2016

Caminhando

Barroso - abril 2006 019 - Cópia.jpg

 


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Sexta-feira, 10 de Junho de 2016

À sombra

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Quinta-feira, 9 de Junho de 2016

Poema Infinito (306): diferenças divinas

 

 

Dizes que ouves a minha voz mesmo quando não estou a falar contigo. Essa é a tua vocação. Eu digo sempre o que sinto, mas nem sempre uso as palavras. Por vezes, os sentimentos não cabem dentro delas. D. Quixote também nunca coube dentro do livro de Cervantes. Ele sabia como trocar os moinhos por gigantes. Estava sempre perto da sua distância. Tinha o vício da pureza, por isso enlouqueceu. Ele viu Deus e não acreditou. As estradas estavam sempre cheias de surpresas. Quando pensava encontrar o caminho para o céu, entrava no inferno. As suas guerras acabavam sempre em parábolas. Dom Alonso Quixano tinha dores abençoadas, entrava sempre às cegas nas lutas. Dizia sempre adeus e ficava à espera. Abria sempre os braços quando lhe chegava a saudade. Os loucos não são anjos porque não lhes crescem as asas. Mas sabem cantar nos abismos canções inocentes, têm sonhos novos todos os dias, atiram pragas redentoras. Por isso são incompreendidos. Mostram-se todos. A sua fé não vem nos evangelhos. Para eles, o nosso mundo é vago. Conhecem as teorias dos apóstolos. Aprenderam a ouvir e a estar calados. Afinal, os loucos são sempre os outros. A verdade é uma espécie de fome desgraçada que dá a quem a procura. Por vezes, não sabendo fazer o bem, praticamos o mal que não queremos. Os humanos são assim, matam em nome do seu Deus para lhe serem perdoados os pecados. Há sempre quem os absolva. Job tinha três amigos que valiam por trinta. Dizia santas palavras sem sentido. Era pobre. Limitava-se a aceitar a alegria no seu corpo dorido e a maldade dos Sabeus. Ensinaram-lhe que nada era. E ele aprendeu. Das várias profecias se fazem os profetas. Dormem noites descansadas e passam dias terríveis. As chagas provocadas pelo tempo não têm cura. Depois perdem-se dentro dos paraísos e fazem tudo para não darem com a saída. Gostam de dizer que morrerão numa generosa agonia. Ou então tragicamente como Sócrates, bebendo a dose certa de cicuta. Ou como César dizendo nos idos de Março: “Também tu, meu filho Bruto.” Se Bruto tivesse bebido cicuta, talvez a história tivesse sido outra e Cristo talvez não chegasse a nascer nem a ser crucificado, nem os célebres cavaleiros cruzados andantes tivessem existido e Cervantes, se por acaso tivesse nascido, não conseguisse escrever o D. Quixote por causa de um referente sério de loucura. O que importa é aquilo que dói, o sol que aquece, o corpo lavado e as frases mais vagas que prometem o céu. O céu é um pensamento velho. Deserto onde não há seca não é deserto. O meu poema é um romance infindável. Os profetas que o habitam olham de longe as horas, têm por vezes visões belas, dizem que conhecem a grandeza de tudo aquilo que é santo, mas eu não os conheço. São como as aves noturnas que comem os agoiros como se fossem alimento. Por vezes, os profetas vestem-se de lobos, outras vezes de sereias. E dizem que amam Deus e a sua vingança serena. O Deus do Novo Testamento é muito diferente do Deus do Velho Testamento. Todo o caminho se aproveita. Até os atalhos são bem-vindos. Basta contar os passos para sabermos a distância que nos separa. É tudo igual. Por vezes não conseguimos distinguir um gesto de ternura de um gesto de desprezo. E persistimos inutilmente na sua lembrança. Os rios correm para o mar. Mesmo assim, os mares não ficam doces. Moisés abriu as águas com uma pancada da sua vara. Para os seus descobriu o caminho da salvação, para os outros abriu uma funda sepultura. Não somos todos iguais aos olhos do Criador, seja ele quem for.


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Quarta-feira, 8 de Junho de 2016

Em reflexão

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Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Entre árvores

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Segunda-feira, 6 de Junho de 2016

293 - Pérolas e diamantes: o pecado da salvação

 

 

Há dias assim. Hoje acordei com uma ideia fixa. Talvez porque tenha adormecido sem nenhuma dúvida, o que é raro, confesso.

 

Por causa do terrorismo árabe, lembrei-me das cruzadas, que eram encenações cuidadas e estreitamente identificadas com a renovação espiritual.

 

Esse processo estava especificamente relacionado com a pobreza voluntária e o aperfeiçoamento da vida.

 

No tempo da Terceira Cruzada, Alão de Lille, um pregador da cruz famoso na época, enfatizou o facto de a pobreza exaltada pelos missionários implicar humildade espiritual, não penúria económica. Para isso escolheu a versão do Sermão da Montanha em Mateus 5:3: “bem-aventurados os pobres de espírito” e não o mais socialmente radical de Lucas 6:20: “bem-aventurados sois vós, os pobres; pois vosso é o reino do Céu”.

 

De Mateus surgiu a moderna Opus Deis. De Lucas brotaram os Franciscanos.

 

Como todos sabemos, a reconquista da Terra Santa não foi deixada à metáfora. A ênfase reiterada na violência de Saladino exigia um tratamento de choque. As suas ondas ainda hoje se sentem. Para mal dos nossos pecados.

 

E é no pecado que vamos continuar. Pecadores somos nós todos. E quem não for que se atreva a atirar a primeira pedra.

 

É o atiras!

 

Foi em pecado que li a entrevista de José Rentes de Carvalho ao Expresso. E desde já confesso que o José é um pecador cativante e cheio de literatura dentro. A sua vida dava um filme. Para já resultou em alguns bons livros, cheios de humor e pequenos pecados veniais.

 

Podia relatar-vos uma sua aventura em Paris, que contou na LER, onde fala “numa maîtresse, muito procurada pela competência em dominar e ferir, inventiva no uso do cavalo-marinho, especialista de arriscadas técnicas do afogamento, orgulhosa de assim provocar ejaculações e orgasmos que faziam concorrência a um tal de Radko”, mas não, vou ficar-me pela entrevista mesmo.

 

A sua cruzada foi enorme.

 

Com 85 anos continua a calcorrear as estradas entre Portugal e a Holanda, cerca de 2200 km, todos os três meses. Sempre o mesmo caminho, as mesmas estradas, os mesmos hotéis.

 

Não escreve as suas memórias porque isso significa alindar, ou desculpar. Diz que não faz sentido.

 

Nasceu em Gaia. Nas traseiras da sua casa habitava uma espécie de lumpenproletariat, gente pitoresca e rude, carinhosa e também do mais cruel e feroz que se pode imaginar. Gente “que vivia na fronteira entre a humanidade e a animalidade”.

 

Foi o seu avô paterno que o ensinou a ler e a escrever, nos cadernos da alfândega. Ainda recorda a primeira frase que leu: “remessa de documentos para a sede”. São expressões destas que ditam um destino. Provavelmente inspirado por expressão tão vinculativa escreveu um conto intitulado Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia. Que deu título ao livro com o mesmo nome.

 

Fugiu de casa aos 17 anos e foi para Lisboa. Aos 19 anos, antes de ir para a tropa, insistiu na toleima. Alugou um quarto na Praça da Alegria. Não sabia que era uma casa habitada por espanholas do Parque Mayer. Foi o seu primeiro paraíso. E disso tirou proveito.

 

Fugiu à tropa e foi para Paris. Lá, com a ajuda de Novais Teixeira, aprendeu que a beleza da língua é essencial. Conheceu o realizador de cinema Buñuel e “uma mulher espalhafatosa, mas não muito inteligente, que dava pelo nome de Sophia Loren”. Andou também por Nova Iorque.

 

Acabou por se fixar na Holanda, onde foi professor universitário. Foi lá que começou a escrever. Iniciou-se com um livro que desancava os holandeses. Eles apreciaram, não porque sejam masoquistas, mas antes porque sabem que é com as críticas que se aprende. E de graça, que é outra coisa que consideram.

 

Estes amantes de tulipas pensam que se alguém diz mal deles, lá terá as suas razões, ou não. Se tiver, eles aproveitam e tentam corrigir-se. Se não tiver, esquecem e não ligam.

 

E terminou em duplo pecado, como não podia deixar de ser.

 

Na sua maneira de ver – pecadora, insisto, e quem não o for que lance a primeira pedra (é o lanças!) – as pessoas não se dão conta de que andam nuas por aí, mesmo por detrás daquela máscara que exibem, para corresponderem ao que delas se espera. Na maioria dos casos são tão previsíveis que até dói.

 

E costuma, todas as semanas, cometer o desmesurado pecado da gula, em Torre de Moncorvo, sempre sentado à mesa do mesmo restaurante, bem em frente a uma travessa de feijoada à D. Dinis.

 

Que Deus o ajude e a mim não me desampare.


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Domingo, 5 de Junho de 2016

Paris

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Sábado, 4 de Junho de 2016

Notre Dame - Paris (interior)

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Sexta-feira, 3 de Junho de 2016

Leituras - Paris

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Quinta-feira, 2 de Junho de 2016

Poema Infinito (305): a inocência e o medo

 

 

Do mar, viu o pescador tirar as redes repletas de estrelas. Dentro do peito, ardem-lhe os astros que não consegue contar. Os seus dedos são agora uma abstração. Com eles desenha anémonas e tesouros místicos. Com eles benze os peixes e as algas. Com eles constrói os muros do jardim. Com eles escova o chapéu e limpa a sua infância do pó que teima em cobri-la. Com eles rega a última árvore que sobrevive no quintal. Dizem que já lhe falta o juízo. As borboletas absorvem as flores que rega todos os dias. Ainda sabe dar conselhos. Também gosta de os pedir. Sabe ainda comprar e vender, semear e medir o chícharro e a batata, o centeio e o vinho. Sabe cantar a paz e a paciência e toda a saudade que mora dentro de si. Sorri como se fosse o filho pródigo. Talvez o último. Provavelmente o primeiro. Já serviu de anjo da guarda, orientou meninos desviados, ganhou e perdeu asas. Teve sempre muitas dificuldades em aprender as orações. Preservou sempre a inocência estendendo no ar a sua espada de seda carmesim. Agora entretém-se em ver o sol revestir a oliveira de luz, a observar as videiras a medrar, a regar os jasmins e a salsa, a escutar as vibrações da enxada na terra que o cavador utiliza com golpes duros e certeiros. E lembra-se dos campos cobertos de geada, da neve ladroa, das chuvas adiadas, dos hortos desassossegados, do cheiro das madrugadas, dos jornaleiros cortando o pão meeiro, da mó a desandar no moinho, das rolas a gemer nos pinheiros, das nuvens a correr no céu e da morte a grelar nos montes. Umas vezes sente-se Abel, outras toma parte por Caim. Atrapalha-se com o excesso das flores, com o incenso das missas, com os anjos que cheiram a maio, com os passos na rua, com os fechos das portas, com os cordeiros que comem as rosas mais leves, com a luz da lua nos charcos, com o tempo a gotejar. E espera, pungentemente. Por vezes diz que vê Deus no escuro a desenhar a verdade com a mão esquerda. Mistura o sabor das batatas e do pão com o das palavras mais suculentas e ligeiramente gordurosas. Atira os remorsos às brasas e deixa-os crestar. Deixa a alegria grelar como se fosse um vegetal e sorri para dentro. Deixa os gestos mais nobres caírem na terra molhada. Aí amadurece a sua alma. As espigas começam a balouçar no campo. Aí sentiu a presença divina do desejo a subir-lhe pela haste central. Foi-se a inocência, cresceu-lhe o medo. Surpreendeu-se quando se picou nas urtigas pela primeira vez e com as estrelas acesas na noite. A chuva cai sobre as telhas vãs do antigo telhado. O seu corpo de velho enrola-se nas mantas. Sente que lhe podaram as mãos. Os restos da esperança estão amontoados com as folhas junto ao muro, a poente. As ervas ficam luminosas. As pedras gotejam. O cavalo molhado agita a crina e relincha. Dorme-lhe a alma aos pés. A sua vida está tão inerte como a cinza do borralho da lareira. Os seus mortos falam-lhe cada vez menos. Pai e mãe são palavras quase apagadas. As chagas das mãos já não lhe doem. O tempo bate-lhe à porta, levemente. As horas morrem-lhe sem chegarem ao fim. Está tudo tão quieto que até o sangue se lhe arredonda no coração. A sua sombra pesca em vão no mar. A neve cai dentro do presépio que transporta dentro da sua cabeça. Algumas das ovelhas parem. A vaca parece perdida. O burro começa a zurrar. Os sinos tocam. Os pastores fogem de um lado para o outro. Os anjos comprados voam dali para fora. A mãe do menino chora, o pai refila. Os reis magos nunca mais chegam. A estrela cadente levou-os para outro lado. A vaca e o burro começam a mastigar o feno com impaciência. Uma alma atormentada pega fogo às palhas. O menino dorme profundamente.


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Quarta-feira, 1 de Junho de 2016

Montmartre

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