Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

Bombeiros I

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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017

326 - Pérolas e diamantes: esquerda, direita, em frente marche (I)

 

 

 

Na nota introdutória do seu livro Da Direita à Esquerda, António Araújo coloca a seguinte questão: “Além de estúpido, caçar Pokémons é de esquerda ou de direita?” Provavelmente a pergunta não tem resposta, pois a maior parte das coisas que fazemos na vida não se conseguem enquadrar dentro desta dicotomia.

 

A obra defende que “as práticas, os hábitos e os consumos socioculturais da esquerda e da direita se encontram cada vez mais próximos, obedecendo a uma lógica de espetáculo que tudo absorve e corrompe”.

 

A seu ver, a grande clivagem que persiste encontra-se naquilo que divide elites e não elites, pois a maioria das polémicas que subsistem na esfera pública situam-se, “hoje como ontem, num âmbito elitista, urbano e sofisticado. O povo mantém-se sensatamente afastado dessas quezílias”.

 

Do que conseguiu apurar, a grande diferença continua a persistir, à esquerda, no seu apego a uma noção de conflito, ao passo que a direita prefere uma abordagem mais consensual e de compromisso com a realidade. No entanto, observa-se que, atualmente, esse padrão está em vias de mudança, “sendo ainda cedo para avançar prognósticos, sobretudo num tempo tão incerto e volátil”.

 

Em Portugal, depois do 25 de Abril, existiram alguns traços distintivos que não me foram estranhos e que rememorei durante a leitura do livro.

 

Em 1986, Diogo Freitas do Amaral, trouxe para a ribalta alguns traços distintivos do seu (da direita, claro está, pois o homem já virou à esquerda há alguns anos) cariz classista. Na sua campanha presidencial popularizou a moda dos sobretudos verdes de loden, de inspiração austríaca e protagonizou uma batalha eleitoral à americana, de grande espetacularidade, que incluiu até chapéus de palhinha… feitos de plástico. 

 

Nos tempos de Cavaco Silva, a direita começou a exibir os seus Rolls-Royce pelas avenidas de Lisboa, a divertir-se no Bananas e a recuperar os solares e as casas de família, graças aos fundos europeus vocacionados para o denominado turismo rural, o agroturismo e o turismo de habitação.

 

Apareceu então o arquiteto Tomás Taveira, impondo a sua visão pós-moderna, muito peculiar, reinventando a tradição, ao reunir vários arquétipos ancestrais da portugalidade: a guitarra portuguesa no edifício-sede do Banco Nacional Ultramarino (1989) e as famigeradas Torres das Amoreiras (1985), que pretendiam evocar os elmos de guerreiros medievais, relembrando castelos de reis e princesas.

 

Nos anos 80 surgiram na cena musical os Heróis do Mar, numa onda de revivalismo que, mais tarde, havia de desembocar no projeto Madredeus, ou nos Sétima Legião, onde pontuavam nomes como Rui Pregal da Cunha, Pedro Ayres Magalhães, Carlos Maria Trindade e Rodrigo Leão.

 

O autor das letras das canções dos Madredeus era Francisco Ribeiro Menezes, que integrava as vozes do coro. Mais tarde enveredou pela carreira diplomática, chegando a exercer funções como chefe de gabinete do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

 

As voltas que o mundo dá.

 

À esquerda, aparece Rui Veloso e Carlos Tê com o álbum Ar de Rock, rompendo, talvez sem querer, por completo, com a tradição baladeira e de cantautores dos anos 60 e do imediato pós-25 de Abril.

 

À direita, emerge o Miguel Esteves Cardoso, o famoso MEC, exibindo ao mundo português adereços rétro: o simbólico papillon no colarinho da camisa, óculos redondos, uma língua irrequieta sempre pronta a lamber os beiços secos e um Volkswagen carocha preto. Afirmava-se na altura monárquico e estudioso, para não dizer fã, da Saudade, do Sebastianismo e do Integralismo Lusitano.

 

Ou seja, a década de 80 foi marcada por uma espécie de neorromantismo muito pop, ou um neoconservadorismo muito kitsh, que, sendo diferentes na génese, convergiam na redescoberta e na hipervalorização do mundo rural de classe, com os seus solares e casas de família, e na arquitetura com materiais naturais.  

 

Mais tarde, o revivalismo conservador foi apanhado por uma ideia histriónica de recuperação de gosto duvidoso, denominado entre nós como português suave, baseado em condomínios privados apelidados de villas (mas com dois ll, para evitar confusões com a pequena burguesia de província), e atividades como o hipismo, a caça, as touradas e o turismo de habitação.

 

Passados 10 anos, dois após a fundação d’O Independente aparece a revista Kapa.

 

Tenho de reconhecer que foram os grandes responsáveis pelo meu desvio de direita.

 

Eu pecador me confesso.

 


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Domingo, 29 de Janeiro de 2017

António Costa no São João - Porto

São João - Porto - Junho 2016 120 - Cópia.jpg

 

 


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Sábado, 28 de Janeiro de 2017

Porto - Estação de São Bento

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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017

Porto - Ribeira - São João

São João - Porto - Junho 2016 071 - Cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017

Poema Infinito (339): fecundação

 

 

Tento resolver a minha solidão. Ela está fria. É uma caixa vazia de certezas. Cavo fundo a terra até me encontrar. Surge a sede antes da fonte. O deserto não está longe. Entre tu e eu foi construída uma ponte de palavras. A vida continua a ser um rio que termina num abismo. Num desenho sólido. Vivo agarrado à terra como os primeiros filhos de Adão e Eva. Sou um peregrino sem destino que se benze nos cruzeiros das aldeias. Começa o movimento constante da minha angústia. Sabe-me a vida pelo seu movimento. Acaricio infatigavelmente o teu rosto redondo com a minha serena ironia. Não sei ser de outra maneira. O sol fecunda o infinito. As flores tingem-se de saudade e de ineficácia. Recolhemo-nos no regaço do tempo. Ao contrário dos outros, nós acrescentamos pétalas aos malmequeres. Amanhece o sossego, os poetas cantam a luz e a sombra dos sentimentos. Os maus profetas regressam do seu degredo iluminados pelo seu próprio medo. Ninguém lhe iluminou as profecias. A invisibilidade vai cobrindo os dias. A nudez sai de dentro do seu manto sagrado enfaixada na sua própria luz. A doçura do teu corpo sabe a sal. Anima-me essa estranha inquietação em que te moves. Apetece-me a aventura na paisagem do teu corpo e tatear os seus caminhos. O pomar já ganhou a primavera, a poesia não exige mais sabor. O manto azul do céu faz que cobre a nossa nudez. Dormimos encostados à nossa infância. Desde cedo que expulsei as fadas e as bruxas dos meus sonhos. Ainda é a minha avó quem me vela o sono. Diz que respiro docemente, mas que soluço quando se debruça sobre mim. Ela gosta de me falar dos lábios doces das amoras, do sabor da polpa das pavias amadurecidas pelo sol, da calma minuciosa das sementes dos cereais que nos trazem o futuro, do cheiro a terra lavrada, dos palheiros que guardam dentro de si o tempo, da claridade da adolescência, dos momentos que se transformam em imagens dentro de nós, dos acordes discretos da inquietação, do canto ao desafio dos rouxinóis, da beleza instintiva dos animais, da luz cruel do desencanto, das noites enfeitiçadas, dos portões que guardam a madrugada, do vagar do tempo, da nitidez funda das horas, da sinceridade transformada em gestos, do direito avesso da verdade, da nua claridade do amor, dos amores perdidos, da sedução, da embriaguez noturna da sedução, dos mitos, dos assombros, do pecado original, da solidão dos mares, da fraternidade insana da pobreza, da corrida interminável do tempo, dos jogos divinos, dos sonhos amortalhados, dos sonhos dentro dos sonhos, dos cânticos carregados de coragem, do sudário que existe nos versos mais densos dos poetas, das palavras que se recusam a ser flores, dos versos que se negam a ser cantados, da beleza rara das certezas, da precisão límpida das orações, dos poemas repletos de memórias, das memórias repletas de poemas, do silêncio hostil do passado, dos raros momentos de inspiração, da paciência infinita da terra, do trilho caótico dos meteoros, do labirinto natural da eternidade, da calma que demora em chegar, da oposição natural das margens de um rio, da parábola dos vimes e da progressiva adição do sofrimento. Depois acende a candeia do seu sorriso e de dentro do seu peito brota a ternura de quem gerou filhos abençoados pelo santo sacramento do silêncio. A sua penitência adquire a forma universal da beleza. Sei agora que foi Eva quem fecundou o infinito.


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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017

Porto

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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017

Porto - São Bento

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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

325 - Pérolas e diamantes: sobre um monólogo de Chernobyl, pensando em Almaraz

 

 

 

Num livro de Svetlana Alexievich um homem foge do mundo para passar a viver no paraíso, onde não há pessoas, apenas animais. Pássaros e outros animais. Esqueceu-se da sua própria vida. Pensa que as pessoas são injustas porque o Senhor é imensamente paciente e misericordioso.

 

E porquê?, pergunta ele a si próprio e logo respondendo: “O homem não pode ser feliz. Não deve. O Senhor viu Adão solitário e deu-lhe Eva. Para a felicidade, não para o pecado. Mas o homem não consegue ser feliz. Eu, por exemplo, não gosto do crepúsculo. Desta transição, como agora… Da luz para a noite… Penso, mas não consigo compreender onde estive antes…”

 

Para ele, o homem é requintado só no mal, mas simples e acessível nas palavras cândidas do amor.

 

Depois de fugir do mundo, nos primeiros tempos vagueou pelas estações ferroviárias. Gostava delas porque estavam cheias de gente. Mas ele estava só.

 

Como carregava o pecado, foi para Chernobyl. Passou-lhe a ser indiferente viver ou não viver, pois a vida humana é como uma flor: “Desabrocha, mirra e acaba no fogo.”

 

Passou a gostar de pensar. Em Chernobyl pode-se morrer tanto do ataque de um animal como do frio. E também se pode morrer de pensar.

 

Por lá não se vê um ser humano em dezenas de quilómetros. Expulsa o Demónio pelo jejum e pela oração. O jejum é para a carne, a oração para a alma. Confessa que nunca se sente só. “Um crente não pode ser solitário.”

 

Passa pelas aldeias. Nos primeiros tempos encontrava massa, farinha, óleo vegetal e enlatados que as pessoas deixaram no momento das evacuações.

 

Agora procura os túmulos, pois as pessoas deixam comida e bebida aos mortos. “Mas eles não precisam disso…”

 

E não se ressentem com ele…

 

Apesar da radioatividade, nos campos cresce centeio selvagem e na floresta há bagas e cogumelos.

 

Ali, em Chernobyl, está à vontade. E lê muito. Por ali é fácil encontrar livros. Não se encontram jarros de barro, garfos ou colheres, mas livros arranjam-se sem dificuldade.

 

E lembra-se de algumas ideias que leu num de que não recorda o título nem o nome do autor. Mas memorizou a ideia: “O mal em si não é uma substância, mas a privação do bem, assim como a escuridão não é outra coisa senão a ausência da luz.”

 

Ali sozinho, pensa na morte. Passou a gostar de pensar e o silêncio favorece a preparação.

 

Um dia expulsou da escola uma loba com os seus dois filhos que lá viviam.

 

“Pergunta: Será verdadeiro o mundo consubstanciado na palavra? A palavra está entre o homem e a alma. Pois é…”

 

Sente mais próximo de si os pássaros, as árvores e as formigas. Dantes não conhecia tais sentimentos.

 

“O homem é aterrorizador… E estranho…”

 

Ali não lhe apetece matar ninguém. Arranjou uma cana de pesca e costuma ir pescar. Pois é…

 

Mas não dispara contra os animais.

 

O seu herói preferido é Mychkin que disse: “Como é possível ver uma árvore e não estar feliz?” Pois é…

 

Gosta de pensar. “Mas o homem queixa-se mais do que pensa…”

 

“Para que serve perscrutar o mal? O mal também não é a física!”

 

Tem medo do homem. Mas pretende sempre encontrá-lo. “Um bom homem. Pois é…”

 

Em Chernobyl ou vivem os bandidos, que se escondem, ou alguém como ele. Um mártir.

 

“O meu nome? Não tenho passaporte. A polícia levou-mo… Espancou-me: «Porque andas a vaguear?» «Não ando a vaguear; ando-me a arrepender.» Espancaram-me ainda mais. Bateram-me na cabeça… Escreva então: servo de Deus, Nikolai… Agora, um homem livre.”


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Domingo, 22 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes V

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Sábado, 21 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes IV

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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes III

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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

Poema Infinito (338): a linguagem vagarosa dos corpos

 

 

 

Pelos objetos consigo perceber a linguagem dos artesãos. A música das suas mãos é quem modela os objetos. Quando se quebra o encanto, surgem os prodígios. Depois emergem os abismos, as máquinas inevitáveis, a multiplicação das nuvens e o demónio vestido de inocência. Percebem-se então as imagens e o idioma glorioso das chamas. Os inocentes não param de gritar. As imagens transformam-se em pessoas. As mãos gloriosas tudo percebem e tudo definem. E moldam. E destroem. Da destruição nasce o caos e do caos nasce a ordem. Compreende-se então o fogo. A força absoluta da nossa espécie. As pessoas convertem-se em imagens. Pintam-se então os cavaleiros luminosos montados em cavalos escarlates que vão para a guerra matar, roubar e violar. Deus observa. Depois do massacre distribuem-se as formas e a beleza pelos vencedores. E também os segredos. E os números e as suas razões, para que tudo seja perfeito. A alimentação é inebriante. O homem continua a oscilar entre o mal e o bem. É a sua maldição. Por isso fala de Deus e da sua uniformidade rítmica. Deus, com as suas mãos abençoadas, põe vida nas imagens e refaz as coisas e pastoreia as almas e distribui as auras pelos eleitos e pelas elites. Depois a gente fala entre si. As conversas vão e vêm. O medo é uma espécie de delírio, uma canção breve que muda as coisas de lugar e embebeda os sentimentos. O mundo está cheio de sopros. Discute-se as suas proporções, a meteorologia da música, a substância do fogo, o grito das estrelas. A noite está repleta de zonas saturadas. Abrimos as mãos. O amor está pendurado nos ramos nus da macieira. As crianças são personagens pintadas de branco. Ardem os retratos dentro das molduras. O seu fim está próximo. O escuro transfigura a noite. As montanhas transbordam de vento e chuva. As pinturas iluminadas exibem a anatomia das cores. Os olhos voltam a desarrumar tudo e a suspender as lágrimas. O verde combate o medo, o azul inebria os corpos, o vermelho abraça o perigo, o branco guarda as asas do anjo. A primavera parece mais ampliada. A fábula do mundo volta a ser reescrita. Uma linha luminosa de azul aproxima-se da nossa porta. Abre-se o bosque. Entram nele os animais. Alguém veste no céu os cometas. A pintura respira como se tivesse vida. A criação não passa de um poema esotérico. As mãos começam a fundir as raízes. As armas transformam-se em onomatopeias e as canções de glória ficam cheias de frio. As fábulas caminham com o cabelo ao vento, como se fossem fortes, jovens e belas. Ilusão, cada um toma a que quer. Escuta-se o rio e a sua soberana maneira de correr e desaguar. As suas águas guiam-se pela lua. Pousa agora a luz mais leve sobre a nudez dos nossos corpos. O desejo levanta as armas e exalta a força. O prazer brilha nos sítios próprios. A sua doçura é rude e acre. O hemisfério curva-se e enche-se de flores tatuadas. Pousa o silêncio sobre o tempo. A noite estremece. O esplêndido canto dos pássaros ilumina a humildade. A linguagem dos nossos corpos é pura, por isso atinge a delicadeza dos nenúfares. Amar é ressuscitar indefinidamente. Tem a forma incerta de um segredo exato. Sente-se cair o silêncio em forma de paixão. Sabe a sal a humidade da carne. A primavera primeiro cresceu e depois evaporou-se. A sua música ficou na tua língua. A nossa cama é feita de fetos e alimentada de loucura. Vamos… devagar, devagar, devagarinho, como quem ressuscita.


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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes II

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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes I

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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017

324 - Pérolas e diamantes: incarnar segundo as leis

 

 

 

Quando visitei pela primeira vez o museu Quai d’Orsay e observei um quadro de Vicent van Gogh senti-me como Po, o Panda do Kung Fu, quando entrou no átrio proibido onde está guardado o Rolo do Dragão, viu uma obra preciosa de pintura sacra e exclamou, com veneração, como não podia deixar de ser: “Nunca vi senão cópias desta pintura”, momento dignamente ascético e com uma referência à distinção da cópia e da cópia da cópia.

 

Reconheço que senti gozo e prazer, numa leitura freudiana, claro está. Isto fez-me lembrar a oposição entre os pelagianos (o pelagianismo foi um conceito teológico que negava o pecado original) e Agostinho de Hipona. Para os pelagianos, o gozo era em si mesmo uma coisa boa que podia ser mal usada, enquanto para Agostinho, o gozo era uma coisa má, mas que, no interior do casamento, podia ser bem usada.

 

Este mesmo dilema sentiram os militantes comunistas perante a atitude a tomar relativamente à “libertação sexual”, oscilando entre dois extremos: de um lado estavam os wilhelm-reichianos (pelagianos), que insistiam na capacidade libertadora da sexualidade livre e do outro situavam-se os marxistas-leninistas ascéticos (agostinianos), que zurziam na “sexualidade livre”, considerando-a como um fenómeno ilustrativo da decadência burguesa, tendo como propósito confundir o povo e desviar a sua energia dos objetivos revolucionários.

 

No fundo, um corpo limpo e roupas asseadas podem, apesar de tudo, esconder uma alma suja. Afinal o heroísmo e o erotismo podem fazer parte da perversão humana.

 

Em Gallipoli, Mustafa Kemal Ataturk disse às suas tropas: “Não vos dou ordem de lutar, dou-vos ordem de morrer. Enquanto morremos, outras tropas e outros comandantes poderão chegar e render-nos.”

 

Como diz Slavoj Zizek, o sacrifício do reagrupamento para a batalha decisiva “é a última tentação a que devemos resistir, a última máscara com que uma atitude não ética se disfarça como se fosse a própria ética”.

 

Marcuse bem nos avisou: “A liberdade é a condição da libertação”. Por outras palavras: “Se transformarmos a realidade tendo como objetivo realizarmos os nossos sonhos, sem transformarmos esses nossos sonhos, terminaremos, mais cedo ou mais tarde, por regressar à realidade anterior.”

 

Quando nos confrontam com as crianças que morrem de fome e nos dizem, por exemplo, que com o preço de dois cafés podemos salvar a vida de uma delas em África, a verdadeira mensagem é a de que pelo preço de duas bicas, cada um de nós pode continuar a levar a sua vida agradável e relativamente ignorante, não só livre de problemas de consciência, mas até consolado pela participação ativa na luta contra a fome.

 

No século IV, quando o cristianismo logrou impor-se como religião do Estado do Império Romano, Hilário, o bispo de Poitiers, avisou os seus congéneres: “O imperador não vos traz a liberdade pondo-vos na prisão, mas trata-vos com respeito no seu palácio e assim torna-vos seus escravos.”

 

E a radicalidade ainda torna as coisas mais complicadas. Durante a Revolução Cultural, os Guardas Vermelhos levaram tão a sério o apelo à auto-organização popular fora do enquadramento do Estado-Partido, que o Partido Comunista reagiu organizando os seus Guardas Escarlates, que pretendiam ser ainda mais vermelhos do que os Guardas Vermelhos, embora, evidentemente, ao serviço do Partido.

 

Em 2007, os órgãos de informação liberais do ocidente tiveram motivo para rir, pois a Administração dos Serviços Religiosos do Estado chinês publicou a “Ordenação Nº 5”, uma lei destinada a entrar em vigor no mês seguinte. O seu perfil abrangia “as medidas administrativas a tomar quanto à reencarnação de budas vivos no budismo tibetano”.

 

Alertava-se o povo para o facto deste “importante passo de institucionalização da administração da reencarnação”, definir os procedimentos a observar por quem pretenda reencarnar, ou seja, resumindo: proíbe-se os monges budistas de reencarnarem sem autorização do governo, pois ninguém, fora da China, pode exercer influência sobre o processo de encarnação, e apenas os mosteiros chineses podem solicitar as necessárias autorizações.

 

Afinal o comunismo ainda não desistiu de controlar tudo. E se já orienta o próprio capitalismo, só lhe falta mesmo dirigir a incarnação.

 

Deus que se cuide, pois os camaradas chineses já andam no seu encalce. 


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Domingo, 15 de Janeiro de 2017

Em Couto de Dornelas

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 167 - Cópi

 


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Sábado, 14 de Janeiro de 2017

Na exposição em Vila Real

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 148 -

 


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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2017

Na conversa em Abobeleira

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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017

Poema Infinito (337): semelhanças

 

 

Regressaste com o tempo, disfarçada de flor. Os nossos olhares encontraram-se no mesmo caminho de luz. Nem só o universo é infinito. Nem só Deus é eterno. Alguém se entretém com o barulho das estrelas. Nas nossas cabeças instalou-se o arco-íris. O nosso altar tem a profundidade do mar, o mesmo mistério e é revestido com o mesmo azul. As lágrimas de prazer são transparentes. Continuamos a acreditar no impossível, na ressuscitação da pomba da paz, na aura esvoaçante das andorinhas, na bonança das tempestades, na felicidade megalítica da chuva, no batismo dos anjos, no efeito purificador dos cataclismos, nos tsunamis do desejo, nos efeitos avassaladores da nossa união, nas aves que submergiram Houdini, nas mensagens que levantam o chão que pisamos, nos jogos poderosos da sedução, na alquimia rápida do vento que abana as árvores, na harmonia musical dos sexos e na inexplicável paixão dos seres humanos pela cumplicidade. Os nossos beijos possuem a mesma estrutura dominante das sonatas, a mesma adjetivação circunspecta, a mesma anunciação apocalíptica, a mesma febre de possessão. Entre nós e o amor existe uma ponte orvalhada de transcendência. Desafia-nos o caos. O nosso universo não possui centro, desconstrói-se com o tempo e expande-se dentro da mesma utopia que é outra forma de entropia. Por isso a alegria é contagiante. O tempo vibra dentro de nós como uma música de Miles Davis. As suas notas são feitas de fotões, possuem a mesma alucinação feérica, o mesmo espetro de som, a mesma estrutura rítmica das pétalas de um malmequer. As horas de espera voltam a ser rainhas. A sagração da fecundidade volta a ser realizada na primavera, os carros alegóricos são semelhantes, a sensualidade é escrita com os mesmos arabescos, até a alegria resulta do mesmo paganismo. Os sorrisos provocam os mesmos sulcos e produzem os mesmos diálogos. Já a eternidade perdeu um pouco do seu brilho, pois deriva da mesma incerteza divina. Os nossos corpos são como dois astros em rota de colisão. O desejo provoca outra forma de combustão. Amadurecem as searas verdejantes, a vontade de dançar é idêntica. O vento possui a mesma musicalidade de uma sinfonia. Os nossos gestos são bordados com a mesma fantasia. A primavera já restituiu à terra a acentuação simbólica das cores mais quentes. O azul do céu denuncia a anatomia dos amantes que se preparam para um frente a frente. Este ano a arte vai despontar nos ramos mais altos das árvores de fruto. Eu continuo a preferir o sabor a pavia, a sua quietude, a sua sedução multiplicativa, o seu inesperado caminho. Durante a tarde, as flores desfazem-se em luz, eu envolvo-me nos teus braços e finjo que adormeço. As tuas mãos fazem ressuscitar o tempo das mariposas e os heróis mais intrépidos dos livros de aventuras. As nossas bocas podem transformar-se num vício. O desejo contorna as suas curvas e inclina-se ao mesmo tempo que a nossas cabeças. Aprendemos tudo isso observando um quadro de Gustav Klimt. Os nossos beijos são como colibris aguardando pela liberdade, a sua sedução está envolta na mesma semântica, possui o mesmo tempo verbal, a mesma gramática amorosa. As frases escaldantes conseguem atingir a mesma profundidade dos símbolos, possuem o mesmo significado esotérico, a mesma coragem poética. Damos as mãos quando atingimos o zénite. Fazemos parte da mesma equação impetuosa. Os arco-íris que nos saem da cabeça são capazes de incendiar estrelas. 


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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2017

Observando o gado na Feira dos Santos

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Na ponte em Paris

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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

323 - Pérolas e diamantes: a fé é o que nos mata

 

 

Depois de ter estado em alguns eventos culturais atrapalhadamente como escritor convidado, o que muito me honra, sinto que existe por ali a pairar a ideia de que se espera que os autores tenham uma vocação ou monástica ou uma aptidão estapafúrdica.

 

Agora fala-se muito de autores, quase como se fossem animadores de feiras da vacuidade ou pilares sustentáveis de estratégias políticas ou, ainda mais arriscado, promotores altruístas de entidades financeiras, de muito dinheiro mas de baixo quilate.

 

Por exemplo, a mim nunca me verão a posar nu na capa de um livro, como o badalado e consagrado Walter Hugo Mãe. Eu leio e sei o que interessa em literatura.

 

Émile Zola escreveu que o crítico de verdade fala nos livros e que o idiota fala dos autores.

 

Vivemos num tempo em que a tecnologia e o desenvolvimento da ciência nos permite ver documentários intermináveis sobre a vida animal recomendados pelos canais especializados. Neles deleitamo-nos em observar um mundo utópico no qual não existe a necessidade de aprendizagem e muito menos de linguagem. Todos sabem muito bem o papel que lhes compete, ou aquele que lhes calha em sorte. Afinal, o homem é um animal desnaturado. O pecado mora ali ao lado, na pirâmide zoológica.

 

Gérard Wajcman fala-nos da razão porque inventamos a literatura. Com vossa licença, passo a citar: “O mundo animal realizou o sonho humano do sexo sem história nem história – ao passo que nós, pelo nosso lado, inventámos a literatura, precisamente para contarmos os nossos amores em que nada acontece que não sejam histórias e história…”

 

Chesterton, como é seu timbre e feitio, acerta na mouche.

 

O homem é um ser muito estranho. Além de outras debilidades provocadas pela inteligência, é o único animal abalado pela loucura a que chamamos riso, como se possuísse a fórmula, ou o segredo, de como o universo se gerou.

 

É ainda o único animal a sentir a necessidade de afastar o pensamento que possui das realidades básicas do seu próprio ser corporal e de esconder a possibilidade de sentir o mistério da vergonha.

 

Mas de uma coisa podemos estar cientes. O retrocesso civilizacional é possível.

 

Os romanos, na véspera da queda do Império Romano, estavam tão certos como nós nos sentimos hoje de que o mundo persistia continuamente sem alterações substanciais. Enganaram-se. É avisado da nossa parte não repetirmos a sua indulgência.

 

 

Temos de aprender com a história, se não ela não vale para nada. Nem sequer para nos divertirmos.

 

Acho interessantíssima a ideia de Maria Teresa Horta, utilizada em Anunciações, da hipótese de Maria se ter apaixonado pelo Anjo. Em vez de matar o mensageiro, o que era habitual, o recetor da mensagem apaixonou-se por ele e daí resulta a história mais fantástica, e impregnada de fé, da Bíblia.

 

O Livro, e o Verbo, engendraram a sua própria alucinação. E no feminino. A religião, a ser alguma coisa de transcendente, é isso mesmo: alucinação premonitória.

 

Seja verdade ou não, e basta ler Slavoj Zizek para nos certificarmos disso mesmo, os ideólogos da doutrina costumam defender que a religião é capaz de fazer com que pessoas, que de outra forma seriam más, sejam capazes de praticar o bem.

 

Mas se nos lembrarmos da experiência recente, temos de admitir como boa a tese de Steve Weinberg, segundo a qual, embora sem religião, as pessoas boas continuam a fazer coisas boas e as pessoas más coisas más.

 

No entanto, só a religião é capaz de levar pessoas boas a fazer coisas más.

 

De certa forma tanto faz que Deus exista ou não.

 

Se Deus não existe, tudo depende de nós e por isso temos de nos preocupar o tempo todo. Se Deus existe e espreita a todo o momento aquilo que fazemos, não podemos deixar de estar ansiosos e preocupados o tempo todo.

 

Sem ironia nem com Deus, nem com Walter Hugo Mãe, nem comigo próprio e muito menos com Maria Teresa Horta, considero que Lacan tem razão: os teólogos são os verdadeiros ateus.


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Domingo, 8 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas V

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 158 - Cópi

 


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Sábado, 7 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas IV

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 125 - Cópi

 


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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas III

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 116 - Cópi

 


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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

Poema Infinito (336): o limiar da realidade

 

 

A leveza do tempo salva o sabor da claridade. A última palavra do dia amanhecerá obsequiosa. O teu sorriso fresco atravessa a minha boca de forma aromática. Anda um fauno submerso pela floresta. O seu corpo é vermelho, o seu esplendor é estéril, a sua queda é interminável. Sonhar é cada vez mais difícil. O limiar da realidade é a primeira forma que surge no jardim. As laranjas estão ainda verdes, por vezes sugerem seios solares. Aves sombrias percorrem os céus e os nomes. A nudez, por turnos, é uma forma de abolição do desejo. A duração do amor é redonda, a sua lentidão é clara, a sua paixão sossegada. Seguimos a orientação da bondade. A casa exibe a sua arquitetura branca, a tranquilidade das suas coordenadas, a sua horizontalidade ondulada, a sua alma iluminada pela permanência. O vento espalha as sílabas que murcharam, as cores desbotadas do arco-íris, as porosas linhas dos planos e dos abismos. O universo tem um peso bruto oblíquo, sente-se ainda o odor das chamas. Barcos cheios de vozes navegam para longe, persegue-os uma brancura súbita. Cai uma chuva lenta sobre os bancos de basalto. Aves esvoaçam em redor de um vórtice. O mar exibe a magnificência da sua juventude. O vazio desafia o vento, os eclipses e o presságio das distâncias. As crianças desenham as ovelhas que pastam junto às árvores. As sereias aprenderam a eloquência da flor miosótis, os seus sexos escondem os seus sonhos. Os seus desejos apagam as estrelas. A imaginação esconde-se no silêncio. Sou uma espécie de testemunha ausente. As palavras mais lentas inclinam-se sobre a luz das lâmpadas, a minha figura oscila. Os deuses iluminam a fragilidade do teu olhar. Todos os meus gestos estão possuídos por uma geometria letal. Quando olhamos para trás invertemos a perspetiva. A nossa identidade é ilusória. Reconheço o apocalipse pelos fragmentos que apanho do chão. As palavras da criação desviam-se do seu eixo primordial. O lume de deus é frágil, as suas fronteiras são silenciosas, a sua certeza é ilusória. As palavras das orações hesitam quando entram no espaço de ninguém. A solidão e o medo são territórios comuns. O caminho conduz ao grande rio. As palavras coincidem com a sua substância real. É fértil a evidência dos campos, o corpo que se partilha, as vogais mais vivas, os rostos que reconhecemos, a melodia da glória, o pólen dos girassóis, a presença atual do desejo. O universo segue a ordem do seu caos, a escadaria da noite, o signo dos ventos, a verticalidade das estrelas, o anonimato das pedras, a oscilação das línguas e a identidade rugosa das montanhas. O desejo perde a sua sombra e fica pálido. O fogo arde em silêncio. Observamos as imagens do mundo, o volume sinuoso do tempo, a lenta coesão dos campos, a mudez dos olhares, as asas fosforescentes dos anjos, as folhagens que disfarçam os corpos, as horas mais frágeis, as minúsculas pegadas dos pardais, a frágil permanência das casas velhas, a extensão fértil dos afetos, a distância irrisória das pétalas das flores, os gestos virtuais, o segredo incomunicável dos caminhos, a urgência alta da paixão, a dispersão da noite, a indiferença do anonimato, a identidade flutuante dos templos, as coordenadas da solidão, a floração unânime do prazer, a glória profanada da liberdade, a imagem mecânica da fascinação, o volume impactante da nudez, o quotidiano arco do tempo, a grávida vontade de viver, o léxico das palavras definidas pelo amor. Espalha-se o pudor pelas páginas. A sede vive dentro do desejo.  


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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas II

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 106 - Cópi

 


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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas I

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 095 - Cópi

 


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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2017

322 - Pérolas e diamantes: o drama e o humor

 

 

Hoje, porque estou de mau humor, vou aproveitá-lo para vos contar duas histórias que li em dois livros de teor bem dramático, onde se relata o sofrimento e a coragem numa escrita pungente e desarmante, despida de salamaleques e jogos florais: Vozes de Chernobyl – História de um desastre nuclear, de Svetlana Alexievich e O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexandre Soljenitsin.

 

No livro de Svetlana, Arkadi Fílin, um liquidador intimado a ser voluntário à força para ir limpar as terras contaminadas de Chernobyl, relata um conto de Leoníd Andréiev, onde um habitante de Jerusalém, cuja casa ficava no caminho pelo qual Jesus Cristo foi levado e, por isso, ouviu e viu tudo o que lhe aconteceu. Mas naquele dia doía-lhe muito um dente.

 

Mesmo assim viu Jesus cair sob o peso da cruz que carregava, viu-o levantar-se, andar e cair de novo, ouviu-o gemer e andar de joelhos. Observou aquilo tudo, mas o dente continuava a doer-lhe. Nesse dia não correu pela rua fora atrás do Nazareno.

 

Três dias depois, quando já lhe tinha passado a dor de dentes, contaram-lhe sobre a ressurreição de Cristo. Nesse momento pensou: “Pois, eu até podia ter sido uma testemunha desse facto, mas doía-me o dente”.

 

Não sei bem qual a razão, mas talvez porque a razão tem por vezes coisas que nem a própria razão compreende, esta pequena estória lembrou-me a estapafúrdica frase do inenarrável economista, católico ferrenho e fundamentalista, João César das Neves, com que aspira virar o feitiço contra o próprio feiticeiro, afirmando que “os revolucionários pretendem usar o Papa como arma de arremesso…”

 

Estamos em crer que nem o mesmíssimo Diabo, se é que existe, e a existir talvez tenha encarnado momentaneamente neste reacionário inconsequente, era capaz de tal dislate alucinatório.

 

JCN é, muito provavelmente, descendente espiritual do tal senhor que, por causa da dor de dentes, não teve a honra e o privilégio de assistir à ressurreição de Jesus Cristo.

 

A estória de Soljenitsin é de origem muçulmana, mas é boa na mesma, por muito que isso possa custar ao JCN. Possui mesmo um ligeiro travo amargurado de humor.

 

Alá, na sua infinita sabedoria, deu a todos os animais cinquenta anos de vida, pois considerava que era tempo suficiente. Mas o homem, talvez um dos primogénitos do tal senhor que era atacado por dor de dentes no momento dos milagres, chegou atrasado e foi o último da fila a receber a benesse. Alá apenas possuía um bilhete com 25 anos.

 

“Apenas 25 anos”, lamentou-se o homem. “Exatamente”, respondeu-lhe Alá. O homem começou a lamuriar-se como se lhe doessem os dentes todos: “Mas não chega, é pouco tempo de vida”. “Chega”, insistiu Alá na sua imensa sabedoria. “Não, não chega”, insistiu o homem. Então Alá aconselhou-o: “Vai perguntar por aí, pois talvez alguns dos outros animais tenham tempo de sobra e te cedam algum.”

 

O homem, como bom banqueiro ou avisado economista, assim fez. Encontrou um burro e disse-lhe: “Escuta, a minha vida é muito curta, peço-te, por isso, que me dês alguns anos da tua.” E o burro assim fez, deu-lhe metade dos anos da sua vida. Burro uma vez, burro para sempre.

 

Um pouco mais à frente encontrou um cão e repetiu-lhe o pedido. O cão, porque já pensava vir a ser o melhor amigo do homem, respondeu-lhe que sim senhor e o presenteava com 25 anos da sua vida.

 

Já vinha de volta ter com Alá para lhe relatar o sucedido quando se deparou com um macaco. “Para macaco, macaco e meio”, pensou e pediu-lhe também mais 25 anos. O macaco, como não era avarento e gostava de repartir as dádivas de Deus, respondeu-lhe: “Está bem, fica lá com 25 anitos. E seja tudo pela graça de Alá que é grande e misericordioso.”

 

Entusiasmado, chegou junto do Criador e deu-lhe conta do sucedido. Então Alá respondeu-lhe: “Já que assim o quiseste, viverás os primeiros 25 anos como um homem, trabalharás os segundos 25 como um burro, ganirás os terceiros 25 anos como um cão e nos últimos 25 farás rir as pessoas como um macaco.”


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