Sexta-feira, 31 de Março de 2017

Senhora das Brotas - Chaves (VIII)

Brotas e Barroso - abril 2016 075 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 30 de Março de 2017

Poema Infinito (348): A dupla porta dos sonhos

 

 

 

Cantam os deuses, os homens e as suas mães. As deusas da boa ventura cintilam como estrelas no céu. O meu sono profundo é um mar de tranquilidade. As mães entram nos sonhos e dissipam os seus cuidados, repousam as suas canseiras e fadigas e conduzem os animais alados até à estrela mais brilhante da noite. E dançam. E expulsam os fantasmas. Nasce dentro delas a claridade do céu, os olhares mais vivos, as auroras mais favoráveis. O seu bom augúrio combina as estações e os caminhos que têm a forma de círculos infinitos. A beleza é piedosa e os inimigos são ímpios. O senhor do mundo toca flauta, move as chamas circulares, traz a luz e as cores mais variadas. Os pais vestem-se de tempo e fecundam o universo. Estabelecem a ordem, respeitam os juramentos, honram os heróis mais ilustres, prescrevem a lei e incendeiam as divindades subterrâneas. Os pais honram os seus pais e homenageiam os amigos mais virtuosos. Bebem, comem e excitam-se como animais incomodados. Acostumam os filhos a uma vida limpa e simples. E examinam três vezes as ações do dia. Escolhem os seus males livremente, desprezam o bem que lhes está próximo. A sorte perturba-os. Elegem a discórdia como sua companheira natural e ocultam-na dentro de si como se fosse um bem. Falam de purificação e abstêm-se dos alimentos que a perturbam. Aprendem a libertar as almas dos corpos. O vento lavra-lhes as terras. Dentro das arcas guardam as lágrimas mais salgadas, as angústias mais densas, as trevas mais azuis, as ondas, o murmúrio do tempo, os mantos púrpura onde as suas mulheres repousam o rosto quando parem, as frases mais terríveis, as palavras mais atentas, a imensa exigência das mudanças, as invocações mais justas e o verbo perdoar debruado com fragmentos do apocalipse. A sua sorte é gloriosa, o seu destino honroso, o seu olhar agitado. A memória ferve em lamentações. O tempo ganhou bolor e transformou-se em epitáfio. A glória perdeu o seu valor. Os pais deixaram de ser justiceiros depois de matarem o tirano e esconderam as espadas debaixo dos ramos de mirtos. Os seus belos rapazes aprenderam a tocar liras de marfim e aprenderam a levar as moças aos bailes. Coroaram-se de flores e cantaram a alegria da sensatez. O vento sul levou as nuvens para longe. Alguém lhes disse que os deuses também nasceram e se vestem como eles, que possuem corpo e voz e desejos. E eles acreditaram. Os sábios atravessaram as cidades montados em cavalos prudentes. As filhas do sol indicaram-lhe o trilho da redenção. Abriram-lhes os caminhos da noite e do dia, ergueram uma estátua em honra da justiça implacável e abriram-lhes as portas dos palácios. As donzelas transformaram-se em vocábulos doces. Então a verdade ficou redonda e as opiniões dos homens deixaram de merecer verdadeiro crédito. Enquanto dormiam, nuvens sombrias esconderam as estrelas. Pelas ruelas deslizaram os seus inimigos, alguns deles feridos pela má sorte. A mortalidade cresceu num instante. Uma luz divina cegou-os com o seu clarão. O orgulho trouxe-lhes de novo a mortalidade, concedendo-lhes a glória efémera do envelhecimento. Os deuses enviaram-lhes desgraças insuportáveis escondidas na sua própria sombra. Aprenderam então a distinguir tudo aquilo que é agradável do que é penoso. As suas almas deixaram de aspirar à vida eterna e começaram a esgotar todas as possibilidades. Também os sonhos possuem duas portas.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 29 de Março de 2017

Senhora das Brotas - Chaves (VII)

Brotas e Barroso - abril 2016 070 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 28 de Março de 2017

Senhora das Brotas - Chaves (VI)

Brotas e Barroso - abril 2016 069 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 27 de Março de 2017

335 - Pérolas e diamantes: Só os burros…

 

 

Confesso que as entrevistas já me começam a aborrecer um bocadinho. Algumas são tão enfadonhas que dão sono logo na primeira resposta. Outras prolongam o enfado e o sofrimento até à segunda pergunta. Existem porém outras que se podem ler até ao fim. Mesmo que, por vezes, nos provoquem um abrir de boca lá pelo meio, que nós disfarçamos para podermos continuar a lê-la sem problemas de consciência ou de pudor.

 

Foi o caso da entrevista de António Barreto ao Sol. A mim avivou-me a memória, o que desde já lhe agradeço. De facto, a nossa entrada no século XXI tem sido um bocado dura. Sobre o futuro, o tempo o dirá. Mas o século passado foi um horror. E dos grandes. Foi o pior século de todos, mesmo parecendo o contrário.

 

Do ponto de vista das realizações positivas podemos lembrar a paz e a riqueza, a penicilina, a aspirina, a esferográfica, a televisão, os computadores e os telemóveis. Mas o século XX ficará na História como o século onde se desenrolaram as piores guerras da Humanidade, onde houve o maior número de mortos e torturas da Humanidade. Execuções sumárias, campos de concentração, prisões em massa, intolerâncias inimagináveis, comunismo, fascismo e nazismo.

 

Pelo menos numa coisa Mário Soares teve razão: o comunismo é o grande embuste da História.

 

Mas deixemos falar António Barreto: de tudo aquilo que o comunismo prometeu, nada realizou. “Nem o internacionalismo, nem a paz, nem a igualdade, nem o progresso científico e tecnológico, nem a democracia. Tudo isso, o comunismo destruiu. E o comunismo tem no século XX tantas responsabilidades ou mais que o nazismo… o comunismo foi uma das grandes chagas do século XX.”

 

Para não nos ficarmos só pelos pareceres vagos das palavras, passemos aos números. Na União Soviética, o comunismo foi responsável por cerca de 45 milhões de mortos. Na China o número ficou-se pelos 35 milhões. Já para não falar do vergonhoso tratado feito entre a União Soviética e a Alemanha nazi que deu de barato dois anos para Hitler invadir a Europa e incendiar o mundo.

 

Como não podia deixar de ser, os entrevistadores conduziram o entrevistado para os caminhos de confronto com o seu antigo partido. O PS acha que António Barreto é agora um bocado de direita. Ele responde que os socialistas “terão feito mais arranjinhos com a direita” do que ele. “Com a direita política, com a direita económica, com a direita financeira, com a direita cultural…”

 

E dá exemplos: tudo o que aconteceu na economia e na banca. “Houve uma grande promiscuidade entre os interesses económicos e políticos de alguma direita e de alguma esquerda do PS.”

 

Daí nasceu a “peste negra que é o BES e a família Espírito Santo”. Que coincidiu com uma “espécie de praga, a praga Sócrates. Faz lembrar uma praga bíblica”.

 

Ele há cada coincidência. É como a crença na existência das bruxas.

 

“Tudo o que correu mal em Portugal acaba sempre por pôr em realce a ligação entre o BES e o PS de Sócrates.”

 

António Barreto interroga-se, como nós nos interrogamos, de como é possível que exista um buraco de seis mil milhões na CGD, de quatro ou cinco mil milhões no BES, de três ou quatro mil milhões no BPN e ninguém saiba de nada. “Não há culpados nisto tudo? Não há ladrões?”

 

De facto, “a democracia portuguesa está penhorada e cativa por causa da economia e do sistema financeiro”.

 

Se dos processos do BES e de Sócrates, e da CGD já agora, nada resultar de substantivo, haverá “uma espécie de afundamento definitivo da Justiça portuguesa, talvez da democracia portuguesa”. 

 

Sinto que por vezes há necessidade de sermos conservadores porque há coisas do passado que é importante guardar: certos afetos familiares, alguns valores identitários, carinho pela História e por algumas tradições. Rejeitando, no entanto, as velharias bafientas e a autoridade sem sentido, nem objetivo. Mas também existe a necessidade de ser progressista, porque o futuro é uma coisa que devemos construir em comum e em liberdade.

 

Além, disso, e como dizia Mário Soares: Só os burros é que não mudam de opinião.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 26 de Março de 2017

Senhora das Brotas - Chaves (V)

Brotas e Barroso - abril 2016 061 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 25 de Março de 2017

Senhora das Brotas - Chaves (IV)

Brotas e Barroso - abril 2016 049 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 24 de Março de 2017

Senhora das Brotas - Chaves (III)

Brotas e Barroso - abril 2016 047 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 23 de Março de 2017

Poema Infinito (347): A geometria da noite

 

 

Procuro a simetria secreta que existe na raiz da terra, os novos labirintos, a alquimia dos seres incómodos, a velocidade das galerias que abrem os sonhos, que eretam os mamilos e que tornam dóceis as vaginas. O inverno come a carne dos animais mais tenros e bate à porta do tempo. O tempo é agora um ano bissexto com idade para tudo. Dança o teu cabelo, dançam as nuvens, dança a preguiça. Os espelhos esperam pelos rostos e pelas memórias das belas cortesãs. A paciência junta os seus cordeiros. Os lobos passeiam pelas montanhas o seu deus devorador. A memória da infância possui os seus dias trágicos: o vento agreste tombando os pinheiros, as nuvens insufladas de loucura, Deus apontando o dedo mindinho na nossa direção. Todo o quadro rural encerra um mistério litográfico que pretende traduzir a voz do Criador quando a ergueu e abençoou a natureza. Depois pensou nos animais. E pensou nos livros e com as suas palavras criou Adão e Eva e toda a restante família. Seguidamente apareceram os pastores que guardavam o rebanho de Deus. As matilhas humanas corriam no inverno para apanharem o tempo. O gelo era como um punhal. Os corpos aprenderam a mentir o seu desejo. Deus transformou então a timidez em crueldade. As crianças aprenderam a rir como se fossem desertos. As mães aprenderam a chorar. Começaram a trocar os números e as noites, a esconder os anéis, a multiplicar os dedos. Os homens aprenderam a gostar do sabor amargo da aguardente. Ambos assimilaram a necessidade de se persignarem antes de baterem às portas. Aprenderam a praguejar, o ofício dos recados, o lindíssimo timbre do latim, o orgasmo lento e a ejaculação precoce. Dentro das casas assumiram os seus desígnios, as palavras ínvias e os desejos forçados. Aprenderam a solidão, a outra face da vida, a necessidade das colheitas, do frio, da pobreza, do sofrimento e o santíssimo sacramento da eucaristia. Pagaram a Deus com orações e ao padre com algum dinheiro, couve lombarda, feijão branco, batata nova e fumeiro. Agora os burros voltaram a ser selvagens, os tratores dispensaram-nos. Os campos parecem viúvas abandonadas. Ninguém repara nos domingos frescos nem nos céus carregados de nuvens. Vivem consumidos pela televisão. A vida lírica é uma coisa de velhos cujas memórias se encontram agarradas à enxada que repousa no estábulo. Os netos adquiriram uma voz que os avôs não entendem. As casas berram entre os eucaliptos. Deus decidiu refugiar-se dentro dos poemas históricos, debaixo dos versos mais explicativos, na vã tentativa de ensinar filosofia às crianças. Os bêbados sonâmbulos ainda procuram a chuva, os balcões das tabernas são o seu altar de sacrifício. Os lugares são agora mais brutos. As geadas, os ventos e o nevoeiro apenas aparecem nas fotografias. A noite fecha-se de maneira incoerente e arrasta consigo a metamorfose inútil do dia. Os espíritos não se poupam a silogismos. Os santos assustam-se com as enxertias de silicone em corpos convexos, com o sexo amargurado dos machos, com as fêmeas trágicas, com as capelas esquecidas entre pinhais e vinhas, com a polifonia das guerras e do lucro que elas geram às nações mais prósperas. Nas hortas plantam-se os ruidosos promotores da alegria pré-fabricada. Satélites sinistros rasgam o céu. A volúpia persegue os humanos. A natureza já não está no mesmo lugar.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 22 de Março de 2017

Senhora das Brotas - Chaves (II)

Brotas e Barroso - abril 2016 044 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 21 de Março de 2017

Senhora das Brotas - Chaves (I)

Brotas e Barroso - abril 2016 042 - Cópia.JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 20 de Março de 2017

333 - Pérolas e diamantes: O carinho enternecedor da burguesia

 

 

 

A propósito do seu último livro “Os Pobres”, a socióloga Maria Filomena Mónica deu uma interessante entrevista ao jornal de Negócios onde defende que em Portugal existe uma espécie de “apartheid” social, pois a composição da sociedade portuguesa é de tal forma desigual, e essa desigualdade é já tão antiga, que surge aos nossos olhos como uma coisa normal e banal.

 

Esta sua preocupação com a pobreza teve início logo na sua adolescência, quando, na companhia de freiras, foi levada a um bairro de lata em Lisboa para poder ver os pobres no seu meio e dessa forma iniciar o seu treino para exercer a caridade. Disseram-lhe que exercendo a caridade rapidamente iria para o céu. MFN não considerou que a sua viagem para o céu justificasse aquilo que viu.

 

Na sua perspetiva, “a caridosa burguesia tradicional cultivou a pobreza dos outros com um carinho enternecedor. Nunca lhe passou pela cabeça que talvez fosse possível acabar com ela ou, pelo menos, tratar muito seriamente disso”.

 

No seu livro pode ler-se este belo naco de prosa: “Cultivavam-se os pobrezinhos, regavam-se com bocadinhos de pão com conduto, com pequenas moedas e cultivava-se sobretudo a sua pobreza. Havia a comida dos pobres, as visitas dos pobres e a sexta-feira que era dia dos pobres.”

 

Esta crítica ao antigamente, também se estende até aos dias de hoje. Reconhece que as redes de solidariedade social, muitas delas com presença de pessoas católicas, até realizam um bom trabalho. Mas a ideia que lhe está por trás é que os ricos estão por cima dos pobres.

 

De facto, estas redes apoiam mas não estimulam as pessoas a sair da pobreza. Habituam-nas a pensar que a pobreza é uma coisa normal. Sim, existem pobres e qual é o problema? O problema é que não devia haver. Ou pelo menos não deviam existir tantos. Propaga-se então a ideia de que não são iguais a nós, de que não têm as mesmas necessidades, de que se satisfazem com menos. Esse é o carimbo da desigualdade. E a desigualdade ali fica como uma espécie de barreira intransponível.

 

De um lado os ricos, que necessitam das melhores coisas. Do outro lado, eles, que são pobres, só necessitam do básico e servido em pequenas doses para não oparem.

 

Desde cedo que MFN abandonou a religião. Ou melhor, foi expulsa da Igreja por um padre. Foi um drama para a sua mãe, que era dirigente da Ação Católica Portuguesa.

 

Revoltava-a a visão da pobreza por parte da Igreja, onde os pobres estavam sempre a mendigar a ajuda dos ricos, e onde estes, sob o olhar majestático de Deus, se viam obrigados a exercer a caridade.

 

Para ela, isto era um sinal de que a Igreja não tinha compaixão por aqueles que mais sofriam e dava boa consciência aos ricos, que tricotavam três casacos de bebé para dar no Natal e iam para casa. “Eu não conseguia fazer isso.”

 

Não se resignava à glorificação do sofrimento. Os pobres eram resignados e aceitavam a doutrina de Cristo, pensando que “estavam ali para serem pobres e não havia nada a fazer. Pessoalmente, eu não quero ser resignada, não queria e não quero sê-lo no futuro”.

 

Na sua infância, a socióloga conviveu com pessoas das boas e católicas famílias portuguesas. Até das mais antigas. Considera no entanto que, apesar da sua bondade, não lhes passava pela cabeça que a desigualdade social é um crime. Já os seus colegas universitários, que eram todos do MES (Movimento de Esquerda Socialista), achavam que os pobres iriam desaparecer de um dia para o outro. Ela também achava, mas depois verificou que não era assim.

 

Eles aí permanecem com todo o seu esplendor. Apesar disso, pensa que com todas as críticas que se possam fazer à sociedade portuguesa, “não há comparação entre aquilo que se vive hoje e o que se vivia há 50 anos. Portugal melhorou bastante e as pessoas, às vezes, esquecem-se. A tendência é para glorificar o passado. O passado, para algumas pessoas, tornou-se um mito. Dantes é que era bom. Dantes, mas quando?! Só se for no século XII”.

 

Apesar de pertencer à secção dos portugueses ricos, Maria Filomena Mónica não se deixa apanhar na teia do ceticismo. É que os ricos são todos iguais, mas há os que são mais iguais do que outros.

 

Oiçamos a sua opinião sobre a União Europeia: “Não posso dar-me ao luxo de ser uma eurocética. Porque não pertenço a um país rico. Se pertencesse à Escandinávia, seria eurocética.”


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 19 de Março de 2017

Observando

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 153 - Cópi

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 18 de Março de 2017

Dançando

São João - Porto - Junho 2016 358 copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 17 de Março de 2017

Falando

São João - Porto - Junho 2016 092 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 16 de Março de 2017

Poema Infinito (346): O murmúrio do tempo

 

 

 

Sinto a minha boca como uma planta e nela reencontro um novo sentido para as palavras. A vida lateja entre a humidade de todos os teus lábios. Percorro o deserto do tempo. Os frutos caem ao chão de maduros. A escrita afugenta o medo. O vento parou no interstício dos nossos dedos. O olhar simplifica a distância dos corpos. Uma luz fria brilha dentro dos abismos, ali mesmo onde termina a noite e nasce a alba. As flores sentem a serenidade das suas pétalas, a tentação do pólen, o rumor alquímico da seiva, a diluição da água nas raízes da sua planta. Nos seus estames cintilam os astros e os poemas. Envelheço mais eu do que os textos. Sinto a ferrugem a penetrar-me os ossos. Nada permanece intacto depois da nossa passagem. Os fogos irrompem pela epiderme das montanhas cansadas. O coração dos rios torna-se frio como a noite. As mãos folheiam as insónias. Nós escutamos os murmúrios do tempo. Crescem os líquenes nos carvalhos. São uma outra forma dos presságios se manifestarem. Pareces-me uma açucena abraçada pela sua própria melancolia envolta nos sonhos premonitórios das incertezas. Os meus olhos foram tomados pela insónia letárgica dos livros, pelo deslocamento da inutilidade, pelo imenso vazio da palavra pátria. Também as moscas morrem de encontro ao calor das lâmpadas. As portas por vezes choram ao serem abertas de rompante. O teu rosto avança na minha direção. Acordo. Respiro fundo. Ouço a chuva. Partilho as horas que restam da nossa eternidade, contigo. Sempre contigo. Caminho como se voasse. O tempo acende em mim o velho ritual da expansão e da retração. Somos já velhos amigos. Um vento desequilibrado zumbe no seu interior, soa como o bater das asas de um colibri. Assento os pés e o chão resvala. Descubro no teu olhar a luz da minha paixão. No entanto, as violetas estampadas no teu vestido murcharam sem te aperceberes. O dia cresce pelos caules porosos das plantas. A um sexo corresponde sempre um rosto, por muito distante que seja. A casa lá está, agora sempre de porta fechada. Os cães já não dormem ao sol. As mãos ocupam-se em nada produzir. Mexem e remexem sem objetivo. Cansam-se a acariciam-se sem destino. No entanto, a grande árvore do terreiro continua a espalhar a sua sombra nos dias de estio. As ervas aromáticas já secaram há muito. O silêncio cobre a algazarra de outrora. O silêncio cobre o silêncio de outrora. O vento atravessa o vento. Já nada cresce no seu tempo devido. Vivemos dentro de uma estufa global. O mundo dos outros apenas começava bem para lá da cancela do pátio, junto ao rio que quase desaparecia no verão. O lume aceso entardecia como nós. A avó fazia o café na sua chocolateira de barro negro. Escutava-se o rumor dos animais acomodando-se na palha seca. A estrela da alba já não brilha com a mesma intensidade. A água do poço ainda alimenta os amores-perfeitos e mata a sede aos pássaros e rega a minha memória já calejada pelo tempo e pela saudade eterna dos que partiram. As memórias enrolam-se dentro de mim como gatos junto da lareira. Ninguém caminha na direção da casa. Nenhum medo me perturba. As palavras ficam palpáveis. O meu mundo está para cá da cancela. Descanso em cima da lembrança subtil das plantas. Sonho com o segredo ténue dos caminhos, com o odor místico das giestas, com o perfume de verão entrando pela janela do quarto. Sonho com a minha avó (ou será a minha mãe?) abrindo a porta da cozinha enquanto entoa uma canção de embalar.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 15 de Março de 2017

Olhando

_JMF8917 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 14 de Março de 2017

Pensando

_JMF8738 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 13 de Março de 2017

332 - Pérolas e diamantes: A essência do engano

 

 

A História e a vida ensinaram-me a acreditar que é perigoso acreditar muito no que quer que seja.

 

Uma outra coisa aprendi por mim próprio: a verdadeira decadência implica não levar nada demasiado a sério. Sobretudo a arte decadente. Mas também as ideologias. E ainda a religião.

 

Philip Kerr, no seu livro “O Projeto Janus”, põe o padre Bandolini a atribuir a culpa de toda a Reforma à cerveja forte.

 

Para ele, o vinho é uma bebida perfeitamente católica, porque torna as pessoas ensonadas e cúmplices. Já a cerveja torna-as agressivas. Por isso, os países que consomem muita cerveja forte são sobretudo protestantes. E os países onde se bebe muito vinho são católicos romanos.

 

Já os russos emborcam vodka que é uma bebida que ajuda a atingir o perdão, pois não tem nada a ver com Deus. Por isso é que agora os comunistas andam a bater com o punho direito no lugar onde lhes fica o coração.

 

Em verdade vos digo: a essência do engano, pelo menos na opinião de Bernie Gunther, um ex-agente dos serviços secretos, e personagem principal do livro de Kerr, não é a mentira que se diz, mas as verdades que se contam para a apoiar.

 

Desconfio sempre das ditas qualidades pessoais dos designados como políticos mediáticos. Desconfio da sua oratória demasiado assertiva e folclórica, do seu enorme ativismo, dos seus dotes invulgares de atores, porque, dessa forma, pretendem encobrir a sua falta de convicções políticas sérias.

 

O seu objetivo principal é apenas aparecerem na fotografia, satisfazendo assim a sua “mediopatia”, a sua necessidade de serem queridos e admirados, o seu desejo de protagonismo.

 

Por isso é que é frequente ouvi-los dizer uma coisa num dia e no seguinte afirmar exatamente o contrário e, sobretudo, dizer a uns e a outros o que cada um deles quer escutar.

 

Raramente participam nas discussões de ideias. Esperam que as partes em conflito, por convicção ou por esgotamento, decidam a seu favor e cheguem a um acordo. Nessa altura, armados da sua oratória e autoridade de líderes, limitam-se a reafirmar a posição vencedora e a ratificar o acordo.

 

Não têm posição séria sobre nada, ou quase nada, a não ser seguir o seu inefável desejo de continuar no cargo que ocupam ou em conseguir outro melhor.

 

São pessoas de ação porque a sua vida depende disso. Vão a toda a parte, assistem a todas as reuniões, festas e homenagens, batizados, bodas e funerais.

 

Em vez de resolverem os problemas, adiam-nos ou transformam-nos em problemas diferentes. Adiam tudo para a última hora.

 

Nietzche apercebeu-se que os seres humanos não conseguem suportar demasiada realidade. Defendia que a verdade é nociva para a vida. Por isso abominava a nossa diminuta moral pequeno-burguesa.

 

O pior é deixarmo-nos acreditar que temos razão por já a termos tido.

 

Não há nada que mais nos agrade do que ver um tipo a dar cabo de outro.

 

Uma coisa aprendi ao longo destes anos: os mentirosos nunca mentem, apenas alteram a verdade. Até porque a ser mentira, a sua mentira, é apenas boa, é somente uma mentira nobre, uma mentira oficiosa, uma mentira salvadora.

 

Afinal, a quem interessa a verdade?

 

Górgias, que viveu quatro séculos antes de Cristo, disse que a poesia (naquele tempo a ficção ou o romance) é um engano em que quem engana é mais honesto do que quem não engana, e que quem se deixa enganar mais sábio do que quem não se deixa enganar.

 

Após estes anos todos, continuo a fazer a mesma prece que Reinhold Niebuhr: Senhor, concede-nos a graça para aceitarmos com serenidade as coisas que não podem ser mudadas, coragem para mudar as que devem ser mudadas e sabedoria para distinguir umas das outras.

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 12 de Março de 2017

Na aldeia V

_JMF7014 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 11 de Março de 2017

Na aldeia IV

_JMF7011 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 10 de Março de 2017

Na aldeia III

_JMF7010 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 9 de Março de 2017

Poema Infinito (345): Automatismos

 

 

 

Grita o silêncio. Eu insisto no prazer do sono. O prazer devora a revolta. No entanto, a curva dos teus lábios continua a manter a inocência. Conservas o mesmo mistério frente aos espelhos. Do exterior chega-nos o eco dos objetos observados. A arte de pensar continua a ser um risco. Seguimos pelo caminho das emoções. Muitos pensamentos disfarçam-se de palavras: a confiança, o constrangimento, a necessidade, as emoções. A necessidade das emoções. Oiço as palavras e depois o seu silêncio, o seu cuidado intuitivo, o alcance do seu risco. A certas horas da tarde, a casa ilumina-se com a luz do poente. A cidade parece estremecer. Alguém trabalha a dignidade na sua própria oficina. A memória da mãe continua a trabalhar na sala de costura. A noite ouve os seus conselhos e segue o seu exemplo. A aflição dos caminhos continua igual. Quem neles se perde é por não os conseguir decifrar. Ensinaram-nos a elaborar uma lista de sentimentos, a ter carinho por quem não gostamos, a ter saudade de quem não gosta de nós, a apreciar os milagres que não se sentem, a avisar a luz antes de dormir, a desocupar os brinquedos e a cada um cumprir com a sua missão. Agora o mundo é automático. Cultiva-se a necessidade de tornar tudo lógico, de utilizar um critério para apanhar um susto. Para alcançar a alegria necessitamos de mapas e de bússola. O azul do céu é apenas distância. O cansaço é feio, as decisões prematuras, as visitas infantis, os exageros grosseiros, os defeitos solitários e os preconceitos esforçados. Os destinos são imediatos. Tentamos transformar a compreensão em opiniões. Tudo agora é saudade: os livros de cobóis, os cartões-postais, os santinhos, as datas natalícias, os cabelos compridos, os bustos salientes das raparigas, as suas blusas, as suas coxas, o catecismo, a paisagem onde morávamos, os rapazes que odiávamos, as cadernetas dos jogadores, a esperança, a alegria, o dia seguinte, os olhares, as brincadeiras na rua, a música da rádio, a televisão a preto e branco, os sorrisos escondidos atrás das mãos abertas, os beijos roubados, os batimentos apressados do coração, as adivinhas, os velhos tempos, os olhos espantados dos colegas, as aparições mudas dos fantasmas, as palavras elucidativas dos mestres, as confusões silenciosas, a enorme surpresa do sexo, a exaustão do vento, o comprimir da primeira carta de amor contra o peito, o uso das horas, o adormecer com o livro aberto no colo. Agora aprende-se a vender a alma, a verdade e as conversas de fim de semana. O ânimo encontra-se sempre na casa dos outros. Os sorrisos são ensaiados para ecoarem nas salas enormes. O pudor é um ajustamento. Tudo nos parece universal. Tudo nos parece humilhante. As verdades são óbvias, os rivais estimulantes, as palavras aprimoradas, os princípios oblíquos, os homens simpáticos, as mulheres competentes, os pais engraçados e o tráfego péssimo. Por vezes sentimos que vivemos na eternidade. A alegria é modesta. Os beijos das mães continuam perfeitos. Apenas os mistérios se tornaram compreensíveis. O hábito amortece-nos as quedas. Compreendemos os momentos caóticos. Foi daí que surgimos: de um instante que se continua a expandir sem se saber nem por quê e muito menos para onde. Vivemos em estado de prontidão, como um exército que caminha para o abismo a cantar caras ao sol. Tu perguntas: O tempo continua por quanto tempo mais? Eu não te sei responder. Ninguém sabe. Abençoados sejam os néscios.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 8 de Março de 2017

Na aldeia II

_JMF7008 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 7 de Março de 2017

Na aldeia I

_JMF7001 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito (1)
|
Segunda-feira, 6 de Março de 2017

331 - Pérolas e diamantes: Conluio de malvados

 

 

Começo a ficar um pouco farto daquelas pessoas que se vangloriam de fazerem as coisas bem. Sempre com um dedo apontado ao céu e outro ao seu próprio umbigo. Concordo com a sua trupe de bajuladores. De facto eles fazem muito bem todas as coisas sem importância.

 

Vivemos numa fase atípica da nossa democracia. Provavelmente perigosa. Temos liberdade, mais de quarenta anos dela. Continuamos a dizer aquilo que queremos. Mas eles, os que mandam, fazem invariavelmente o que planeiam. 

 

No fundo devemos tentar encontrar o nosso ponto de gravidade. Devemos insistir na procura da coragem, da força e da determinação. Não nos devemos limitar a fazer lixo. As nossas vidas são tão insignificantes. Até os nossos inimigos são insignificantes. Nem sequer vale a pena desperdiçar as nossas forças com eles. 

 

Eu procuro ir de encontro às palavras para inventar a realidade. Se formos bons, as histórias narram-se sozinhas. A nós cabe-nos repeti-las e transmiti-las. Temos de tentar fazer ver o mundo para além das nossas convicções.

 

Tento afastar a fadiga e reaprender a humildade de quem sabe saber pouco.

 

Aprendi com Cervantes que o sorriso e a ironia nascem do desencanto e da consciência de tudo aquilo que é trágico. É através da desilusão que se chega à fraternidade e ao amor. Tal como Dostoiévski, acredito que o Dom Quixote basta para justificar a Humanidade.

 

Deus nos livre de todos aqueles que – e cito Aristóteles – se apressam a executar uma ordem antes de ouvi-la por inteiro, pois assim só podem errar.

 

Por vezes chego a pensar – e a sentir, valha-me Deus – que não existe cidade à qual voltaríamos de tão bom grado as costas, quando nela habitamos, como Chaves. Mas também não existe nenhuma outra à qual se deseja tanto voltar, mal a deixamos.

 

É uma maldição esta contínua oscilação entre a ideia fixa de partir e a mania de voltar, entre a impossibilidade de suportá-la e, ao mesmo tempo, de passar sem ela.

 

Por vezes sinto-me como o judeu descrito por Kafka: “Eu escrevo diversamente do que falo, falo diversamente de como penso, penso diversamente de como devo pensar, e assim por diante até à mais profunda obscuridade.”

 

O grande escritor romeno Norman Manea resumiu de forma magistral o mundo em que vivemos: “No grande mercado livre e carnavalesco do mundo de hoje nada mais parece audível se não for escandaloso, mas nada é suficientemente escandaloso para se tornar memorável.”

 

Acho que foi Kapuscinski quem escreveu que uma árvore encantadora também pode proporcionar um duro bastão para zurzir.

 

Afinal, apenas a cultura permite separarmo-nos das nossas raízes e assumir um comportamento cosmopolita.

 

E não vale a pena pensar que os nefelibatas, os bajuladores e os carreiristas escrevem sem conhecimento de causa, dizendo muitas vezes que não aconteceu nada. Quando isso acontece lembro-me sempre da anedota daquela freira jovem e bonita que quando lhe perguntaram qual a razão de ter sido a única que escapou à violação de um grupo de delinquentes que tinham assaltado o seu convento, respondeu: Não sei… eu só disse «Não».

 

Eu sou um homem com defeitos, não com “defeitozinhos”. Platão ensinou-nos que “lá onde um homem se expõe livremente, nasce espontâneo o conluio dos malvados”.

 

Todos sabemos que um génio pode escrever coisas insignificantes, que não merecem ser lidas, mas se nos informarem que esta página ou aquela obra é de um génio somos forçados a atribuir-lhe significados que na realidade não se encontram lá. E isso não se aplica apenas aos génios, mas a todo aquele que goze de uma certa notoriedade.

 

Mesmo na educação, apenas é eficaz a evidência dos valores, não a sua predicação.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 5 de Março de 2017

O fauno

_JMF7958 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 4 de Março de 2017

No monte (II)

_JMF8000 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 3 de Março de 2017

No monte

_JMF7999 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 2 de Março de 2017

Poema Infinito (344): Espiral de vento

 

 

 

Aprendi a imaginar o futuro através do passado. Agora recordo a chuva, as crinas dos cavalos ao vento, de chapinhar nas poças de água com os sapatos novos da primeira comunhão, dos desenhos escondidos e de palavras ditas por crianças que me partiam o coração em pequenos pedaços de gelo. Espantavam-me as noites estreladas, o riso sério da Lua, o cheiro das cascas das tangerinas, as bonecas de porcelana nas montras, os olhares fixos dos cavalos, as tardes enevoadas em que o meu avô talhava com a sua navalha animais e alfaias em madeira. O tempo fugia da cozinha misturado com o fumo pelo interstício das caleiras.  A ternura invade-me os olhos. Tento esquecer as sombras. Os rapazes sonhavam com os seios das mulheres e rolavam pelo chão como corços, entre as giestas do vale. O rio nascia em sete fontes distintas. A porta do quarto dava diretamente para os astros e o lume dos olhos vagueava pelos outeiros. Logo de manhãzinha, as rodas dos carros deixavam sulcos fundos na humidade dos caminhos e tropeçavam nas pedras. Chiavam muito quando os carregavam com molhos de centeio ou com sacos de grão ou de batatas. Aves dispersas sobrevoavam os céus. O sol nascia junto ao musgo dos carvalhos. Os olhos reparavam no frio voo das corujas, nos carros de bois carregando carquejas, tojos e fetos, nas molhelhas, nos jugos, nos estadulhos e nos chavelhos. Agora arrastam saudades, angústias e segredos. O tempo afoga-se na espera, recorda as palavras redondas e brancas como os seixos do rio. As mãos que talhavam a terra e os escanos, agora parecem lagartos quietos ao sol. As avós já não segam o feno. A sua beleza deixou de fecundar as histórias. Os filhos foram-se embora pelo caminho da cidade. No rio já não brilha a luz terna dos sonhos, os meninos já não se embrulham em cobertores enfeitados de estrelas, os olhares já não possuem a profundidade dos oceanos, as lágrimas já não correm lentamente à procura de felicidade, o sol já não nasce dentro dos poemas e os minutos são cada vez menos infinitos e os frutos já não rimam com os lábios. O ritmo transferiu-se para os retratos onde as mulheres espelham os decotes e os sorrisos. A infância é uma espécie de espasmo que se agarra às saias das mães. O rosto dos homens parece cinzelado pelo escopro árduo das mãos de um ferreiro. Dentro da velha arca ainda soa o canto dos grilos, a voz estridente dos pássaros, os segredos escondidos debaixo das almofadas, a voz dos piratas que navegavam em cascas de nozes. Nas paredes, junto ao crucifixo, permanecem invariáveis os silêncios atordoados. As ausências são imensas e as recordações assemelham-se a sombras. O lume ainda está aceso, as mãos ainda estão guardadas no colo. O regresso a casa ainda possui o mesmo som. No entanto, os versos são agora mais transparentes. No seu seio nascem as tempestades. O vento ainda assobia quando passa pelas searas a caminho dos outeiros. Ainda me lembro das adivinhas, dos contos, dos romances e das festas. Ainda mantenho no meu sangue a seiva dos tojos, das giestas, dos pinheiros, dos carvalhos, das pavias e das maçãs. Ainda retenho nos olhos os vaga-lumes, as andorinhas e os lírios e os poemas de amor escritos na lousa preta. E a nostalgia das cerejeiras e as neblinas e os palheiros e a minha mãe e o meu pai e a minha avó Fonseca e a madrinha Augusta e o tio Manuel e o José das Bandas de Lá e as casas cheias de fumo. E, sobretudo, a espiral de vento que agora teima em me levar todos os sonhos.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9


23
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Poema Infinito (360): A f...

. Bombeiros

. Bombeiros

. 346 - Pérolas e diamantes...

. Feira dos Povos - Chaves

. Feira dos Povos - Chaves

. Feira dos Povos - Chaves

. Poema Infinito (359): Chu...

. Feira dos Povos - Chaves

. Feira dos Povos - Chaves

. 346 - Pérolas e diamantes...

. Dois amigos

. Sorriso

. Sorrisos

. Poema Infinito (358): O d...

. Vendendo pão

. O sapateiro de Chaves

. 345 - Pérolas e diamantes...

. Interiores bovinos

. Festa dos Povos - Chaves

. Bois na feira

. Poema Infinito (357): Ond...

. O coelho

. No trabalho

. 344 - Pérolas e diamantes...

. São Sebastião - Vilarinho...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Couto de Dornelas (III)

. Poema Infinito (356): O a...

. São Sebastião - Couto Dor...

. S. Sebastião - Couto de D...

. 343 - Pérolas e diamantes...

. A gaivota (III)

. A gaivota (II)

. A gaivota

. Poema Infinito (355): O n...

. Maresias (II)

. Maresias

. 342 - Pérolas e diamantes...

. HAZUL - Porto

. The Augustus no Porto

. A ponte é uma miragem...

. Poema Infinito (354): Um ...

. Interações

. Diversões...

. 341 - Pérolas e diamantes...

. Assando sardinhas - S. Jo...

. Ribeira - Porto - S. João...

. Porto - Ribeira - São Joã...

. Poema Infinito (353): O e...

.arquivos

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar