Segunda-feira, 17 de Abril de 2017

338 - Pérolas e diamantes: É preciso ter fé

 

 

A beleza consegue ter um alcance infinito. Mas o mesmo podemos afirmar acerca da desgraça.

 

Dizem-nos descuidados. Sim, talvez o sejamos. Mas muitas vezes um cuidado excessivo pode transformar-se numa outra forma de descuido.

 

É bem verdade que a política caiu em desgraça. Não é uma coisa que se recomende a gente séria e honesta. Mas todos sabemos que se não vivermos a política é a política que nos vive a nós, ou vive por nós, ou além de nós.

 

Quem comanda o Estado é mestre em arranjar soluções ainda antes de ter arranjado um problema.

 

Intriga-me, e arrelia-me, o argumento do nosso país ter caído na ratoeira da dívida pública e da austeridade. A esses pergunto: Será que Portugal algum dia saiu de lá?

 

As pessoas que dizem que não temos escolha são é demasiado cobardes para escolher. Deixam correr a linha para endrominar o peixe.

 

Uma pessoa vai para a metrópole e começa logo a pensar em grande, a falar eloquentemente e a augurar enormes mudanças. Depois, quando volta à província, começa a magicar se a sua bazófia não terá inchado tanto como o ego.

 

A província é boa para criar filósofos. Dizem eles que somos servidores da nossa terrinha, que tanto amam, e nós com eles, nos feriados ou dias santos.  

 

Mas o ser humano é aquilo que é. Muita gente, mesmo no meio das grandes desgraças, prefere escolher o mal que já conhece em vez do bem que aprendeu a idealizar.

 

Apenas os tolos e os malucos continuam a sonhar.

 

Por vezes as guerras param porque os adversários se esqueceram das razões que os levaram a tal desatino. Outras vezes apenas ficam cansados de lutar.

 

Lembro-me do aforismo do marechal de cavalaria Budionny, o comandante preferido de Estaline: “Tanto me dá quem enfrento. Eu gosto é de golpear com a espada.”

 

Continuamos a ter uma visão infantil do mundo. Vivemos ainda segundo o abecedário. E o nosso professor é o presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Não conseguimos amadurecer. Infantilizamo-nos. Pior, deixámo-nos infantilizar.

 

Estes últimos anos de crise económica, financeira e social, foram um duro golpe na nossa vida e na nossa imaginação. No nosso porvir. Começámos a sentir medo do futuro. Ensinaram-nos a viver com a carteira alheia e a pagar os juros da dívida com língua de palmo. 

 

Andávamos com a cabeça cheia de utopias. Dizem os sábios que se a fé na razão abandona o homem, na sua alma instala-se o medo, como num selvagem. O diabo, afirmam os versados, gosta de se ver refletido nos espelhos da irracionalidade.

 

O negócio mais rentável é o medo. Vendem o medo da bancarrota, da austeridade, do empobrecimento, da desgraça. Pouco mais temos para negociar no mercado mundial. Vendemos o nosso sofrimento para honrarmos os acordos monetários.  

 

Este mundo pós-modernista vende-nos o futuro na província em largos cartazes onde se podem ver uma vaca enfeitada com papel crepe guardada por uma velhota embrulhada em papel celofane.

 

E eu não sei se me hei de rir ou chorar.

 

Afinal onde está o fogo da política, a energia da polémica, a excitação da querela, a proclamação do amor pela humanidade e a luta de classes? Tudo se desvaneceu, eclipsado pelas nuvens do conformismo e da subserviência.

 

Acredito que a fé na verdade, na beleza e na benignidade da natureza humana é a forma mais elevada do bem. Por isso, agora compreendo o motivo por que o muçulmano Avicena, ao terminar um dos seus dias dedicados ao pensamento, se tratava invariavelmente com vinho e mulheres.


publicado por João Madureira às 07:15
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