Segunda-feira, 29 de Maio de 2017

344 - Pérolas e diamantes: Convém usar… mas não abusar

 

 

Todos aqueles que atualmente trabalham arduamente sentem que estão a ser usados, que os seus impostos estão a ser gastos ou para resgatar bancos e banqueiros ou então para subsidiar pessoas que se recusam a trabalhar.

 

Os Governos mais não fazem do que ajudar substancialmente os que provocaram a crise, em vez de se preocuparem em ajudar os que mais sofrem.

 

Mas também convém dizer que sem os Estados, os bancos teriam cometido abusos ainda maiores.

 

Em tempos de crise, a solução verdadeira para combater a desigualdade reside em dirigir o foco sobre a comunidade em vez de se apostar na defesa do interesse pessoal.

 

A ideologia fundamentalista dos mercados apenas serve os interesses dos poderosos, sobretudo à custa do resto da sociedade.

 

Muitos dos que não conseguem trabalho, sobretudo entre os mais jovens, emigram; as famílias separam-se e o nosso país vê-se esventrado dos seus cidadãos mais talentosos.

 

Todos nos apercebemos que é falso o sentido de considerarmos como garantidos os êxitos do passado na criação de uma sociedade e uma economia mais iguais e mais justas. Temos de nos preocupar novamente com a crescente desigualdade e com as suas consequências sociais, políticas e ideológicas.

 

Cortar nos investimentos no bem-comum ou enfraquecer os sistemas de proteção social põe em risco os valores básicos da nossa sociedade. A questão, embora não parecendo, é mais política do que económica.

 

Mas também é necessário reconhecer que o crescimento da desigualdade tem algo a ver com a globalização e a substituição de trabalhos semiqualificados por novas tecnologias e pelo trabalho terceirizado.

 

O problema não é que a globalização seja boa ou má. O que é má é a maneira como os governos a gerem, somente em benefício de interesses especiais.

 

Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, tem razão: “A interconetividade entre os povos, os países e as economias de todo o mundo é um desenvolvimento que pode ser usado com a mesma eficácia, tanto para promover a prosperidade como para espalhar a ganância e a miséria.”

 

Os mercados apenas se têm concentrado na “riqueza” dos ricos, passando os custos ambientais à sociedade e abusando dos trabalhadores.

 

Joseph Stiglitz defende que é imprescindível reduzir a desigualdade, pois só dessa forma conseguiremos salvar a nossa economia, a nossa democracia e a nossa sociedade.

 

Um pouco por todo o mundo, os governos mostram não serem capazes de resolver os problemas económicos fulcrais, incluindo o desemprego, deixando cair os valores universais de justiça, sacrificados pela ganância de alguns, apesar da retórica em contrário.

 

Uma coisa sabemos: a desigualdade crescente não é algo de inevitável. Joseph Stiglitz, defende que são os interesses financeiros quem, no processo de criação de riqueza, sufocam o verdadeiro e dinâmico capitalismo. É a ideologia neoliberal quem tornou a sociedade intoleravelmente injusta. 

 

Os jovens manifestantes que agora se juntam aos pais, aos avós e aos professores, não são nem revolucionários, nem anarquistas. Não querem derrubar o sistema. Acreditam ainda na democracia e no processo eleitoral, acreditam que é possível pôr a funcionar os governos, lembrando-lhes apenas que têm de prestar contas ao povo. Estão indignados com a taxa de desemprego entre os 30% e os 40%.

 

Três temas ressoam em força por esse mundo fora: os mercados não funcionam como devem, porque bem vistas as coisas, não são nem eficientes, nem estáveis; e o sistema político e o sistema económico são fundamentalmente injustos. 

 

E os três estão intimamente relacionados entre si. A desigualdade é causa e consequência do falhanço do sistema político e contribui para a instabilidade do nosso sistema económico, que, por sua vez, contribui para uma maior desigualdade, originando uma espiral recessiva onde mergulhámos e da qual só poderemos emergir através de políticas devidamente concertadas.


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Domingo, 28 de Maio de 2017

São Sebastião - Vilarinho Seco

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 279 - Cópi

 


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Sábado, 27 de Maio de 2017

São Sebastião - Couto Dornelas (IV)

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 177 - Cópi

 


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Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

Couto de Dornelas (III)

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Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Poema Infinito (356): O amor inflexível das mães

 

 

Compreendo as palavras, mas não as consigo traduzir ou dizer. Eu sou a tua língua. Menciono o amor e a morte. Compreendo também a altura dos montes, a explicação das aves, o movimento das ondas, as janelas fechadas e a comunhão simples das crianças. Compreendo o lenhador, o machado que traz consigo e o cântaro que leva a água na cabeça da mulher. Sinto-me bem a ouvir a tua voz. Sinto-me bem observando as palavras a navegarem e os pescadores a deitarem as suas redes. O caçador deita-se à espera da sua presa e adormece. Compreendo as almas que tomam conta dos corpos. Caem nas ruas as folhas das árvores como se fossem cartas de Deus. Os anciãos pressionam as portas com as mãos e reclinam-se ao andar. Os melões e as melancias crescem nos campos. Toco com os lábios a polpa dulcificada das pavias. Oiço o murmúrio das estrelas e apercebo-me da perpétua mudança do Sol. Tudo parece excesso. O outono tomou conta da floresta. A Lua desce para o seu abismo e sussurra para o crepúsculo. Sinto o lamento incompreensível dos ramos secos. Oscilam os símbolos sobre a terra. O passado e o presente perdem força enquanto o futuro nos escuta. Falamos sobre o momento de irmos embora. Tentamos atrasar o dia. As imagens do tempo tornam-se intraduzíveis. Os caminhos estão cobertos de sombras. O mundo está de novo em ascensão. Os filhos são um renovado prelúdio. Sente-se a essência da vida, a ressurreição dos instintos, os círculos rotativos de tudo aquilo que é novo. O silêncio é a principal razão dos prodígios. Brincamos com a razão. Decidimos glorificar os rios, as vozes que ressoam, os cânticos da procriação, a ânsia irresistível da atração. O teu corpo é complementar do meu. Cheira a maçãs e a limões. As aves acasalam. A humidade penetra nos bosques. Aproximo-me da tua forma feminina e a carne treme de amor. É uma espécie de dor divina. A paixão é uma espécie de frio que nos causa febre. Voltaremos a este lugar pela hora das estrelas resplandecentes. Os mais profundos sentimentos escondem-se dentro dos corpos mais frágeis. As mulheres levam a merenda aos seus homens. Os homens comem das cestas descobertas e bebem o vinho pelas cabaças. As mulheres acariciam os seus filhos. Os rapazes sacham o milho e as batatas. O pastor acaricia as vacas e leva-as a beber no tanque do chafariz da aldeia. Alguns dos homens descansam à sombra em cima das samarras estendidas no chão. Sonham em ir à pesca e à caça. Depois olham fixamente para as suas mulheres e adormecem por instantes. O tempo senta-se ao seu lado. Pensam em como manipular a mentira pois aprenderam que a verdade é ingovernável. A natureza reflete-se na sua alma. Os equilíbrios são instáveis. Tudo na vida é instável. Os homens inclinam a cabeça, descruzam os braços e beijam as suas mulheres. A sua rudeza é feita de timidez. Os prodígios cabem todos dentro da sua imaginação. A sua glória confunde-se com o seu suor. Murmuram os seus gritos. As mulheres esperam por eles com o sexo cheio de intenção e desassombro enquanto cantam lindas canções seminais. Orgulham-se do mistério da maternidade. Deliciam-se com a esperança dos campos fertilizados. Afastam de si a insensibilidade da vergonha. São sempre inflexíveis no amor e fiéis nos partos. Procuram as colheitas do seu amor na ternura que dedicam aos filhos. Em si, a natureza é espontânea.


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Quarta-feira, 24 de Maio de 2017

São Sebastião - Couto Dornelas (II)

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Terça-feira, 23 de Maio de 2017

S. Sebastião - Couto de Dornelas

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Segunda-feira, 22 de Maio de 2017

343 - Pérolas e diamantes: Tudo é relativo

 

 

 

Esta situação aflitiva e inverosímil ligada aos casos mediáticos de corrupção passiva para a prática de atos contrários aos deveres do cargo, fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais, falsificação, recebimento indevido de vantagem e tráfico de influências imputada a políticos, banqueiros e fauna similar, faz-me lembrar o velho provérbio brasileiro de “quem rouba pouco é ladrão e quem rouba muito é barão”.

 

Mas hoje não quero ir por aí. Prefiro viajar até ao Brasil e lembrar que D. Pedro foi acolhido no Rio de Janeiro, por volta do ano 1821, no tempo da “Independência ou morte” de forma esfuziante. O então Perpétuo defensor do Brasil apercebeu-se de que eram justos os clamores do povo fiel que “preferia um inimigo declarado a um amigo traidor”.

 

Prefiro cair no meio da revolução republicana e, através da leitura de Machado de Assis (Esaú e Jacó), assistir de palanque à condição humana no meio do rebuliço.

 

Aí se narra o hilariante caso do senhor Custódio, proprietário de uma pastelaria, que mal tinha acabado de encomendar uma nova tabuleta para a sua tradicional “Confeitaria do Império”, é informado que no Brasil tinha triunfado a República.

 

Mandou recado ao mestre pintor para interromper o trabalho, que na altura em que o tinha visto pela última vez, exibia a palavra “Confeitaria” e a letra “d”. Pensava que a letra “o” e a palavra “Império” estivessem ainda apenas delineadas a giz. No entanto, para desespero do senhor Custódio, o trabalho já estava terminado.

 

Por que necessitava de uma nova placa, Custódio procurou a ajuda do Conselheiro Aires. Sugeriu que o nome passasse para “Confeitaria da República”. Mas ficaram com medo de que em poucos meses pudesse existir nova revolta e mais uma vez o nome do local tivesse de ser alterado.

 

O sábio Conselheiro sugeriu então o nome “Confeitaria do Governo”, que calhava bem com qualquer regime. No entanto concluíram que qualquer governo tem oposição e que se ela fosse das boas poderia despedaçar a tabuleta.

 

Aires arriscou sugerir que Custódio deixasse o título original: “Confeitaria do Império”, acrescentando apenas “fundada em 1860”, a fim de acabar com as dúvidas.

 

Mas “parecia que o confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo”, o que naquela época de modernidade não soava lá muito bem.

 

Decidiu-se então pelo próprio nome do dono: “Confeitaria Custódio”. Terminava assim a complexa conversação. «Gastava alguma cousa com a troca de uma palavra por outra, “Custódio” em vez de “Império”, mas as revoluções trazem sempre despesas.»

 

Problema bicudo surgiu com a escolha de um novo Hino Nacional. O vencedor do concurso foi o Hino da Proclamação da República. Apesar das modernices, o velho marechal Deodoro disse “preferir o velho”, embora existissem suspeitas de que o autor fosse D. Pedro I. Mesmo a Bandeira Nacional, a despeito das interpretações surgidas posteriormente de que o verde era uma referência às matas do país e o amarelo uma alusão às riquezas minerais, seguia ostentando os seus vínculos com a tradição imperial: o verde, cor heráldica da Casa Real Portuguesa de Bragança; e o amarelo, cor da Casa Imperial Austríaca de Habsburgo.

 

Mas as mudanças eram claras: o indígena, símbolo dileto do Império, foi substituído pela figuração republicana de uma mulher heroica. Deste modo, nada ficava como dantes.

 

Coisa de somenos foi o debate em torno do direito de voto. O que era bom tinha de se manter. Como nos bons velhos tempos do “Império”. Só seriam considerados eleitores os brasileiros adultos, do sexo masculino (apesar da heroica figura republicana), que soubessem ler e escrever. Além do voto das mulheres, estava proibido o voto dos mendigos, dos soldados, praças e sargentos, e dos integrantes de ordens religiosas que impunham renúncia à liberdade individual.

 

Nesse republicano e democrático sistema eleitoral três tipos de procedimentos ficaram famosos. A eleição de “bico de pena”, que significava o não reconhecimento do eleito pela Comissão de Verificação da Câmara dos Deputados – procedimento que eliminava os adversários, anulando a sua eleição. O “voto de cabresto”, que era um ato de lealdade do votante ao chefe local. E por fim, o “curral eleitoral”, que aludia ao barracão onde os votantes eram mantidos sob vigilância e ganhavam uma boa refeição, só saindo dali na hora de depositar o voto – que recebiam num envelope fechado – diretamente na urna.

 

Depois veio a ditadura. O general Geisel foi das mais proeminentes figuras da repressão.

 

Em 1977, posto perante as perguntas dos jornalistas sobre os instrumentos de controlo que criou, caraterísticos de um sistema político autoritário, afirmou: “Todas as coisas no mundo, exceto Deus, são relativas”. E rematou: “O Brasil vive um regime democrático dentro de sua relatividade.”


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Domingo, 21 de Maio de 2017

A gaivota (III)

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Sábado, 20 de Maio de 2017

A gaivota (II)

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Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

A gaivota

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Quinta-feira, 18 de Maio de 2017

Poema Infinito (355): O naufrágio das mãos

 

 

Canta o vento nos pinheiros, incendeiam-se os telhados, arredonda-se o universo. E eu à espera. À espera de ti. Sonho-te fora do mundo e observo as tuas mãos em concha. Provocas-me sede. Provocas-me. Ninguém pode adivinhar. Do mundo já baniram os magos e os profetas verdadeiros. Caem agora os dias como as sementes nas terras sulcadas. As sombras prolongam-se por dentro das memórias. Muita coisa ainda está por vir. Alguém inventou a noite para separar os dias, mas também para nos unir. Depois afastou o céu do mar, dividiu o tempo e limpou as lágrimas à primeira mulher. Sabemos agora que Eva foi criada antes de Adão e que era hermafrodita. Adão não foi capaz de decidir o que fazer com a sua metade do pecado. O chão cresceu e ele escapou-se do Paraíso. Os animais ficaram coloridos. A terra amou a estação das chuvas. As florestas encheram-se de vertentes e cordilheiras. Foi aí que Adão abriu as primeiras clareiras. Depois aprendeu a rasgar bocadinhos de céu, a cruzar oceanos, a contornar lagos com flocos de neve e algum granizo. Com as mãos aprendeu a acender fogueiras e a aproveitar o calor. Experimentou a alegria e a fragilidade do mundo. Desviou outra vez os olhos de Eva. Agora regressa ao pó, mesmo nos dias mais belos e serenos. O mundo continua à espera. Eu escrevo poemas que são como copos de vinho. Olho as fotografias e sinto o perfume com que ilustras o decote da blusa. Por vezes suspiro nomes que nem conheço. A felicidade vem poucas vezes mas continua a ter as mãos grandes. Continua a existir nos telhados uma ideia fixa de chuva e desalento. No vale paira agora uma névoa. O amor, por vezes, torna-nos sonâmbulos. Leva e traz notícias, urde sortilégios, esboça paisagens e sorrisos, desdobra mapas e memórias. Um vento agreste sopra nas asas das borboletas. O campo parece liso como uma fraga. Os lagartos recolhem-se nos buracos dos muros. As aves voam perplexas, desenhando linhas muito finas no horizonte. A minha mão escorrega então pela rotundidade dos teus seios e pousa decidida um pouco mais abaixo. Não te mexes. Recomeça mais uma pequena história do mundo. Os momentos e os gestos prolongam a vida. A minha mão afeiçoa-se ao teu sexo. As cicatrizes do nosso amor são visíveis nas dobras do lençol. O tempo parou por um instante. O vento continua a esculpir o seu rosto. As crianças continuam excessivamente belas. Por vezes surpreendem a intimidade dos pais. Os olhos das mães sussurram de prazer. A volúpia transmite-se ao dia. Os frutos rebentam nas árvores. Vem então a noite e os sentimentos ficam desarrumados. Os gestos preenchem os quartos. O mundo fica mais impreciso. As palavras ficam mais geométricas, quase inúteis. As nossas mãos tentam proteger a tremura das chamas. O amor é como um formigueiro lento. O seu segredo está na combustão que o alimenta. Só os beijos são urgentes. Os seus vestígios estão espalhados pela nossa pele. Os corpos transformam-se em crateras. A nudez é uma outra forma de loucura. As suas metáforas são densas. Deixemos então as mãos naufragar e os lábios também. O aroma das laranjeiras lava a tarde, cheira a feno e a linho molhado. O sol morde a limpidez do rio. O prazer cresce devagar. Olhamos os frutos sentindo o contentamento da sua polpa. A pele transpira. A volúpia cresce dentro de nós. A planície fica mais lenta. O vento parece dormir. Os deuses voltaram a escrever poemas nas linhas das nossas mãos.


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Quarta-feira, 17 de Maio de 2017

Maresias (II)

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Terça-feira, 16 de Maio de 2017

Maresias

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Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

342 - Pérolas e diamantes: O admirável mundo liberal… e outras tretas

 

É num sistema económico admiravelmente liberal que uns quantos acumulam fortunas consideráveis enquanto outros, muitos outros, apodrecem no desemprego e na miséria.

 

Esse liberalismo económico, acompanhado por um sistema sexual perfeitamente liberal, é a extensão do campo da luta a todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade.

 

Perplexos? Pois não devem ficar já que é essa a “Extensão do domínio da luta” de Michel Houellebecq, no seu primeiro romance, agora editado em Portugal.

 

Essa é a odisseia de um informático de meia-idade que observa os movimentos humanos e as banalidades que se desenrolam nos cafés bares ou em desinteressantes reuniões de trabalho. É aí que ele elabora uma teoria completa sobre o liberalismo, seja ele económico ou sexual.

 

No fundo, é um romance de falhados e abandonados responsáveis por elevarem a rotina a modo de vida.

 

Logo no início, o seu herói luta contra a ideia de ser paspalho por ter de admitir que perdeu o carro. Ele sabe que, a partir desse momento, passará a ser considerado anormal, ou fantoche. O que redundaria em nítida imprudência. O seu software não está preparado para isso.

 

Entretém-se então a escrever diálogos entre animais, onde se aprende muita coisa, nomeadamente sobre vacas bretãs.

 

A vaca bretã, por exemplo, ao longo do ano não pensa senão em pastar. O seu focinho brilhante sobe e desce com uma regularidade impressionante… “e nem um tremer de angústia lhe vem perturbar a expressão patética dos seus olhos castanhos-claros”.

 

No entanto, em determinados períodos não especificados, uma espantosa revolução ocorre no seu ser. “Os seus mugidos intensificam-se, prolongam-se, a sua própria textura harmónica modifica-se até relembrar, por vezes, de maneira espantosa, algumas queixas que escapam aos filhos do homem. Os seus movimentos são mais rápidos, mais nervosos, por vezes assume um trote curto.”

 

E o que pretendem as vacas bretãs? Pois, “encher-se”. E os criadores enchem-nas, “mais ou menos diretamente; a seringa da inseminação artificial pode, de facto, se bem que às custas de algumas complicações emocionais, substituir, nesta função, o pénis de um touro”.

 

Depois o animal acalma-se, regressa ao seu estado anterior de “meditação atenta, pois, após este feito, alguns meses mais tarde, dará à luz um esplendoroso pequeno vitelo. O que é, diga-se de passagem, benéfico apenas para o criador”.

 

Houellebecq tem razão: “A escrita não alivia nada. Traz à memória, delimita. Introduz uma suspeita de coerência, a ideia do realismo.” É como quando nadamos, que a cada movimento que exercemos nos deixa mais perto do afogamento.

 

De facto, mais vale observar sapateiras a trepar umas por cima das outras dentro de um aquário de uma marisqueira, prontas a ser consumidas.

 

E o mundo lá se vai uniformizando. “Os meios de telecomunicação progridem; o interior dos apartamentos enriquece-se com os novos equipamentos. As relações humanas tornam-se progressivamente impossíveis (…) O terceiro milénio promete.”

 

Esta mediocridade é penosa. Boa vida e repleta de qualidade e interesse é a dos quadros superiores. Uns gostam de ténis, outros apreciam a equitação e muitos são praticantes de golfe. No entanto, enquanto uns “são doidos por filetes de arenque; outros detestam-nos”. Apreciam ter “os pés enraizados” em “espessas alcatifas cinzento pérola”. E os escolhidos anunciam-nos, através de um graffiti: “Deus quis desigualdades, não injustiças”.

 

De facto, o terceiro milénio promete.


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Domingo, 14 de Maio de 2017

HAZUL - Porto

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Sábado, 13 de Maio de 2017

The Augustus no Porto

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Sexta-feira, 12 de Maio de 2017

A ponte é uma miragem...

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Quinta-feira, 11 de Maio de 2017

Poema Infinito (354): Um novo começo

 

 

Navego dentro do navio humano em que continuo a aventurar-me. Todos temos medo das vagas e das águas bravas. Mas é delas que nasce a coragem e os segredos, por entre o nevoeiro, as lanternas e os porões. O escuro perde-se na vida eterna. E as estrelas lá estão no seu devido lugar. Ardem os pretextos antes de chegarmos a bom porto. As velas estão molhadas. Dormimos no meio da fria brisa que cobre as ilusões. Vénus vem lá ao longe, rodeada de lágrimas e espuma, dentro do seu navio de sal. Vemos as cordas e as velas. Em seu redor cresce o vento e as vagas ficam nuas. Finalmente abre-se o céu e aparecem as gaivotas. Na praia dançam as raparigas que trazem agarrado à pele um aroma silvestre. Os seus olhos são circulares e os seus cabelos longos. Os marinheiros olham para as suas roupas íntimas que secam ao sol. Os seus corpos imitam os dos pássaros que se deixam levar pelas asas. São zelosas da sua mocidade, acham-na incorruptível. Os nossos olhos e as nossas bocas são como ilhas. Os velhos marinheiros desfalecem sentados em bancos de madeira, fazendo lembrar os pastores que decaem nos retábulos do presépio. Cheira bem o pão que tufa no forno. O padre pensa nos pontos fracos da sua velha teologia e vê-se tentado pela razão de um materialismo passageiro. Esquecemos a cidade, as pedras redondas das calçadas, o sol oblíquo, os peixes mortos, as damas enjoadas, as paragens abandonadas e os poetas absortos. O nosso desconsolo é não partir e perder a linha do horizonte. O vinho azeda nos porões. Sonhamos com búzios e as marés da nossa infância. Sim, arde-nos a infância. Ardem as suas janelas, a lua cheia, as nossas angústias, a consistência bravia do passado. Morre a saudade. Morre o esquecimento. Temos de medir o salto antes de nos atirarmos ao mar. As sereias encantam os nevoeiros. Sentimos as vagas mesmo dentro de nós. Os faróis varrem a costa, à cautela. Os ventos ficam mais verdadeiros. Todos nós somos mar e ondas de ânsia. Somos como aves que estudam as leis dos seus próprios voos. Picamo-nos na Rosa dos Ventos como se fosse um fuso. E ficamos com a impressão dura do desfalecimento. Abre-se então o mar. Tornam-se visíveis as estrias de lava. O fogo vermelho acende-nos o coração. Cresce a madrugada no peito da baía. A orla fica abstrata e imensa. O frio é a sua evidência mais ponderada. O horizonte é longo e vagaroso. O deus lá do alto debruça-se na sua varanda de palavras. As mães enchem de luz os olhos dos seus filhos. Enchem o coração de tempo, tornam as tardes mais generosas, abalroam as cores, agitam os sons, fixam o seu amor nos pulsos dos filhos e indicam-lhes o mar. Desenham o perfil de tudo. Aquecem as ideias, encantam as histórias. Começam tudo de novo. Guardam dentro de si as manhãs como se fossem nenúfares. Orvalham a noite. Dormem com as mãos suavemente pousadas no ventre. Desejam que as flores cresçam, que as aves nidifiquem, que o frio e o escuro se vão embora. E derramam a sua alegria sobre as coisas de que gostam. Lá na ponta fria da praia estendemos a saudade. Um séquito de anjos desprende-se das suas asas e tenta um novo destino na terra. Têm os documentos em ordem e embarcam para novas paragens. As vagas mais altas ampliam-lhes a coragem. Sonham banhar a sua nudez no mar. Lavam o seu orgulho. Os seus olhos possuem a mesma exatidão das cores do arco-íris. Embalaram as dúvidas para conseguirem enfrentar a sua sexualidade. Luzem-lhes os mamilos e a língua. Os seus sexos ainda estão em formação. Deus os abençoe, que bem precisam.


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Quarta-feira, 10 de Maio de 2017

Interações

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Terça-feira, 9 de Maio de 2017

Diversões...

São João - Porto - Junho 2016 118 - Cópia.jpg

 


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Segunda-feira, 8 de Maio de 2017

341 - Pérolas e diamantes: O desfasamento

 

 

 

Foi a divina Atena, a filha de Zeus, quem, se não me engano, colocou no espírito de cada um o contrário do que está no espírito do outro. Por isso é que a vida é bela e as discussões e dissidências fazem parte da existência em sociedade.

 

Devemos sempre lembrar-nos de que a opinião que temos uns dos outros, as relações de amizade, os laços familiares, etc., nada têm de fixo, antes são, como dizia Marcel Proust, eternamente móveis como o mar.

 

Por isso é que casais aparentemente muito unidos se separam e amigos que julgávamos inseparáveis dizem infâmias acerca um do outro. Mesmo as grandes alianças entre os povos se desfazem em pouco tempo.

 

Uma coisa no entanto sei: para as pessoas puras tudo é puro. Mas elas são tão poucas.

 

Depois vêm os aborrecimentos. Como dizia o senhor de Charlus, nada é mais agradável do que sofrer aborrecimentos por uma pessoa que valha a pena.

 

O lamento do aristocrata continua válido. “São as pessoas do meu mundo que não leem nada e têm uma ignorância de lacaios. Dantes, os criados de quarto do rei eram recrutados entre os grandes senhores, e agora os grandes senhores pouco mais são do que criados de quarto.”

 

Como válida continua a ser a história daquele homem que julgava ter numa garrafa a princesa da China. Era perseguido por essa loucura. Curaram-no dela. Logo que deixou de estar louco, ficou estúpido.

 

Existem maleitas de que se não deve querer curar ninguém, pois são as únicas que nos protegem de infortúnios ainda mais graves.

 

Por vezes chove e venta e depois instala-se uma neblina fria que só se levanta lá para o meio-dia. Mas quando o sol chega, nós renascemos e a existência permanece intacta dentro de nós. Essa mudança de tempo basta para recriar o mundo e nos recriar a nós.

 

Que podemos então dizer se aquilo que jugávamos inicialmente provável se veio a revelar falso e num terceiro momento tornou a ser verdadeiro?

 

A necessidade de falar impede-nos não só de ouvir, como de ver.

 

Por isso nos rimos. Rimo-nos quando percebemos que existe um desfasamento entre aquilo que esperamos que as coisas sejam e aquilo que descobrimos que elas verdadeiramente são.

 

Com a ajuda de Ricardo Araújo Pereira, transcrevo agora um excerto de The Importance of Being Earnest.

 

“Jack: Gwendolen, é terrível para um homem descobrir subitamente que, ao longo de toda a sua vida, não disse outra coisa a não ser a verdade. Serás capaz de me perdoar?”

 

“Gwendolen: Serei. Porque sinto que és capaz de mudar.”

 

Aristóteles disse que o riso é exclusivo dos homens. Nisso distinguimo-nos dos outros animais. E igualmente de Deus.

 

RAP tem uma hipótese. Ei-la, por junto e atacado: “O homem é o único que ri porque também é o único que tem consciência da sua própria extinção. Os animais desconhecem que vão morrer, e Deus sabe que é eterno.”

 

Afinal, o artista é um homem mediano. A obra de arte mais não é do que o resultado do esforço de uma mente específica.

 

O escritor é, segundo Gonzalo Torrente Ballester, um homem capaz de produzir imagens coerentes e de as expressar por palavras.

 

Escrever é um ofício, por mais que os defensores do êxtase místico e da musa desaforada pretendam negá-lo, ou reduzir ao mínimo a sua importância.

 

“Devemos ter sempre presente que Miguel Ângelo, além de genial escultor, era um perfeito canteiro.”

 

O filósofo espanhol Arauguren avisou-nos que apesar de vivermos demasiado longe de onde as coisas se decidem para podermos participar diretamente na sua elaboração, vivemos demasiado perto para as ignorarmos e deixarmos que a nossa realidade segregue as suas próprias superestruturas. 


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Domingo, 7 de Maio de 2017

Assando sardinhas - S. João - Porto

São João - Porto - Junho 2016 084 - Cópia.jpg

 


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Sábado, 6 de Maio de 2017

Ribeira - Porto - S. João (III)

São João - Porto - Junho 2016 072 - Cópia.jpg

 


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Sexta-feira, 5 de Maio de 2017

Porto - Ribeira - São João (II)

São João - Porto - Junho 2016 070 - Cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 4 de Maio de 2017

Poema Infinito (353): O esplendor da lucidez

 

 

A rainha das fadas perdeu-se no meio da metafísica indistinta. Agora as suas emoções mais sinceras são uma espécie de acessório. O tempo é uma impressão feita de realidades mistas. O tempo é como um sonho longínquo. O tempo é doloroso. O sol entra pela última vez através da janela da casa abandonada. Acorda a penumbra. A criança que por lá dorme ainda acredita que pode compreender o mundo. No seu sonho o palhaço ri do bobo e por isso tinem as campainhas na sua cabeça. A raiva faz-se dos cansaços. Vamos reconstruir a imaginação. Os deuses permitem que o que não existe de súbito se ilumine. Nos ilumine. A impressão das ruas, a perturbação das encruzilhadas, os caminhos abstratos, a imaginação concreta, os riscos irregulares que atravessam as montanhas, as ilustrações que compõem a nossa vida quotidiana, tudo aquilo que a alma sonha, os enigmas visíveis do tempo, os símbolos esotéricos. As estrelas começam a pestanejar por causa do frio. Vemo-las através da janela da infância, sentados nas cadeiras da sala. E ali estão os castelos e os cavaleiros, as paisagens do norte, a neve, as névoas, os livros coloridos, a monotonia, a força de tudo aquilo que é diferente. A lucidez. Vários bocados de sonhos. A força monótona da existência. E as cores. E as velhas angústias. E as lágrimas verdadeiras guardadas em antigas vasilhas. Dormimos sossegados sob o nosso teto provinciano. A casa defronte parece feliz. Nas sacadas brincam crianças entre os vasos de flores. As suas vozes são eternas. Os vários andares estão em silêncio. O som de um portão fecha-se sobre nós. Vemo-nos ao espelho e reparamos que a criança que trazemos dentro não mudou em nada. Por detrás da máscara, a personalidade é uma linha. Queremos ir devagar. Mas queremos ir. Queremos sentir os passos e soletrar os verbos que constroem a realidade. Debruçamo-nos sobre as invocações. A água torna-se resplandecente. A alma transforma-se num desejo. As flores ficam finalmente abstratas. Assim gosto delas. Balouçamos deslumbrados pela sensação das ondas. A minha juventude é perpétua. Os campos da minha infância fazem-me compreender a sua essência, as flamulas coloridas, a realidade dos abismos, os sorrisos involuntários. As mulheres continuam a chorar baixinho, cheias de individualidade, como anjos isolados, como esculturas de catedrais com os braços estendidos para o céu. As suas almas fundem-se durante a noite. Emprestam a sua humanidade aos homens e às pedras. Pela manhã beijam as crianças, transportam o universo ao colo, movimentam as suas sensações, enternecem-nos com o seu sossego, com os seus sorrisos de lírio, com a sua essência de amor. Conseguem transformar a dor em algo de inútil. Consolam-se de presente. Sentem a tristeza mesmo de olhos abertos. Conseguem marchar vertiginosamente em torno de si próprias. Toda a realidade é excessiva. A vida corre em todas as direções. A monotonia transforma o tempo numa fatalidade. O problema da infância é não ter futuro. Agora enfiamo-nos na poltrona da melancolia, vestidos como liberais deprimidos, defendendo várias opiniões sociais. Convertemos as convicções em marchas fúnebres. Como Marinetti, acabaremos académicos, festejando o crepúsculo e os focos elétricos da dinâmica. Como os bons marinheiros portugueses, transformaremos as estrelas em abismos e a lua em mostrengo. Esse é o esplendor da nossa lucidez.


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Quarta-feira, 3 de Maio de 2017

Ribeira - Porto - S. João (I)

São João - Porto - Junho 2016 060 - Cópia.jpg

 


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Terça-feira, 2 de Maio de 2017

Estação de S. Bento - Porto

São João - Porto - Junho 2016 010 - Cópia.jpg

 


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Segunda-feira, 1 de Maio de 2017

340 - Pérolas e diamantes: A luz do público

 

 

Sim, houve tempos em que se passava no adro para ir para a escola; em que as crianças andavam descalças ou de socos, fato de cotim e que traziam no saco de pano um naco de broa e uma sardinha, ou um pedaço de toucinho, que lhe dava para todo o dia; em que uns poucos usavam sapatos e outros não; em que a maioria dos largos eram de terra batida; em que a estratificação social era grande; em que os filhos dos operários e dos outros pobres não iam para o liceu; em que cada estação do ano tinha os seus jogos; em que se jogava ao botão, ao pião, à bilharda, ao espeto; em que se jogava futebol com uma bola de trapos.

 

Até existiam reacionários e revolucionários, comunistas e fascistas. E havia pintores, como Júlio Pomar, que pintava quadros do almoço dos trolhas, com as suas lancheiras e as mãos cheias de calos.

 

Agora há nostalgia. E crise. E uma coisa chamada lifestyle, que é uma forma de anestesia social. Houve uns tempos em que se comia nos restaurantes, agora leva-se de novo a lancheira para o emprego, muito dele precário e a recibos verdes. As lancheiras são, contudo, personalizáveis. E estilizadas, querendo sugerir uma alimentação saudável, prenúncio de uma escolha individual.

 

A crise funciona como uma inversão em termos de estatuto social. Até a esquerda mais radical e utópica surge como “conservadora”, pois passou a reivindicar o inamovível Estado Social. Parece que as classes socias desapareceram. Já ninguém questiona nada. Mesmo o PCP se transformou num partido social-democrata, abandonando a luta de classes para apenas reclamar a reposição de empregos de longa duração e de salários.

 

Agora os licenciados trabalham em centrais telefónicas e os investigadores de pós-doutoramento mendigam uma bolsa que mal lhes dá para sobreviver.

 

Os ricos buscam a antiga aura das elites e refugiam-se nos solares espalhados pela província. Apenas o galo de Barcelos ganhou dimensão. A autenticidade portuguesa, à maneira de Joana Vasconcelos, reduz-se a um galináceo com cinco metros de altura. E a virilidade lusa viu-se enfiada num invólucro de croché.

 

O combate ideológico é apenas aparente, pois onde não existem ideias não pode existir ideologia.

 

A verdade é que o capitalismo triunfou porque tem a capacidade de tudo integrar. Até a esquerda. Maria do Céu Guerra definiu essa situação: “Pode ser-se de esquerda e ter práticas, processos, que são de direita”.

 

A televisão acaba por ser o grande uniformizador nacional. As elites, sejam de esquerda ou de direita, veem os mesmos canais e o povo segue-lhes as pisadas, pois, sendo de direita ou de esquerda, partilha os mesmos hábitos, gostos e práticas.

 

As elites leem o livro Mindfulness. Atencão Plena, enquanto meditam com a ajuda dos dois CD incluídos no pack. Já o povo, na sua versão masculina, lê A Bola, e na versão feminina, aprende as frases mais relevantes d’A Terapia do Tricot para citar a caminho da missa de domingo.

 

A História aprende-se agora nos inúmeros romances históricos nacionais e estrangeiros que enchem os escaparates das livrarias. Muitos deles apenas se preocupam com a vida amorosa e sexual de figuras famosas do passado, enfatizando as façanhas lascivas de reis e rainhas, príncipes e princesas, e os emblemáticos cavaleiros. Realçamos dois: Reis que amaram como Rainhas e Os Amores Proibidos de Suas Majestades.

 

Em 2014, segundo um artigo de Alexandra Campos, no Público, os Portugueses consumiram 91 496 345 de doses de alprazolam e 65 851 064 de lorazepam. Entre 2010 e 2014 aumentou substancialmente o consumo de antidepressivos, ultrapassando mesmo o de tranquilizantes.

 

Segundo um relatório da DGS, de 2015, as crianças portuguesas até aos 14 anos consomem mais de 5 milhões de doses por ano de metilfenidato, um psicofármaco usado para tratar a hiperatividade e o défice de atenção.

 

As cidades são, afinal, a nossa prisão. A paisagem dominante é a dos shopping centers, onde a boémia é disciplinada e obedece a horários e obrigações laborais. Na província, a gente ressente-se do abandono e vai para casa jantar tristonha e depois submete-se disciplinadamente à lei genérica da idiotice televisiva.

 

Paradigmático é o livro dedicado a João Manuel Serra, o Senhor do Adeus, que relata as noites passadas pela criatura a acenar aos automóveis de Lisboa, na Zona do Saldanha.

 

Vivemos num sistema de moda e publicidade que Heidegger definiu de forma categórica: “A luz do público obscurece tudo”.


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