Sexta-feira, 30 de Junho de 2017

Carnaval de Verin

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Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

Poema Infinito (361): O sagrado coração da desilusão

 

 

Os anjos entortam-se ao pé da nogueira e depois morrem junto à sombra do tempo que os abraça. Os homens espiam-nos atrás das mulheres. Os seus olhos já não perguntam nada. Até o demónio fica comovido. As tardes são agora azuis e insinuam os desejos. A noite fica triste sem querer. A consolação é como um amor feito de versos. Louvar a Deus alivia o queixume e o desprezo. A alegria e a tristeza padecem da mesma moleza, andam na rua de olhos baixos. Sofrem da mesma sensibilidade. Os romeiros continuam a subir a ladeira, a picar-se nos espinhos, a contornar as pedras, a suar as suas culpas, a carregar os seus pecados, a ouvir os sinos tocar a sua pureza, a trazerem flores, prendas e rezas. A procissão vem a seguir e o vento que persegue as romeiras brinca com as suas coxas. Os homens cantam sem se cansar. Jesus expira queixoso cravado no seu lenho. É dia de festa. Os olhos dos romeiros pedem, as bocas dos romeiros suplicam, as mãos dos romeiros imploram. Jesus, exangue, desfalece sonhando com outro tipo de humanidade. Neste momento, o seu pai abandona-o sempre. Depois os poetas embebedam-se tentando deixar de compreender a divindade. O dia já nasce atrás dos quintais. Ninguém sabe se o mundo vai acabar ou não. As previdências dormem tristíssimas penduradas nos andores. É difícil encaixar tanta santidade em tanta solidão. As virtudes são agora mais científicas, as diferentes culturas são melhor assimiladas, as elites são muito mais subvencionadas. Mesmo as paixões são mais sublimes. Já não se cometem revoluções, não se promovem compromissos. A razão já não exige sofrimento. Precisamos é de esquecer os carinhos, a desilusão do amor, o gozo, as cartas explicativas, toda a providência humana, toda a nostalgia divina, os remorsos, o inferno, o sagrado coração da desilusão, o perdão, a sombra doce do pecado, o sorriso maduro das mulheres desiludidas, as carícias disfarçadas de carícias, a inutilidade dos protestos, a utilidade dos protestos, os risos provocantes, as moças casadoiras, as análises proustianas, a sombra rodada das moças penetradas, as tardes de domingo, os desejos que já morreram e os sinos que tocam a rebate fora do tempo. Com duas mãos apenas recolhe-se todo o sentimento do mundo, acaricia-se o corpo transigente, pinta-se a confluência do tempo. É necessário dispersar a fronteira da guerra, recolher o fogo e o alimento, disfarçar as memórias, encontrar o amanhecer, levantar o céu com a mão esquerda e suportar o mundo com a direita. O tempo começa a depurar-se. Antigamente as mulheres ficavam sozinhas e não se assustavam com quem lhes batia à porta. Apagavam as luzes. Dentro da escuridão resplandeciam os seus luzeiros. Tinham a certeza do sofrimento. Os seus olhos não choravam. Sustentavam o mundo com as suas mãos de criança. A vida é uma ordem. Afastamo-nos do presente para encontrar a realidade. As histórias parecem paisagens vistas das janelas, parecem cartas suicidas. No álbum das fotografias os mortos amontoam-se. Avô morto, avó morta, tios mortos, primos mortos, amigos mortos, pai morto, mãe morta. Mão morta, mão morta, vai bater aquela porta. O pó começa a amontoar-se nos olhos que foram cintilantes. Fora do álbum muitos outros mortos se amontoam na minha memória: o comboio, os pássaros, os cães, os gatos, as galinhas, os porcos, os perus de Natal, as pavieiras, a esperança, a paciência, a aldeia, os bois, o burro, os lírios, os sorrisos, os beijos, a varanda, os crepúsculos, os lobos, os pobres, todos os rostos imóveis… todos os rostos imóveis… todos os rostos imóveis…


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Quarta-feira, 28 de Junho de 2017

Carnaval de Verin

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Terça-feira, 27 de Junho de 2017

Carnaval de Verin

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Segunda-feira, 26 de Junho de 2017

348 - Pérolas e diamantes: O efeito boomerang

 

 

Há pessoas que convertem em literatura tudo o que tocam. A realidade e a ficção, para eles, não têm fronteira. Conseguem montar espetáculo em qualquer lugar onde estejam, preservando uma assombrosa expressividade coloquial.

 

É tudo gente do melhor. Há uma expressão vulgar que diz que o talento de uma pessoa se mede pelo número de medíocres que o rodeiam e que o tentam lixar. Aos meus inimigos, desejo-lhes saúde. E eles quem são? Pois…

 

Isto é uma coisa do senso comum, da sageza das relações.

 

Tenho mais medo dos meus amigos. Porque dos inimigos, daqueles que conheço, defendo-me bem. Tenho já longa prática.

 

Eu até gosto dos meus inimigos. Já os elogios, suspeito mais deles do que da censura, mesmo impertinente, injustificada, invejosa.

 

Atenção, eu não quero ser original, nem engraçadinho. Para esse peditório já dei. E muito. Agora uso a minha liberdade para urinar junto aos muros, quando não há casa de banho por perto. É da idade. Da idade e da resiliência.

 

Dizem que o país mudou. Mas é engano. O que mudou foi a estupidez. Por vezes parece que há golpes de mágica e tudo muda, mas essa perspetiva não é realista. As aparências enganam.

 

Tudo tem significado. Tudo.

 

Deixem que vos conte uma anedota. Um homem regressa a casa, noite cerrada, completamente bêbado, e pelo caminho encontra uma freira com o hábito e o chapéu. Com as forças que lhe restam, atira-se a ela e dá-lhe uma sova das valentes. Depois da sova, levanta-a do chão e diz-lhe: “Mas, Batman, julgava-te mais forte!”

 

A grande lição de Semiologia (ciência geral dos signos que estuda os fenómenos de significação) de Roland Barthes consiste no apontar do dedo a qualquer acontecimento do universo e advertir que ele significa alguma coisa. Ele repetia sempre que o semiólogo, quando passeia pelas ruas, procura significação onde os outros apenas veem acontecimentos. Ensinou-nos que se diz sempre alguma coisa com a maneira de vestir, de pegar num copo, na maneira de andar, sorrir e com as insinuações disfarçadas de brincadeiras…

 

Por isso me dedico à literatura, porque não se é obrigado a fixar um sentido, mas joga-se com esse sentido.

 

Fascina-me o Japão porque é um mundo em que não conheço nenhum código. Santo Agostinho dizia que o texto da Bíblia era uma floresta infinita, por isso podia-se sempre submetê-lo a uma regra de falsificação.

 

As Mitologias de Barthes são brilhantes análises semiológicas, porque a vida está sujeita a um bombardeamento contínuo de mensagens que nem sempre manifestam uma intencionalidade direta, mas que tendem, a maior parte das vezes, por causa da sua finalidade ideológica, em apresentar-se sob uma aparente “naturalidade” do real.

 

Gramsci tem uma frase premonitória: “A crise consiste precisamente no facto de que o antigo morre e o novo não pode nascer.”

 

Laurent Binet (A Sétima Função da Linguagem), através da sua personagem Bifo, refere que “se a classe dominante perdeu o consentimento, ou seja, se ela já não é dirigente, mas unicamente dominante e unicamente detentora de uma força de coerção, isso significa que as grandes massas se desligaram das ideologias tradicionais, que elas já não acreditam naquilo em que acreditavam antes…”

 

Todos sabemos que o conhecimento de um mecanismo de manipulação não nos defende forçosamente dele. Basta atentar na publicidade, na comunicação. A maior parte das pessoas sabe como funcionam, que recursos utilizam, mas, mesmo assim, é influenciada por elas.

 

Aviso à navegação. Eu não abandono os conceitos e os princípios como se abandona um cão.

 

As pessoas querem arrebanhar tudo, tragar tudo, manipular tudo. Ver, decifrar, aprender, não os influencia. Vivem debaixo do anonimato. Atiram a pedra e escondem a mão.

Podem manipular a maledicência, propagar a intriga e estender a mentira, mas de uma coisa não são capazes: alterar as leis da física.

 

Lembro: Olhem que o efeito boomerang existe.


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Domingo, 25 de Junho de 2017

Pormenor

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Sábado, 24 de Junho de 2017

Barroso

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Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Bombeiros

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Quinta-feira, 22 de Junho de 2017

Poema Infinito (360): A fronteira de Deus

 

 

Até Deus estremece quando repara no teu olhar, parece um cisne assustado, de tão belo e confuso. Depois esconde-se dentro da sua ave e voa com astúcia até ao céu. Erguem-se então as novas palavras dos profetas e os poetas têm visões gigantes que se dilatam pelo íntimo das pessoas. As grandes mãos do tempo apontam na direção da ira. Pesa-nos a consolação, a espera e os bons conselhos. Enche-se a imaginação de longínquas estrelas e do seu brilho cauteloso. Adão, cheio de espanto, sobe as íngremes escadarias das catedrais. Chora repleto de apoteose. Cresceu de repente, no meio das assombrações. Como lavrador, começou a trabalhar no jardim do Éden sem o saber. Deus é difícil de persuadir. Ameaça-o de novo com a morte, mas ele teima em partir. Quer fazer-se homem. Eva tomou posse da sua maçã e sente-se culpada da sua inocência. Depois sorri. Por fim, chora. Cresceu e pariu, cheia de dor e de amor. Saiu de dentro da roda da eternidade para vencer na vida. Era jovem como a primavera. Quando achou o seu homem resoluto, foi com ele à procura da morte. Conheceram então Deus. Irromperam cegos na cidade, depois deixaram de existir no escuro. Alimentam-se do reflexo das coisas, extasiam-se com os obstáculos, expulsam o tempo do templo de Deus. Fazem perguntas amedrontadas e perdem-se no meio dos pensamentos. O vento mais velho sopra do mar, o verão sussurra, as figueiras rebentam ao luar. A impaciência tornou-se realidade. Deus cruzou as mãos. Lê o seu livro mais longo. O ar cheira a jasmim e a ofensa. O destino de tudo continua indescrito. Até o tempo está destinado ao declínio. O céu espelha-se nos lagos, as flores abrem-se descuidadas. O espaço interior transborda. Fecham-se os dias e os sonhos saem da frente dos espelhos. Os gestos ficam mais cansados e os sorrisos mais lentos. O silêncio bebe as imagens. Deus bebe a crítica. As horas ficam mais tardias. Cada um procura o seu caminho. Os anjos gritam a sua angústia e abalam as tempestades porque têm de recolher os fragmentos do apocalipse. Os mais doirados acreditam que Deus é russo e ortodoxo e os outros sabem que ele é apenas o seu alimento inesgotável. Pretendem somente um pouco de eternidade. A sua circunstância é feita de murmúrios. Tem medo das palavras dos homens, do seu sentido de jogo e de não entenderem qual é a fronteira de Deus. As horas começam a ampliar-se, a ficar mais largas e a preencherem o fundo do tempo. Nenhuma coisa é perfeita antes do nosso olhar. Deus chama os pintores e esboça-lhes os sonhos. Depois mancha tudo de escuro. Os pintores desenham o espaço e o tempo. Os anjos entoam canções tristes. Os pintores retratam então a luz. Depois desfalecem. Deus sorri de agradecimento. Gosta de se distrair com a Criação e de conter o espírito dos artistas. Escreve os séculos com canetas de vento. Avisto então o rosto da minha mãe, as primeiras palavras que não compreendi, a aresta dourada dos sentimentos, o teu e o meu espaço, as primeiras emoções, os símbolos expulsos do paraíso, os monólogos circulares do tempo, as horas abruptas, a presença ilimitada das melodias, o fogo que faz ferver os pecados, o crepúsculo dos deuses, a luz ténue da saudade, a palidez dos anjos, o gigante que devorou Miguel Ângelo, a inacessibilidade de Deus, a beleza e o pavor da última palavra do adeus. Sinto a nossa gravidade a afundar-se. Dá-me a tua mão.


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Quarta-feira, 21 de Junho de 2017

Bombeiros

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Terça-feira, 20 de Junho de 2017

Bombeiros

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Segunda-feira, 19 de Junho de 2017

347 - Pérolas e diamantes: A escrita e o anzol

 

  

Gonzalo Torrente Ballester escreveu, tentando responder a uma pergunta incómoda, que a génese da obra de arte aproxima-se mais do exemplo do trabalho e da persistência do que na biologia do nascimento humano. A liberdade, o acaso e a vontade conscientes são os fatores reais e decisivos. “Não creio que exista nenhuma obra de arte que não pudesse ter sido de outra maneira e obviamente melhor do que é.”

 

Afinal porque se escreve? Depois de vários projetos mais ou menos falhados, ou de alguns com sucesso, a resposta até poderá ser: para nada.

 

Para vos animar, quero desde já dizer que este “nada” não é uma resposta radical e negativa. Esses tempos já lá vão.

 

À boa maneira de uma ave canora, podia dizer que o intelectual vive enquanto pensa e escreve. Sim, é esse o seu modo de ser e de estar no mundo. “E só nisto já encontra justificação”, como afirmou o escritor galego.

 

Afinal estamos neste mundo “sem termos sido ouvidos nem achados, e, sobretudo, sem que o tenhamos pedido; mas o pior é que os outros também o esquecem e se põem a fazer exigências e a pedir justificações, até do mero existir”.

 

A justificação impõe-se por si própria. E o fado que cada um carrega para percorrer o seu caminho de pensar e escrever apenas a ele diz respeito. Os fins sublimes são mera ficção, parvoíces, tontarias. “Escrevemos porque sim, ou porque gostamos, ou porque não sabemos fazer outra coisa.”

 

Muitos procuram uma finalidade no ato da escrita. Uns proclamam razões e inconveniências. Outros choram baba e ranho em cima daquilo que escrevem. Outros, ainda, arremessam a pedra e escondem a mão. Há feitios para tudo. Muitas vezes escrever resulta num ato gratuito e num esforço inglório. É meio falhanço. E depois?

 

Como justificação relato-vos a história que contaram a Torrente Ballester de um rouxinol que um belo dia descobriu que ninguém lhe ouvia o doce canto e que, desiludido, decidiu ser carpinteiro, como o seu vizinho de árvore. Nesse ofício, obviamente, nem sequer atingiu a mediania.

 

Não é necessário perguntarmo-nos por que escrevemos, pois essa questão encaminha-nos invariavelmente para a falácia das grandes transcendências. Cada um deve fazer aquilo que tem de fazer e não lhe dar muita importância. Devemos revelar mesmo uma certa indiferença perante o ato verificável de que a voz do rouxinol não tem o público que merece. E quando chegar a hora de nos calarmos e emudecermos, aceitá-la de bom grado e em paz. Devemos fazer como aquele toureiro que após cada lide, fosse ela boa, mediana ou má, dizia invariavelmente: “Aí têm.”

 

Além disso, cada leitor de um romance lê, apesar do mesmo texto, um romance diferente, dependendo sempre da sua maneira de ver o mundo, da sua experiência de vida e não da palavra textual.

 

Gonzalo Torrente Ballester avisou-nos: “A palavra dispara setas, e muitas delas perdem-se longe do alvo.”

 

A fórmula é geral. Mesmo o Dom Quixote, que é o primeiro romance ocidental, é a história de um jogo que se escreve jogando.

 

O romancista define-se não por aquilo que é, mas sim por aquilo que escreve.

 

Devemos sempre desconfiar tanto dos mitificadores como dos desmitificadores.

 

O necessário é cada um percorrer o seu caminho pois ele leva-nos, pelo menos, ao seu próprio fim.

 

Eu ainda sou dos que acreditam que, por muito errado que um caminho possa ter sido, alguma coisa acabamos sempre por descobrir. Ninguém o percorre em vão.

 

Afinal são os poetas que tradicionalmente se dirigiam ao povo, com as histórias clássicas consideradas épicas como são o caso da Ilíada, da Canção de Rolando, Mio Cid ou mesmo Os Lusíadas, com palavras ao serviço da sua glorificação, que nos tentaram “fazer engolir sem protesto o anzol do poder”. 

 

Roland Barthes dizia que a escrita “é o lugar do político no sentido lato, ou seja, a escrita é aquilo mediante a qual ele se exprime, mesmo se o escritor não é disso consciente, o que ele é socialmente, a sua cultura, origem, a sua classe social, a sociedade que o rodeia”.

 

Antes de terminar, quero citar Laurent Binet, autor do romance A Sétima Função da Linguagem, que sabe da dificuldade de aproximar o leitor dessa função: “Quando escrevo uma cena ou uma frase, gosto que não haja apenas uma função, só psicológica ou só poética. Essa cena também serve para dar um passo em frente e jogar com os símbolos.”

 

Claro que a linguagem é um código. Mas nunca se esqueçam que toda a descodificação é uma nova codificação.

 

No campo da ficção, Roland Barthes defendeu que a linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há quem mate para dominar o seu segredo.

 

A vida não é um romance. Os romances é que podem fazer parte da vida. Da minha fazem, com toda a certeza. E da vossa também, por muito que nos custe a todos acreditar. 

 

 

 

PS – Texto lido na apresentação do romance “O Homem Sem Memória”, de João Madureira, no dia 16/6/2017, em Chaves.


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Domingo, 18 de Junho de 2017

Feira dos Povos - Chaves

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Sábado, 17 de Junho de 2017

Feira dos Povos - Chaves

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Sexta-feira, 16 de Junho de 2017

Feira dos Povos - Chaves

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Quinta-feira, 15 de Junho de 2017

Poema Infinito (359): Chuva de enigmas

 

 

Dá a impressão que os pássaros se beijam apenas uma vez na vida. Por isso ela é tão curta. E rápida. E cheia de música. As sombras não fazem parte do seu amor. O luar intenso da noite tornou as romãs anémicas. A sua doçura é quase misericordiosa. As suas bagas pétreas são dádivas de sangue. Neste jardim crescem agora as flores e os cantos convulsos. Os amantes duvidam das suas próprias mãos. Por vezes, morde-os a chuva. As estrelas enganam-nos. Eles pensam em suicídios lentos, imolam as uvas, fazem o tempo sair da sua linha. Crescem os anjos entre agosto e dezembro, fingem que nasceram através de um código secreto e que escrevem o seu amor com tinta invisível chinesa. As geadas mataram as fadas temporãs e as que resistiram vão ser sacrificadas em agosto. As fadas mais velhas perderam o seu viço e o seu brilho, qualquer abraço as pode matar. Sem elas, janeiro será um mês absurdo onde os verbos mais compridos serão cortados como cabelos. As acácias do jardim foram seguindo a orientação normal do Sol. As fadas alagam-nas com a luz roubada à Lua. Nos canteiros mais centrais foram feitos sulcos em forma de véus e depositadas as sementes e os segredos. A alegria foi disseminada no pouco espaço disponível do quintal. Os sentimentos mais raros foram concentrados junto ao poço. As silhuetas humanas começam a invocar os deuses mais ténues. É do hábito. Depois abandonam a estrada e os seus rostos parecem o de ninguém. Beijam-se como se fossem pequenos deuses e abençoam-se como quem espera morrer em breve.  A sua divindade é invertida. Parecem facas que queimam. Acreditam que podem cair na água do poço e apanhar a lua. Escrevem os lugares e mudam frequentemente de ilusão. As suas memórias são frias. A bela adormecida continua na floresta afogando-se no seu sonho de desejo. Todas as maçãs do quintal nascem agora possuídas pelo elixir da maldade. Os pêssegos perderam o odor. Não houve nenhum tormento, nem vai haver. As curvas dos gestos não são mortais. O tempo ganha novo ânimo. Não sabemos se isso é bom ou mau. A ilusão do salvamento dura apenas alguns minutos. A dor de escrever não para. Os analgésicos já não produzem efeito. Imagino florestas mágicas desenhadas por Paula Rego onde as árvores mais altas e frondosas exibem os corpos de lindos príncipes e princesas e duendes pendurados pelos pés como se fosse dia de matança. Começo a entender as tardes de dezembro, o caráter acidental do musgo e do azevinho e de toda a simbologia do barro transformado em figuras do presépio. É como ler a morte em vida. Começam então os espasmos de sol. O mar revolta-se por causa das horas. Os magos parecem cobras a silvar. Abraço-me ao teu tempo. Quero libertar-me do meu. Os segredos são como espelhos, como folhas de chá, como os olhares que passeiam de forma errada. O tempo passa mais depressa, batendo as suas asas como se fosse um colibri. O menino continua sentado junto da porta envidraçada que dá para a rua. Os seus olhos parecem círios no meio da escuridão. Durante o dia começou a compreender a beleza e a bondade. Começa agora a importar o medo. Os nomes das coisas mudam de lugar. Os sonhos ficam lassos e com enormes lances de escadas. As rosas dormem emanando o seu odor e exibindo os seus espinhos. Debaixo dos seus pés arde o tempo. A tranquilidade arrepia. As memórias escondem-se sempre no nosso passado infantil. O meu riso já não consegue mentir. As infinitas partículas do amor continuam a espalhar-se pelo chão.


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Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

Feira dos Povos - Chaves

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Terça-feira, 13 de Junho de 2017

Feira dos Povos - Chaves

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Segunda-feira, 12 de Junho de 2017

346 - Pérolas e diamantes: O vazamento das evidências

 

 

 

Laurent Binet escreveu um livro suficientemente divertido sobre Roland Barthes (escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês que fez parte da escola estruturalista, influenciado pelo linguista Ferdinand de Saussure), partindo da suposição de que afinal não morreu por causa de um acidente estúpido mas antes vítima de um homicídio premeditado.

 

Ou seja, o maior crítico literário do século XX terá sido assassinado por possuir qualquer coisa de muito poderosa.  

 

A Sétima Função da Linguagem parte de uma frase inicial: “A vida não é um romance.”

 

De facto, a morte de Barthes deu-se em circunstâncias um pouco tristes. Foi atropelado quando saía de um almoço com François Mitterrand, então candidato à presidência da França.

 

Ser mestre na utilização da linguagem, todos o sabemos, é muito proveitoso. A semiótica é útil para entender o mundo e a retórica é útil para lidar com ele.

 

Para atingir o poder, a linguagem é uma arma poderosa. Binet, para construir o seu romance, parte do princípio de que a linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há mesmo quem mate para dominar o seu segredo.

 

Roland Barthes era um descodificar do modo humano de comunicar. Possuía até uma qualidade intelectual que os medíocres apreciam imenso: conseguia falar de bifes com batatas fritas, de carros, de filmes do James Bond, fazendo uma abordagem muito lúdica da Linguística.

 

Afinal, segundo os entendidos, a Semiologia é isso mesmo: uma disciplina que aplica os métodos da crítica literária a objetos não-literários. É o estudo da vida dos signos no seio da vida social.

 

Lá pelo meio do livro aparecem estudantes de alpargatas e peúgas distribuindo panfletos onde se pode ler: À Espera de Godard, peça em um ato, a que eu gostaria de ter assistido.

 

E também existem as personagens que buscam a verdade. Os medíocres estão espalhados por todo o lado. E a verdade… A verdade… “Onde é que ela começa, onde é que ela acaba… Estamos sempre no meio de alguma coisa.”

 

A verdade só existe se for exibida. É um símbolo. E um símbolo escondido não serve para nada. Não existe.

 

Por exemplo, Jean Daniel escreveu um editorial sobre Mitterrand no Nouvel Obsevateur, em 1966, onde apresentou esta certeza: “Este homem não dá só a impressão de não acreditar em nada: perante ele, sentimo-nos culpados de acreditar em alguma coisa. Ele insinua, como quem não quer a coisa, que nada é puro, que tudo é sórdido e que nenhuma ilusão é permitida.”

 

Numa conversa entre espiões de gabarito, a dado momento uma personagem pensa que nada existe de mais desconfortável para alguém disposto a mentir do que ignorar o nível de informação do seu interlocutor.

 

Quando se mente, há que mentir, como pensa o camarada Kristoff, apenas num ponto. E num só. Em tudo o resto tem de se ser perfeitamente honesto.

 

Barthes detesta aborrecer-se, mas oferecem-lhe tantas oportunidades que não lhe resta outra solução se não aceitá-las. Sem saber bem porquê, convenhamos.

 

Os políticos aprenderam já há muito tempo que para se ter sucesso é necessário possuir um elevado grau da arte de enunciar as evidências.

 

Barthes, sempre conciliador, alegava: “Uma evidência não se demonstra, vaza-se.”

 

A arte de governar afinal não passa de nos convencer de que o governo não é responsável por nada.

 

Por isso lhe dói o balanço das contas.

 

“O momento difícil de uma vida, a dele, a vossa, a minha, de toda a vida que se pretende ambiciosa, é aquele em que se inscreve o sinal na parede a dizer-nos que começamos a imitar-nos a nós mesmos.”

 

A linguagem, quer queiramos ou não, serve para produzir uma mensagem que só adquire sentido no momento em que existe um destinatário. Apenas os loucos tagarelam no deserto.

 

Ainda não apurei se o Laurent Binet é ou não um bom romancista, o que sim sei é que a sua fasquia é muito alta, pois considera que “se houver Deus, ele será um mau romancista”.


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Domingo, 11 de Junho de 2017

Dois amigos

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Sábado, 10 de Junho de 2017

Sorriso

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Sexta-feira, 9 de Junho de 2017

Sorrisos

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Quinta-feira, 8 de Junho de 2017

Poema Infinito (358): O domínio público

 

 

 

Oiço o eco da tua figura interna. No entanto, os lábios mantêm a mesma inocência. Olhamo-nos no espelho do deslumbramento. Imaginamos tudo aquilo que é verdade. O caminho das emoções está repleto de riscos. Os cuidados são sempre intuitivos. Quem não quer nada enfeita-se de palavras. Ouvimos o silêncio. A cidade inteira estremece. A casa está cheia de luz. Estamos no caminho certo, já não nos afligimos por não entender. É o brinquedo quem atualmente brinca connosco. O mundo é agora automático, cheio de responsabilidades, necessariamente lógico, com sustos criteriosamente estudados, com alegrias programadas e apropriadas, com mapas precisos, cheio de grandes nostalgias inalcançáveis, repleto de acasos, feito com a pressa dos cientistas. A beleza é mais breve e acessível. Os grandes discursos confundem-se com os lugares-comuns. Todos cumprimos com a função do raciocínio, com a necessidade da missão, com a inteligência que preside à dinâmica de grupos. Continuamos a lutar contra os preconceitos. Os destinos são quase imediatos. Transformamo-nos na própria esperança da alegria. O tempo torna-se indefinido, escorre-nos pelo corpo. A dificuldade também gera felicidade. Os hábitos ajudam-nos a amortecer as quedas. Sabemos que o futuro é sempre feito de movimentos caóticos, que a inquietação é endémica, que as novas primaveras correrão ao sabor das máquinas. Os néscios sorriem com a idiotice dos anjos. Está para chegar o vento carregado de tepidez e de lembranças indivisas. Os seus ecos são mornos. Prolongam-se as promessas, a alegria primaveril é líquida, os seus frutos serão enormes, suculentos, cheios da sabedoria dos bichos. A tua delicadeza parece-me infinita. Vou comemorar o Dia dos Analfabetos. Talvez a loucura tenha uma explicação plausível, por isso é que por vezes amanhecemos carregados de cólera, pensando na forma de agradar aos outros e de ler o mundo, de esperar pelos milagres, de temer que volte o dilúvio. Os dedos revelam as flores no papel, abrem a claridade, separam a brisa das folhas, escrevem hinos de meditação e esboçam planos novos. Nas colinas aparecem faunos modernos assustando os sonhos das cabras. Na primavera não existe piedade. O tempo começa a derreter. As conversas ficam mais cansadas. Por vezes abrigamo-nos na escuridão. A nostalgia torna as árvores mais frondosas. O medo fica mais vertical, as dúvidas ficam mais tépidas, a fronteira entre o bem e o mal fica mais definida. A sabedoria corre na direção dos ventos, orientando-se pelo instinto, amarrando o diabo à sua linha vermelha. É estranho dizerem que a inocência é natural. A razão faz parte dos corações indiretos. Por isso, a arte é um misto de lucidez e instinto. Por isso, eu me costumo encontrar na hora da despedida, dando-me conta do trabalho que dá a vida quotidiana, que o sucesso surge depois das atrapalhações e que são sempre prematuros os gestos simbólicos. Eu vejo a aflição a emergir nos poemas, as vinganças a tornarem-se injustas, o alívio a esgotar as lágrimas, o respeito a transformar-se em fraqueza, a comoção a ficar inútil. Eu sou um homem que chora. A manhã arrumará a angústia num canto da sala. Chegou o tempo de geminar as horas, de inventar outra espécie de música, de estudar o infinito. Calo-me. Olho de frente para o perigo e penso: agora sou do domínio público. A liberdade não pede licença a ninguém.


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Quarta-feira, 7 de Junho de 2017

Vendendo pão

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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

O sapateiro de Chaves

chaves, sapateiro, ribeira 117 - Cópia.jpg

 


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Segunda-feira, 5 de Junho de 2017

345 - Pérolas e diamantes: Hot Dogs

 

 

 

Depois da Guerra Fria, os seus silenciosos heróis passaram à clandestinidade na mesma sociedade que protegeram. Talvez se sintam agora dissidentes. Quase como estrangeiros no seu próprio país.

 

Antigamente nem sequer eram recebidos nas divisões das traseiras. Agora acomodaram-se às pessoas e às situações.

 

Talvez ensinem em universidades onde lhes é dedicada alguma atenção, que será seguida de alguma confiança e é até provável que gozem de algum apoio.

 

Dizem o que as outras pessoas disseram antes delas: Quem pode, faz; quem não sabe, ensina.

 

Perderam a sua utilidade, a sua unidade e o seu objetivo, porque viram demasiado, omitiram demasiado e conciliaram demasiado.

 

Mas será que alguma vez o desespero e a pobreza humana constituíram séria preocupação para alguma nação rica? Estou em crer que não. Mas eu sou um incréu, não posso servir de exemplo.

 

Habituei-me a misturar o tremendamente sério com o tremendamente frívolo, tentando fazer com que a diferença entre um e outro seja pequena. Faz parte do manual de sobrevivência em sociedade.

 

Aprendi a libertar-me do medo porque sei que as pessoas medrosas nunca aprendem.

 

A maioria das vezes não se ganha. O outro lado é que simplesmente perde. Os conflitos ideológicos, em vez de nos libertarem, reprimiram-nos. A guerra, que diziam fria, terminou. Pelo menos é isso que dizem. O que importa é a esperança.

 

De uma coisa me arrependo, do tempo e das capacidades que desperdiçámos, para nada.

 

Fingíamos que as coisas não existiam, ou então fingíamos que não eram importantes. Era esse o manual de sobrevivência de um revolucionário.

 

Nunca é com a mentira que vamos derrotar os mentirosos.

 

Sei agora que do lado de lá, onde estavam os putativos amigos, mentiam para esconder o seu mau sistema. Do lado de cá também nos mentiam para esconder as supostas verdades.

 

Falavam do respeito pelo individuo, do amor à diversidade e à discussão, na crença de que só se pode governar justamente com o consentimento dos governados. E enalteciam a nossa capacidade de ver o ponto de vista dos outros – sobretudo nos países que explorámos, quase até ao aniquilamento, para os nossos próprios objetivos.

 

Em defesa de uma suposta retidão ideológica, enchemo-nos de uma compaixão deífica, a raiar a indiferença.

 

Apesar das ladainhas ocidentais, é ainda onde nos encontramos. Na indiferença estratégica.

 

Aparentando o contrário, a nossa sociedade continua a proteger os fortes contra os fracos. Apenas aperfeiçoámos a arte da mentira pública.

 

Horace Walpole escreveu que “este mundo é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem”.

 

Por isso é que, salvo raros momentos, o nosso presente é uma comédia e o nosso passado foi uma tragédia.

 

Por incrível que possa parecer, dizer não é sempre mais fácil do que dizer sim. Deixar de sentir não é deixar de existir. Além disso, a filosofia tem de servir para alguma coisa.

 

Também eu teimei durante algum tempo em ser, ou parecer, conservador. Mas que diabo é que existe por aí de bom que se possa conservar?

 

Eu sei que a vida ou é uma busca ou não é nada. Mas, convenhamos, não é com o aproximar da idade da reforma que uma pessoa se deve disponibilizar a vaguear perdido e a dar voltas à cabeça sobre a maneira de reinventar a humanidade.

 

Agora compreendo, depois de muito estudar a multiculturalidade e os seus apóstolos,  

a razão porque tanto os cambojanos como os tailandeses apostam grossa maquia no número de vezes que uma rã vai arrotar.

 

É com a chegada do verão que se escuta o frenético tagarelar dos insetos.


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Domingo, 4 de Junho de 2017

Interiores bovinos

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Sábado, 3 de Junho de 2017

Festa dos Povos - Chaves

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Sexta-feira, 2 de Junho de 2017

Bois na feira

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Quinta-feira, 1 de Junho de 2017

Poema Infinito (357): Onde tudo começa e acaba

 

 

Nunca sabemos como tudo começa. Lembramo-nos apenas de uma certa forma de cegueira. Como quem fixa o olhar nas sombras. Depois levantamo-nos pelas manhãs e reparamos na direção a tomar. Exageramos sempre mais um pouco nos princípios. Fiamo-nos nas memórias. Sufocamos dentro dos fatos, enrodilhados dentro da música. Brincávamos a bem e a mal. Gostávamos do pão doce e dos mimos. Evitávamos a velhice e o sal do suor e das lágrimas. Fugíamos dos invernos e dos desgostos. A infância apertava-nos o coração. É áspera a solidão. A espessura da vida confere peso ao conhecimento. Distinguimos as sereias e as estrelas mortas. As distâncias são vagas. As cores perdem nitidez. O tempo continua a irradiar a sua eterna ameaça. Não se cansa. Demoramos a olhá-lo. Por vezes parece uma caixa chinesa, ou um relógio apressado. A sala ficou deserta. A poesia é efémera. Movemo-nos num jogo indistinto de sombras. A caligrafia tornou-se preguiçosa. As frases estão cada vez mais descontínuas. Por vezes apanhamos o rasto da memória e sorrimos. O passado é um enigma. Enquanto passeávamos levantou-se um pouco de vento. Falámos de Zaratustra, como se tivesse importância. Sabemos que as coisas ficam sempre mais vagas, que os sonhos são viciosos, que os medos são sempre interiores. Os animais atravessam sempre as sombras sem se assustarem. Admitimos os corpos e apaixonamo-nos pela sua vulgaridade. Inventamos então pretextos e desgostos e caminhos de acesso. As alucinações iludem sempre os outros. Entendemos o conhecimento e o medo que provoca. E as almas longas. E também os desejos. Distendemos então o corpo ao sol. O jardim tingiu-se de tons sujos. O casario em redor provoca dor. Em volta parece só haver deserto. O azul do céu continua estonteante. Talvez eu tenha já esquecido o caminho de casa. Sigo o rumo das aproximações, imitando os círculos num tenteio de pássaro. Dos lados dos caminhos crescem as giestas. Nas cortes, as vacas ruminam. Sente-se um cheiro a feno. O estranho é não haver gritos de crianças. As árvores parecem pesadas, feitas de bronze e abandono. O ar mal estremece. Tudo parece arder por dentro. As flores pontilham as bermas de alguma exuberância. Os olhares por detrás das janelas são sombrios, quase hostis. Avisto com alívio a casa ao longe. Por perto, ainda crescem malmequeres e algumas couves. A prudência e a paciência sempre a habitaram. Reconheço-a pela sua secreta identidade e porque me consegue devolver alguns prazeres da infância. A imagem da minha avó começa a tremer dentro da sua nitidez. O mundo era então feito de remendos e buracos. E pequenas aflições. Num pequeno banco continua sentada a imagem densa do meu avô. Sério na sua doença. Manco no seu amor. Escondendo dentro de si açudes e medos. E as cartas que nunca conseguiu escrever desde Angola. A minha avó descansa aconchegada pela sua serventia e pelo seu asseio. Repete certas palavras várias vezes para que ganhem algum valor. Sorri como se fosse um pormenor, mexendo ao mesmo tempo as mãos como se tivesse a ideia perfeita do contentamento. Sinto novamente o fascínio da febre e da beleza. A sua ausência desliza sobre as paredes e as telhas da casa. A sua recordação parece uma memória atravessada pelo brilho da desarticulação. Alguém estende o medo em cima dos lençóis de linho com que compõe a cama. A casa faz imaginar os cheiros. A poeira e as horas são mais delicadas. Sinto o ar a vibrar. Algo brilha no escuro e desaparece como se fosse um inseto. Nunca sabemos onde tudo acaba.


publicado por João Madureira às 07:15
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