Quinta-feira, 15 de Junho de 2017

Poema Infinito (359): Chuva de enigmas

 

 

Dá a impressão que os pássaros se beijam apenas uma vez na vida. Por isso ela é tão curta. E rápida. E cheia de música. As sombras não fazem parte do seu amor. O luar intenso da noite tornou as romãs anémicas. A sua doçura é quase misericordiosa. As suas bagas pétreas são dádivas de sangue. Neste jardim crescem agora as flores e os cantos convulsos. Os amantes duvidam das suas próprias mãos. Por vezes, morde-os a chuva. As estrelas enganam-nos. Eles pensam em suicídios lentos, imolam as uvas, fazem o tempo sair da sua linha. Crescem os anjos entre agosto e dezembro, fingem que nasceram através de um código secreto e que escrevem o seu amor com tinta invisível chinesa. As geadas mataram as fadas temporãs e as que resistiram vão ser sacrificadas em agosto. As fadas mais velhas perderam o seu viço e o seu brilho, qualquer abraço as pode matar. Sem elas, janeiro será um mês absurdo onde os verbos mais compridos serão cortados como cabelos. As acácias do jardim foram seguindo a orientação normal do Sol. As fadas alagam-nas com a luz roubada à Lua. Nos canteiros mais centrais foram feitos sulcos em forma de véus e depositadas as sementes e os segredos. A alegria foi disseminada no pouco espaço disponível do quintal. Os sentimentos mais raros foram concentrados junto ao poço. As silhuetas humanas começam a invocar os deuses mais ténues. É do hábito. Depois abandonam a estrada e os seus rostos parecem o de ninguém. Beijam-se como se fossem pequenos deuses e abençoam-se como quem espera morrer em breve.  A sua divindade é invertida. Parecem facas que queimam. Acreditam que podem cair na água do poço e apanhar a lua. Escrevem os lugares e mudam frequentemente de ilusão. As suas memórias são frias. A bela adormecida continua na floresta afogando-se no seu sonho de desejo. Todas as maçãs do quintal nascem agora possuídas pelo elixir da maldade. Os pêssegos perderam o odor. Não houve nenhum tormento, nem vai haver. As curvas dos gestos não são mortais. O tempo ganha novo ânimo. Não sabemos se isso é bom ou mau. A ilusão do salvamento dura apenas alguns minutos. A dor de escrever não para. Os analgésicos já não produzem efeito. Imagino florestas mágicas desenhadas por Paula Rego onde as árvores mais altas e frondosas exibem os corpos de lindos príncipes e princesas e duendes pendurados pelos pés como se fosse dia de matança. Começo a entender as tardes de dezembro, o caráter acidental do musgo e do azevinho e de toda a simbologia do barro transformado em figuras do presépio. É como ler a morte em vida. Começam então os espasmos de sol. O mar revolta-se por causa das horas. Os magos parecem cobras a silvar. Abraço-me ao teu tempo. Quero libertar-me do meu. Os segredos são como espelhos, como folhas de chá, como os olhares que passeiam de forma errada. O tempo passa mais depressa, batendo as suas asas como se fosse um colibri. O menino continua sentado junto da porta envidraçada que dá para a rua. Os seus olhos parecem círios no meio da escuridão. Durante o dia começou a compreender a beleza e a bondade. Começa agora a importar o medo. Os nomes das coisas mudam de lugar. Os sonhos ficam lassos e com enormes lances de escadas. As rosas dormem emanando o seu odor e exibindo os seus espinhos. Debaixo dos seus pés arde o tempo. A tranquilidade arrepia. As memórias escondem-se sempre no nosso passado infantil. O meu riso já não consegue mentir. As infinitas partículas do amor continuam a espalhar-se pelo chão.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Músicos

. Músicos

. 359 - Pérolas e diamantes...

. Pose

. No carnaval de Verim

. O senhor Ventura e o seu ...

. Poema Infinito (371): De ...

. Bombos e cabeçudos

. Músicos

. 358 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Vermeer

. No Louvre

. No Louvre

. Poema Infinito (370): A r...

. Louvre

. Louvre

. 357 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Quadros e Pessoa...

. Louvre - Interior - Pesso...

. Louvre - Interior - Escad...

. Poema Infinito (369): A m...

. Louvre - Entrada

. Paris - Sena - Noite

. 356 - Pérolas e diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (368): A e...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 355 - Pérolas e diamantes...

. Pose e olhares

. Homens, chouriças e garra...

. Homem sentado com vara

. Poema Infinito (367): A t...

. Na conversa

. Pensando

. 354 - Pérolas e diamantes...

. Porto - Sardinhas - S. Jo...

. Porto - Ponte D. Luís

. Porto - Telhados, Barcos ...

. O poema infinito

. Porto - Casas

. Porto - Bicicleta

. Como se escreve um haiku

. Porto - Ponte D. Luís

. Porto - Ribeira - São Joã...

. Porto - Ribeira - São Joã...

. Poema Infinito (366): A i...

. Porto - São João

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar