Quinta-feira, 31 de Agosto de 2017

Poema Infinito (369): A mecha do tempo

 

 

Hesito autoritariamente entre as vibrações que o ar faz dentro de mim. Imagino a casa, os cheiros, a inclinação das paredes, o redemoinho da luz, o tempo dos usos e as horas dedicadas à memória. O tempo está reduzido à sua própria sombra. As horas ficam mais leves e saltitam entre emoções. O espírito dos anos lambe a acidez do silêncio e do vazio. Aos poucos reencontro a entrada do tempo, o gosto diáfano das perguntas, o vestígio dos antigos painéis, o cheiro das árvores, a cor do fogo, a pressa da ansiedade e a amável hospitalidade da noite. Os fantasmas começam a enfraquecer, dissipando as sombras, revelando a serenidade. As horas ficam mais abertas e os passos das pessoas ficam mais ligeiros do que os bichos. Lembro-me então do apego à terra, do motivo do seu esquecimento, do vulto engrandecido dos conspiradores. As begónias continuam a crescer junto às janelas e insistem no seu sofrimento. Os pombos continuam a namorar nos telhados e a angústia dos gatos continua a revelar-se em janeiro. Oiço contar as mesmas histórias antigas eivadas de justiça e incoerências. Os sonhos revelam-se como fotografias analógicas e empalidecem. As meninas são como memórias largas, inundadas de enxovais e de namoros, com sexos alinhados e seios rijos. O vento sopra-lhes todos os sustos e todos os cuidados e todas as finuras e todas as utilidades dos seus corpos e, ainda, todo o fervor do seu sangue. Os rapazes aprendem depressa a distinguir com clareza os momentos do dia, o grau conveniente do humor e da prudência, a arte dos jogos e do galanteio, os enredos amorosos, a ronda das manhãs e a adaptação aos intrincados hábitos domésticos. Sentem o silêncio como uma nova forma de perturbação. As manhas da sedução continuam a obedecer a regras severas. A inteligência, nestes casos, é indiferente. Mesmo de forma discreta, as feições dos rostos ganham cintilações obscenas. A raiz da juventude é dissipadora. O futuro move a confiança do destino dos homens, assusta o tempo, transtorna os sonos, dita os laços de família. A chuva miudinha torna os jardins intemporais. Enche-os de verde e de nomes, dita-lhes a transparência, sossega-lhes as noites. A chuva mais grossa bate nas vidraças, amedronta o sono leve das crianças e abafa o pó das folhagens. Os teus dedos ficam cintilantes quando dizes adeus, são como canções inquietas. O destino enrola-se aos nossos corpos e faz-nos sentir culpados. A minha miopia torna as mulheres mais loiras, os ramos das árvores mais difusos, a literatura mais imaterial, o idealismo mais humilhante, o humor mais melancólico, as cabras mais desequilibradas e as vénias mais habilidosas. A alegria nasce em mim como se fosse raiva, destituída de adereços. O tempo não me dá sossego nem me traz pardais. Apenas fio com ele a memória dos meus pais. O tempo é cada vez mais um movimento indistinto, como uma sombra dentro de outra sombra. É como uma divindade cega, como o jogo do desespero. O vazio preenche o espaço da divindade. Os corpos distendem-se. Contemplo-lhes os pormenores, o seu pesado crepúsculo. Depois fecho os olhos. Novamente o tempo reedita a determinação em envelhecer. Nos montes continuam a crescer giestas, carquejas e tojos. Os estábulos estão frios e os caminhos ocultos. O freixo já não indica o atalho para casa. Os terreiros estão definitivamente silenciosos. O único som que se ouve ao redor é o dos nossos passos.


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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2017

Louvre - Entrada

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Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

Paris - Sena - Noite

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Segunda-feira, 28 de Agosto de 2017

356 - Pérolas e diamantes: Compaixão pelos buracos da estrada

 

 

 

Contento-me com a ideia de que os amigos que me restam podem não ser os melhores do mundo, mas sei que são os meus melhores amigos no mundo, apesar de por vezes me mentirem para não me apoquentarem. Eles sabem que por vezes me pareço com Maquiavel, mas que, definitivamente, não sou maquiavélico.

 

Rendi-me ao sistema filosófico mais simples: já não quero mudar o mundo, tento somente mudar a vida, começando por mim próprio. Já não alinho em seitas ideológicas. Deixei de ser sectário.

 

Não há seres humanos eleitos, nem perfeitos.

 

Esses ditos que tais contentam-se com as roupas e os privilégios. Conheço-os pelos indícios. São os que dizem sempre que sim. Afirmam-se sempre dispostos a discutir tudo porque nunca discutem nada. Os que os rodeiam tocam-se de ombro e proclamam: Olha que postura!

 

Depois do teatro da propaganda e do quererem acordar quem nunca adormeceu na formatura, deixam de revelar interesse em fazer as coisas e até de se interessarem se as conseguem fazer bem.

 

Apenas se preocupam em deixar a imagem de que são ágeis, oportunos, que estão sempre prontos e, evidentemente, sem discutir, sem pensar, sem criar problemas.

 

Querem fazer de nós papalvos, para que se diga deles que são bons rapazes, dignos de confiança, e outras balelas que se pronunciam por conveniência. É tudo engano.

 

A fé já não basta para aceitar a humanidade. O mundo já não é eterno e muito menos estratificado, onde os bons estão no céu, os regulares ocupam o purgatório, os maus se estorricam no inferno e os inocentes, como eu e o estimado leitor, ou leitora, pois para o caso tanto monta, vagueiam pelo limbo, apesar de termos feito as nossas concessões, pensando que a alma é como um saco transparente cheio de virtudes e boas intenções.

 

Há os que com apetite comem do bom e do mau porque, dessa forma, assim manjam duas vezes. Pois que lhes faça bom proveito à barriguinha e ao peito.

 

Esses lembram-me pérolas falsas, também chamadas “pérolas de lúcio”.

 

Aprendi no livro Sangue Azul Gelado, de Iúri Buida, que se podem fazer das escamas da espécie mais comum do citado peixe (Alburnus lucidis, que abunda nos lagos e rios locais lá da Rússia). Misturam-se diminutos cristais de guanina com uma solução de gelatina, vidro líquido ou celuloide, depois injeta-se a substância conseguida numas bolinhas de vidro manufaturadas em pequenas fabriquetas e o resultado final são uns colares de pérolas baratos para as mulheres do povo.

 

Deles devemos fugir e sussurrar, antes de adormecer, a oração infantil: “Vem-te deitar perto de mim, anjo meu, e tu, Satanás, afasta-te de mim, das janelas, das portas, do meu leito.”

 

É da natureza humana a inclinação para o mal, porque o mal não requer nenhum esforço. O bem sim.

 

Eles transformam-se em atores. Vivem as vidas das criaturas imaginárias, transformam o seu aspeto, falam com vozes alheias. São mentirosos, bruxos ou magos que violam a lei natural das coisas ou, então, convertem-se noutras pessoas, mesmo que por um curto período de tempo.

 

No seu futuro existe cada vez mais passado. Não possuem nem ideais nem ideias, somente o desejo de alcançarem o poder, para, aí chegados, encherem a pança e tratarem de adormecer.

 

Transportam sempre consigo o cinismo, a hipocrisia e a irresponsabilidade. Evitam qualquer tipo de esforço intelectual ou emocional. E isso agrada às massas. A cultura, dizem eles, não tapa os buracos da estrada.

 

Tomaesta Ivánovitch, antes de falecer, confidenciou que a compaixão pelos pobres, humilhados e ofendidos nunca se deveria transformar em sentimentalismo, porque os humilhados e ofendidos não são nada melhores do que os que humilham e ofendem. E acrescentou: “Mas isso não significa que não mereçam compaixão.”


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Domingo, 27 de Agosto de 2017

Na aldeia

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Sábado, 26 de Agosto de 2017

Na aldeia

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Sexta-feira, 25 de Agosto de 2017

Na aldeia

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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2017

Poema Infinito (368): A extensa eficiência do quotidiano

 

 

Entro depressa na noite porque está impregnada de quotidiano. Durante o dia, o sol foi eficiente. E extenso. A sua luz proporcionou-nos uma festa e alagou as casas. Encheu cântaros, bacias e alguidares, abrilhantou o calçado, orientou o olhar das crianças, pôs reflexos novos nos vidros das janelas. A faca cortou o pão, o vizinho agregou o conduto, a loucura ficou mais acessível. Ninguém ficou indiferente. O sol veio de longe e foi iluminando os sítios, a pressa da gente dos bairros e as penas das galinhas, dos patos e dos perus. Renasceram-nos os olhos na praça. Todos os regressos foram lembrados e celebrados. O tempo acompanhou o voo dos pássaros. Depois as estrelas morreram no poente e os rostos estalaram enquanto as palavras começaram a planar sobre o manto da inquietação. Foi então quando o teu sorriso desceu dos montes até chegar ao rio. Dizem que é dessa forma que os corações desaguam. Foi em Jerusalém que os homens aceitaram a morte, onde as mulheres começaram a dizer adeus com os lenços, onde os sinos desfolharam o tempo, onde o silêncio do sudário de Cristo tomou o lugar no passado. Também foi lá que a música preencheu as almas e abriu novos espaços. A cruz de Jesus foi sempre pouco funcional, quer para os torturadores, quer para o torturado. A verdade espalhou-se pelos jardins, as mãos dos fiéis ficaram tristes de tanto saudar. Desfraldaram-se colchas, saudaram-se as feridas dos condenados, bebeu-se paixão como se fosse amor. Os donos do mundo olharam para o sofrimento e pensaram que ele serve para purificar os outros. Os seus rostos parecem versos pintados de fresco. A voz do poder justifica a arquitetura incondicional da fé. A chuva, quando vier, cantará nas ruas o desgosto dos homens. Os pecadores confessam-se e agradecem o milagre de estarem vivos. Aprenderam a esperar pelas estações, a conviverem silenciosamente nos dias de jejum, a tornar submissas as mãos das crianças, a esquecerem os sonhos e a condição do arrependimento e também o elogio triste da imortalidade. Pensam renovar a vida desenhando o sinal da cruz, exigindo sacrifícios aos olhares, esperando a obediência, antecipando o tempo das injustiças, tornando a caridade uma profissão, clonando as barbas de Abraão, plantando hortênsias nas manhãs de domingo, desertando da alegria, tornando-se o brilho fugitivo do olhar dos deuses, instalando a sua camilha num recanto do céu. A tarde acompanha a curvatura da terra e propaga a primavera pela órbita das oliveiras. Escolhem-se os pensamentos, acendem-se no regaço das mães os lírios do tempo, saltitam nos olhares os sorrisos da infância. Enchemos as mãos de vento. As ausências são como resina brilhante, cheiram como os cedros, brilham como o destino. Envolvemo-las em palavras. Escutamos o seu silêncio junto com o canto pontiagudo dos pássaros de arribação. O tempo equilibra os mares e os caminhos, pressente a chuva, adivinha os gestos e orienta os pensamentos. Repouso os meus versos na boca do dia e lavarei os pés no primeiro orvalho. As coisas gloriosas guardo-as dentro de ti e transformo as lágrimas em lindas metáforas. O tempo rouba as horas mais domésticas. Os teus lábios arredondam-me de prazer o pénis. Estou à beira do abismo. Cubro-te o corpo de dádivas. Longe de Jerusalém, os corpos voltam à vida. O Senhor sente as folhas que morrem. Erguem-se as estações como se fossem braços. Três gestos decisivos libertam as mãos e desenham no universo os desejos mais antigos.


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Quarta-feira, 23 de Agosto de 2017

Na aldeia

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Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

Na aldeia

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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017

355 - Pérolas e diamantes: A fé na palavra imortal

 

 

O objetivo dos artistas romanos era imortalizar a pessoa em estátuas de bronze ou mármore, para dessa forma “não permitir que as feições humanas fossem esquecidas ou que o pó dos séculos prevalecesse sobre o homem”. O grande objetivo da escultura romana era o de celebrar o indivíduo em toda a aceção da palavra: tornar público, honrar e preservar.

 

Já os gregos eram os novos artífices da retórica e da prosa literária. Isócrates definiu um humanismo grego, uma cultura da língua falada e escrita. Escreveu: “As pessoas a quem chamamos gregos são aquelas que partilham, não o nosso sangue, mas a nossa cultura.” Essa cultura foi essencialmente uma realização de Atenas, que ele, tal como Tucídides, viam como “a escola da Grécia”. Foi a palavra grega, projetada na arte nascente da prosa, que constituiu uma nova força para estabelecer a unidade helénica.

 

Os gregos acreditavam que “as palavras verdadeiras, as palavras em conformidade com a lei e a justiça, os reflexos de uma alma boa e digna de confiança”, iriam construir uma comunidade ainda mais vasta.

 

Todos sabemos agora que a cultura ocidental, a educação que civilizou o Ocidente, se fundamentou nessa fé na palavra imortal.

 

E os cultores dessa arte passaram a ser admirados e até mesmo apaparicados por reis e papas.

 

Chaucer, por volta de 1366, chegou a conhecer Boccaccio e, numa viagem a Itália, chegou a adquirir os livros de Petrarca e a Divina Comédia de Dante.

 

Eduardo III manteve-o ao seu serviço durante muito tempo e, pelos serviços prestados, chegou mesmo a conceder-lhe um jarro de vinho por dia até à sua morte.

 

Mas até as melhores histórias terminam de forma trágica.

 

Quixote é vencido pelo Cavaleiro da Lua Branca, que o faz cair do cavalo durante a luta, e este pede-lhe: “Leva a tua lança para casa, ó Cavaleiro da Lua Branca, e leva a minha vida, uma vez que já me roubaste a minha honra.”

 

O Cavaleiro vencedor recusa e apenas exige que “o grande D. Quixote” se retire para a sua aldeia durante um ano.

 

Quixote, regressando à sanidade, e ao deixar Barcelona, o local da sua contenda, olha para trás e diz: “Aqui era Troia; aqui a minha sorte, e não a minha cobardia, roubou-me a glória que ganhara; aqui a fortuna aplicou sobre mim as suas fantasias e caprichos; aqui as minhas proezas foram obscurecidas; e aqui, finalmente, a minha estrela pôs-se para não mais nascer.”

 

Já o seu anafado escudeiro, ao aproximar-se da aldeia, põe-se de joelhos e diz: “Abre os olhos, amada terra natal, e contempla o teu filho, Sancho Pança, que para ti regressa. Se não volta rico, volta pelo menos bem derrotado. Abre os braços e recebe também o teu outro filho, D. Quixote, que regressa vencido pelo braço de outro, mas vitorioso sobre si próprio, e isto, disseram-me, é a maior vitória que se pode desejar.”

 

Mas D. Quixote, o engenhoso cavaleiro-fidalgo, não consegue sobreviver por muito tempo à vida pastoril. Com a sanidade recuperada, e com a desilusão que daí lhe advém, vem a doença. Por isso avisa os incautos: “Tenho notícias para vós, gentil senhor. Já não sou D. Quixote de La Mancha, mas Alonso Quijano.”

 

Todos sabemos que depois de termos sido heróis já nunca conseguimos regressar à condição de simples mortais.

 

À beira da morte, o cavaleiro da triste figura, o herói que mais prezo e admiro, vira-se para Sancho e diz: “Perdoa-me, amigo, por ter feito com que parecesses tão louco como eu ao levar-te a cair no mesmo erro, o de acreditar que ainda há cavaleiros andantes neste mundo.”

 

Ao que Sancho responde a chorar (e eu também, confesso-o de lágrimas nos olhos): “Ah, senhor, não morra, e em vez disso aceite o meu conselho e continue a viver durante muitos anos, pois a maior loucura de que um homem pode ser culpado nesta vida é a de morrer sem uma boa razão, sem que ninguém o mate, assassinado apenas pelas mãos da melancolia.”


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Domingo, 20 de Agosto de 2017

Pose e olhares

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Sábado, 19 de Agosto de 2017

Homens, chouriças e garrafões

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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

Homem sentado com vara

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Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017

Poema Infinito (367): A técnica invisível do esforço

 

 

Encosto o ouvido ao teu ânimo e sorrio. Existimos pelo meio de diversas canções. Essa é a nossa língua partilhável. Multiplicamos dentro de nós o mundo, as animais mais vagos, os filósofos, os enciclopedistas. Organizamos o vocabulário dentro de armazéns portáteis. Os problemas da poesia são bem mais difíceis que os da matemática. A álgebra é uma oração rigorosa. A música conquista o ar. Vivemos dentro de sítios desprotegidos, onde os momentos respiram doses excessivas de oxigénio, onde o tempo é um local perigoso. As fotografias expõem o seu misticismo, a forma constante dos projetos, as armadilhas da carne, a pressa dos segundos, a localização precisa do futuro, as estacas simultâneas que unem a terra ao céu, a excelente rapidez dos estilos, todos os procedimentos físicos, o reequilíbrio dos desencontros, todo o mobiliário que cobre a desilusão do chão ao teto. Os corpos continuam a ser corajosos, a alimentar o desejo dos átomos, a dar transparência à obscuridade, a dormir sonhando com o destino das distâncias. As conclusões são sempre endereços homogéneos, onde se incluem os cansaços domésticos, os adereços das belezas efémeras, o luxo da felicidade, a mistura perfeita das substâncias incompatíveis. Alojamo-nos dentro dos ventos, pensando livrar-nos das tempestades. Na cidade até os murmúrios se pagam. As metrópoles transformaram-se em ângulos. As crianças sobem os montes pensando que no cume encontrarão os sonhos que as habitam. Entretanto desenham a fisionomia dos dias. Progressivamente acenderão os espantos e aprenderão a vestir o instinto do inimigo e a cheirar o indício do medo. Dizem-se felizes. Resumem as maravilhas do tempo e as suas perversões. Aceleram os seus olhares. Amadurecem os inimigos, enaltecem as viagens, percorrem as distâncias como se fossem animais mitológicos. Sentem falta de ar quando se levantam do chão. Deixam então de acreditar em fábulas para crer em algo bem pior: os cálculos, os equilíbrios e as compensações fúteis. O amor não é proporcional à realidade. As mulheres são rigorosas na exposição das suas coxas, por isso os poetas as enchem de sintaxe. Eles não se cansam de repetir notícias absolutamente exóticas. No mundo há cada vez mais garrafeiras e menos bibliotecas. Colecionam-se vinhos como se fossem poemas. As flores tomaram de vez o lugar das ervas daninhas. Os bordéis são como templos e os poetas acumulam dívidas como se fossem loucos delicados. O crime continua a compensar e os incautos continuam no cais à espera que a felicidade chegue de barco. Respiramos agora o ar e o desenho dos objetos. Os dias ficaram mais frios, a semântica mais perfeita, a metafisica mais disponível. Aprendemos com o tempo as inúmeras possibilidades dos desencontros, a hospitalidade dos cheiros, o desagrado das recaídas líricas. A chuva cai de forma organizada, o céu continua intelectualmente cinzento, apenas a simpatia fica ortograficamente um pouco mais molhada. Até os equilíbrios ficam mais exaustivos. Repetimos as surpresas, construímos a indiferença, entendíamo-nos com certas aventuras desnecessárias. Apesar do culto da agilidade, avançamos pela floresta dos pormenores. O tempo continua a descoordenar as faces, as técnicas e o esforço das boas famílias. Dividimos os sentimentos como se fossem pão. A simpatia fala sempre uma língua estrangeira. Por isso, os mudos estendem sempre o olhar para a boca de quem lhes fala.


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Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017

Na conversa

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Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

Pensando

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Segunda-feira, 14 de Agosto de 2017

354 - Pérolas e diamantes: O desvio ligeiro e o enorme erro

 

 

 

Aprende-se sempre muito lendo bons livros, além do prazer que nos dão.

 

Com Os Criadores – Uma História dos Heróis da Imaginação aprendi, por exemplo, que a moda de os atletas gregos tirarem a roupa talvez tenha sido imposta quando Orsipo de Mégara, nos jogos olímpicos de 720 a. C., perdeu os calções a meio de uma corrida. Mesmo assim, venceu, e os outros, por companheirismo, seguiram o seu exemplo de nudez.

 

Outros recordam que num dos festivais em Atenas os calções de um dos corredores escorregaram, levando-o a tropeçar antes de chegar à meta. Para evitar, no futuro, acidentes semelhantes, os participantes foram obrigados, por decreto, a apresentar-se nus.

 

Aprendi que “ginástica”, palavra grega para atletismo, significa literalmente “exercícios executados quando se está nu”. Até porque, nos eventos mais populares, a luta livre e o pancrácio, seria muito difícil manter um traje decente.

 

Em Olímpia as mulheres não podiam assistir aos jogos dos homens. Pausânias conta que uma mulher que fosse apanhada nos jogos dos homens seria atirada das ravinas do monte Typaeum.

 

No seu discurso fúnebre, Péricles declarou que a maior glória de uma mulher era os homens não falarem dela, nem bem nem mal. Ao que se sabe, as corridas das mulheres eram organizadas apenas para as “virgens” e o casamento (quase sempre aos 18 anos) acabava com a carreira desportiva da mulher.

 

Embora as competições atléticas exibissem claramente modelos masculinos do corpo adulto, não existiam iguais possibilidades de observar o corpo feminino. Praxíteles (nascido cerca de 390 a. C.) foi designado como o “inventor” do nu feminino, devido à sua Afrodite de Cnido, de lendária beleza.

 

Antes do seu tempo, era o ideal masculino quem dava forma às esculturas femininas.

 

Conta-se que Zêuxis (cerca de 400 a. C.), quando decidiu pintar uma Helena para o templo de Hera, pediu ao povo de Cróton que lhe mostrasse as mais belas virgens para lhe servirem de modelo. Em vez disso, conduziram-no a um ginásio, mostraram-lhe os rapazes que ali treinavam e sugeriram-lhe que imaginasse a beleza das suas irmãs.

 

Parece que os escultores e pintores arcaicos não trabalhavam em estúdio com modelos, mas antes observando rapazes praticando exercício físico.

 

Mas Zêuxis, que não conseguia repousar descansado enquanto outros teimavam em acordar o povo que supostamente dormia na cidade, não se deu por vencido e insistiu num modelo feminino adequado. Veio então o conselho público em seu auxílio e deu-lhe razão.

 

O bom Cícero, que não era hipócrita, escreveu mais tarde que “ele não acreditava poder encontrar num só corpo toda a beleza que procurava” e que por isso selecionou cinco virgens.

 

Os sábios Gregos resolveram imaginar um “inventor” da arte da estatutária e resolveram chamar-lhe Dédalo.

 

Ao que se sabe, o lendário artífice (690 a. C.) nasceu em Atenas, mas sentia-se inquieto e incomodado com um sobrinho que não dormia (razão pela qual não podia ser acordado), que inventara a serra e a roda do oleiro e que tecnicamente ameaçava ultrapassá-lo.

 

O invejoso Dédalo atirou-o da Acrópole, provocando-lhe a morte, pelo que foi obrigado a deixar a cidade.

 

Foi este Dédalo, que no tempo do culto das imagens de madeira, designadas por daedala (“maravilhas da arte”), lhes deu forma humana reconhecível. Diodoro Sículo (historiador grego do século I a. C.) conta que “ao ser o primeiro a abrir-lhes os olhos, afastar-lhes as pernas e erguer-lhes os braços, conquistou a justa admiração dos homens, pois antes do seu tempo as estátuas eram feitas com os olhos fechados e os braços caídos e colados ao corpo”.

 

Outros escultores primitivos, discípulos de Dédalo, ficaram conhecidos como os Dédalis, os quais, segundo se diz, foram os primeiros a esculpir o mármore.

 

Os kouroi (jovens), que se tornaram o protótipo do nu masculino clássico, quase não se distinguem, em termos de postura, das obras egípcias.

 

Policleto, homem que não dormia para não ter de ser acordado pelo príncipe encantado, repetia o axioma de que “a perfeição só se consegue através de muitas contas”. Ou seja, mesmo que um escultor se desviasse apenas ligeiramente de cada uma das suas medidas, o somatório poderia resultar num enorme erro.

 

Ou seja, o cânone podia também proteger o escultor do gosto inconstante do público.

 

Para os despertadores de mesa-de-cabeceira, aqui fica uma história ainda contada sete séculos após a morte de Policleto.

 

Policleto construiu duas estátuas ao mesmo tempo. Uma tinha a nítida intenção de agradar ao público e a outra era feita segundo os princípios do tratado. De acordo com a opinião de cada individuo que visitou o estúdio, foi alterando aqui e ali, mudando a forma, submetendo-a ao juízo de cada um dos observadores. Quando finalizadas, expô-las ao público. Uma maravilhou e a outra foi ridicularizada. Seguidamente Policleto disse: “Mas aquela que não é do vosso agrado foi a que vocês fizeram, enquanto a que vos deslumbra é a da minha inteira responsabilidade”.


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Domingo, 13 de Agosto de 2017

Porto - Sardinhas - S. João

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Sábado, 12 de Agosto de 2017

Porto - Ponte D. Luís

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Sexta-feira, 11 de Agosto de 2017

Porto - Telhados, Barcos e Rio

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Quinta-feira, 10 de Agosto de 2017

O poema infinito

 

 

 

Existe qualquer coisa esquecida no teu rosto que se inclina sobre a penumbra da força da tristeza. Dizes: esqueço facilmente os nomes silenciosos da virtude. A manhã rompe em brasa sobre o rumor da terra violenta. A tarde, quando chega, vem literalmente cercada de lágrimas ardentes de confusão. O meu rosto perde-se na noite parada. Lá estão inteiras nos teus olhos as arcadas de fogo e as pontes e o frio e o tumulto do desejo e a inspiração misteriosa e os espinhos e o calor e o degelo e o sexo repleto de inspirações misteriosas. E as mãos. Lá estão as mãos expostas com o coração a cobrir-se de sentido. E a forma das mãos e do sexo e do fogo. Lá estão as distâncias infinitas das palavras adormecidas. E os braços e os gritos dos algozes. Lá estás tu agitada pelo sentido inacessível dos corpos. Choras num balanço violento de espasmos enquanto as crianças gritam por dentro das nuvens purificadas da infância que irão perder. As folhas mortas descobrem a memória errante da glória. A tua boca orvalha-se vítima do desejo invasor do sangue. As tuas mãos são a minha casa. O teu sexo humedece abrindo as suas escadas de intimidade. Estou universalmente só à tua procura. As manhãs líricas cantam as palavras transfiguradas. O sangue atravessa a noite na angústia do amor. São estes os primeiros sinais dos beijos loucos e desinquietos que dormirão na tua boca. Nascem formas sobre as flores murchas de Outono. O beijo traidor do tempo aumenta a aliança com a morte. As catedrais das montanhas acariciam-te a face da solidão. O sangue atravessa o sopro alucinado do perdão. Batem as palavras à porta da madrugada. A manhã começa a dispersar a luz do teu sorriso. Perdoa-me o poema… perdoa-me… existe qualquer coisa que se inclina no teu rosto…


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Quarta-feira, 9 de Agosto de 2017

Porto - Casas

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Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

Porto - Bicicleta

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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

Como se escreve um haiku

 

 

Tenho uma vida tão ocupada, mas gosto tanto de poesia, que a leio em voz alta enfiado no carro enquanto as escovas cilíndricas da lavagem automática fazem o seu serviço. Leio Herberto Helder, Al Berto, António Ramos Rosa, Fernando Echevarría, Fernando Pessoa, etc., tendo como música de fundo os sons mecânicos da estrutura metálica que vai e vem fazendo chuva e depois insiste novamente soprando forte ventania na chapa metálica do meu bólide. Pode não parecer logo à primeira vista, mas um carro a brilhar também tem a sua poesia.

 

Mas não é de lavagens automáticas que vos quero falar hoje. A bem dizer hoje não sei bem do que vos quero falar. E seguramente também não é do meu carro. Podia falar-vos de política, mas não tenho vontade. O que por aí abunda mais são comentaristas políticos, chorões e aldrabões. As televisões estão cheias deles. Há muito quem comente e pouco quem faça. E nas lavagens automáticas também se comenta muita coisa, mas faz-se pouco. São as máquinas quem faz o trabalho árduo. E essas possuem a rara virtude de nada comentarem. Limitam-se a fazer o seu serviço com qualidade. Nas estações de serviço comenta-se o futebol, o preço da gasolina e o tempo. Podemos mesmo dizer que Portugal é um país de comentaristas e pessoas que lavam os seus carros nas lavagens automáticas.

 

As pessoas que vão às estações de serviço gostam muito de comer bolos e beber café. Gostam especialmente de natas, mas também se deleitam com queijadas, croissants, madalenas ou bolas de berlim. As pessoas quando comem, sobretudo bolos, ou bolachas, ou torradas sem manteiga, também têm muita poesia. Especialmente as que comem muito e não engordam. Essas são pessoas afortunadas. Por isso podem ler poesia à vontade pois não lhes provoca efeitos secundários. Não sei se sabem, mas a poesia provoca muitos efeitos secundários. Sobretudo a boa. A outra dá ressaca ou provoca azia.

 

Quando vou a uma lavagem automática, por vezes ponho a música alto para experimentar o som da aparelhagem do meu bólide. E ela tem um som que inebria. Eu comprei o meu bólide, que é um carro sport cheio de genica, por causa, sobretudo, da aparelhagem. Aquela aparelhagem tem muita poesia, é a modos que um poema do Al Berto repleto de vitalidade e sublimação. Depois também gosto de contemplar as gotas de água a deslizar pelo vidro traseiro do meu bólide. Muitas vezes pego na minha Nikon de bolso e fotografo o vidro pejado de linhas sinuosas desenhadas pelas gotas de água sopradas pela maquineta.

 

A minha Nikon de bolso também tem muita poesia. Comparo-a aos poemas haiku. E aqui vos deixo um de minha autoria: No carro sujo / a água / escreve. E é disto que hoje vos vou falar, da poesia haiku e da nobre arte de a escrever.

 

À primeira vista o poema de apenas três versos parece pequeno. E é pequeno. Todos os poemas haiku são pequenos. Têm todos apenas três versos. Mas isso não quer dizer que não dêem muito trabalho a escrever. A poesia é um trabalho árduo. O seu resultado pode parecer singelo, mas não é. Chamo no entanto a vossa atenção para o facto de que o que a seguir se dá conta pode ser o resultado (e foi) de muito mais trabalho do que aquilo que parece. Posso dizer-vos, sem comprometer a minha discrição, que fiz dezasseis cortes, dois acrescentos e cinco revisões.

 

Agora, se estão dispostos à explicação, façam o favor de me seguir. Para escrever o meu haiku comecei por: O meu carro preto e sujo / quando está na lavagem automática a apanhar com a água / fica como se tivesse sido escrito. Convenhamos que assim não fica lá grande coisa. É muito extenso. Há palavras a mais em todos os versos. Então temos de o trabalhar.

 

Desfazemo-nos logo no primeiro verso do pronome possessivo e do primeiro adjectivo, pois os  dados relativos ao proprietário da viatura e à sua cor (não a cor da proprietário, bien sur, mas sim a do bólide) não interessam ao leitor, nem importam à qualidade do poema, nem aproveitam à excelência da linguagem poética, por isso vão fora. O primeiro verso fica então: O carro sujo

 

No segundo verso decido-me por um corte radical (ou melhor será dizer, uma barrela) e fica apenas o nome final que é o elemento fundamental. Então ficamos apenas, e só, com o artigo definido e o nome: a água… Mais um pouco e era harakiri (腹切り) puro, ou Seppuku (切腹). Mas a arte está em saber o que cortar e quando parar.

 

Relativamente ao terceiro verso decido-me mesmo pelo Seppuku (切腹), ou harakiri (腹切り), por isso vai todo à vida e substituo-o pela forma verbal escreve. Sendo assim temos: O carro sujo / a água / escreve.

 

Ficando deste modo, o artigo definido “o” do primeiro verso tem de ser combinado com a preposição “em” para dar lugar ao locativo “no”.

 

Sendo assim, a versão final fica desta forma: No carro sujo / a água / escreve. 

 

Podem os amigos leitores comentar que o único adjectivo também podia ir à vida. E até podia, sim senhor. Mas para a água escrever algo que se veja, o carro, na minha perspectiva, tem de estar sujo. E essa foi a razão porque deixei na terceira posição o adjectivo a adjectivar o que tinha de ser devidamente adjectivado.

 

E por hoje é tudo. 


publicado por João Madureira às 07:15
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Domingo, 6 de Agosto de 2017

Porto - Ponte D. Luís

São João - Porto - Junho 2016 219 - Cópia.jpg

 


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Sábado, 5 de Agosto de 2017

Porto - Ribeira - São João

São João - Porto - Junho 2016 234 - Cópia.jpg

 


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Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

Porto - Ribeira - São João

São João - Porto - Junho 2016 361 - Cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 3 de Agosto de 2017

Poema Infinito (366): A identificação do sacrifício

 

 

Perdemo-nos no palheiro do tempo à procura da agulha com que se coseu o sentido da vida. Por ali anda o cheiro da meninice e a sombra da mocidade, cobrindo por vezes o sol ou trazendo a claridade. A imagem do momento é já outro local. Os teus olhos são tentadores. Os meus pedem água porque adivinham a tua exaltação. A terra é possessiva e os rios correm como versos lentos. A saudade está agora emoldurada como se fosse um retrato imenso. Rima a saudade com a semelhança. Reproduzo o gosto de ser criança. Mas as imagens mudaram. As sementes puras são repentinas. Os profetas anunciam novos dias, um tempo renovado, são como as rotinas do sol pousando sobre as colinas. Acordamos de um sono paciente tentando futurar o alvorecer. A serenidade continua inquieta. O nosso salvamento germinará dessa forma de imprecisão, dessa proximidade com a alvorada, dessa luz construída sobre os abismos. A esperança é fiel à consciência, à paixão temerária do passado. Veste-nos o sol com um limbo de candura e júbilo. O rasto do dia de amanhã foi encontrado hoje. A voz dos pássaros quebra o silêncio da claridade. Os versos parecem condenados ao purgatório à espera da purificação de serem ouvidos. Alguém canta dentro da memória. Os meninos afinam as suas imagens rústicas. Olhamos para o poente, a tarde sorri de forma aberta, os nossos sexos foram de novo sacramentados. As horas parecem distraídas, adivinhando a solidão da noite, o seu desassossego, a sua eternidade parada. No jardim aberto à luz da vida crescem flores de infância, rostos cândidos, destinos recuados, jogos da cabra-cega, adorações subversivas, ervas da inquietação, folhas do tempo, flores do perdão, negativos fotográficos, arbustos de claridade, mitos, amores perdidos, vontades embriagadas, portas de evasão, vegetais de rebeldia, novos pecados originais, versos amargos, árvores de pesadelo, momentos perdidos, expressões instintivas, flores de recusa, sínteses, exatidões, raros momentos de inspiração, arvorezinhas da impaciência, versos de fantasia e inutilidade, flores de outros anos e milagres de imaginação. Nos templos moram agora os heréticos iluminados, deusas do amor pornográfico e anjos indiretos. Os animais no paraíso morrem de fome e sede e de falta de vontade. São possuídos pela raiva das paisagens, pelos comportamentos vigilantes. Adão e Eva confundem tudo: o bem e o mal, o instinto e a razão, a verdade e a mentira, Deus e o Demónio, a normalidade e a loucura, a pureza e a dissolução. E celebram os deuses sublimados. No entanto, sofrem a vida sem horizontes, os gritos apertados, a solidão, a forma negativa de benevolência, o infiel amor de Deus. Depois desesperam. E contam fábulas famosas e moralizadoras em verso e em prosa. Toda a gente os acha inteligentes porque fixam os nomes, cantam a fartura e dizem conseguir ouvir os segredos divinos. O sono que antecede a eternidade navega num mar de tempo parado. Na floresta corre uma ligeira brisa, a tarde ondula na sua calma, na ramagem de algumas árvores crescem de forma invisível poemas e silêncios. E evidências. A solidão continua pendurada nos ramos mais altos dos carvalhos. Os pássaros começam a perder os seus nomes. As horas prendem-se umas nas outras pensando que vão morrer. Cristo foi uma vez mais identificado dentro da sua via-sacra, mordido pelo beijo de Judas e pelo chicote do soldado romano. O povo que diz amá-lo reinicia o seu prenúncio de lamento. O céu é, afinal, um abismo de pecadores.


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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

Porto - São João

São João - Porto - Junho 2016 446 - Cópia.jpg

 


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