Sábado, 30 de Setembro de 2017

Sentadas

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Sexta-feira, 29 de Setembro de 2017

Bancos de pedra

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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

Poema Infinito (373): A hora da visitação

 

 

A ira transforma o dia em pó. O futuro vibra seguro do seu juízo de valor. Criaturas ressuscitam trespassadas pelas respostas escritas nos livros mais antigos. As perguntas continuam impunes. Salve-nos Deus da piedade, desse seu carinho amargo, da remissão dos pecados, de penar na cruz, dos choros desperdiçados, da absolvição dos malditos, da redenção dos benditos e dos dias lacrimosos, prostrados, remediados e contritos pelas rezas. Afundamo-nos na noite, no fogo da caridade, sonhamos com o sermão aos peixes. Sentimos a brevidade da vida, a direção da água que se repete, o arrojo verbal dos pregadores, a presunção da audácia, a escravatura humana do tempo, o som difuso das ovelhas tresmalhadas. Alguém acende o lume com uma concha de sol. Aceitamos então o silêncio, a noite e a memória dos corpos. Visitam-nos orações desmerecidas, pecados e preces. Vagaroso e profundo é o frio do ferro. O tempo flutua. As imagens são como erros. Até a realidade se oculta. A dúvida dos anjos mistura pedras e flores. A alegria derrama dor. O universo é vagaroso. Os meninos continuam a perder as lágrimas, a afligir-se com as bolas, a fazerem o pino ao contrário. Levam-nos cavalos de fogo. Os cavaleiros são como sombras de muros que caem nos precipícios invocando Deus. Dorme o tempo numa catedral emprestada. As sementes comovem-se na terra. Nem no sono sossegamos. Sentimos a ausência da saudade. As teias constroem-se fio a fio. O futuro continua a ser feito de passado. A voz desmente sempre a divindade. Parece que tudo arde. Tenho vontade de ir. Nos montes acomoda-se o nevoeiro, as aves sossegam gerando os seus ovos. O pão é escuro, o horizonte estéril. Esta paz é feita de sombra. Os rostos pardos são imagens de inocência. Os seus olhos cansados refletem o medo. Saem as horas de nós e sobem como o fumo de tudo aquilo que arde. Tudo está disposto como no enigma de Deus: os espinhos, o sangue e os céus invadidos, as pedras, a misericórdia, os filhos que regressam e aqueles que se vão, os atos demoníacos, a insensatez, as moedas com que se pagam as traições, as chagas e os estigmas. É tempo de provação. Os segredos são perduráveis. O tempo é lonjura. Nascemos do nada. Deus também aí foi gerado. Somos filhos da dor e da amargura, da dignidade do resgate, das horas desiguais, do espanto, da solicitude, da vontade oculta, do sentimento frágil da força, da atenção e da luxúria, da noite e da aurora, da espera, do amor e do vazio que provoca. O chão está batido pelos anos e a terra em pousio. As lágrimas ficaram mais lúcidas. As cobras já não nos metem medo. Mas o mal continua aceso na noite. O vagar vem lá de longe ter connosco. As nuvens continuam a navegar no céu. O caminho ainda é de ida e volta. Batem as horas no sino da torre. As pombas procuram algum grão espalhado pela eira. Vários frutos abrem-se, outros murcham. O vento sabe a sal ou como as lágrimas guardadas na cisterna. Uma toalha de linho borda e define os contornos da mesa velha. A dor e as velas continuam acesas no meio da sala. Algumas das folhas caídas no chão parecem peças do puzzle com que se constrói o Santo Sudário. Está na hora da visitação. As pessoas passam por entre as pedras e as flores como se fossem anjos arrependidos.


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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2017

Na conversa

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Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Em reflexão

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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

360 - Pérolas e diamantes: Quanto vale a Democracia?

 

 

 

No seu livro Contra a Democracia, Jason Brennan, parte do princípio de que a democracia é o melhor sistema viável, mesmo assim não é lá grande coisa, e por isso se torna necessário melhorá-lo, mesmo que seja com menor participação.

 

O grande filósofo moral do século XIX, John Stuart Mill, argumentava que devemos instituir qualquer forma de governo que produza os melhores resultados.

 

Apesar de Mill ter a esperança de que envolver as pessoas na política as tonaria mais inteligentes e mais preocupadas com o bem comum, afirma que algumas formas de governo podem deixar-nos estúpidos e passivos. No entanto existem outras que podem tornar-nos perspicazes e ativos.

 

Apesar das boas intenções, as formas mais comuns de compromisso político não só falham em educar-nos ou enobrecer-nos, como tendem inexoravelmente para a estupidificação e a corrupção.

 

O economista Joseph Schumpeter bem lamenta: “O cidadão típico desce a um nível de desempenho mental inferior assim que entra no campo político. Argumenta e analisa de um modo que prontamente reconheceria como infantil na esfera dos seus interesses reais. Torna-se novamente um primitivo.”

 

Em 1800, 70% a 80% dos americanos com direito a voto votavam nas principais eleições. Agora, no máximo, votam 60% para as eleições presidenciais e cerca de 40% para as eleições intermédias, estaduais ou locais. Por isso é que os democratas rangem os dentes.

 

Segundo Brennan até existe um lado positivo no declínio democrático, pois a democracia no seu país está mais inclusiva do que nunca, com cada vez mais pessoas convidadas a assumir uma posição na mesa das negociações políticas. Contudo, cada vez menos pessoas respondem ao convite.

 

Os principais teóricos políticos querem que a política se infiltre em mais aspetos da vida. Pretendem mais decisão política. Partem do pressuposto que a política nos enobrece e que a democracia é uma forma de capacitar a pessoa comum a assumir o controlo das suas circunstâncias.

 

Jason Brennan considera mesmo que os “humanistas cívicos” consideram a própria democracia como a vida boa, ou, pelo menos, um chamamento superior.

 

Segundo o cientista político e filósofo americano, existem três tipos de cidadãos democráticos:

 

Os hobbits, que são sobretudo apáticos e ignorantes sobre a política, pois carecem de opiniões fortes e firmes sobre a maioria das questões políticas. Preferem seguir as suas vidas diárias sem prestar muita atenção à política. É o típico não votante.

 

Os hooligans, que são os fanáticos desportivos da política. Têm ideias fortes e firmes sobre o mundo. Podem apresentar argumentos para as suas crenças, mas não conseguem explicar pontos de vista alternativos de um modo que as pessoas com outras visões considerem satisfatórias. Consomem informação política, embora de uma forma tendenciosa. Tendem a desprezar as pessoas que discordam delas, sustentando que as pessoas com as ideias alternativas sobre o mundo são estúpidas, más, egoístas ou, na melhor das hipóteses, estão profundamente enganadas. A maior parte vota regularmente, participa nas atividades políticas e são membros filiados em partidos políticos.

 

Os vulcanos, que são os que pensam científica e racionalmente sobre a política. As suas opiniões são fortemente sustentadas em ciência social e filosofia. São autoconscientes, e apenas confiam naquilo que os indícios permitem. Conseguem explicar pontos de vista diferentes e visões alternativas de forma satisfatória. Interessam-se por política, mas, ao mesmo tempo, são imparciais. Evitam ser tendenciosos ou irracionais. Não pensam que todos aqueles que discordam deles são estúpidos, maus ou egoístas.

 

Estes são os tipos ideais ou arquétipos conceptuais. Algumas pessoas encaixam-se melhor do que outras nestas descrições. Ninguém consegue ser um verdadeiro vulcano, pela simples razão de que todas as pessoas são pelo menos um pouco tendenciosas.

 

Infelizmente, a maioria das pessoas enquadra-se nos moldes hobbit e hooligan, ou encontra-se lá pelo meio.

 

De facto, a política não é valiosa para a maior parte das pessoas. E a democracia tem os seus defeitos e mesmo os seus limites.

 

Uma coisa devíamos ter presente no ato de votar: “A tomada de decisão política não é escolher para si próprio; é escolher para todos.”

 

Alguns filósofos defendem que a democracia é um procedimento de tomada de decisão inerentemente justo.

 

Jason Brennan, não está pelos ajustes. Argumenta que o valor da democracia é puramente instrumental, pois “a única razão para favorecer a democracia sobre qualquer outro sistema político é que é mais eficaz a produzir resultados justos, de acordo com padrões de justiça independentes do procedimento”.


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Domingo, 24 de Setembro de 2017

Músicos

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 276 - Cópi

 


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Sábado, 23 de Setembro de 2017

Músicos

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 236 - Cópi

 


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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017

Músicos

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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

Poema Infinito (372): O tempo insolvente

 

 

Demoro sempre muito tempo a relacionar os sinais de Deus. Alinho-os devagar, apesar da sua abundância. Deus é como poeira sobre os campos. Deus também é impaciência, ignorância e ansiedade. Sinto-o sempre quando estou obscuro, emerso nos raios de inexplicabilidade, sentindo ao longe a luz do desaparecimento. Deus é ainda enfado e gestos sagrados e aflição e rostos dissimulados e fissuras e números escritos em paredes profundas. Ele aparece sempre no meio das pequenas coisas que tornam a vida inútil. Os rostos são como pássaros lentos, confundem-se muitas vezes com uma espécie de inteligência dividida. Advém então uma sintaxe súbita, várias paisagens em sobressalto, o entendimento perplexo da destruição. Trevas e claridade sucedem-se segundo o princípio da incerteza. Livros, amigos e animais multiplicam-se como respostas separadas por imagens. As palavras acreditam umas nas outras e irradiam loucura. Toda a experiência conduz a uma nova incerteza. E uma incerteza a outra incerteza. As respostas crescem dentro de cada um de nós como cogumelos evidenciando os sinais do destino. Toda a procura confirma a atenção. As horas atingem uma temperatura elevada. Vários lugares sagrados ficam ao desamparo. A atenção ergue-se em estado de iminência. As falésias dentro das campânulas começam a ficar transparentes. O ar vibra, as estrelas parecem barcos desesperados afundando-se no mar da eternidade. As ondas lembram arbustos tombados num dia de calor. O espírito transforma-se em matéria em movimento. Cresce como o que se costuma designar por amor, produto da mesma levedura, cozido no forno da impaciência. O silêncio parece um coração transbordante de verdades dolorosas. As criaturas singulares exibem-se dentro dos seus cenários ardentes, expõem-se longe e perto, frias e ardentes, velozes e lentas, luminosas e sombrias. Rodam sob o signo dos grandes ciclos, irradiando a majestade do movimento perpétuo. Carlos Paredes subiu agora mesmo ao palco com a cabeleira incendiada de notas musicais. O tempo fica estancado durante uns breves segundos. As pessoas choram porque se pensam à altura do acontecimento. A humildade continua a cavar a terra, a aconchegar os vermes e os insetos, a levar a água ao moinho. O dia começa a afundar-se devagarinho. Levantam-se então as casas e as adegas assustam-se. É hora dos grandes vazios, das memórias fechadas nos armários, da paciência que calafeta a vida. Alguns pássaros cantam dentro das gaiolas como se vivessem em liberdade. O prazer da clausura também se aprende. Deus provoca as evidências. A invisibilidade toma conta das estátuas, origina os relâmpagos, cartografa os sinais da alma, armadilha as paisagens, dá coerência às sombras e conserva a água. Tudo volta a ser simultâneo. O ar envolve as sementes mais pacientes, traz e leva as estações, aprende a velocidade das asas das aves mais leves, instiga as memórias, dissemina a solidão, revela as superfícies, dá forma os frutos da imprevisibilidade. Os corpos atingem a velocidade da procriação. Fluxos de sémen ascendem no declive das vaginas. A matéria procura o molde perfeito para a vida. Deus decompõe o tempo e os gestos. A aparição do mundo faz-se de forma lenta. O espaço da cabeça rompe a sombra amniótica. Alguém rasga com raiva os nomes das coisas sagradas. De seguida virá o tempo insolvente do batismo.


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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

Músicos

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Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Músicos

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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

359 - Pérolas e diamantes: Os escritores devem andar loucos

 

 

 

Os escritores devem andar loucos. Louquinhos da silva. O nosso conterrâneo transmontano Rentes de Carvalho, ainda radicado na Holanda, anunciou há uns meses atrás que iria votar em Geert Wilders, o líder do partido da extrema-direita. Na Holanda parece que não lhe ligaram muito. Já por cá chamaram-lhe de tudo, até senil. De facto, o escritor tem 86 anos, mas dissesse ele que iria votar no BE ou no PC de lá e até lhe teciam loas. E das grossas.

 

Muitos dos nossos escrivas e comentaristas de esplanada descobriram agora que os seus livros não prestam, partindo do princípio de que quem vota em Wilders só pode escrever livros reles ou escabrosos. Já outros afirmaram mesmo que não voltariam a ler um livro de Rentes de Carvalho. Estou em crer que esses tais outros nunca leram nenhum dos interessantes romances do escritor. Eu sim li e vou continuar a ler. E até os recomendo vivamente.

 

Eu não me indigno com essas coisas. A escritora Patrícia Reis, sim. Até se questionou, coitada dela, como é que se pode “amar um escritor que afirma que vota na extrema-direita por ter vizinhos árabes e não se sentir seguro?”

 

Nem eu, nem, estou em crer, Rentes de Carvalho caímos nessa ratoeira do sentimentalismo piegas que enxama as redes sociais, que tenta confundir os livros com a pessoa que os escreveu. 

 

Ele escreve e diz o que pensa de uma forma livre e direta, sem estar a pensar nos likes que vai conseguir nas publicações do Facebook. Além disso é um escritor cheio de humor, inteligência, lucidez e, acima de tudo, é um excelente cultor da língua portuguesa.

 

Eu admiro-o por isso. Por prezar a sua liberdade acima de tudo. Por não se deixar ir no politicamente correto, nas declarações brandas e medíocres dos adeptos da lágrima fácil e dos sentimentos cultivados nos centros comerciais.

 

A sua liberdade é rara e no nosso país é mesmo uma excentricidade, daí a confusão com senilidade. Daí a zanga dos escritores que participam alegremente nas vernissages da esquerda e que esquecem sempre os gulags do seu descontentamento.

 

Os milhões de cadáveres produzidos pela ditadura do proletariado continuam enterrados na vala comum da hipocrisia e debaixo dos muros da vergonha e das cortinas de ferro do leninismo.  

 

Numa sua crónica, publicada no Mazagran, Rentes escreveu, antecipando em muitos anos a resposta aos indignados do costume: “O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante. É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar as coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade”.

 

Abençoado sejas, estimado Rentes.

 

António Lobo Antunes, em entrevista a João Céu e Silva, no ano de 2007, comparou as opções políticas à afetividade das opções clubísticas. Transcrevo: “Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista, mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão?”

 

A liberdade, a independência e a dignidade continuam a ser um arquipélago no meio da imensidão da estupidez humana.

 

No entanto, o grito de revolta de Pissarev continua válido: “Para o homem comum um par de botas conta muito mais do que as obras completas de Shakespeare ou de Puchkine.”

 

Mas eu continuo a conseguir fazer a distinção entre a catedral de Chartres e a Disneylândia e entre o Europeu de Futebol e os Concertos de Brandeburgo de Bach.


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Domingo, 17 de Setembro de 2017

Pose

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Sábado, 16 de Setembro de 2017

No carnaval de Verim

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Sexta-feira, 15 de Setembro de 2017

O senhor Ventura e o seu assobio

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Quinta-feira, 14 de Setembro de 2017

Poema Infinito (371): De olhos fechados

 

 

Tenho guardados numa caixinha de mistos uma esperança, vários rios, diversas maneiras de ver, muitas estrelas, cataventos, botões de camisas mágicas, cartas antigas, cores diáfanas, papoilas distintas que não murcham, olhares, a rua da minha infância, tardes de brincadeira, manhãs de Natal, barquinhos de papel, lama de fazer bonequinhos, os bodrelhos com que a minha irmã mais velha jogava com as amigas, várias imagens do tempo, o canto dos grilos, a voz dos pássaros, lírios, lábios molhados, uvas tintas e brancas, várias essências de viagens, sons noturnos, silêncios atordoados, a memória dos comboios, distintas ausências, incansáveis regressos, o lume sempre aceso, horas incansáveis, versos transparentes, céus de várias cores, poemas silenciados, memórias fugazes, beijos furtivos, espaços secretos, o amor em chamas, a finitude dos sonhos, o vento que arrasta as memórias, o vento que assobia nos campos, as pernas do tempo, giestas, contos, urzes, adivinhas, maçãs, tojos, lendas e pêssegos, arraiais e andores, pontes e escolas, escanos e letras cinzeladas a golpes de machado, lousas escolares, luas namoradeiras, cancelas escangalhadas, palheiros, pedras de fornos comunitários, cerejas e nostalgia. Tudo isto fez parte do meu futuro imaginado e agora constitui parte do meu passado. O passado é uma recordação das poças de chuva onde eu molhava os sapatinhos novos, onde escondia o sol nos desenhos, onde as meninas espreitavam nas montras as bonecas que ainda não choravam nem mijavam. O tempo costumava talhar as tardes com navalhas de gume afiado enquanto as achas ardiam no lume lento da lareira. Nesse tempo as lágrimas eram desconsoladas, nasciam nos ermos das serras que preenchiam os olhares matinais. Até as feridas eram mensuráveis. A foz do rio que passa lá em baixo fazia parte do futuro. Os corpos eram muito solitários, abatiam-se pelo hábito. Por vezes ocupavam o calor dos olhos. Os astros e os gatos alongavam-se durante o domingo, as searas produziam trigo ou centeio, os sonhos pareciam-se com os galhos tortos dos carvalhos, o sol acariciava o musgo que nascia nas árvores mais velhas e as rodas dos carros de bois chiavam irritando as próprias fragas dos outeiros. O tempo, agora, tornou-se amorfo na espera. Os sonhos são feitos de madeira secular. Neles bate a água dos oceanos. Aprendemos a andar na névoa, com botas ferradas e meias esburacadas. Os caminhos eram de lama e barro. O fumo das lareiras enovelava-nos os pensamentos. As lavadeiras lavavam a roupa na água gelada dos tanques e não gemiam. Tudo era frio como as insónias: as cabeças, o tempo, o silêncio, as aves caídas, os brinquedos encostados a um canto, as horas, os dias, as semanas, a nudez insuportável do inverno. Sei agora que os meninos grandes perdem os sonhos sem se aperceberem. As suas recordações é que medram como ervas daninhas. O sol produz longos espaços de sombra que crescem com o decorrer do tempo. Os jogos da infância parecem-nos sempre tardios. Dantes lembrávamo-nos da matança do porco por causa da bola que fazíamos com a bexiga do sacrificado. Agora apenas nos acende o apetite. Gostávamos de jogar, de dar biqueiros na bola, de trepar aos amieiros, de criar sorrisos nos rostos dos demais. Atualmente batemos com os olhos na dureza permanente das madrugadas, nas casas abatidas, na usura do tempo, nas fendas do silêncio. O ar está contaminado pelo desalento. A rua deserta ainda tem os mesmos calhaus onde eu tropeçava como se fosse cego. Fecho os olhos e caminho.


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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017

Bombos e cabeçudos

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Terça-feira, 12 de Setembro de 2017

Músicos

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Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017

358 - Pérolas e diamantes: O azul, o medo, a engorda e a angústia de dormir para ser brevemente acordado

 

 

Aprendi com a Moira, uma bela personagem do romance A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa, que os antigos gregos, tal como os chineses ou os hebreus, não possuíam uma palavra destinada a nomear o azul. Para todos eles o mar era verde, acastanhado ou cor de vinho. Por vezes negro.

 

Na pintura ocidental o mar apenas começa a ser pintado de azul no século XV. Também o céu não era azul. Os poetas designavam-no como rosado, quando amanhecia; incendiado quando se punha; ou leitoso, nas tristonhas manhãs de inverno.

 

Afinal são os nomes que dão existência às coisas. “No princípio era a palavra…”

 

Ai que sono…

 

Ainda hoje me delicio com o pensamento do primeiro pintor, em plena Idade Média, a escolher o tom de azul para colorir o mar. Momentos antes de existir a cor azul. O que seria de mim sem o azul.

 

Mas não é disto que eu quero falar hoje. Desta vez pretendo dar-vos conta da entrevista que Ricardo Sá Fernandes concedeu ao Expresso, advogado que mesmo não sendo melómano prepara os seus processos a ouvir ópera antes de ir para a barra do tribunal.

 

Dói-me a cabeça. Tenho de dormir…

 

Na Justiça, diz ele, 80% das decisões são com certeza justas e equilibradas. No entanto a margem de erro é muito grande. Ninguém se mete a jogar a roleta russa com a probabilidade de 1/5 em ser liquidado. 

 

Claro que a morosidade é um problema, mas para Sá Fernandes a incerteza da Justiça é que é de temer. Além disso, a Justiça erra vezes demais. Todos podemos, lembra ele, ser enganados por uma testemunha que minta bem. E depois, a preguiça, ajuda muito nas decisões erradas, “porque a decisão formal é sempre a mais fácil”.

 

Além disso, as magistraturas e a advocacia são constituídas por “gente que não gosta de ser escrutinada”. E porquê? Na opinião do advogado, “os portugueses são pouco exigentes com o escrutínio”.

 

Dói-me a cabeça…

 

Além disso, afirma o causídico que já foi secretário de Estado, “o português às vezes é muito corajoso, mas por regra é manhoso”. E depois realça o modelo: “Acho que o exemplo que melhor ilustra o que é ser português é o rei D. João VI, que foi um rei que acabou por ter resultados ótimos. Fugiu para o Brasil, garantiu-nos a independência, andou a enganar os franceses e os ingleses. Foi manhoso. Isto é uma caraterística que reflete uma cultura de medo e de falta de frontalidade.”

 

Ricardo Sá Fernandes disse uma vez que os tribunais são casas de mentira. Desta vez, não só corroborou a ideia, como carregou nas tintas: “Não há sítio onde se minta tanto como nos tribunais.”

 

Quero dormir… já não aguento estar acordado… tanto tempo…

 

Pergunta da jornalista: “Quem mente, as testemunhas, os arguidos, os advogados, os juízes?” Resposta do entrevistado: “Todos. Todos mentem, mas é verdade que a maior responsabilidade é a das testemunhas porque elas é que têm de depor sobre os factos. E nós também somos pouco rigorosos a punir os que mentem nos julgamentos.”

 

Apesar de tudo é um homem de fé. De muita fé, atrevo-me mesmo a dizer. Pois além de cristão, é maçom e socialista.

 

Mas eu tenho tanto sono… Será que tenho de acordar mesmo antes de adormecer?

 

Mas Ricardo Sá Fernandes pontualiza, esclarece e declara: “Sou cristão. Revejo-me na Inquisição? Não. Sou maçom. Revejo-me nestas negociatas que há nas lojas? Não. E nos compadrios também não.”

 

Eu, cá de longe, com vossa licença, atrevo-me a concluir o raciocínio: Também é socialista, mas não se revê no Partido.

 

Tenho de me manter acordado, não vá o Diabo tecê-las…

 

Oiçamos o senhor: “O PS, o PSD e o CDS incentivaram em Portugal uma cultura de favores, de nepotismo. Estou ideologicamente próximo do Partido Socialista, mas tem uma prática politica absolutamente inaceitável, de favores, de complacência, com compadrios e situações pouco claras.”

 

A preocupação está lá: “Sinto-me um cidadão que faz tudo para não agir sob o efeito do medo, mas que também tem medo.”

 

Medo de acordar? Medo de dormir? Medo de dormir acordado? Medo de acordar a meio do sonho?

 

Quando está cansado procura o contacto com a natureza em Trás-os-Montes, onde tem a sua casa-refúgio. Em Oura faz vinho, lê livros, passeia e anda de bicicleta.

 

Jesus, no sermão da Montanha, diz mais ou menos isto: “A razão do homem erra, mas há um que faz todas as coisas bem. Sempre, ao longo da viagem da vida, segue este preceito: «Faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem a ti».”

 

Mas também há um ditado popular que diz: “Tudo o que não mata engorda.”

 

Peço desculpa, mas agora vou dormir. É que estou a morrer de sono, depois de tanto tempo acordado. A dor de cabeça é enorme. Eu quero é dormir. Dormir profundamente. A dor de cabeça é enorme.

 

Aspirinas há muitas, seus amáveis palermas.


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Domingo, 10 de Setembro de 2017

Louvre - Vermeer

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Sábado, 9 de Setembro de 2017

No Louvre

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Sexta-feira, 8 de Setembro de 2017

No Louvre

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Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

Poema Infinito (370): A razão das árvores

 

 

A existência exige palavras discretas, como se tivéssemos vontade de fechar um círculo, como se uníssemos as extremidades de um poema, como se girássemos de corpo inteiro sobre nós próprios. Regressámos sempre de uma viagem sem percebermos bem o contorno dos nossos movimentos. As nossas horas chegam ao fim exaustas. Nós apoiamo-nos no muro para as segurarmos. Os problemas iniciam-se nos seus distintos aspetos sucessivos, voltam sempre ao fim da tarde, intervalados pela sucessão da partida, levantando as âncoras do mar do desespero. Os vários atos formam um conjunto de culpas. O silêncio regressa. O infinito dos espaços organiza uma nova teoria do universo. O divino define-se dentro da sua própria convicção. A sua indecisão é aparente. A luz do tempo vibra no frio, os reflexos repartem-se pelas folhas do outono e espalham-se pelos nossos olhos. As nuvens recortam o céu. A chuva acalma as marés. Toda a matéria contamina a vida. A razão das árvores nasce dentro dos frutos. A memória invoca-nos com o mesmo tom de voz, com o mesmo ideal poético. Pela janela aberta entra o vento norte arrastando atrás de si a sua solidão irremediável. Fecho o livro antes de fechar a janela. A madrugada começou de véspera. A sua claridade baça anuncia o frio. Sentamo-nos no chão de madeira velha como se não existisse mais ninguém no mundo. Os sonhos acontecem-nos de forma orgânica. A pele dos nossos corpos parece veludo arrepiado. Os nossos dedos hesitam nos gestos. A esperança dura o tempo da aparência. O canto das aves anuncia o mecanismo subtil da fragmentação. O excesso de densidade cromática segmenta a luz. Incomoda-me o conceito da simplicidade da alma. O seu perfil poético continua amargo. Os meses mais tardios ardem como florestas de pinho e eucalipto.  Os corpos aflitos encaminham-se para a morte, abrasam-se nas largas margens da loucura. Os sobreviventes mais afetados nunca mais vão conseguir acender o lume. O inferno cabe por inteiro dentro de uma caixa de fósforos. O desespero visitou a cidade, bebeu vinho nas tabernas e encostou-se às chapas metálicas para afastar de si a ideia de combustão. Acalma-se quando ouve o barulho da água. Conhece de cor o violento sabor das vigílias, as noites que voltam do frio, o vento que varre os espíritos e agita os ramos altos dos ciprestes, os rostos iluminados pelo álcool, o brilho das cinzas, o nome escuro das lápides, a anunciação subterrânea das catástrofes, o riso colérico dos bichos, a frieza dos ossos, a brevidade dos corpos e as circunstâncias insólitas do Juízo Final. Os traços dos rostos vão-se modificando aos poucos. E também as vozes. Os estudos biográficos mudam o íntimo da afetividade. Com a idade, tudo se torna mais interior. Até o brilho dos teus olhos se dissipa. Nós ardemos dentro das dúvidas. A razão e a loucura possuem uma dupla distância. Agora, as tempestades nascem já com grandes braços. Os filhos pródigos deixaram de ser abençoados. Atualmente são um fardo pesado. Todos nós sofremos de uma indecisão original. O vazio vem do centro. O campo enche-se de pequenos barulhos, a luz, novamente clara, entra pela janela. Fragmentos de tempo são impressos nas flores. O jardim está frio e húmido. O céu encheu-se de um brilho sobrenatural. Os viajantes continuam a errar pelos caminhos. A curiosidade do desejo cresce nos lábios. Oiço ao longe a nitidez da tua voz. Espero, e anseio, os teus gestos coloridos de aproximação.


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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017

Louvre

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Terça-feira, 5 de Setembro de 2017

Louvre

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Segunda-feira, 4 de Setembro de 2017

357 - Pérolas e diamantes: Afinal, porque se escreve?

 

 

Há um provérbio haúça que diz: “Quando muda a música, muda a dança.”

 

Olho para o meu telemóvel e reparo que estive cerca de 48 horas desligado. Cogito cá para os meus botões que este é um dos modernos grandes exemplos de estoicismo individual e de resistência moral do século XXI. 

 

Penso então na necessidade. A experiência diz-me que ela é um enorme armazém capaz de albergar uma quantidade notável de crueldade.

 

Antigamente, os homens de letras trocavam entre si ditos espirituosos e diziam-se amigos. Agora remoncam uns com os outros através de sinais de computador. O sucesso do vizinho é a modos como uma alfinetada no ego do escritor solitário.

 

Afinal qual é a motivação pessoal para escrever? Satisfação pessoal? Compensação financeira? Reconhecimento público? Vontade de comunicar?

 

Compensação financeira, no meu caso pessoal, não é de certeza, pois já tinha desistido há muito. A necessidade de sobrevivência tinha feito crescer em mim o monstro das pequenas necessidades.

 

O facto de a arte ser o oposto do negócio, não significa que viva fora da sua influência. E este é o drama de quem vive e escreve na província.

 

Comunicar é mesmo uma vontade. Mas não é a única.

 

A satisfação pessoal na escrita é intermitente, como a luz dos semáforos.

 

E o reconhecimento público é uma treta que faz parte do jogo de espelhos que é viver em sociedade.

 

Por isso há quem escreva sobre extraterrestres, as suas memórias em estilo adolescente ou escreva livros desinteressantes para crianças. Há ainda romances de má qualidade sobre gente rica escritos por gente pobre, poesia confessional, romances de má qualidade sobre gente pobre escritos por gente rica e, ainda, romances de denúncia da corrupção das indústrias obscuras que se fazem passar por necessidades oportunas.

 

Os literatos que se armam, no entanto, não se cansam de sentenciar: “O que é preciso é escrever coisas intemporais.”

 

No entanto, tudo é uma questão de adaptação. Eu passo a ilustrar esta minha exegese socorrendo-me de uma passagem do livro de David Leavitt (Martin Bauman; ou Uma Presa Segura), que é um romance disfarçadamente gay, escrito por um escritor rico sobre gente rica que tenta nadar no mundo atribulado da literatura nova-iorquina:

 

“Foi aí que lhe confessei, numa quinta-feira à noite, que era gay. Ela permaneceu muda e queda.

 

– Mas aposto que não há gays judeus ortodoxos, pois não? – perguntei, em tom de desafio.

 

– Claro que há.

 

– E como é que conciliam a sua vida sexual com a religião?

 

– Bem – explicou Sara –, aqueles que eu conheço, como as escrituras dizem que não se podem deitar com outro homem, fazem-no de pé.

 

A ingenuidade com que ela descreveu isto – uma ingenuidade que era ao mesmo tempo judia e gay – deu-me vontade de rir. Assim se firmou a nossa amizade.”

 

A mim também me deu vontade de rir. E em plena leitura. Ele há gostos e feitios para tudo. E soluções também. Menos para a morte, como bem diz o nosso povo.

 

Nos estudos feitos para as investigações de doutoramento, existe nas perguntas de escolha múltipla, além das várias alíneas, uma outra que é isso mesmo – a outra. E que geralmente nos pedem para desenvolver.

 

Ora, bem vistas as coisas, eu escrevo pela outra razão que não vem no questionário. E o desenvolvimento é este mesmo. Só faz falta que o amigo leitor faça o favor de recomeçar a ler tudo desde o princípio e se, mesmo assim, não atinar com a resposta, tentar de novo.

 

Eu não sei bem porque escrevo, mas sei que continuo a tentar todos os dias compreender o diabo da razão. E a escrever. Todos os dias. A escrever.

 

Em verdade… em verdade vos digo: A dita sabedoria social não passa de hipocrisia.


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Domingo, 3 de Setembro de 2017

Louvre - Quadros e Pessoas

_JMD1160 - Cópia.jpg

 


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Sábado, 2 de Setembro de 2017

Louvre - Interior - Pessoas

_JMD1046 - Cópia.jpg

 


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Sexta-feira, 1 de Setembro de 2017

Louvre - Interior - Escadas

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