Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

Poema Infinito (372): O tempo insolvente

 

 

Demoro sempre muito tempo a relacionar os sinais de Deus. Alinho-os devagar, apesar da sua abundância. Deus é como poeira sobre os campos. Deus também é impaciência, ignorância e ansiedade. Sinto-o sempre quando estou obscuro, emerso nos raios de inexplicabilidade, sentindo ao longe a luz do desaparecimento. Deus é ainda enfado e gestos sagrados e aflição e rostos dissimulados e fissuras e números escritos em paredes profundas. Ele aparece sempre no meio das pequenas coisas que tornam a vida inútil. Os rostos são como pássaros lentos, confundem-se muitas vezes com uma espécie de inteligência dividida. Advém então uma sintaxe súbita, várias paisagens em sobressalto, o entendimento perplexo da destruição. Trevas e claridade sucedem-se segundo o princípio da incerteza. Livros, amigos e animais multiplicam-se como respostas separadas por imagens. As palavras acreditam umas nas outras e irradiam loucura. Toda a experiência conduz a uma nova incerteza. E uma incerteza a outra incerteza. As respostas crescem dentro de cada um de nós como cogumelos evidenciando os sinais do destino. Toda a procura confirma a atenção. As horas atingem uma temperatura elevada. Vários lugares sagrados ficam ao desamparo. A atenção ergue-se em estado de iminência. As falésias dentro das campânulas começam a ficar transparentes. O ar vibra, as estrelas parecem barcos desesperados afundando-se no mar da eternidade. As ondas lembram arbustos tombados num dia de calor. O espírito transforma-se em matéria em movimento. Cresce como o que se costuma designar por amor, produto da mesma levedura, cozido no forno da impaciência. O silêncio parece um coração transbordante de verdades dolorosas. As criaturas singulares exibem-se dentro dos seus cenários ardentes, expõem-se longe e perto, frias e ardentes, velozes e lentas, luminosas e sombrias. Rodam sob o signo dos grandes ciclos, irradiando a majestade do movimento perpétuo. Carlos Paredes subiu agora mesmo ao palco com a cabeleira incendiada de notas musicais. O tempo fica estancado durante uns breves segundos. As pessoas choram porque se pensam à altura do acontecimento. A humildade continua a cavar a terra, a aconchegar os vermes e os insetos, a levar a água ao moinho. O dia começa a afundar-se devagarinho. Levantam-se então as casas e as adegas assustam-se. É hora dos grandes vazios, das memórias fechadas nos armários, da paciência que calafeta a vida. Alguns pássaros cantam dentro das gaiolas como se vivessem em liberdade. O prazer da clausura também se aprende. Deus provoca as evidências. A invisibilidade toma conta das estátuas, origina os relâmpagos, cartografa os sinais da alma, armadilha as paisagens, dá coerência às sombras e conserva a água. Tudo volta a ser simultâneo. O ar envolve as sementes mais pacientes, traz e leva as estações, aprende a velocidade das asas das aves mais leves, instiga as memórias, dissemina a solidão, revela as superfícies, dá forma os frutos da imprevisibilidade. Os corpos atingem a velocidade da procriação. Fluxos de sémen ascendem no declive das vaginas. A matéria procura o molde perfeito para a vida. Deus decompõe o tempo e os gestos. A aparição do mundo faz-se de forma lenta. O espaço da cabeça rompe a sombra amniótica. Alguém rasga com raiva os nomes das coisas sagradas. De seguida virá o tempo insolvente do batismo.


publicado por João Madureira às 07:15
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