Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017

Poema Infinito (375): O guincho metafórico das memórias

 

 

 

Na hora mágica do sol se pôr eu desengancho-me do teu corpo. Nem todo o barulho do mundo preenche este silêncio, nem a saudade deixada pelos pardais desaparecidos alivia o nascer do dia. O crepúsculo faz de oposto. O regresso a casa realiza-se por turnos. Os fantasmas reúnem-se por turmas. O membro decepado continua a doer como se fosse uma árvore cortada à nascença. As pessoas continuam a chamar nomes à mágoa como se ela fosse um palhaço do circo. A infelicidade atira pedras. Nenhum bálsamo alivia a dor da ausência. Imãs cegos conduzem as orações da amizade e da vingança. A tua companhia lembra-me os livros de poesia, o som metálico dos discos riscados, os velhos harmónios, os álbuns de fotografias, a roda dentada dos jornais encadernados, os incêndios dentro dos armários, o tempo em que fumava sarilhos, a vontade de mudar de assunto, o tom afetado da indiferença. Deus continua a ser a verdade pintada na traseira dos autocarros, o rugido das autoestradas, o enterro das orações, a inclinação do tempo, o azul por cima do vermelho e do laranja. Nasce o sol por detrás da tua cabeça, com a profundeza mortal do desencanto. Ainda não sei onde os pássaros velhos costumam ir morrer. As árvores inclinam-se no sentido dos sussurros. Caem do céu almas como se fossem pedras. Mesmo de forma tangencial, a vida continua a necessitar de sombras, de sonhos e de alguma crueldade. Também a noite precisa de labirintos e de ilusões e até de partos. Por mais que lhes custe, as palavras dos poderosos não conseguem fazer uma língua. Depois da criação, tudo no mundo se baralhou. As passagens abertas transformaram-se em vaginas e o tempo divino compreendeu a plenitude da misericórdia. Os minutos são como passos que dirigem o tempo. A nudez pública continua a ser uma apostasia. As nuvens deslizam no céu, os pássaros ficam paralisados em pleno voo e o ar que nos veste tornou-se denso e incompreensível. As orações soam a falso. Engordam-se os cães, os gatos e os mitos como antigamente se cevavam os eunucos, os porcos e os vitelos. O som do tempo e da saudade torna-se vago. Os velhos ficam translúcidos. As mulheres cantam com voz doce e melodiosa a timidez das flores, a arrogância das casas, o extraordinário princípio dos caminhos e a esperança dissipada da igualdade. Estranhas febres chegam do lado de lá, dos verões escaldantes, da metrópole envelhecida, da fronteira onde se gera o ódio. As famílias antigas fogem das cidades muradas. As árvores genealógicas transformam-se em papéis quebradiços. A dignidade é agora uma espécie de nostalgia. A nossa ignorância aparente faz-nos beber chá forte para enrijecer as aparências. Existe dispersa pelo mundo a subtil noção da estagnação. Os jovens riem-se do seu pressentimento, do choque inicial. Tentam, por isso, estabilizar a incompreensão, controlar as tendências e converter a angústia num problema prático. As histórias já não lhe dizem nada. A tarde alarga-se e incha para se transformar em noite. O tempo estende as suas garras. O lugar onde nasci ainda é o único onde sinto o ar a abrir-se quando eu passo. A casa onde fui parido ainda possui as portas degradadas do Paraíso. O telhado abateu parcialmente. Os gatos miam encostados às paredes. Alguém sorri com a expressão mais triste do mundo. As memórias guincham como se as estejam a matar.


publicado por João Madureira às 07:15
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