Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018

Poema Infinito (388): O cálice sagrado da natureza

 

 

 

Os vários nomes da madrugada inundam os caminhos da montanha e alimentam as raízes dos teus pés. Caminharemos sempre. Isso faz parte do nosso destino. Também as flores procuram insaciavelmente o desenho e as cores das suas pétalas. Confundimos as fragas, o som do vento que eclode entre a ramagem, o ruído das vozes, as amoras que descansam nas silvas. Desenhamos corolas, a floração dos desejos, a primavera que rebenta, o imprescindível júbilo do néctar, o reflexo foliar das mariposas. As abelhas mais invulgares procuram os cubículos das flores campestres. Pedaços do mundo juntam-se com o âmbar da areia, os lagos presentem a perenidade dos oceanos, o silêncio desliza em forma de réptil. Tenho saudade dos montes e dos rios, da velha arquitetura dos moinhos, da sensualidade dos teus seios, da humidade da tua vagina. E dos ais e dos suspiros. E da fertilidade das madrugadas. Os teus olhos possuem a minuciosidade dos mares. Neles prevejo os eclipses solares, o dilatado desenho das penetrações, o rumor magnífico dos lírios, o voo certeiro dos falcões e a gratidão da primavera. O calor do teu silêncio é feito de sobejos de eternidade. Alguns sorrisos vêm envoltos em nuvens raras. Pretendemos esquadrinhar a espessura do futuro, o resplendor das massas atmosféricas, o pôr do sol e o amanhecer e os átomos imaginários das galáxias. Apesar de sabermos da necessidade muda do pão, arrepiamo-nos quando as ceifeiras abatem as searas. A saudade constrói ninhos dentro das nossas cabeças. A tristeza continua impune. As estátuas sorriem-nos com a sua nudez fria. Os pássaros semearam os bosques. Os seus voos transportam a transparência do vento. A dor ainda está quente. A saudade abre o caminho dos montes e evoca o regaço do mês de abril. Donde vem este tempo sem crédito? Os poemas mudam o seu funambulismo, querem ser vadios. Dói-me a dor da tua ausência, o riso e o pranto, o adeus definitivo da tarde, a perseverança do mar, a marcha do tempo, os montes rasos, os lobos aprisionados pela neve, o afastamento do claro-escuro, os retalhos do infinito, as corridas sem distância, as trovoadas secas, a lentidão dos rios, os passos marrecos das garças, a rotundidade das corolas, os sonhos de circunstâncias e as flores demasiado amarelas ou vermelhas. Quero aprender a semear os crepúsculos, o voo das estrelas fugazes, a devorar as noites, a pesar as palavras, a desenhar as pálpebras do tempo e o voo incandescente dos relâmpagos, a voar como os peneireiros, a procurar as nossas raízes animais, a entender a espera das madressilvas pelo voo das abelhas, a saber esperar, a entender as incertezas, a escutar a razão, a cansar-me, a descansar-me, a lavar os aspetos mais densos da monotonia, a decantar as lágrimas. Penso agora no caminho das fontes, na calma simétrica dos espelhos, nos reflexos da caducidade, nos níveos horizontes das ninfas. Pressinto as suas bocas, o seu desespero, os seus calafrios, a sua paciência. A minha poesia é agora mais vegetal, feita de flores pequeninas, humildes e silvestres. Une-a o sopro infinitesimal e impenetrável da clorofila, o azul dos labirintos, a métrica versátil dos estames, o inconformismo das corolas, a união dos ovários, o cálice sagrado da natureza.


publicado por João Madureira às 07:15
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