Sábado, 9 de Setembro de 2006

Voos dominantes

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Hoje comecei a voar ligeiramente mais baixo do que o habitual.
Mas, mesmo assim, não desisti do meu voo. Nem de observar ou desejar o teu.
Sempre ambicionei voar devagar como quem dá um beijo sem se preocupar com o que está para além dele.
O voo, ou o beijo, já fazem parte da eterna sucessão do pousar e levantar, porque sempre existirá quem se põe a voar pelo simples prazer de sentir o ar a amansar-lhe as asas, ou por gostar de contemplar as coisas dum modo diferente. Porque uma perspectiva não é a mesma coisa que aquilo que se vê sem essa perspectiva.
Sempre que me decido a voar, o ar à minha volta confunde-se com a vontade e logo ali se forma um vórtice capaz de agitar o mundo. Por vezes não é a força o que desloca os objectos, ou o que fabrica sentimentos, ou o que despoleta paixões, ou desencadeia ilusões. Por vezes são as lágrimas dos teus olhos quem incendeia as nascentes que invadem o renovo.
A meio do dia tentei voar um pouco mais alto do que o habitual.
E voei mais alto do que é habitual em mim àquela hora.
Mais tarde ainda voei um pouco mais alto do que é habitual em mim e ninguém, que eu saiba, notou qualquer diferença.
Bem, a diferença não está no voo, está na altura em que se pratica. O voo em si é simples: impulso, agitação das asas, um pouco de intensidade física, um pouco de leviandade e lá estamos nós no ar sem saber bem porquê. Quem voa não se apercebe da dificuldade que têm em voar aqueles que não sabem. Mas é sempre bom superar as dificuldades ou sonhar em fazer qualquer coisa que saia do banal.
Voar para quem voa é mesmo um pouco trivial. Voar para quem não voa é uma impotência quase íntima.
Há muitas pessoas que implicam sempre com a possibilidade dos voos. Ou porque não sabem, ou porque não querem, ou porque não desejam, ou porque incomodam, ou porque voar é fútil. E voar é mesmo fútil. Caminhar é bem mais estável. E é aquilo que a maioria pratica. Andar é só pôr um pé à frente do outro e depois seguir o movimento e praticar a rotina. Voar é um pouco diferente. Além das asas, é preciso ter coragem. E ter os olhos bem abertos. Porque o acto de voar só se consuma quando se consegue avistar o mundo de distinta feição.
Mais a mais, quem voa não gosta de andar.
Quem voa gosta de voar e de ver por onde voa.
Num voo não há limites.

publicado por João Madureira às 20:34
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