Terça-feira, 5 de Setembro de 2006

A estimação dos animais

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Escrevo-te ainda de C.
Por aqui continuo a gastar os meus parcos rendimentos mas faço-o cada vez mais com redobrado prazer. O prazer de gastar, de nada deixar a ninguém, nem sequer à Misericórdia, nem a nenhuma outra instituição, seja ela de caridade, cultural, cívica, militar ou protectora dos animais e afins.
Por cá a gente atrapalha-se nas ruas. São tantos os que por aqui andam de um lado para o outro que parece que o ar para respirar nos falta.
Este formigueiro em constante movimento por vezes põe-me louco.
Como louco fiquei quando soube que o canguru que deixei à tua guarda desapareceu na noite.
É que eu tinha uma consideração peculiar pelo animal. Além de ser de estimação, era um ser estranho, mas profundo. Eu costumava falar muito com ele. E ele ouvia-me com muita atenção, interesse e bonomia. Interlocutor assim nem mesmo tu o consegues ser.
Digo-te que ando um pouco desconfiado que foste tu quem o deixou fugir. Bem, fugir não, pois o animal não era de fugidas. Estava muito habituado à minha casa. Andava pelo jardim com muito estilo, cantava lindas canções de embalar que ouvia à governanta, assobiava com bastante intensidade e tocava muito bem o tambor.
Por vezes até tratava da horta e tinha um carinho especial pelo talhão dos tomates e das cebolas.
Desconfio que o expulsaste de casa ou o vendeste ao circo. Se tal fizeste juro que to farei pagar em duplicado, pois sou muito bem capaz de te esganar a catatua que te trouxeram do Brasil e depois assá-la e comê-la na companhia do meu cão de caça.
Que te desfizesses do esquilo esquizofrénico ainda vá que não vá, agora expulsares-me o canguru da quinta ou vendê-lo ao circo, isso é uma afronta muito séria à minha pessoa e à nossa profunda amizade. E sabes bem que uma amizade pode resistir a tudo menos aos golpes baixos e aos ciúmes.
Como me dói muito a cabeça, vou-me até ali à farmácia comprar umas aspirinas.
Despeço-me até à próxima, enquanto aguardo que me restituas o canguru, senão vai ser o cabo dos trabalhos para nos tornarmos a dar como irmãos. Que é aquilo que somos na realidade.
Envio-te este postal com um pedido de desculpas, é que no quiosque não havia outro e este é um pouco enigmático, mas nalguma coisa tinha de escrever.


PS – Peço-te encarecidamente que continues a dar de comer e beber aos meus queridos animais. Especialmente ao lagarto albino do Texas.

publicado por João Madureira às 20:41
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