Segunda-feira, 10 de Julho de 2017

350 - Pérolas e diamantes: A alegria e o descontentamento

 

 

Cai tal chuvada de informação em cima de nós que parecemos aqueles cábulas que nos exames, em vez de pensarem por si mesmos, se limitam a transcrever as respostas que lhes são sopradas. É só ruído. A nuvem de informação é avassaladoramente irrelevante. Já nada é verdadeiramente genuíno. Limitamo-nos a ser o eco uns dos outros.

 

A religião da indiferença é agora universal. Como tudo interessa, já nada interessa.

 

Erich Maria Remarque costumava dizer que são sempre as pessoas erradas que ficam de consciência pesada quando algo corre mal. Aquelas que realmente causam sofrimento e enganam o mundo não se importam com isso. Só as que lutam pelo bem é que são consumidas pelos remorsos.

 

Desde cedo aprendi que as emoções raramente respeitam as leis da perspetiva que regem a memória. Só a prática dá perspetiva. A perspetiva da sabedoria que, reconhecendo a trivialidade das preocupações juvenis, se recusa a subestimar a dor que lhe está inerente.

 

Ensinaram-nos boas maneiras e a trabalhar como escravos, que dependem de uma segunda leva deles que, por seu lado, se impõe a um terceiro recrutamento. Estamos entorpecidos pela engrenagem.

 

Quando tomamos consciência do embuste, apercebemo-nos que estamos estourados, que pouca gente nos valoriza, que ninguém nos irá recompensar e que nem sequer têm tempo para nos escutar. Cada um cava a sua toca, o seu buraco. A sua indiferença.

 

E depois chegam as contas para pagar: o selo do carro, o IMI, o IRS, o seguro da casa e do carro, o empréstimo do carro e da casa, mais uns pneus, a gasolina ao preço do ouro, mais uns óculos para a miopia e o astigmatismo, os medicamentos para a tensão, o colesterol e a diabetes…

 

E ainda o dinheiro para o condomínio, para a água ao preço da gasolina e para roupa. E também para o peixe e para a carne e para os legumes e para a fruta e para os iogurtes e para o dentífrico e para o desodorizante e para a água-de-colónia e para a pilha do relógio e dos comandos dos eletrodomésticos e para a substituição da máquina de lavar loiça que avariou, depois de ter avariado a máquina de lavar roupa, e para a substituição do frigorífico, que já só produz gelo onde não deve, e para a TV cabo e para o telemóvel e para o iphone e para o tablet e para o cartão de memória da máquina fotográfica e para uns auscultadores e para umas sapatilhas e para um fato de treino…

 

E também para o peditório da Liga dos Animais Abandonados, para a Cruz Vermelha, para a Liga Portuguesa Contra o Cancro, para o Banco Contra a Fome, para as Mães Solteiras, para os Alcoólicos Anónimos, para os Bombeiros, para Liga dos Amigos do Hospital…

 

E os descontos para o CGA, e o IRS, à cabeça, a ADSE, e os seguros ainda não incluídos noutras parcelas…

 

E também para o FMI, o BCE, o BCP, a CGD, o BCI e para, como dizia o meu avô, o caralho que os foda a todos, pois já não há paciência para esta sociedade de consumidores escravos e eleitores pedintes e doutores pelintras…

 

A nossa essência está em sermos senhores e senhoras bem-parecidos. Nada nos destaca uns dos outros. Contentamo-nos em ser nada. E por isso sorrimos.

 

Mas o que eu queria era estar num sábado do nosso contentamento, num baile dos bombeiros, a ver o conjunto do Agostinho a montar a aparelhagem e a dispor os instrumentos e a seguir a tocar muitos slows e depois a ver chegar as meninas solteiras acompanhadas pelas mães e pelas tias e pelas primas e pelas irmãs e pelas amigas e também enxergar os rapazes amigos de mãos nos bolsos das calças à boca-de-sino e de apoiar a coragem dos mais aventureiros em seguir com o olhar as raparigas mais vistosas e de lhes perguntarem se alguma delas deseja dançar…

 

E de seguir a aproximação dos corpos e o cruzamento dos olhares e os gestos. E de ver as raparigas sorrir muito e de as ver ganhar confiança. E eu com elas, a ganhar também a dita, e a arranjar coragem para avançar…

 

E de, finalmente, nos encostarmos e de nos apalparmos como se fossemos gatos tímidos…

 

E de sentir, com vergonha e embaraço, o pénis a enrijecer e os mamilos dela a endurecer por debaixo da blusa. E, quando me encho de coragem, roubar-lhe um beijo…

 

E as mães, embaraçadas, a desviarem o olhar para o outro lado.

 

O tempo passou. Mais um ano letivo chegou ao fim. O trabalho é cada vez mais difícil de suportar. Muito trabalho para quase nada: planificações, fichas, testes, metas, relatórios, projetos, avaliações, atas, que não atam nem desatam nada… trabalhos kafkianos… não trabalhos… canseiras… desvarios… visitas de estudo… reuniões constantes… e conclusões poucas ou nenhumas.

 

Já tudo me pesa, a idade, a demagogia insultante e… sobretudo a hipocrisia. E a desilusão. E o vazio. Trabalhar no vazio.


publicado por João Madureira às 07:15
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