Segunda-feira, 14 de Agosto de 2017

354 - Pérolas e diamantes: O desvio ligeiro e o enorme erro

 

 

 

Aprende-se sempre muito lendo bons livros, além do prazer que nos dão.

 

Com Os Criadores – Uma História dos Heróis da Imaginação aprendi, por exemplo, que a moda de os atletas gregos tirarem a roupa talvez tenha sido imposta quando Orsipo de Mégara, nos jogos olímpicos de 720 a. C., perdeu os calções a meio de uma corrida. Mesmo assim, venceu, e os outros, por companheirismo, seguiram o seu exemplo de nudez.

 

Outros recordam que num dos festivais em Atenas os calções de um dos corredores escorregaram, levando-o a tropeçar antes de chegar à meta. Para evitar, no futuro, acidentes semelhantes, os participantes foram obrigados, por decreto, a apresentar-se nus.

 

Aprendi que “ginástica”, palavra grega para atletismo, significa literalmente “exercícios executados quando se está nu”. Até porque, nos eventos mais populares, a luta livre e o pancrácio, seria muito difícil manter um traje decente.

 

Em Olímpia as mulheres não podiam assistir aos jogos dos homens. Pausânias conta que uma mulher que fosse apanhada nos jogos dos homens seria atirada das ravinas do monte Typaeum.

 

No seu discurso fúnebre, Péricles declarou que a maior glória de uma mulher era os homens não falarem dela, nem bem nem mal. Ao que se sabe, as corridas das mulheres eram organizadas apenas para as “virgens” e o casamento (quase sempre aos 18 anos) acabava com a carreira desportiva da mulher.

 

Embora as competições atléticas exibissem claramente modelos masculinos do corpo adulto, não existiam iguais possibilidades de observar o corpo feminino. Praxíteles (nascido cerca de 390 a. C.) foi designado como o “inventor” do nu feminino, devido à sua Afrodite de Cnido, de lendária beleza.

 

Antes do seu tempo, era o ideal masculino quem dava forma às esculturas femininas.

 

Conta-se que Zêuxis (cerca de 400 a. C.), quando decidiu pintar uma Helena para o templo de Hera, pediu ao povo de Cróton que lhe mostrasse as mais belas virgens para lhe servirem de modelo. Em vez disso, conduziram-no a um ginásio, mostraram-lhe os rapazes que ali treinavam e sugeriram-lhe que imaginasse a beleza das suas irmãs.

 

Parece que os escultores e pintores arcaicos não trabalhavam em estúdio com modelos, mas antes observando rapazes praticando exercício físico.

 

Mas Zêuxis, que não conseguia repousar descansado enquanto outros teimavam em acordar o povo que supostamente dormia na cidade, não se deu por vencido e insistiu num modelo feminino adequado. Veio então o conselho público em seu auxílio e deu-lhe razão.

 

O bom Cícero, que não era hipócrita, escreveu mais tarde que “ele não acreditava poder encontrar num só corpo toda a beleza que procurava” e que por isso selecionou cinco virgens.

 

Os sábios Gregos resolveram imaginar um “inventor” da arte da estatutária e resolveram chamar-lhe Dédalo.

 

Ao que se sabe, o lendário artífice (690 a. C.) nasceu em Atenas, mas sentia-se inquieto e incomodado com um sobrinho que não dormia (razão pela qual não podia ser acordado), que inventara a serra e a roda do oleiro e que tecnicamente ameaçava ultrapassá-lo.

 

O invejoso Dédalo atirou-o da Acrópole, provocando-lhe a morte, pelo que foi obrigado a deixar a cidade.

 

Foi este Dédalo, que no tempo do culto das imagens de madeira, designadas por daedala (“maravilhas da arte”), lhes deu forma humana reconhecível. Diodoro Sículo (historiador grego do século I a. C.) conta que “ao ser o primeiro a abrir-lhes os olhos, afastar-lhes as pernas e erguer-lhes os braços, conquistou a justa admiração dos homens, pois antes do seu tempo as estátuas eram feitas com os olhos fechados e os braços caídos e colados ao corpo”.

 

Outros escultores primitivos, discípulos de Dédalo, ficaram conhecidos como os Dédalis, os quais, segundo se diz, foram os primeiros a esculpir o mármore.

 

Os kouroi (jovens), que se tornaram o protótipo do nu masculino clássico, quase não se distinguem, em termos de postura, das obras egípcias.

 

Policleto, homem que não dormia para não ter de ser acordado pelo príncipe encantado, repetia o axioma de que “a perfeição só se consegue através de muitas contas”. Ou seja, mesmo que um escultor se desviasse apenas ligeiramente de cada uma das suas medidas, o somatório poderia resultar num enorme erro.

 

Ou seja, o cânone podia também proteger o escultor do gosto inconstante do público.

 

Para os despertadores de mesa-de-cabeceira, aqui fica uma história ainda contada sete séculos após a morte de Policleto.

 

Policleto construiu duas estátuas ao mesmo tempo. Uma tinha a nítida intenção de agradar ao público e a outra era feita segundo os princípios do tratado. De acordo com a opinião de cada individuo que visitou o estúdio, foi alterando aqui e ali, mudando a forma, submetendo-a ao juízo de cada um dos observadores. Quando finalizadas, expô-las ao público. Uma maravilhou e a outra foi ridicularizada. Seguidamente Policleto disse: “Mas aquela que não é do vosso agrado foi a que vocês fizeram, enquanto a que vos deslumbra é a da minha inteira responsabilidade”.


publicado por João Madureira às 07:15
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