Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2018

373 - Pérolas e diamantes: Salomão e Saramago

 

“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”, reza n’ O Livro dos Itinerários, de José Saramago, citado pelo autor d’ A Viagem do Elefante, José Saramago. Todo o livro é muito interessante. Cheio de bons conselhos. E de outros tantos recados.

 

De facto, uma adulação repetida acaba sempre por tornar-se insatisfatória.

 

No livro, o rei D. João III, estando ainda a cogitar na forma de oferecer ao seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, um elefante indiano que se encontrava em Belém há cerca de dois anos, questiona-se sobre o que é um ato poético, para ver se o seu gesto caberia em tal definição. Alguém lhe respondeu que não se sabe, que só damos por ele quando aconteceu.

 

Para ir ver o Salomão, pois desta forma honrosa era o paquiderme nomeado, o rei recomendou que quatro cavalos estivessem à porta do palácio prontos para rumarem até ao cercado onde se exibia o elefante às espantadas gentes de Lisboa. Ele montaria uma cavalgadura gorda e mansa, pois nunca foi homem de cavalgas, muito menos nessa altura, por causa da idade e dos achaques. Recomendou ainda que os pajens escolhidos não fossem daqueles que se riem por tudo e por nada, pois dava-lhe vontade de lhes torcer o pescoço.

 

Esta seria mais “uma das milenárias experiências dos povos, que, apesar das deceções, frustrações e desenganos, que são o pão nosso de cada dia dos homens e dos elefantes”, não impedem a vida de continuar.

 

Seria o animal bonito ou feio? O secretário inquirido respondeu com toda a sapiência do mundo que isso não passa de “meras expressões relativas”, pois, “para a coruja até os seus corujinhos são bonitos”.

 

Na realidade, Saramago é um bom mestre. É o que me agrada nele, pois não necessita de dizer as palavras todas para percebermos do que está a falar e o que quer dizer.

 

O mal, seja em que tempo for, é estarmos entalados entre “o hoje e o futuro, sem esperança em nenhum dos dois”.

 

Saramago escreveu que “o passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma autoestrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há por baixo delas”.

 

E avisa-nos que a inóspita dureza da vida não se cansa de nos mostrar que não é aconselhável confiar demasiado na natureza humana.

 

Claro que até nas orações o escritor atenta. Nada lhe passa em branco. Os mais espertos, aqueles que gostam de ficar com o melhor dos dois mundos, rezam um interminável padre-nosso, “oração da sua especial estima por aquilo que nela se diz de perdoar as nossas dívidas”, e de pedirem que até eles venha o reino de Deus que habita lá nos céus.

 

Quando alguém se recusa a cumprir o seu dever com a pátria, ajudando na alimentação do paquiderme e das tropas que o guardam e encaminham até terras de Espanha, onde o arquiduque o espera, o comandante não lhe nega a sábia definição que acaba por convencer os ignaros camponeses lusos.

 

Quando alguém de entre eles tem a humildade de afirmar que nunca viu a pátria, o comandante lança-se num repto lírico: “Vês aquelas nuvens que não sabem aonde vão, elas são a pátria, vês o sol que umas vezes está, outras não, ele é a pátria, vês aquele renque de árvores donde, com as calças na mão, avistei a aldeia nesta madrugada, elas são a pátria, portanto não podes negar-te nem opor dificuldades à minha missão.”

 

O feitor, posto perante definição tão eloquente, declara: “Se vossa senhoria o diz…”

 

Facto é que quando homens e cavalos desembarcam na terra onde os aguardam, o seu aspeto é de “animais em segunda mão”.

 

Saramago sabe de que é feita a escrita, de chamar os bois pelos nomes e dar a cara. “Nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só pelo bem que soam juntas, assim muitas vezes se sacrificando o respeito à leviandade, a ética à estética.” É por causa disso que, muitas vezes sem nos apercebermos, vamos arranjando tantos inimigos na vida.

 

Ele sempre soube que “pagar pelos próprios sonhos deve ser o pior dos desesperos”.  

 

Mais uma vez me deliciei com o seu olhar irónico e sarcástico, com as suas marcas de lucidez indomável, com a sua compaixão solidária por todos os seres humanos humilhados e ofendidos. 

 

Apesar da cobardia de alguns e da maledicência dos que os acompanham, continuo a acreditar que “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”.


publicado por João Madureira às 07:15
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