Terça-feira, 4 de Julho de 2006

Mesmo assim

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Lá no alto do céu escuro brilha uma luz acetinada que me faz recordar alguma coisa que agora não consigo bem fixar.
Por vezes tenho dificuldade em lembrar-me das coisas.
Estou a ficar velho.
Todo o processo humano é muito complexo. Nalgumas ocasiões tento relativizar os factos, mas já poucas vezes consigo atinar com o sentido dos acontecimentos.
Estou a ficar um pouco gasto.
Outro dia tentei cantar uma canção da minha infância e só me saiu uma cançoneta brejeira que nem sei bem como é que a decorei. De certeza que só pode ter sido por um reflexo condicionado ou por outro factor relacionado com o subconsciente.
Até a família se espantou com tamanha vulgaridade.
Não é que a vulgaridade seja algo que só por si seja vulgar. Por vezes ser vulgar até dá muito trabalho. Mas a vulgaridade sempre me assustou. Não é que me assuste com qualquer coisa. Posso dizer-vos que sou uma pessoa destemida e desassombrada. Mas ser vulgar é muito vulgar e tudo o que é vulgar aflige-me. Não é uma aflição por aí além. É apenas uma aflição pequenina. Mas, mesmo assim, atrapalha-me no momento de falar em público. Falar em público também é muito vulgar. Falar também é muito vulgar. O público também é muito vulgar. Quase tudo é muito vulgar. Eu não sou vulgar. Eu sou mais a modos que especial. Especialmente quando me atrapalho a comer. Já viram alguém que se atrapalhe a comer? Eu começo a comer pelo fim. As pessoas ficam muito aflitas quando me vêm a comer. Não percebem bem o meu método. Aquilo não é método nenhum. É mais uma maneira atrapalhada de introduzir os alimentos na boca. E é aí quando mais me embaralho. Engasgo-me muito. E sem querer. Por vezes acusam-me de me atrapalhar a comer para não parecer vulgar. Mas não é por aí que eu gosto de ser invulgar. É pela forma de beber. Especialmente a água. O vinho bebo-o como uma pessoa qualquer, a água não. A água bebo-a sempre com a ajuda das mãos. E sempre da torneira. Nunca da garrafa, nunca do copo, sempre da torneira e com as mãos em concha. Consigo fazer isso de olhos fechados. E também consigo assobiar de olhos fechados e até respirar. Também consigo sorrir quando me falam de economia. É um pouco difícil, mas com o treino consigo sorrir logo que vejo um economista ao longe. Tenho um sexto sentido para descobrir economistas e também para distinguir médicos e ilusionistas. E olhem que distinguir à primeira vista um ilusionista não é nada fácil. É a coisa mais parecida com um político, mas distingue-se dele por ser mais sincero e menos astuto.
O que eu não sou é astuto. E isso deprime-me muito.
A depressão fica para amanhã. Eu sei que podia deprimir-me hoje. Mas não. Só vou deprimir-me amanhã. É menos vulgar. Bem sei que não é invulgar, mas…

publicado por João Madureira às 20:55
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