Sexta-feira, 23 de Junho de 2006

a, b, c, d, e, f

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a) Sinuosas são as linhas por onde se cosem os argumentos cinematográficos. Especialmente os portugueses. Que, de tão elaborados, destroem a paciência do cinéfilo mais intrépido.
Mas o cinema de hoje é imbecil. Muito movimento e pouco argumento. É só meia bola e força.
Tudo se baseia nos actores. Mas os actores são quase todos iguais, isto para não dizer todos. Todos e mais alguns. E é nos “alguns” que a porca torce o rabo.

b) Um dia vi um filme com uma porca e já me esqueci da história. Doutra vez vi um filme com um anão. Só me lembro do anão. E mal. Também me recordo de ter visto um filme sobre uns emigrantes magrebinos em França que comiam um pão tipo cacete com chouriço junto a um camião do lixo. Não me lembro de mais nada porque depois adormeci. O filme era do Godard. Também me lembro de outro filme onde um jovem francês bebia ar com a ajuda duma colher no meio do campo, depois não me lembro de mais nada porque adormeci. O filme era do Godard. Lembro-me, ainda, de um outro onde um jovem casal falava através dos títulos dos livros e não me lembro de mais nada porque adormeci a meio. O filme era do Godard.
Recordo de ir ver mais alguns filmes do Godard mas desses não me lembro mesmo de nadinha. Só de acordar no fim do filme.

c) Está claro que o problema não estava na falta de qualidade dos filmes do realizador francês. O problema residia na minha falta de cultura cinéfila. Pois não percebia as metáforas, os planos, os diálogos, a montagem, as insinuações, a linguagem revolucionária, nem percebia o francês, que para mim sempre foi uma linguagem de donos de gatos persas que gostam de sair à noite com alguns rapazes.
O povo detesta os filmes do Godard. Os intelectuais adoram-nos. Não sei é se os conseguem ver sem adormecer.

d) O povo é muito leal nos seus gostos. Os intelectuais não. Os intelectuais são bons rapazes, ou raparigas, mas é gente que gosta de se sentir mal com o bem dos outros. Adoram dizer que gostam de coisas chatas e complicadas. Não apreciam coisas simples. Gostam do povo vertido em dialecto epilogado. Gostam do povo mas detestam tudo o que ele faz, o que ele come, o que ele veste, o que ele lê. Abominam a música e adoram ruído.

e) Os intelectuais são demais, mas, por outro lado, nunca são demais. Em Portugal até são de menos. Mas eu gosto muito deles. E também gosto do povo. E de música popular, fado, marchas, folclore. Adoro caldo verde e chouriço. E pão saloio. E camisolas do Figo. E bandeiras de Portugal e braceletes de Portugal e “pines” de Portugal e cachecóis de Portugal e de lenços de Portugal e relógios da selecção de Portugal… e também gosto de Portugal, propriamente dito.
E de sardinhas assadas e de febras assadas e de linguiças assadas e de alheiras assadas e de camisolas do Deco e do Figo e do Pauleta e do Simão Sabrosa. E de Portugal e da nossa selecção. E da nossa querida bandeira das quinas. E de figos e de maçãs e de laranjas e melões e melancias e de peras e tangerinas e da camisola do Maniche e da do Figo e da do Deco e da do Ricardo e da do Figo novamente, porque nunca é demais. E da bandeira de Portugal e da camisola da selecção de Portugal. E de Portugal, propriamente dito, também gosto muito. E de sopa de chícharros com couves e de creme de cenoura e de arroz de tomate com carapaus fritos. E gosto muito dos calções com o número 7 do Figo. E dos cachecóis da selecção e das bandeiras de Portugal.

f) Viva Portugal, propriamente dito.
Viva a bandeira portuguesa que agora está em toda a parte.
Viva a selecção portuguesa.
Viva o bacalhau.
Viva tudo o que é nosso.
Viva Timor-Leste, que é bem o espelho da sua Pátria-Mãe.
Viva tudo o que pode viver.
E viva outra vez. E outra. E outra. E outra. E outra ainda.
Golo. Golo. Golo e outra vez golo. E mais um golo e outro e outro e outro.
E mais uma bandeira e mais um golo e mais uma camisola do Figo e o caldo verde e tudo e tudo e tudo.
Viva tudo e mais alguma coisa.

publicado por João Madureira às 20:09
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1 comentário:
De commonsens a 24 de Junho de 2006 às 08:04
Fantástico!


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