Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2006

Nós, os da Torre de Ervededo

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Ao fim de 13 anos a viver em Portugal, o escritor angolano Luandino Vieira acaba de publicar “O Livro dos Rios”.
Em entrevista, disse que a distância menor entre dois pontos é uma longa curva.
Em todos estes anos que viveu fora do seu país, por não conseguir aguentar a guerra civil que por lá grassou, viveu no Norte.
E foi no Norte que, isolado numa montanha, se fez exemplo.
E foi nos nossos rios de águas claras que arranjou inspiração para escrever o seu último livro.
Afirmou que esta sua obra nasceu quando ele tinha mais ou menos 9 anos.
Curioso é que o meu livro “Crónica Triste de Névoa” também surgiu em mim nessa mesma idade.
Foi nas ruas da minha aldeia, mesmo juntinho a um ribeiro de águas claras que passava junto à casa dos meus avós, que as primeiras imagens se fixaram na minha imaginação para desabrocharem dezenas de anos depois.
Escrevi o livro com a fantasia de apresentar as pessoas e os lugares da minha aldeia aos meus leitores.
As várias histórias que lá se contam foram imaginadas dentro da própria realidade.
É esta a minha identidade cultural: a de um aldeão criado na cidade.
Sinto que a minha aldeia não tem retorno, porque se esvai em esquecimento, porque desaparece lentamente entre as memórias das pessoas e das coisas boas que por lá havia nos tempos da minha infância.
Se antigamente me sentia um prisioneiro na aldeia, hoje sinto-me um exilado na cidade.
Luandino Vieira disse também que um escritor é primeiro que tudo um grande leitor.
E também disse uma coisa que me fez lembrar a “guerra civil” que por aqui travávamos contra a miséria, a fome e o analfabetismo: “Aquele com quem comemos as folhas na época difícil é aquele com quem temos que comer o feijão quando há abundância”.

publicado por João Madureira às 19:32
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