Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012
Da expetativa ao imobilismo (I) – a liquidação da memória


O prometido é devido. E eu cumpro sempre com a palavra dada. Mesmo que me custe, o que não é manifestamente o caso. Por isso hoje vou dedicar o parco tempo de que disponho a escrevinhar umas palavras de aplauso e reconhecimento ao presidente da Câmara de Chaves pela sua “década de progresso” frente aos destinos da nossa cidade e do nosso concelho.

 

Neste preciso momento levanto as mãos do teclado do computador e começo a aplaudir. A minha mulher olha para mim como que eu esteja à beira da loucura e o cão do vizinho começa a ladrar de forma compulsiva. À Luzia, porque ao cão não consigo, explico-lhe a razão do aparente desatino. Ela sorri e junta-se a mim nesta íntima, mas sincera, festa laranja de aniversário autárquico. Talvez peque um pouco por tardia, mas não deixa de ser feita com boa vontade e algum carinho.

 

Pois é, o barrosão João Batista está à frente dos destinos da nossa urbe há dez anos. Uma década é muito tempo. Talvez até tempo a mais. E se os quatro anos do primeiro mandato foram razoavelmente promissores, os do segundo revelaram-se desinteressantes e os últimos dois são pródigos em imobilismo, o que nos obriga a levar a avaliação da gestão de João Batista para uma espécie de classificação muito próxima da redundância. E, disso tenho quase a certeza absoluta, muito por culpa dos seus vereadores. Especialmente do seu vice que, como é explicado por quem segue a política autárquica com regularidade, é uma força de bloqueio. Muitas das vezes força de bloqueio até do bom senso e da razoabilidade.

 

Convenhamos, na competência e na gestão política dos dossiês, João Batista está uns furos acima do seu entorno, desde logo porque o atual presidente é um homem de trato fácil, culto, generoso e protagonizador de consensos. No que contrasta com todos os seus vereadores, com a honrosa exceção de um que aqui não refiro para não criar ainda mais problemas a uma equipa que se desmorona a olhos vistos. E tudo por culpa do vice camarário, que, na sua sofreguidão pelo poder, atropela tudo e todos, na tentativa de colocar nos lugares de chefia o seus apaniguados, mexendo nas estruturas do partido com mãos de pedreiro e na chefias da Câmara com ares de capataz que tudo quer refazer e tudo desfaz.

 

E é com um misto de incredulidade e espanto que observo a desistência e o lavar de mãos, como Pilatos, por parte do presidente em quem os flavienses votaram para levar o seu mandato até ao fim com honestidade, transparência e empenho. Sabendo ele, e nós, que até ao lavar dos cestos é vindima, esta postura não deixa de ser estranha e, quase me atrevo a dizer, profundamente desonesta.

 

Chegou-me aos ouvidos (e noutra altura voltarei ao assunto) que o vice camarário se comportou na reorganização das chefias de divisão da autarquia, com a falta de jeito que o carateriza, num misto de uma raposa no galinheiro com o desempenho de um elefante numa loja de porcelana, virando tudo de pernas para o ar, premiando os lambe botas e os amigalhaços, despromovendo os técnicos superiores, arredando os competentes, colocando na prateleira os independentes, importunando os insubmissos.

 

Na fotografia do jornal que ilustra a notícia que tenho na minha frente, apenas João Batista sorri. E penso que o sinal é indicativo de algo. Apenas ele sabe que está fora da luta fratricida que se instalou no PSD local, tendo em vista constituir uma equipa para concorrer às próximas eleições autárquicas. Todos os outros andam a ver quem salta fora, quem é abalroado ou quem vai ser forçado a desistir. Na dança das cadeiras, a música é de um filme de suspense, animosidade e aleivosia.

 

Olhando para a foto, e procurando na minha memória alguns factos significativos, reparo que entre os que aparentam cara de caso, há pelo menos um que foi utilizado como moeda de troca para encaixar um terceiro elemento num lugar da vereação. Ei-lo, agora, que regressa, atropelando alguém que já se queixa de forma veemente de que foi ultrapassado e, até, vilipendiado na sua dignidade e na sua dedicação à gestão de João Batista.

 

Na foto citada, todos, menos o presidente, contemplam o vazio. João Batista observa as mãos e sorri. E eu olho para uma jovem e interrogo-me sobre quem seja. Eu que sou da terra, que vivo na terra, que conheço muita gente cá da terra, a ela não conheço. Apesar disso, sei pela foto que a jovem também tem a sua cota parte de responsabilidade na gestão municipal do PSD.

 

Confirmo, embora isso me custe, que na política basta aparecer lá no partido, agitar umas bandeiras, colar uns cartazes, ser amigo do líder, para aparecer nas listas e até chegar a exercer o cargo de vereador. Isto apesar de se ser desconhecido da maior parte da população da cidade e do concelho, não possuir qualquer tipo de experiência política relevante nem se lhe conhecer, ou reconhecer, atributo intelectual, político ou social de valia.

 

Está claro que não é o ilustre desconhecido que tem a culpa. O verdadeiro culpado é quem faz uma equipa a pensar nos equilíbrios partidários em vez de pensar na capacidade política e cultural dos integrantes da lista para servir os cidadãos com competência e seriedade. Em política não pode valer tudo. E muito menos a vacuidade e a inoperância.

 

O senhor presidente afirma que “o espírito de equipa prevalece sempre, facilitando a transformação das ideias em projetos e os projetos em obras. Os resultados estão aí. Na ação política, mais do que as intenções, contam os resultados.”

 

Estou de acordo com as suas palavras, senhor presidente. E com a intenção do que afirma. Mas, para nosso pesar, todos sabemos que as desavenças, os conflitos, as pequenas invejas e as pequenas traições, começam a prejudicar, de forma irreversível, o trabalho da sua equipa. Se, neste momento, se pode falar de uma equipa, o que duvido. Pois, é certo e sabido, que o senhor cada vez mais desaparece de cena para dar visibilidade ao seu vice. E isso raia, deixe que lho repita, quase a fronteira da indecência e da desonestidade intelectual e política.

 

E, também por muito que me custe, reparando nas obras que resultaram da transformação das ideias da “sua” equipa, e do seu “espírito”, fácil é concluir que as ideias eram fracas, pois as obras são pífias e, muitas delas, redundantes ou incongruentes. E, se como muito bem diz, na política, mais do que as intenções, devem contar os resultados, a avaliação dos seus mandatos, especialmente dos últimos anos da sua gestão, são de um cinzentismo preocupante.

 

Daí o senhor presidente ter dificuldade em destacar a obra mais marcante. E, deixe que lhe diga, que as obras mais emblemáticas que resultam do seu mandato, são um ataque inqualificável à memória, à vida e à tradição de todos os flavienses que amam verdadeiramente a sua terra e as suas gentes.

 

Ao acabar de forma tão radical com os principais espaços de memória da nossa urbe, o senhor matou o coração da nossa cidade, deu um golpe fatal na nossa identidade, destruiu quase irremediavelmente os espaços do nosso contentamento. Por isso a nossa cidade é hoje uma terra descaracterizada, fria, abúlica, imóvel.

 

E por hoje, fico-me por aqui. Pois a conversa já vai longa. E as suas outras afirmações, que terei todo o prazer em comentar da próxima vez, exigem da minha parte novo fôlego e alguma paz de espírito que, confesso, perdi no momento em que me lembrei da destruição do Jardim das Freiras por parte da autarquia da minha terra.

 

Digo-lhe isto com toda a tristeza e, também, com toda a certeza, do mundo: se verdadeiramente amasse esta terra, era incapaz de pensar sequer na possibilidade de destruir o Jardim das Freiras. Acha capaz de alguém de Lisboa pensar em acabar com o Cais das Colunas ou o Jardim do Tabaco, ou alguém do Porto destruir as Fontainhas, ou alguém de Montalegre arrasar a Mijareta? No entanto o senhor foi capaz de destruir o Jardim das Freiras e de lá assentar um chão tão raso que mais parece uma campa (apesar daquele ser campo santo para mim e para toda a gente da minha geração, que também é a sua e a do seu vice, por isso a afronta ainda dói mais), sem que isso lhe tivesse tirado uma hora de sono.

 

O senhor afirmou, sobre o assunto, que “na política uma má decisão é sempre melhor que uma não decisão”. Antes de tomar uma decisão daquelas, o melhor era ter pensado em reconstruir, com qualidade, o Jardim das Freiras. Pois o culpado pelo genocídio da nossa reminiscência foi, a seu tempo, castigado por causa dos atentados perpetrados contra a nossa memória coletiva.

 

E o senhor tinha esse dever, tinha essa obrigação. Mas, infelizmente, o novo-riquismo e o mau gosto prevaleceram. E isso é culpa sua. Talvez tenha querido dar um sinal de diferença em relação à gestão anterior. Mas o que em política torto nasce tarde ou nunca endireita.

 

E por hoje é tudo, e olhe que já não é pouco. Um abraço. 



publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
|

1 comentário:
De o flaviense de chaves a 7 de Fevereiro de 2012 às 23:02
Dou-lhe razão senhor madureira. O padre não fez nada de jeito pelo concelho. O pouco que está feito é obra desse arquiteto ressabiado, mas são bastantes as obras que estão às moscas, a darem avultados prejuizos a chaves. é esta a cãmar que temos, com gente que nos desgoverna. 10 anos é muito tempo, como dizia o poeta, mas também é tempo de por no olho da rua o padre e o seu sacristão


Comentar post

.Keith Jarrett - La Scala
.mais sobre mim
.pesquisar neste blog
 
.Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9

14
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. O Poema Infinito (100): a...

. Exposição de Fotografia -...

. Ponte Romana de Chaves

. Da expetativa ao imobilis...

. Sorrisos

. Pequenos cantores

. O Homem Sem Memória - 114

. Sorriso

. O Poema Infinito (99): as...

. Da expetativa ao imobilis...

. Poetas

. Na aldeia

. O Homem Sem Memória - 113

. Jogadores de fito (II)

. O Poema Infinito (98): r...

. Jogadores de fito

. Da expetativa ao imobilis...

. Partilha

. Passeantes

. 25 de Abril em Chaves

. O Homem Sem Memória - 112

. Trilogia masculina

. O Poema Infinito (97): o ...

. Promoções

. Da expetativa ao imobilis...

. Mulheres

. Mulheres

. O Homem Sem Memória - 111

. Mulheres

. O Poema Infinito (96): fl...

. Mulheres

. Da expetativa ao imobilis...

. Chaves - Arrabalde

. Poldras de Chaves

. O Homem Sem Memória - 110

. Montanhas

. O Poema Infinito (95): pa...

. Amanhecer em Couto de Dor...

. Da expetativa ao imobilis...

. Partilhar

. Cantar e beber

. O Homem Sem Memória - 109

. Canto

. O Poema Infinito (94): a ...

. Vinhas

. Da expetativa ao imobilis...

. À conversa

. No banco

. O Homem Sem Memória - 108

. O jogador de fito

.arquivos

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas
.A Li(n)gar