O prometido é devido. E eu cumpro sempre com a palavra dada. Mesmo que me custe, o que não é manifestamente o caso. Por isso hoje vou dedicar o parco tempo de que disponho a escrevinhar umas palavras de aplauso e reconhecimento ao presidente da Câmara de Chaves pela sua “década de progresso” frente aos destinos da nossa cidade e do nosso concelho.
Neste preciso momento levanto as mãos do teclado do computador e começo a aplaudir. A minha mulher olha para mim como que eu esteja à beira da loucura e o cão do vizinho começa a ladrar de forma compulsiva. À Luzia, porque ao cão não consigo, explico-lhe a razão do aparente desatino. Ela sorri e junta-se a mim nesta íntima, mas sincera, festa laranja de aniversário autárquico. Talvez peque um pouco por tardia, mas não deixa de ser feita com boa vontade e algum carinho.
Pois é, o barrosão João Batista está à frente dos destinos da nossa urbe há dez anos. Uma década é muito tempo. Talvez até tempo a mais. E se os quatro anos do primeiro mandato foram razoavelmente promissores, os do segundo revelaram-se desinteressantes e os últimos dois são pródigos em imobilismo, o que nos obriga a levar a avaliação da gestão de João Batista para uma espécie de classificação muito próxima da redundância. E, disso tenho quase a certeza absoluta, muito por culpa dos seus vereadores. Especialmente do seu vice que, como é explicado por quem segue a política autárquica com regularidade, é uma força de bloqueio. Muitas das vezes força de bloqueio até do bom senso e da razoabilidade.
Convenhamos, na competência e na gestão política dos dossiês, João Batista está uns furos acima do seu entorno, desde logo porque o atual presidente é um homem de trato fácil, culto, generoso e protagonizador de consensos. No que contrasta com todos os seus vereadores, com a honrosa exceção de um que aqui não refiro para não criar ainda mais problemas a uma equipa que se desmorona a olhos vistos. E tudo por culpa do vice camarário, que, na sua sofreguidão pelo poder, atropela tudo e todos, na tentativa de colocar nos lugares de chefia o seus apaniguados, mexendo nas estruturas do partido com mãos de pedreiro e na chefias da Câmara com ares de capataz que tudo quer refazer e tudo desfaz.
E é com um misto de incredulidade e espanto que observo a desistência e o lavar de mãos, como Pilatos, por parte do presidente em quem os flavienses votaram para levar o seu mandato até ao fim com honestidade, transparência e empenho. Sabendo ele, e nós, que até ao lavar dos cestos é vindima, esta postura não deixa de ser estranha e, quase me atrevo a dizer, profundamente desonesta.
Chegou-me aos ouvidos (e noutra altura voltarei ao assunto) que o vice camarário se comportou na reorganização das chefias de divisão da autarquia, com a falta de jeito que o carateriza, num misto de uma raposa no galinheiro com o desempenho de um elefante numa loja de porcelana, virando tudo de pernas para o ar, premiando os lambe botas e os amigalhaços, despromovendo os técnicos superiores, arredando os competentes, colocando na prateleira os independentes, importunando os insubmissos.
Na fotografia do jornal que ilustra a notícia que tenho na minha frente, apenas João Batista sorri. E penso que o sinal é indicativo de algo. Apenas ele sabe que está fora da luta fratricida que se instalou no PSD local, tendo em vista constituir uma equipa para concorrer às próximas eleições autárquicas. Todos os outros andam a ver quem salta fora, quem é abalroado ou quem vai ser forçado a desistir. Na dança das cadeiras, a música é de um filme de suspense, animosidade e aleivosia.
Olhando para a foto, e procurando na minha memória alguns factos significativos, reparo que entre os que aparentam cara de caso, há pelo menos um que foi utilizado como moeda de troca para encaixar um terceiro elemento num lugar da vereação. Ei-lo, agora, que regressa, atropelando alguém que já se queixa de forma veemente de que foi ultrapassado e, até, vilipendiado na sua dignidade e na sua dedicação à gestão de João Batista.
Na foto citada, todos, menos o presidente, contemplam o vazio. João Batista observa as mãos e sorri. E eu olho para uma jovem e interrogo-me sobre quem seja. Eu que sou da terra, que vivo na terra, que conheço muita gente cá da terra, a ela não conheço. Apesar disso, sei pela foto que a jovem também tem a sua cota parte de responsabilidade na gestão municipal do PSD.
Confirmo, embora isso me custe, que na política basta aparecer lá no partido, agitar umas bandeiras, colar uns cartazes, ser amigo do líder, para aparecer nas listas e até chegar a exercer o cargo de vereador. Isto apesar de se ser desconhecido da maior parte da população da cidade e do concelho, não possuir qualquer tipo de experiência política relevante nem se lhe conhecer, ou reconhecer, atributo intelectual, político ou social de valia.
Está claro que não é o ilustre desconhecido que tem a culpa. O verdadeiro culpado é quem faz uma equipa a pensar nos equilíbrios partidários em vez de pensar na capacidade política e cultural dos integrantes da lista para servir os cidadãos com competência e seriedade. Em política não pode valer tudo. E muito menos a vacuidade e a inoperância.
O senhor presidente afirma que “o espírito de equipa prevalece sempre, facilitando a transformação das ideias em projetos e os projetos em obras. Os resultados estão aí. Na ação política, mais do que as intenções, contam os resultados.”
Estou de acordo com as suas palavras, senhor presidente. E com a intenção do que afirma. Mas, para nosso pesar, todos sabemos que as desavenças, os conflitos, as pequenas invejas e as pequenas traições, começam a prejudicar, de forma irreversível, o trabalho da sua equipa. Se, neste momento, se pode falar de uma equipa, o que duvido. Pois, é certo e sabido, que o senhor cada vez mais desaparece de cena para dar visibilidade ao seu vice. E isso raia, deixe que lho repita, quase a fronteira da indecência e da desonestidade intelectual e política.
E, também por muito que me custe, reparando nas obras que resultaram da transformação das ideias da “sua” equipa, e do seu “espírito”, fácil é concluir que as ideias eram fracas, pois as obras são pífias e, muitas delas, redundantes ou incongruentes. E, se como muito bem diz, na política, mais do que as intenções, devem contar os resultados, a avaliação dos seus mandatos, especialmente dos últimos anos da sua gestão, são de um cinzentismo preocupante.
Daí o senhor presidente ter dificuldade em destacar a obra mais marcante. E, deixe que lhe diga, que as obras mais emblemáticas que resultam do seu mandato, são um ataque inqualificável à memória, à vida e à tradição de todos os flavienses que amam verdadeiramente a sua terra e as suas gentes.
Ao acabar de forma tão radical com os principais espaços de memória da nossa urbe, o senhor matou o coração da nossa cidade, deu um golpe fatal na nossa identidade, destruiu quase irremediavelmente os espaços do nosso contentamento. Por isso a nossa cidade é hoje uma terra descaracterizada, fria, abúlica, imóvel.
E por hoje, fico-me por aqui. Pois a conversa já vai longa. E as suas outras afirmações, que terei todo o prazer em comentar da próxima vez, exigem da minha parte novo fôlego e alguma paz de espírito que, confesso, perdi no momento em que me lembrei da destruição do Jardim das Freiras por parte da autarquia da minha terra.
Digo-lhe isto com toda a tristeza e, também, com toda a certeza, do mundo: se verdadeiramente amasse esta terra, era incapaz de pensar sequer na possibilidade de destruir o Jardim das Freiras. Acha capaz de alguém de Lisboa pensar em acabar com o Cais das Colunas ou o Jardim do Tabaco, ou alguém do Porto destruir as Fontainhas, ou alguém de Montalegre arrasar a Mijareta? No entanto o senhor foi capaz de destruir o Jardim das Freiras e de lá assentar um chão tão raso que mais parece uma campa (apesar daquele ser campo santo para mim e para toda a gente da minha geração, que também é a sua e a do seu vice, por isso a afronta ainda dói mais), sem que isso lhe tivesse tirado uma hora de sono.
O senhor afirmou, sobre o assunto, que “na política uma má decisão é sempre melhor que uma não decisão”. Antes de tomar uma decisão daquelas, o melhor era ter pensado em reconstruir, com qualidade, o Jardim das Freiras. Pois o culpado pelo genocídio da nossa reminiscência foi, a seu tempo, castigado por causa dos atentados perpetrados contra a nossa memória coletiva.
E o senhor tinha esse dever, tinha essa obrigação. Mas, infelizmente, o novo-riquismo e o mau gosto prevaleceram. E isso é culpa sua. Talvez tenha querido dar um sinal de diferença em relação à gestão anterior. Mas o que em política torto nasce tarde ou nunca endireita.
E por hoje é tudo, e olhe que já não é pouco. Um abraço.
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