Quinta-feira, 9 de Março de 2017

Poema Infinito (345): Automatismos

 

 

 

Grita o silêncio. Eu insisto no prazer do sono. O prazer devora a revolta. No entanto, a curva dos teus lábios continua a manter a inocência. Conservas o mesmo mistério frente aos espelhos. Do exterior chega-nos o eco dos objetos observados. A arte de pensar continua a ser um risco. Seguimos pelo caminho das emoções. Muitos pensamentos disfarçam-se de palavras: a confiança, o constrangimento, a necessidade, as emoções. A necessidade das emoções. Oiço as palavras e depois o seu silêncio, o seu cuidado intuitivo, o alcance do seu risco. A certas horas da tarde, a casa ilumina-se com a luz do poente. A cidade parece estremecer. Alguém trabalha a dignidade na sua própria oficina. A memória da mãe continua a trabalhar na sala de costura. A noite ouve os seus conselhos e segue o seu exemplo. A aflição dos caminhos continua igual. Quem neles se perde é por não os conseguir decifrar. Ensinaram-nos a elaborar uma lista de sentimentos, a ter carinho por quem não gostamos, a ter saudade de quem não gosta de nós, a apreciar os milagres que não se sentem, a avisar a luz antes de dormir, a desocupar os brinquedos e a cada um cumprir com a sua missão. Agora o mundo é automático. Cultiva-se a necessidade de tornar tudo lógico, de utilizar um critério para apanhar um susto. Para alcançar a alegria necessitamos de mapas e de bússola. O azul do céu é apenas distância. O cansaço é feio, as decisões prematuras, as visitas infantis, os exageros grosseiros, os defeitos solitários e os preconceitos esforçados. Os destinos são imediatos. Tentamos transformar a compreensão em opiniões. Tudo agora é saudade: os livros de cobóis, os cartões-postais, os santinhos, as datas natalícias, os cabelos compridos, os bustos salientes das raparigas, as suas blusas, as suas coxas, o catecismo, a paisagem onde morávamos, os rapazes que odiávamos, as cadernetas dos jogadores, a esperança, a alegria, o dia seguinte, os olhares, as brincadeiras na rua, a música da rádio, a televisão a preto e branco, os sorrisos escondidos atrás das mãos abertas, os beijos roubados, os batimentos apressados do coração, as adivinhas, os velhos tempos, os olhos espantados dos colegas, as aparições mudas dos fantasmas, as palavras elucidativas dos mestres, as confusões silenciosas, a enorme surpresa do sexo, a exaustão do vento, o comprimir da primeira carta de amor contra o peito, o uso das horas, o adormecer com o livro aberto no colo. Agora aprende-se a vender a alma, a verdade e as conversas de fim de semana. O ânimo encontra-se sempre na casa dos outros. Os sorrisos são ensaiados para ecoarem nas salas enormes. O pudor é um ajustamento. Tudo nos parece universal. Tudo nos parece humilhante. As verdades são óbvias, os rivais estimulantes, as palavras aprimoradas, os princípios oblíquos, os homens simpáticos, as mulheres competentes, os pais engraçados e o tráfego péssimo. Por vezes sentimos que vivemos na eternidade. A alegria é modesta. Os beijos das mães continuam perfeitos. Apenas os mistérios se tornaram compreensíveis. O hábito amortece-nos as quedas. Compreendemos os momentos caóticos. Foi daí que surgimos: de um instante que se continua a expandir sem se saber nem por quê e muito menos para onde. Vivemos em estado de prontidão, como um exército que caminha para o abismo a cantar caras ao sol. Tu perguntas: O tempo continua por quanto tempo mais? Eu não te sei responder. Ninguém sabe. Abençoados sejam os néscios.


publicado por João Madureira às 07:15
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