Quinta-feira, 16 de Março de 2017

Poema Infinito (346): O murmúrio do tempo

 

 

 

Sinto a minha boca como uma planta e nela reencontro um novo sentido para as palavras. A vida lateja entre a humidade de todos os teus lábios. Percorro o deserto do tempo. Os frutos caem ao chão de maduros. A escrita afugenta o medo. O vento parou no interstício dos nossos dedos. O olhar simplifica a distância dos corpos. Uma luz fria brilha dentro dos abismos, ali mesmo onde termina a noite e nasce a alba. As flores sentem a serenidade das suas pétalas, a tentação do pólen, o rumor alquímico da seiva, a diluição da água nas raízes da sua planta. Nos seus estames cintilam os astros e os poemas. Envelheço mais eu do que os textos. Sinto a ferrugem a penetrar-me os ossos. Nada permanece intacto depois da nossa passagem. Os fogos irrompem pela epiderme das montanhas cansadas. O coração dos rios torna-se frio como a noite. As mãos folheiam as insónias. Nós escutamos os murmúrios do tempo. Crescem os líquenes nos carvalhos. São uma outra forma dos presságios se manifestarem. Pareces-me uma açucena abraçada pela sua própria melancolia envolta nos sonhos premonitórios das incertezas. Os meus olhos foram tomados pela insónia letárgica dos livros, pelo deslocamento da inutilidade, pelo imenso vazio da palavra pátria. Também as moscas morrem de encontro ao calor das lâmpadas. As portas por vezes choram ao serem abertas de rompante. O teu rosto avança na minha direção. Acordo. Respiro fundo. Ouço a chuva. Partilho as horas que restam da nossa eternidade, contigo. Sempre contigo. Caminho como se voasse. O tempo acende em mim o velho ritual da expansão e da retração. Somos já velhos amigos. Um vento desequilibrado zumbe no seu interior, soa como o bater das asas de um colibri. Assento os pés e o chão resvala. Descubro no teu olhar a luz da minha paixão. No entanto, as violetas estampadas no teu vestido murcharam sem te aperceberes. O dia cresce pelos caules porosos das plantas. A um sexo corresponde sempre um rosto, por muito distante que seja. A casa lá está, agora sempre de porta fechada. Os cães já não dormem ao sol. As mãos ocupam-se em nada produzir. Mexem e remexem sem objetivo. Cansam-se a acariciam-se sem destino. No entanto, a grande árvore do terreiro continua a espalhar a sua sombra nos dias de estio. As ervas aromáticas já secaram há muito. O silêncio cobre a algazarra de outrora. O silêncio cobre o silêncio de outrora. O vento atravessa o vento. Já nada cresce no seu tempo devido. Vivemos dentro de uma estufa global. O mundo dos outros apenas começava bem para lá da cancela do pátio, junto ao rio que quase desaparecia no verão. O lume aceso entardecia como nós. A avó fazia o café na sua chocolateira de barro negro. Escutava-se o rumor dos animais acomodando-se na palha seca. A estrela da alba já não brilha com a mesma intensidade. A água do poço ainda alimenta os amores-perfeitos e mata a sede aos pássaros e rega a minha memória já calejada pelo tempo e pela saudade eterna dos que partiram. As memórias enrolam-se dentro de mim como gatos junto da lareira. Ninguém caminha na direção da casa. Nenhum medo me perturba. As palavras ficam palpáveis. O meu mundo está para cá da cancela. Descanso em cima da lembrança subtil das plantas. Sonho com o segredo ténue dos caminhos, com o odor místico das giestas, com o perfume de verão entrando pela janela do quarto. Sonho com a minha avó (ou será a minha mãe?) abrindo a porta da cozinha enquanto entoa uma canção de embalar.


publicado por João Madureira às 07:15
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