Quinta-feira, 23 de Março de 2017

Poema Infinito (347): A geometria da noite

 

 

Procuro a simetria secreta que existe na raiz da terra, os novos labirintos, a alquimia dos seres incómodos, a velocidade das galerias que abrem os sonhos, que eretam os mamilos e que tornam dóceis as vaginas. O inverno come a carne dos animais mais tenros e bate à porta do tempo. O tempo é agora um ano bissexto com idade para tudo. Dança o teu cabelo, dançam as nuvens, dança a preguiça. Os espelhos esperam pelos rostos e pelas memórias das belas cortesãs. A paciência junta os seus cordeiros. Os lobos passeiam pelas montanhas o seu deus devorador. A memória da infância possui os seus dias trágicos: o vento agreste tombando os pinheiros, as nuvens insufladas de loucura, Deus apontando o dedo mindinho na nossa direção. Todo o quadro rural encerra um mistério litográfico que pretende traduzir a voz do Criador quando a ergueu e abençoou a natureza. Depois pensou nos animais. E pensou nos livros e com as suas palavras criou Adão e Eva e toda a restante família. Seguidamente apareceram os pastores que guardavam o rebanho de Deus. As matilhas humanas corriam no inverno para apanharem o tempo. O gelo era como um punhal. Os corpos aprenderam a mentir o seu desejo. Deus transformou então a timidez em crueldade. As crianças aprenderam a rir como se fossem desertos. As mães aprenderam a chorar. Começaram a trocar os números e as noites, a esconder os anéis, a multiplicar os dedos. Os homens aprenderam a gostar do sabor amargo da aguardente. Ambos assimilaram a necessidade de se persignarem antes de baterem às portas. Aprenderam a praguejar, o ofício dos recados, o lindíssimo timbre do latim, o orgasmo lento e a ejaculação precoce. Dentro das casas assumiram os seus desígnios, as palavras ínvias e os desejos forçados. Aprenderam a solidão, a outra face da vida, a necessidade das colheitas, do frio, da pobreza, do sofrimento e o santíssimo sacramento da eucaristia. Pagaram a Deus com orações e ao padre com algum dinheiro, couve lombarda, feijão branco, batata nova e fumeiro. Agora os burros voltaram a ser selvagens, os tratores dispensaram-nos. Os campos parecem viúvas abandonadas. Ninguém repara nos domingos frescos nem nos céus carregados de nuvens. Vivem consumidos pela televisão. A vida lírica é uma coisa de velhos cujas memórias se encontram agarradas à enxada que repousa no estábulo. Os netos adquiriram uma voz que os avôs não entendem. As casas berram entre os eucaliptos. Deus decidiu refugiar-se dentro dos poemas históricos, debaixo dos versos mais explicativos, na vã tentativa de ensinar filosofia às crianças. Os bêbados sonâmbulos ainda procuram a chuva, os balcões das tabernas são o seu altar de sacrifício. Os lugares são agora mais brutos. As geadas, os ventos e o nevoeiro apenas aparecem nas fotografias. A noite fecha-se de maneira incoerente e arrasta consigo a metamorfose inútil do dia. Os espíritos não se poupam a silogismos. Os santos assustam-se com as enxertias de silicone em corpos convexos, com o sexo amargurado dos machos, com as fêmeas trágicas, com as capelas esquecidas entre pinhais e vinhas, com a polifonia das guerras e do lucro que elas geram às nações mais prósperas. Nas hortas plantam-se os ruidosos promotores da alegria pré-fabricada. Satélites sinistros rasgam o céu. A volúpia persegue os humanos. A natureza já não está no mesmo lugar.


publicado por João Madureira às 07:15
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