Quinta-feira, 6 de Abril de 2017

Poema Infinito (349): A obliquidade do desejo

 

 

 

Vou para além das aparências. Fujo do escuro de algumas almas. As verdadeiras máquinas humanas são devoradoras de instintos. Alimentam-se da pálida magia dos reflexos subterrâneos. São vítimas das suas antigas obsessões. A doença provoca sempre lábios de fogo. Noutros continentes, os povos adormecidos constroem enormes esconderijos. Procuram o sentido da vida na intuição do futuro. A sua memória revela-se entorpecida. Por isso abandonaram o litoral e agora habitam junto aos círculos de pedra. A mancha dos demónios é o sinal evidente de uma antiga presença. Interpretam as figuras através das mãos e os espíritos através dos olhos. O impulso criativo une os símbolos mais diversos e as palavras mais abstratas. O universo está repleto de objetos e imagens contraditórias. O brilho original contamina os gestos poéticos, os contactos físicos, as realidades essenciais ou as mais primitivas. O sentido geral do mundo é o acaso. Baixo a respiração, olho fixo a revelação do nada. Giro sobre mim próprio como se pretendesse acompanhar o movimento de rotação da Terra. Tento compreender o outro lado dos objetos, a parte mais longínqua e inacessível dos sentidos. Toco as palavras com os dedos, tento sentir a sua música implícita, o peso da sua acústica, as cores das suas infinitas combinações, o sentido da sua queda e da sua elevação dentro do meu cérebro até que os horizontes fiquem mais explícitos. As forças luminosas influem na mobilidade, integram a compreensão do mundo, perseguem a necessidade perfeita dos conflitos, buscam a transição entre identidades e a evolução breve das mariposas. São diversos os desejos das aves, dos répteis e dos insetos. Por vezes cai sobre nós o brilho uniforme do luar. Os nossos olhos assemelham-se a planetas. As noites ficam mais largas e estendem-se pelos estuários do nosso olhar. Ao longe ouvem-se os gritos da madrugada. Os cavalos relincham e batem com as patas no chão. Desviamo-nos então da realidade e o silêncio cresce nas margens dos sentimentos. O desejo aprende as palavras essenciais e a desmedida ambição poética de morrer ao crepúsculo. Com a idade, as distâncias ficam mais diluídas, as analogias mais defeituosas e as manhãs sofrem o estrangulamento da humidade. Tudo fica mais abstrato, até a vontade. As ausências enchem-se de excesso e de sombras. Protegemo-nos no suave torpor das palavras essenciais. O nosso amor continua impaciente. Deus vindima as uvas mais profanas, abre o mar, submerge a curiosidade e penteia as searas magnânimas. As suas frases divinas são como sussurros. Continua ávido de impossibilidades, de revelações estranhas, de marés desordenadas. Continua surpreendido com aquilo a que os humanos apelidam de metafísica. Há metafísica pessoana bastante em não pensar em nada. O poema ganha o movimento dos nossos lábios, o reflexo exterior da realidade, a direção certa dos textos mais simples, a expressão sincera do desejo do contacto, o excesso mais desconcertante da exatidão. A manhã ainda não nasceu e a humidade dos prados já começou a conjugar as neblinas mais vagas e os animais mais selvagens. O Rei Salomão continua perdido a percorrer os caminhos do amor e dos lírios. As planícies estremecem. O corpo e a alma tentam fundir-se. As divindades constroem precipícios. Eu, como um marinheiro sôfrego, navego no teu corpo e enalteço a obliquidade dos teus lábios.


publicado por João Madureira às 07:15
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