Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

Poema Infinito (352): Outra espécie de ternura

 

 

A terra olha-nos como um desafio. Já o céu é outro. Enrolam-se os anos nas cordas. A verdade chega-nos pelos caminhos mais saibrosos. As Tábuas da Lei que Moisés tinha na mão caíram ao chão. Sonhamos com oliveiras e vemos nascer a lua. A bruma adensa-se junto ao cais. O veleiro interrompe os sonhos de espuma. O nevoeiro transforma a noite em infinito. As fadas dobam os seus novelos, fecham o sol dentro da gaiola, enloirecem os cabelos, marcam a idade do mar, lavam o corpo com o que resta das marés, envergam os seus vestidos mágicos, vestem quimeras e despem-se da maldade. Vamos ter de aprender a beber utopias, a percorrer as raízes mais fundas, a aquecer as sementes, a fazer germinar os pensamentos. Secam as folhas ao cair da tarde. Esquecemos a dor e a tristeza que choveu sobre o telhado. Alguém traz a luz que faz falta ao dia. O tempo cobre as ruas e as praças e as crianças explicam os números até se cansarem. Depois sorriem. O tempo cheira a maçã. A verdade serena o seu rosto. As horas passam como vultos que não esperam. A primavera acorda com os seus instintos pequenos mas ainda com apetite de cama. Nós conversamos sobre o livro neutro que comprámos. O instinto mandou na nossa nudez. A sua força é serena. Apenas os anjos andam revoltados, perdidos dentro da sua religiosidade sem sentido. Custa vestir a capa da humildade. Os ramos das flores fazem-me lembrar os teus braços. Conservo o seu cheiro. As recordações desfazem-se em fumo. As mãos afagam a lenta melodia do entardecer. As distâncias fazem-nos sofrer. Junto à janela da casa, uma ave lenta levanta as asas como se fossem lembranças. A dor do tempo é agora mais clara. Dentro da cidade, as saudades transformam-se em cisnes. Junto ao estuário, as fragatas parecem milagres que navegam entre as gaivotas. A claridade mistura os sonhos, as ruas parecem anciãos desconfiados. O sol aquece a roupa que seca nas varandas. Nas aldeias, os penedos ficam ainda mais tristes, mais embrulhados no abandono. A angústia é agora uma espécie de rio que não consegue desaguar. Vamos por cima de tojos e carquejas à procura dos fios de água. Ouvimos a mágoa cantar dentro dos espelhos da chuva. A tristeza amadurece dentro dos nossos rostos. Desejamos uma outra espécie de alegria. Até dos frutos azedos se consegue arrancar alguma doçura. O verde nasce inquieto dentro das folhas mais pequenas. Talvez temam a neve que promete cair no Deus Larouco. Vamos pelos campo fora ver as velhas maravilhas que sabemos de antemão: o milho verde a crescer, os ovos pousados nos ninhos, as ervas tenras, os bichos. Ouvimos o dia, uma nora perra a chiar, a melancolia dos cucos. As mulheres cantam não sabem que mágoa, debruçadas sobre a terra, mostrando o rosto aos bichos, colocando arbustos, mondando o tempo, plantando nos regos de água desejos e tormentos, pensando na vida, arrastando tristezas. Sabem que no inverno as fogueiras serão cercadas por invernias polares. Reparam então na luz do sol que se escoa por entre os dedos. Conservam a paciência das penitências, o perdão dos sentimentos, a tolerância das emoções, o desprezo pelas tragédias. Sabem podar as flores do engano, as árvores do equívoco, os arbustos do receio, as promessas de desejo que crescem dentro dos seus corpos. Sabem buscar a ternura onde ela existe. Com as pedras dos montes sabem construir os caminhos da salvação. Conservam a infinita esperança de descobrirem um Adão para compensar a sua virgindade.


publicado por João Madureira às 07:15
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