Quinta-feira, 4 de Maio de 2017

Poema Infinito (353): O esplendor da lucidez

 

 

A rainha das fadas perdeu-se no meio da metafísica indistinta. Agora as suas emoções mais sinceras são uma espécie de acessório. O tempo é uma impressão feita de realidades mistas. O tempo é como um sonho longínquo. O tempo é doloroso. O sol entra pela última vez através da janela da casa abandonada. Acorda a penumbra. A criança que por lá dorme ainda acredita que pode compreender o mundo. No seu sonho o palhaço ri do bobo e por isso tinem as campainhas na sua cabeça. A raiva faz-se dos cansaços. Vamos reconstruir a imaginação. Os deuses permitem que o que não existe de súbito se ilumine. Nos ilumine. A impressão das ruas, a perturbação das encruzilhadas, os caminhos abstratos, a imaginação concreta, os riscos irregulares que atravessam as montanhas, as ilustrações que compõem a nossa vida quotidiana, tudo aquilo que a alma sonha, os enigmas visíveis do tempo, os símbolos esotéricos. As estrelas começam a pestanejar por causa do frio. Vemo-las através da janela da infância, sentados nas cadeiras da sala. E ali estão os castelos e os cavaleiros, as paisagens do norte, a neve, as névoas, os livros coloridos, a monotonia, a força de tudo aquilo que é diferente. A lucidez. Vários bocados de sonhos. A força monótona da existência. E as cores. E as velhas angústias. E as lágrimas verdadeiras guardadas em antigas vasilhas. Dormimos sossegados sob o nosso teto provinciano. A casa defronte parece feliz. Nas sacadas brincam crianças entre os vasos de flores. As suas vozes são eternas. Os vários andares estão em silêncio. O som de um portão fecha-se sobre nós. Vemo-nos ao espelho e reparamos que a criança que trazemos dentro não mudou em nada. Por detrás da máscara, a personalidade é uma linha. Queremos ir devagar. Mas queremos ir. Queremos sentir os passos e soletrar os verbos que constroem a realidade. Debruçamo-nos sobre as invocações. A água torna-se resplandecente. A alma transforma-se num desejo. As flores ficam finalmente abstratas. Assim gosto delas. Balouçamos deslumbrados pela sensação das ondas. A minha juventude é perpétua. Os campos da minha infância fazem-me compreender a sua essência, as flamulas coloridas, a realidade dos abismos, os sorrisos involuntários. As mulheres continuam a chorar baixinho, cheias de individualidade, como anjos isolados, como esculturas de catedrais com os braços estendidos para o céu. As suas almas fundem-se durante a noite. Emprestam a sua humanidade aos homens e às pedras. Pela manhã beijam as crianças, transportam o universo ao colo, movimentam as suas sensações, enternecem-nos com o seu sossego, com os seus sorrisos de lírio, com a sua essência de amor. Conseguem transformar a dor em algo de inútil. Consolam-se de presente. Sentem a tristeza mesmo de olhos abertos. Conseguem marchar vertiginosamente em torno de si próprias. Toda a realidade é excessiva. A vida corre em todas as direções. A monotonia transforma o tempo numa fatalidade. O problema da infância é não ter futuro. Agora enfiamo-nos na poltrona da melancolia, vestidos como liberais deprimidos, defendendo várias opiniões sociais. Convertemos as convicções em marchas fúnebres. Como Marinetti, acabaremos académicos, festejando o crepúsculo e os focos elétricos da dinâmica. Como os bons marinheiros portugueses, transformaremos as estrelas em abismos e a lua em mostrengo. Esse é o esplendor da nossa lucidez.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9



26
27
28
29
30


.posts recentes

. 360 - Pérolas e diamantes...

. Músicos

. Músicos

. Músicos

. Poema Infinito (372): O t...

. Músicos

. Músicos

. 359 - Pérolas e diamantes...

. Pose

. No carnaval de Verim

. O senhor Ventura e o seu ...

. Poema Infinito (371): De ...

. Bombos e cabeçudos

. Músicos

. 358 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Vermeer

. No Louvre

. No Louvre

. Poema Infinito (370): A r...

. Louvre

. Louvre

. 357 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Quadros e Pessoa...

. Louvre - Interior - Pesso...

. Louvre - Interior - Escad...

. Poema Infinito (369): A m...

. Louvre - Entrada

. Paris - Sena - Noite

. 356 - Pérolas e diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (368): A e...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 355 - Pérolas e diamantes...

. Pose e olhares

. Homens, chouriças e garra...

. Homem sentado com vara

. Poema Infinito (367): A t...

. Na conversa

. Pensando

. 354 - Pérolas e diamantes...

. Porto - Sardinhas - S. Jo...

. Porto - Ponte D. Luís

. Porto - Telhados, Barcos ...

. O poema infinito

. Porto - Casas

. Porto - Bicicleta

. Como se escreve um haiku

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar