Quinta-feira, 18 de Maio de 2017

Poema Infinito (355): O naufrágio das mãos

 

 

Canta o vento nos pinheiros, incendeiam-se os telhados, arredonda-se o universo. E eu à espera. À espera de ti. Sonho-te fora do mundo e observo as tuas mãos em concha. Provocas-me sede. Provocas-me. Ninguém pode adivinhar. Do mundo já baniram os magos e os profetas verdadeiros. Caem agora os dias como as sementes nas terras sulcadas. As sombras prolongam-se por dentro das memórias. Muita coisa ainda está por vir. Alguém inventou a noite para separar os dias, mas também para nos unir. Depois afastou o céu do mar, dividiu o tempo e limpou as lágrimas à primeira mulher. Sabemos agora que Eva foi criada antes de Adão e que era hermafrodita. Adão não foi capaz de decidir o que fazer com a sua metade do pecado. O chão cresceu e ele escapou-se do Paraíso. Os animais ficaram coloridos. A terra amou a estação das chuvas. As florestas encheram-se de vertentes e cordilheiras. Foi aí que Adão abriu as primeiras clareiras. Depois aprendeu a rasgar bocadinhos de céu, a cruzar oceanos, a contornar lagos com flocos de neve e algum granizo. Com as mãos aprendeu a acender fogueiras e a aproveitar o calor. Experimentou a alegria e a fragilidade do mundo. Desviou outra vez os olhos de Eva. Agora regressa ao pó, mesmo nos dias mais belos e serenos. O mundo continua à espera. Eu escrevo poemas que são como copos de vinho. Olho as fotografias e sinto o perfume com que ilustras o decote da blusa. Por vezes suspiro nomes que nem conheço. A felicidade vem poucas vezes mas continua a ter as mãos grandes. Continua a existir nos telhados uma ideia fixa de chuva e desalento. No vale paira agora uma névoa. O amor, por vezes, torna-nos sonâmbulos. Leva e traz notícias, urde sortilégios, esboça paisagens e sorrisos, desdobra mapas e memórias. Um vento agreste sopra nas asas das borboletas. O campo parece liso como uma fraga. Os lagartos recolhem-se nos buracos dos muros. As aves voam perplexas, desenhando linhas muito finas no horizonte. A minha mão escorrega então pela rotundidade dos teus seios e pousa decidida um pouco mais abaixo. Não te mexes. Recomeça mais uma pequena história do mundo. Os momentos e os gestos prolongam a vida. A minha mão afeiçoa-se ao teu sexo. As cicatrizes do nosso amor são visíveis nas dobras do lençol. O tempo parou por um instante. O vento continua a esculpir o seu rosto. As crianças continuam excessivamente belas. Por vezes surpreendem a intimidade dos pais. Os olhos das mães sussurram de prazer. A volúpia transmite-se ao dia. Os frutos rebentam nas árvores. Vem então a noite e os sentimentos ficam desarrumados. Os gestos preenchem os quartos. O mundo fica mais impreciso. As palavras ficam mais geométricas, quase inúteis. As nossas mãos tentam proteger a tremura das chamas. O amor é como um formigueiro lento. O seu segredo está na combustão que o alimenta. Só os beijos são urgentes. Os seus vestígios estão espalhados pela nossa pele. Os corpos transformam-se em crateras. A nudez é uma outra forma de loucura. As suas metáforas são densas. Deixemos então as mãos naufragar e os lábios também. O aroma das laranjeiras lava a tarde, cheira a feno e a linho molhado. O sol morde a limpidez do rio. O prazer cresce devagar. Olhamos os frutos sentindo o contentamento da sua polpa. A pele transpira. A volúpia cresce dentro de nós. A planície fica mais lenta. O vento parece dormir. Os deuses voltaram a escrever poemas nas linhas das nossas mãos.


publicado por João Madureira às 07:15
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