Quinta-feira, 22 de Junho de 2017

Poema Infinito (360): A fronteira de Deus

 

 

Até Deus estremece quando repara no teu olhar, parece um cisne assustado, de tão belo e confuso. Depois esconde-se dentro da sua ave e voa com astúcia até ao céu. Erguem-se então as novas palavras dos profetas e os poetas têm visões gigantes que se dilatam pelo íntimo das pessoas. As grandes mãos do tempo apontam na direção da ira. Pesa-nos a consolação, a espera e os bons conselhos. Enche-se a imaginação de longínquas estrelas e do seu brilho cauteloso. Adão, cheio de espanto, sobe as íngremes escadarias das catedrais. Chora repleto de apoteose. Cresceu de repente, no meio das assombrações. Como lavrador, começou a trabalhar no jardim do Éden sem o saber. Deus é difícil de persuadir. Ameaça-o de novo com a morte, mas ele teima em partir. Quer fazer-se homem. Eva tomou posse da sua maçã e sente-se culpada da sua inocência. Depois sorri. Por fim, chora. Cresceu e pariu, cheia de dor e de amor. Saiu de dentro da roda da eternidade para vencer na vida. Era jovem como a primavera. Quando achou o seu homem resoluto, foi com ele à procura da morte. Conheceram então Deus. Irromperam cegos na cidade, depois deixaram de existir no escuro. Alimentam-se do reflexo das coisas, extasiam-se com os obstáculos, expulsam o tempo do templo de Deus. Fazem perguntas amedrontadas e perdem-se no meio dos pensamentos. O vento mais velho sopra do mar, o verão sussurra, as figueiras rebentam ao luar. A impaciência tornou-se realidade. Deus cruzou as mãos. Lê o seu livro mais longo. O ar cheira a jasmim e a ofensa. O destino de tudo continua indescrito. Até o tempo está destinado ao declínio. O céu espelha-se nos lagos, as flores abrem-se descuidadas. O espaço interior transborda. Fecham-se os dias e os sonhos saem da frente dos espelhos. Os gestos ficam mais cansados e os sorrisos mais lentos. O silêncio bebe as imagens. Deus bebe a crítica. As horas ficam mais tardias. Cada um procura o seu caminho. Os anjos gritam a sua angústia e abalam as tempestades porque têm de recolher os fragmentos do apocalipse. Os mais doirados acreditam que Deus é russo e ortodoxo e os outros sabem que ele é apenas o seu alimento inesgotável. Pretendem somente um pouco de eternidade. A sua circunstância é feita de murmúrios. Tem medo das palavras dos homens, do seu sentido de jogo e de não entenderem qual é a fronteira de Deus. As horas começam a ampliar-se, a ficar mais largas e a preencherem o fundo do tempo. Nenhuma coisa é perfeita antes do nosso olhar. Deus chama os pintores e esboça-lhes os sonhos. Depois mancha tudo de escuro. Os pintores desenham o espaço e o tempo. Os anjos entoam canções tristes. Os pintores retratam então a luz. Depois desfalecem. Deus sorri de agradecimento. Gosta de se distrair com a Criação e de conter o espírito dos artistas. Escreve os séculos com canetas de vento. Avisto então o rosto da minha mãe, as primeiras palavras que não compreendi, a aresta dourada dos sentimentos, o teu e o meu espaço, as primeiras emoções, os símbolos expulsos do paraíso, os monólogos circulares do tempo, as horas abruptas, a presença ilimitada das melodias, o fogo que faz ferver os pecados, o crepúsculo dos deuses, a luz ténue da saudade, a palidez dos anjos, o gigante que devorou Miguel Ângelo, a inacessibilidade de Deus, a beleza e o pavor da última palavra do adeus. Sinto a nossa gravidade a afundar-se. Dá-me a tua mão.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9



24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Músicos

. Músicos

. Poema Infinito (372): O t...

. Músicos

. Músicos

. 359 - Pérolas e diamantes...

. Pose

. No carnaval de Verim

. O senhor Ventura e o seu ...

. Poema Infinito (371): De ...

. Bombos e cabeçudos

. Músicos

. 358 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Vermeer

. No Louvre

. No Louvre

. Poema Infinito (370): A r...

. Louvre

. Louvre

. 357 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Quadros e Pessoa...

. Louvre - Interior - Pesso...

. Louvre - Interior - Escad...

. Poema Infinito (369): A m...

. Louvre - Entrada

. Paris - Sena - Noite

. 356 - Pérolas e diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (368): A e...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 355 - Pérolas e diamantes...

. Pose e olhares

. Homens, chouriças e garra...

. Homem sentado com vara

. Poema Infinito (367): A t...

. Na conversa

. Pensando

. 354 - Pérolas e diamantes...

. Porto - Sardinhas - S. Jo...

. Porto - Ponte D. Luís

. Porto - Telhados, Barcos ...

. O poema infinito

. Porto - Casas

. Porto - Bicicleta

. Como se escreve um haiku

. Porto - Ponte D. Luís

. Porto - Ribeira - São Joã...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar