Quinta-feira, 6 de Julho de 2017

Poema Infinito (362): Flores espalmadas em dicionários

 

 

Todos os contos de mulher são tristes. Mas elas gostam de tomar um banho quente para meditar. Gostam de aguentar com dificuldade a animação da temperatura. Primeiro metem o pé dentro da água e só depois descem o corpo, centímetro a centímetro, até que a água lhes chegue ao pescoço. Depois ficam a olhar para o teto, ou para os pés ou para os bordos da banheira. Observam as texturas, os mamilos, as coxas, a cor das paredes, a penugem do sexo, a luz da lâmpada. São elas que acreditam no batismo de Cristo nas águas do rio Jordão. Pensam então que toda a água é benta. Que os seus corpos foram consagrados. Depois embrulham-se numa toalha branca e macia e sentem-se puras, frescas e virgens já fecundadas. Lembram-se de quando brincavam às escondidas e cometiam pecados fazendo coisas inocentes. Dobravam e recortavam com tesouras folhas de papel e usavam saias e viravam para fora as pontas dos cabelos. E tinham medo quando o dia chegava ao fim. Sonhavam com peixes atentos que se lhes escapavam por entre os dedos, ou com os parques onde brincavam de forma irreversível com a sua adolescência. E andavam às voltas procurando os sítios alegres para os dias tristes e tentando aprender ideias lúbricas para poderem crescer sem desesperar. E evitavam os contactos estranhos com as madrinhas estranhas, esquivando-se a ouvir chamarem-lhes afilhadas prendadas e outras coisas idênticas. Aprenderam a enfiar e rodar anéis nos dedos propícios, aceitar prendas, cortar e polir as unhas, dividir o tempo, aprender a arte do possível, bordar nomes em panos de linho, tomar atenção às panelas de esmalte, à cozedura do peixe, ao mau-olhado, à importância dos gatos na vida das avós. E a pôr-se à janela para conhecer a demora, para se lembrarem das pessoas que compram coisas nas lojas, a inquirir as amigas, a aspirar a sala e a escrever insípidas cartas de amor. Aprenderam com o tempo a comprimir as distâncias, a projetar no futuro as suas preferências, a evitar queimarem-se quando chegar a idade de fumar o primeiro cigarro de filtro longo e com sabor a nicotina e a mentol. Aprenderam também a achar graça ao vestido com alças, aos soutiens aconchegados, às cuecas bordadas, à transformação geométrica da razão, a subir e a descer escadas de forma a não mostrar aquilo que se deve esconder dos olhares atrevidos. Aprenderam também a lamber os gelados como os gatos lambem as feridas, a guardar os brincos e as outras joias de imitação em caixinhas forradas a veludo, e a não chorar com a lembrança do dia em que lhes furaram as orelhas para aí colocarem dois pingentes de ouro de lei. Colocaram amores-perfeitos no meio do dicionário de Língua Portuguesa, usaram fios com corações refulgentes, comeram pão com uvas, dobraram folhas dos livros e cantaram canções com versos disfarçados de príncipes. Aprenderam a prudência de forma exagerada, fecharam as pernas quando lhes apetecia abri-las. Deixaram de ser crianças pela mão das mães. Interessaram-se pelos rapazes contando à noite as estrelas. Aprenderam o sentido das proporções construindo flores de papel. Começaram cedo a ler os folhetins do Corin Tellado e nenhuma morreu de amores, nem ficou tísica ou sequer virgem. Leram em tempos curtos a História de Portugal e fizeram as suas primeiras considerações primárias. Imitaram a inveja de forma direta, pois isso não se aprende nos livros. E começaram a escrever poemas que pareciam as pás dos moinhos do D. Quixote a andarem ao contrário. Encontraram finalmente a sabedoria quando descobriram que as coisas simples são as mais complicadas.


publicado por João Madureira às 07:15
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