Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017

Poema Infinito (367): A técnica invisível do esforço

 

 

Encosto o ouvido ao teu ânimo e sorrio. Existimos pelo meio de diversas canções. Essa é a nossa língua partilhável. Multiplicamos dentro de nós o mundo, as animais mais vagos, os filósofos, os enciclopedistas. Organizamos o vocabulário dentro de armazéns portáteis. Os problemas da poesia são bem mais difíceis que os da matemática. A álgebra é uma oração rigorosa. A música conquista o ar. Vivemos dentro de sítios desprotegidos, onde os momentos respiram doses excessivas de oxigénio, onde o tempo é um local perigoso. As fotografias expõem o seu misticismo, a forma constante dos projetos, as armadilhas da carne, a pressa dos segundos, a localização precisa do futuro, as estacas simultâneas que unem a terra ao céu, a excelente rapidez dos estilos, todos os procedimentos físicos, o reequilíbrio dos desencontros, todo o mobiliário que cobre a desilusão do chão ao teto. Os corpos continuam a ser corajosos, a alimentar o desejo dos átomos, a dar transparência à obscuridade, a dormir sonhando com o destino das distâncias. As conclusões são sempre endereços homogéneos, onde se incluem os cansaços domésticos, os adereços das belezas efémeras, o luxo da felicidade, a mistura perfeita das substâncias incompatíveis. Alojamo-nos dentro dos ventos, pensando livrar-nos das tempestades. Na cidade até os murmúrios se pagam. As metrópoles transformaram-se em ângulos. As crianças sobem os montes pensando que no cume encontrarão os sonhos que as habitam. Entretanto desenham a fisionomia dos dias. Progressivamente acenderão os espantos e aprenderão a vestir o instinto do inimigo e a cheirar o indício do medo. Dizem-se felizes. Resumem as maravilhas do tempo e as suas perversões. Aceleram os seus olhares. Amadurecem os inimigos, enaltecem as viagens, percorrem as distâncias como se fossem animais mitológicos. Sentem falta de ar quando se levantam do chão. Deixam então de acreditar em fábulas para crer em algo bem pior: os cálculos, os equilíbrios e as compensações fúteis. O amor não é proporcional à realidade. As mulheres são rigorosas na exposição das suas coxas, por isso os poetas as enchem de sintaxe. Eles não se cansam de repetir notícias absolutamente exóticas. No mundo há cada vez mais garrafeiras e menos bibliotecas. Colecionam-se vinhos como se fossem poemas. As flores tomaram de vez o lugar das ervas daninhas. Os bordéis são como templos e os poetas acumulam dívidas como se fossem loucos delicados. O crime continua a compensar e os incautos continuam no cais à espera que a felicidade chegue de barco. Respiramos agora o ar e o desenho dos objetos. Os dias ficaram mais frios, a semântica mais perfeita, a metafisica mais disponível. Aprendemos com o tempo as inúmeras possibilidades dos desencontros, a hospitalidade dos cheiros, o desagrado das recaídas líricas. A chuva cai de forma organizada, o céu continua intelectualmente cinzento, apenas a simpatia fica ortograficamente um pouco mais molhada. Até os equilíbrios ficam mais exaustivos. Repetimos as surpresas, construímos a indiferença, entendíamo-nos com certas aventuras desnecessárias. Apesar do culto da agilidade, avançamos pela floresta dos pormenores. O tempo continua a descoordenar as faces, as técnicas e o esforço das boas famílias. Dividimos os sentimentos como se fossem pão. A simpatia fala sempre uma língua estrangeira. Por isso, os mudos estendem sempre o olhar para a boca de quem lhes fala.


publicado por João Madureira às 07:15
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