Quinta-feira, 24 de Agosto de 2017

Poema Infinito (368): A extensa eficiência do quotidiano

 

 

Entro depressa na noite porque está impregnada de quotidiano. Durante o dia, o sol foi eficiente. E extenso. A sua luz proporcionou-nos uma festa e alagou as casas. Encheu cântaros, bacias e alguidares, abrilhantou o calçado, orientou o olhar das crianças, pôs reflexos novos nos vidros das janelas. A faca cortou o pão, o vizinho agregou o conduto, a loucura ficou mais acessível. Ninguém ficou indiferente. O sol veio de longe e foi iluminando os sítios, a pressa da gente dos bairros e as penas das galinhas, dos patos e dos perus. Renasceram-nos os olhos na praça. Todos os regressos foram lembrados e celebrados. O tempo acompanhou o voo dos pássaros. Depois as estrelas morreram no poente e os rostos estalaram enquanto as palavras começaram a planar sobre o manto da inquietação. Foi então quando o teu sorriso desceu dos montes até chegar ao rio. Dizem que é dessa forma que os corações desaguam. Foi em Jerusalém que os homens aceitaram a morte, onde as mulheres começaram a dizer adeus com os lenços, onde os sinos desfolharam o tempo, onde o silêncio do sudário de Cristo tomou o lugar no passado. Também foi lá que a música preencheu as almas e abriu novos espaços. A cruz de Jesus foi sempre pouco funcional, quer para os torturadores, quer para o torturado. A verdade espalhou-se pelos jardins, as mãos dos fiéis ficaram tristes de tanto saudar. Desfraldaram-se colchas, saudaram-se as feridas dos condenados, bebeu-se paixão como se fosse amor. Os donos do mundo olharam para o sofrimento e pensaram que ele serve para purificar os outros. Os seus rostos parecem versos pintados de fresco. A voz do poder justifica a arquitetura incondicional da fé. A chuva, quando vier, cantará nas ruas o desgosto dos homens. Os pecadores confessam-se e agradecem o milagre de estarem vivos. Aprenderam a esperar pelas estações, a conviverem silenciosamente nos dias de jejum, a tornar submissas as mãos das crianças, a esquecerem os sonhos e a condição do arrependimento e também o elogio triste da imortalidade. Pensam renovar a vida desenhando o sinal da cruz, exigindo sacrifícios aos olhares, esperando a obediência, antecipando o tempo das injustiças, tornando a caridade uma profissão, clonando as barbas de Abraão, plantando hortênsias nas manhãs de domingo, desertando da alegria, tornando-se o brilho fugitivo do olhar dos deuses, instalando a sua camilha num recanto do céu. A tarde acompanha a curvatura da terra e propaga a primavera pela órbita das oliveiras. Escolhem-se os pensamentos, acendem-se no regaço das mães os lírios do tempo, saltitam nos olhares os sorrisos da infância. Enchemos as mãos de vento. As ausências são como resina brilhante, cheiram como os cedros, brilham como o destino. Envolvemo-las em palavras. Escutamos o seu silêncio junto com o canto pontiagudo dos pássaros de arribação. O tempo equilibra os mares e os caminhos, pressente a chuva, adivinha os gestos e orienta os pensamentos. Repouso os meus versos na boca do dia e lavarei os pés no primeiro orvalho. As coisas gloriosas guardo-as dentro de ti e transformo as lágrimas em lindas metáforas. O tempo rouba as horas mais domésticas. Os teus lábios arredondam-me de prazer o pénis. Estou à beira do abismo. Cubro-te o corpo de dádivas. Longe de Jerusalém, os corpos voltam à vida. O Senhor sente as folhas que morrem. Erguem-se as estações como se fossem braços. Três gestos decisivos libertam as mãos e desenham no universo os desejos mais antigos.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9



24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Músicos

. Músicos

. Poema Infinito (372): O t...

. Músicos

. Músicos

. 359 - Pérolas e diamantes...

. Pose

. No carnaval de Verim

. O senhor Ventura e o seu ...

. Poema Infinito (371): De ...

. Bombos e cabeçudos

. Músicos

. 358 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Vermeer

. No Louvre

. No Louvre

. Poema Infinito (370): A r...

. Louvre

. Louvre

. 357 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Quadros e Pessoa...

. Louvre - Interior - Pesso...

. Louvre - Interior - Escad...

. Poema Infinito (369): A m...

. Louvre - Entrada

. Paris - Sena - Noite

. 356 - Pérolas e diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (368): A e...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 355 - Pérolas e diamantes...

. Pose e olhares

. Homens, chouriças e garra...

. Homem sentado com vara

. Poema Infinito (367): A t...

. Na conversa

. Pensando

. 354 - Pérolas e diamantes...

. Porto - Sardinhas - S. Jo...

. Porto - Ponte D. Luís

. Porto - Telhados, Barcos ...

. O poema infinito

. Porto - Casas

. Porto - Bicicleta

. Como se escreve um haiku

. Porto - Ponte D. Luís

. Porto - Ribeira - São Joã...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar