Quinta-feira, 31 de Agosto de 2017

Poema Infinito (369): A mecha do tempo

 

 

Hesito autoritariamente entre as vibrações que o ar faz dentro de mim. Imagino a casa, os cheiros, a inclinação das paredes, o redemoinho da luz, o tempo dos usos e as horas dedicadas à memória. O tempo está reduzido à sua própria sombra. As horas ficam mais leves e saltitam entre emoções. O espírito dos anos lambe a acidez do silêncio e do vazio. Aos poucos reencontro a entrada do tempo, o gosto diáfano das perguntas, o vestígio dos antigos painéis, o cheiro das árvores, a cor do fogo, a pressa da ansiedade e a amável hospitalidade da noite. Os fantasmas começam a enfraquecer, dissipando as sombras, revelando a serenidade. As horas ficam mais abertas e os passos das pessoas ficam mais ligeiros do que os bichos. Lembro-me então do apego à terra, do motivo do seu esquecimento, do vulto engrandecido dos conspiradores. As begónias continuam a crescer junto às janelas e insistem no seu sofrimento. Os pombos continuam a namorar nos telhados e a angústia dos gatos continua a revelar-se em janeiro. Oiço contar as mesmas histórias antigas eivadas de justiça e incoerências. Os sonhos revelam-se como fotografias analógicas e empalidecem. As meninas são como memórias largas, inundadas de enxovais e de namoros, com sexos alinhados e seios rijos. O vento sopra-lhes todos os sustos e todos os cuidados e todas as finuras e todas as utilidades dos seus corpos e, ainda, todo o fervor do seu sangue. Os rapazes aprendem depressa a distinguir com clareza os momentos do dia, o grau conveniente do humor e da prudência, a arte dos jogos e do galanteio, os enredos amorosos, a ronda das manhãs e a adaptação aos intrincados hábitos domésticos. Sentem o silêncio como uma nova forma de perturbação. As manhas da sedução continuam a obedecer a regras severas. A inteligência, nestes casos, é indiferente. Mesmo de forma discreta, as feições dos rostos ganham cintilações obscenas. A raiz da juventude é dissipadora. O futuro move a confiança do destino dos homens, assusta o tempo, transtorna os sonos, dita os laços de família. A chuva miudinha torna os jardins intemporais. Enche-os de verde e de nomes, dita-lhes a transparência, sossega-lhes as noites. A chuva mais grossa bate nas vidraças, amedronta o sono leve das crianças e abafa o pó das folhagens. Os teus dedos ficam cintilantes quando dizes adeus, são como canções inquietas. O destino enrola-se aos nossos corpos e faz-nos sentir culpados. A minha miopia torna as mulheres mais loiras, os ramos das árvores mais difusos, a literatura mais imaterial, o idealismo mais humilhante, o humor mais melancólico, as cabras mais desequilibradas e as vénias mais habilidosas. A alegria nasce em mim como se fosse raiva, destituída de adereços. O tempo não me dá sossego nem me traz pardais. Apenas fio com ele a memória dos meus pais. O tempo é cada vez mais um movimento indistinto, como uma sombra dentro de outra sombra. É como uma divindade cega, como o jogo do desespero. O vazio preenche o espaço da divindade. Os corpos distendem-se. Contemplo-lhes os pormenores, o seu pesado crepúsculo. Depois fecho os olhos. Novamente o tempo reedita a determinação em envelhecer. Nos montes continuam a crescer giestas, carquejas e tojos. Os estábulos estão frios e os caminhos ocultos. O freixo já não indica o atalho para casa. Os terreiros estão definitivamente silenciosos. O único som que se ouve ao redor é o dos nossos passos.


publicado por João Madureira às 07:15
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