Quinta-feira, 14 de Setembro de 2017

Poema Infinito (371): De olhos fechados

 

 

Tenho guardados numa caixinha de mistos uma esperança, vários rios, diversas maneiras de ver, muitas estrelas, cataventos, botões de camisas mágicas, cartas antigas, cores diáfanas, papoilas distintas que não murcham, olhares, a rua da minha infância, tardes de brincadeira, manhãs de Natal, barquinhos de papel, lama de fazer bonequinhos, os bodrelhos com que a minha irmã mais velha jogava com as amigas, várias imagens do tempo, o canto dos grilos, a voz dos pássaros, lírios, lábios molhados, uvas tintas e brancas, várias essências de viagens, sons noturnos, silêncios atordoados, a memória dos comboios, distintas ausências, incansáveis regressos, o lume sempre aceso, horas incansáveis, versos transparentes, céus de várias cores, poemas silenciados, memórias fugazes, beijos furtivos, espaços secretos, o amor em chamas, a finitude dos sonhos, o vento que arrasta as memórias, o vento que assobia nos campos, as pernas do tempo, giestas, contos, urzes, adivinhas, maçãs, tojos, lendas e pêssegos, arraiais e andores, pontes e escolas, escanos e letras cinzeladas a golpes de machado, lousas escolares, luas namoradeiras, cancelas escangalhadas, palheiros, pedras de fornos comunitários, cerejas e nostalgia. Tudo isto fez parte do meu futuro imaginado e agora constitui parte do meu passado. O passado é uma recordação das poças de chuva onde eu molhava os sapatinhos novos, onde escondia o sol nos desenhos, onde as meninas espreitavam nas montras as bonecas que ainda não choravam nem mijavam. O tempo costumava talhar as tardes com navalhas de gume afiado enquanto as achas ardiam no lume lento da lareira. Nesse tempo as lágrimas eram desconsoladas, nasciam nos ermos das serras que preenchiam os olhares matinais. Até as feridas eram mensuráveis. A foz do rio que passa lá em baixo fazia parte do futuro. Os corpos eram muito solitários, abatiam-se pelo hábito. Por vezes ocupavam o calor dos olhos. Os astros e os gatos alongavam-se durante o domingo, as searas produziam trigo ou centeio, os sonhos pareciam-se com os galhos tortos dos carvalhos, o sol acariciava o musgo que nascia nas árvores mais velhas e as rodas dos carros de bois chiavam irritando as próprias fragas dos outeiros. O tempo, agora, tornou-se amorfo na espera. Os sonhos são feitos de madeira secular. Neles bate a água dos oceanos. Aprendemos a andar na névoa, com botas ferradas e meias esburacadas. Os caminhos eram de lama e barro. O fumo das lareiras enovelava-nos os pensamentos. As lavadeiras lavavam a roupa na água gelada dos tanques e não gemiam. Tudo era frio como as insónias: as cabeças, o tempo, o silêncio, as aves caídas, os brinquedos encostados a um canto, as horas, os dias, as semanas, a nudez insuportável do inverno. Sei agora que os meninos grandes perdem os sonhos sem se aperceberem. As suas recordações é que medram como ervas daninhas. O sol produz longos espaços de sombra que crescem com o decorrer do tempo. Os jogos da infância parecem-nos sempre tardios. Dantes lembrávamo-nos da matança do porco por causa da bola que fazíamos com a bexiga do sacrificado. Agora apenas nos acende o apetite. Gostávamos de jogar, de dar biqueiros na bola, de trepar aos amieiros, de criar sorrisos nos rostos dos demais. Atualmente batemos com os olhos na dureza permanente das madrugadas, nas casas abatidas, na usura do tempo, nas fendas do silêncio. O ar está contaminado pelo desalento. A rua deserta ainda tem os mesmos calhaus onde eu tropeçava como se fosse cego. Fecho os olhos e caminho.


publicado por João Madureira às 07:15
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