Quinta-feira, 5 de Outubro de 2017

Poema Infinito (374): Labirintos e lamentos

 

 

 

Desta vez não consigo sentir a casa, apenas experimento a tristeza vaga dos seus alicerces. O tempo e o mundo parece que nos sobram. Como dois namorados, queixamo-nos da felicidade e do amor que cresce num ritmo lento. Toda a beleza é em vão e a virgindade tem forma de verso vencido. O amor é uma ave de rapina. O desejo brilha como o orvalho da manhã. Rolamos com toda a velocidade pela voracidade do tempo. O sol continua a nascer para lá dos portões de ferro. Parece que a alma toma conta dos nossos erros e as transgressões moldam os nossos corpos. Todos os pecados são teimosos porque se alimentam do remorso. Boceja o tempo como se tivesse necessidade de uma bênção. A verdade custa uma fortuna em lágrimas. Os poemas prolongam-se pela colina como se fossem raios de sol preparando o caminho da paixão. Choram os anjos de júbilo porque os ensinaram a amar o medo e os lamentos. Testam agora o desprezo, as doenças venéreas, o incenso e a mirra, as drogas, o vinho benzido e o pão ázimo. Deus usurpa todas as ironias e acaricia com a sua mão de veludo as cenas ímpias e os gemidos mudos. Da fonte da nossa origem corre agora a água da piedade, a natureza cruel do tempo, a dor mais perfeita, a essência incompleta da vida. Os sábios decadentes ensinaram-nos que o tempo e o universo vão ter de convergir. Brilha no túnel do tempo a luz pura do esplendor. Os poetas ocupam os lugares mais singulares, enobrecem os dramas, procuram as joias antigas nas cidades perdidas, filtram a magnificência e o espanto, transformam-se em pássaros imensos que deslizam até ao mar e ocupam os navios mais lentos que navegam nos abismos mansos. Alguém se sensibiliza com a beleza cómica dos objetos esquecidos. Ri-se o exilado no meio da terra triste onde os pobres alcançam as asas gigantes da fome e do desprezo. O fogo toma conta dos espaços mais enérgicos. Os ímpios afogam-se no meio da essência divina. Iluminam-se os campos, as casas e os caminhos. Os pensamentos e as cotovias acordam ao mesmo tempo e partem logo para o ar azul e as flores explicam a mudez das suas cores. A natureza ergue-se entre os pilares vivos do templo. Lá dentro os homens soletram palavras confusas e observam a floresta de símbolos. Tudo se confunde: os longos ecos, a profunda unidade da noite, a claridade dos sons, o perfume seco da pele das crianças, o verde dos campos, o som triunfante dos oboés, a expansão quimérica do âmbar, as paisagens e os alpendres, os olhares mais impacientes, a sintonia imensa da claridade, a recordação dos velhos tempos em que reinava a nudez, a complexidade dourada das estátuas, o complexo da ansiedade, as carícias inchadas de ternura, a elegância, a robustez e o orgulho, o frio tenebroso do desaparecimento, as máscaras ridículas, os corpos torcidos, a serenidade de Deus, as mulheres pálidas como círios, a luxúria, a fertilidade, a evidência dos pássaros e das flores, as hortas lânguidas, as formas cansadas de Rubens, os espelhos absorventes de Leonardo da Vinci, os murmúrios crucificados de Rembrandt, os fantasmas soberanos e o sudário de Miguel Ângelo, o carnaval extravagante de Watteau, os estranhos pesadelos de Goya, os anjos maus de Delacroix e os estranhos suspiros de Weber. Repercutem-se os labirintos e os lamentos. O tempo humano tem a forma de rima falsa.


publicado por João Madureira às 07:15
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