Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

As pontes

 

Eu e alguns dos meus amigos costumamos passear junto ao Tâmega e, de vez em quando, atravessamos as pontes que unem as suas margens com muita determinação. Se há coisa em que sejamos determinados é na travessia de pontes.


Se há coisa em que o bom povo português é determinado é em fazer pontes, nós somos mais determinados em as atravessar. Cada louco com a sua mania. É que nós, além de sermos portugueses por obrigação (adopção?), somos transmontanos por condição. E disso não podemos fugir. Ninguém escolhe o seu país de origem e muito menos a terra onde nasce.


Mas, como ia dizendo, o nosso grupo aprecia muito passear junto ao rio, de olhar para as suas margens, para as pessoas que por ali passeiam e de conversar sobre tudo e sobre nada. Que é quase a mesma coisa. Nisso assemelhámo-nos muito aos políticos e aos padres. Mas só nisso. Porque, enfim, somos honestos, não mentimos, prometemos apenas aquilo que podemos cumprir, somos amigos uns dos outros sem segundas intenções, pagamos sempre aquilo que comemos e bebemos, as casas, os carros e as viagens que fazemos são pagos unicamente com o dinheiro dos nossos salários, e não garantimos, nem nos iludimos, com o paraíso, seja ele terrestre ou divino. E, sobretudo (podem sorrir, pois estão perdoados), as nossas conversas são quase sempre muito instruídas e espirituosas.


O R. possui um tipo de generosidade autista: não sabe dar, não sabe receber, não sabe agradecer. Mas diz coisas que nos espantam, tais como: “Os inteligentes estão condenados a serem atormentados pelos estúpidos.”.


O L., com o espanto, até se engasgou. Ele que é de convivência fácil mas de difícil intimidade. Ser íntimo do L. só à base de muito porfiar. Além disso faz parte dessa categoria de espíritos que extrai uma alegria sarcástica de ter razão contra o maior número. Mas eu gosto dele. Aprecio-lhe a lucidez e a coragem.


O meu amigo D. contou-nos que se sentia triste porque lhe tinha morrido o pai. E eu senti-me triste também, apesar de o meu pai ter morrido há já muito tempo. E não era velho por aí além. Podemos dizer até que era novo. Era ainda novo para morrer. Depois pensei nos avôs que não conheci. E ainda fiquei mais triste. Seguidamente olhei para ele e disse-lhe algo como: “Aprecio a simplicidade pelo facto de ela ser o resultado da esgotante labuta de eliminar os elementos supérfluos”. Ele pôs-se a olhar para mim como se eu tivesse dito ou uma grande verdade ou a maior das idiotices. Mas eu não me descosi. Por vezes dizemos coisas tão profundas que nem sabemos lá muito bem o que elas querem significar. Mas também a quem é que isso pode magoar? Os amigos gostam de nós com todos os nossos defeitos e com todas as nossas virtudes.


O F., que tem um jeito especial para o pessimismo social, deu-nos conta das suas últimas investigações: “Os cientistas sociais são peremptórios quando afirmam que o potencial humano só pode ser desenvolvido quando não estamos assustados, encolerizados ou esfomeados. Sendo assim, fica justificado o baixo grau do nosso desenvolvimento”. Tal tirada foi suficiente para que atravessássemos o Tâmega sem que alguém no grupo proferisse uma única palavra. Apenas quando chegámos à outra margem é que o D. se referiu ao tempo. Todos concordámos com ele. Estava sol, corria uma aragem não muito agradável, as nuvens junto ao Brunheiro estavam a deslocar-se a uma velocidade curiosa e a temperatura ia descer muito durante a noite.


Eu, para não deixar a conversa destrambelhar e também para dar um arzinho da minha graça, citei G. K. Chesterton: “Porque se inventou uma razão para explicar o resultado, quase se nega o resultado para justificar a razão.”


O F. voltou à carga com os cientistas sociais, a sua nova mania: “Fez-se um estudo denominado «pager» sobre as relações de uma família e chegou-se à conclusão que os dois membros de um casal médio passam menos de dez minutos por dia a fazer seja o que for que possa ser designado por tempo de qualidade”.


Eu voltei a G. K. Chesterton: “Uma vez mais, aquilo que conduz ao engano é a dimensão da teoria, no sentido em que a fantasia é maior do que os factos”.


“Tu gostas muito de te armar”, comentou o D. Eu olhei na sua direcção e quase me arrependi de me ter sentido solidário com ele ainda há pouco. Mas disfarcei. Os amigos também devem disfarçar os seus pérfidos sentimentos. Com os amigos apenas são permitidos as boas sensações, tudo o resto fica de fora.


O R., olhando para a Ponte Romana, começou a assobiar uma melodia e todos nos calámos para a ouvir. Ele imita muito bem o canto de vários pássaros.


“Que bem assobias R. Dá gosto ouvir-te. Fazes-me lembrar a Primavera e os agradáveis momentos que eu passei na aldeia”, disse o L.


“Que bucólico estás”, disse o D.


O F., que não é muito apreciador destas pequenas minudências que dão alegria e sentido à vida, disse do alto da sua erudição: “Maria Helena da Rocha, a primeira mulher a doutorar-se na Universidade de Coimbra e uma das responsáveis pelo novo Acordo Ortográfico disse ao Expresso que ler pela primeira vez a Ilíada no original (grego) foi tão emocionante que ficou doente”.


“Tem graça, a mim isso acontece-me quando leio os livros do António Lobo Antunes”, atirou maldosamente o L.


Eu, para aliviar um pouco a tensão no grupo, disse em tom de brincadeira: “A ex-candidata a deputada no Brasil, Gabriela Leite, afirmou aos jornais ter sido prostituta durante anos não por necessidade mas por prazer. «Escolhi ser puta porque é uma profissão que eu gosto», confessou.


Todos se riram, menos o F. que citou Ben Johnson: “A linguagem revela o homem”.


“Neste caso a mulher”, corrigi.


“Está bom de ver que Gabriela Leite pretendia juntar o útil ao agradável”, disse o R.


“Tu lá sabes do que falas”, provocou o L.


“Eu apenas fui candidato independente em lugar não elegível numa lista do… (pi)”, admitiu o R. E depois aconselhou: “Esperai aqui por mim que vou ali mijar e já volto”. Era esta a sua forma de dizer que se ia embora porque a conversa não lhe estava a agradar. Nós respeitamos a sua vontade e continuamos a andar e a atravessar as pontes que ainda nos faltava atravessar.


Os amigos vão e vêm. É esta uma verdade muito conveniente.

 

 

PS – É um sinal de bom gosto, e também de alguma inteligência prática, comprar calçado Cohibas. E para acompanhar no bom gosto pode, se apreciar claro está, fumar charutos Cohiba Behike. Pormenor importante, as cintas dos charutos desta linha têm, pela primeira vez, dois hologramas identificativos de segurança.


publicado por João Madureira às 09:00
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