Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

O Poema Infinito (24): daí…

 

Atordoo-me no sabor oculto dos relâmpagos e adormeço no fulgor da consciência das rosas onde o conhecimento das primaveras nasce submerso no sono antigo da paz, daí o seu sabor a terra, daí o lento marulhar das suas cores, daí os beijos que penso e não dou, daí o amor que sonho e nunca acabo, daí o Demónio e as estrelas do desejo, daí Deus e a escuridão espessa da morte, daí a infância e a idade adulta, daí a longínqua proximidade do mar, daí os jardins suspensos dos bairros de lata, daí a beleza tranquila das raízes profundas, daí os olhos claramente sábios da Luzia, daí a sabedoria cintilante do Vasco, daí o Axel e a sua inquietação luminescente, daí o cansaço estranho das montanhas e das nascentes de água, daí o meu sabor a ti, daí as noites mal dormidas, daí a nitidez intratável dos anjos, daí as paisagens de poemas e a densa dança dos passarinhos, daí os poetas líricos do sofrimento, daí as revoluções e as contra-revoluções e os canhões e ódios e as ilusões, daí a densidade esquisita da felicidade, daí a saudosa felicidade dos ornamentos, daí as paisagens hesitantes continuarem a existir entre a bruma e a madrugada entre o amor e o sexo e entre o futuro e o passado, daí as fêmeas lisas de gravidez e de confiança na morte, daí os cavalos que perseguem os sonhos dos guerreiros, daí as sílabas oblíquas da guerra, daí o copo de vinho indeciso na minha mão, daí a indecisão rápida da certeza, daí a aurora indecisa e adiada e traída da libertação, daí os gritos sufocados dos burocratas e dos economistas e dos banqueiros altruístas, daí as escadas intransigentes, daí a matéria escura dos gritos, daí os gritos claros do sofrimento, daí as religiões roucas enlouquecidas pela esperança, daí as palavras mais pobres enriquecerem os medíocres, daí os rostos brilhantes dos assassinos, daí a alegria fresca dos murmúrios dos ditadores, daí o silêncio livre dos pobres, daí o homicídio diário das mulheres, daí as árvores fatigadas, daí a inércia do amor puro, daí os limites do tempo, daí os cornos lentos dos bois castrados, daí as brincadeiras sufocantes das crianças, daí a morte desesperada das mães, daí a morte desesperada dos filhos, daí a meditação quente do sangue, daí a menopausa sangrenta das mulheres, daí a vitória da miséria e da sua sombra, daí a festividade inglória do Natal, daí o espectáculo anunciado das carícias, daí os limites anunciados da ciência, daí o entusiasmo comprido dos defensores dos proletários, daí os passos engolidos dos sindicalistas, daí a música discreta das imagens, daí o homem que morre, a cidade que se levanta, a nuvem que passa, o sol que perdura, a noite que se confunde, o sonho que nos engole, o sonho trocado, a noite envergonhada, a palavra generosa, o quarto só, as minhas mãos divididas, as paredes alcoólicas, o vício proclamado, o tempo fracassado, os amigos forçados, os olhos trocados, os gritos nus, a vida portátil, o silêncio do tempo, a fantasia da razão, daí a rotina, daí eu, daí o meu cansaço, daí…


publicado por João Madureira às 09:00
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