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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

26
Mai22

Poema Infinito (614): Arestas

João Madureira

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A planície voltou a tingir-se das cores quentes do ocaso. Há horas e dias hipnóticos e amargos. As terras ficam em silêncio, à espera. Os caminhos estão sempre abertos para quem os quer percorrer. O vento cobre de poeira o rasto dos que partiram. As ruas desertas e silenciosas respiram calma e tristeza. O céu alumiou-se com um incêndio longínquo. A angústia é grande. A ansiedade é grande. O peso do tempo é enorme. Esta alegria não é alegre. Como Betsabé, somos vítimas vingadoras. Quando a mãe compunha a echarpe parece que lhe nasciam asas. E sorria. O pai também sorria por a ver sorrir. Só depois acendia o cigarro sem filtro como se fosse um ator de cinema francês e talvez dissesse jet’aimemoinonplus. Eu acreditava no pai, a beleza não é erótica, é teológica. Faz sofrer toda a gente. É a principal viabilidade do pecado. Do sofrimento. Depois botaram as horas todas em cima de mim. E o tempo começou a correr lento como água sobre azeite. Foi também o meu pai que me disse para desconfiar das pessoas que tinham o sorriso tão fino quanto as hóstias que o padre oferecia na igreja e que se limitavam a ler um único livro vezes sem parar. Depois o pai ficou com a pele parecida com a terra seca depois do verão. As almas costumavam curvar-se no trabalho do campo. Todos aprendíamos com o galo e as galinhas do quintal e quando o pai segurava as éguas para os garanhões ou as vacas para o boi do povo. Afasto esses pensamentos. Nem tudo é pecado. Olho para o passado e parece que está vazio. Olho para o vazio. Fixo-me nele. Os mestres andavam pelos povoados a mostrar as maravilhas do mundo que eram monstros disformes ou anões marrecos. Nós fazíamos caretas. Depois o mestre dava um pontapé num anão e ele dava uma cambalhota, fazendo os guizos e as moedas costuradas na jaqueta tilintarem alegremente. Mas as sereias barbudas ainda eram uma desilusão mais profunda. E o comedor de fogo era o vivo Diabo. E o barbeiro-cirurgião arrancava dentes por entre os gorgolejos horrorizados dos doentes. Havia na aldeia dois ou três atrasados que se babavam muito porque, dizia o povo, tinham mamado nas tetas de uma cadela quando eram pequenos, pois as suas progenitoras ou tinham morrido depois do parto ou tinham ficado secas de leite. Agora sei a razão porque os olhos da mãe por vezes ficavam imperscrutáveis, cheios de luzes estranhas e reflexos que queriam significar qualquer coisa. Todos nos movemos para diante e nunca voltamos para trás. O filme tanto anda para a frente como para trás. Pestanejo. Fecho os olhos. Estendo as mãos. Nunca ficamos completamente curados da tendência para as catástrofes. Ping, Ping, Ping, nem sequer me dou conta de que estou a chorar. Ping, Ping, Ping. Onde andam os pássaros brancos da verdade? Espalhados pelo chão da casa estão os fragmentos de luz. Quilómetros e quilómetros de silêncio à nossa volta. Passou um instante. Passou outro instante. Ao terceiro adormeci. Com o tempo, vamos afiando as nossas arestas, por vezes cortamo-nos nelas. E sangramos. Ao contrário das perguntas, muitas das respostas não precisam de ser dadas através de palavras. O tempo está sempre a esgotar-se. Mais do que a própria perícia, o que me seduz é a sua ideia. As trevas estão dentro de cubos de luz. Esferas dentro de buracos negros. Os olhos da mãe e os olhos do pai a desaparecerem.

23
Mai22

591 - Pérolas e Diamantes: Há pessoas assim...

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 5.jpg 

Há pessoas assim: riem quando lhes cumpre rir, afligem-se quando se devem afligir e choram quando veem um filme concebido para isso mesmo. Quando lhes contam uma piada ou lhes pregam uma partida riem-se a bandeiras despregadas, mesmo que a piada seja de duvidoso bom gosto e a partida mal intencionada. Compadecem-se abertamente com o sofrimento dos outros e até dão alento aos afetados. E revoltam-se, sem espalhafate, quando se apercebem de tratamentos injustos. São leitoras ideais, pois conseguem reagir obedientemente aos intentos e estímulos dos artistas. Por causa delas, o mundo é um pouco mais suportável. São cândidas e sem duplicidade, propensas ao regozijo e à piedade, sempre prontas a ajudar e a agradar. Quase sempre evidenciam um olhar despistado que a todos cai bem. Os franceses apelidam-nas de coeur simple. São tão inverosímeis que provocam alguma desconfiança, nos mais céticos. Ou cínicos. Vivem sempre no rigoroso presente, sempre apegadas ao seu dia a dia, atarefadas no seu trabalho, entretidas com a família, com os colegas e com os amigos. E ainda com as suas atividades citadinas e com os seus diversos compromissos sociais. Ocupam-se com as coisas necessárias e também com as supérfluas. Não gostam de perder tempo com reflexões, meditações ou contemplações. Nem de olhar para a frente e muito menos para trás. O que já foi passou e o futuro a Deus pertence. Por não serem nem elegantes, nem bonitas e muito menos gozarem de uma impertinente inteligência, tudo se lhes perdoa. Conseguem transformar defeitos em virtudes. Por haver gente assim é que continua a ser bom viver nesta mui nobre e mui leal cidade, que continua a ser um pouco austera e grave e também orgulhosa do seu passado remoto, onde tiveram lugar episódios heroicos – intencionalmente exagerados – de grande importância, o que só enaltece a sua fraca altivez… fraca não, franca, o que eu quero dizer é franca altivez. É costume, nas conversas em família, desprezarem-se levemente as outras cidades da região, por as considerarem arrivistas, de gente com mentalidade de mercadores ou merceeiros, quando não  egoísta e lamuriosa, ou foliona, ou complexada, ou presunçosa, ou todas as coisas juntas, pois tais características acintosas, costumam andar de mão dada. Mas, é de crer, que são capazes de ver defeitos nos outros por serem comuns a ambos. Todos possuem um amor-próprio ferido. A fama, para o bem e para o mal, é encarada com sobriedade e dissimulação. É normal deixarem-se cativar pelo que desdenham e dizem detestar. O decoro também provoca cansaço. E a prudência. E as virtudes. E a cultura. Sobretudo a cultura costuma provocar muito cansaço. Por vezes até se elege quem representa a negação de todas essas características.

 

Primeiro queremos ficar na nossa cidade. Depois, quando pensamos que a queremos abandonar, dá-nos a preguiça. Descobrimos que a única coisa que faz sentido é ver passar os anos e as pessoas a atravessar a ponte sobre o rio. Entretanto deixamos de reparar nas suas mudanças. Habituamo-nos a tudo. Avançamos sempre, sem nunca sairmos do lugar ou chegarmos a uma conclusão. E lá vamos convivendo com vigaristas habilidosos disfarçados de pobres diabos. É o hábito dos sítios pequenos ou de média dimensão, onde habitam contabilistas, comerciantes, trolhas-empreiteiros, professores, enfermeiros, médicos, doutores da mula ruça, advogados, burocratas do estado, bancários, farmacêuticos e taberneiros. Toda a gente se encontra nas compras ou nas festas organizadas pelo município. E cá nos vamos habituando ao som dos sinos, aos nevoeiros e ao monótono correr do rio debaixo das pontes. Já não acreditamos na defesa da cidade ou do país, no asseio e na superioridade moral da democracia, nem na igualdade de oportunidades e de direitos. Qualquer excesso de saber e de independência suscita sempre dúvidas e perplexidade. Tudo se gastou, nada se obteve. Está na hora de nos rendermos. Ah!Ah!Ah! Isso é que era bom.

18
Mai22

Poema Infinito (613): A lentidão e o delírio

João Madureira

IMG_4383 - cópia 2.jpeg 

Alguém deitou um balde de luz no rego que leva a água ao jericó. Até o burro se fartou de dar pinotes e zurrar. A avó pôs-se a chorar. Diz que o avô, que já morreu vai para uns anos, anda a dar murros na porta da entrada da corte dos animais. A mãe canta. O pai foi aos figos ao Selado. A avó desenvolveu o seu analfabetismo até à omnisciência. A verdade é que o avô agora já não a pode proteger com os seus olhos lampejantes, com o seu sorriso lento e ainda  ser a sua luzinha na noite. A avó, quando lhe digo que mal me lembro dele, logo me recorda o seu rosto tingido pelo sol, pela chuva e pelo vento, e escuro como o pão cozido no forno. O avô, diz a avó, costumava garantir que havia flores que brotavam mesmo debaixo da neve. Ainda tenho pedaços deles dentro da minha cabeça. A luz da fogueira aflorou a forma das lágrimas ao longo do fundo das pálpebras da avó. Apesar do esforço da contenção, deixou cair duas. Emocionamo-nos, ainda, com os ciclos da natureza. Com o acariciar dos rostos enrugados. Com a recordação das cores. E dos aromas. E dos sons da infância a reverberarem nas paredes da velha Torre. O passado também pode ser presente. Aiô Silver avante. Ei boi ei. Arre. Xó. Chua, chua. Pita, pita. Arreda. Ainda encontro alguns dos velhos olhares nas ruas da aldeia que revelam os rostos sorridentes de quem foi operado ao coração. É tudo uma questão de identidade. Olhos interrogativos, desconfiados, cheios de angústia por causa da pandemia e da guerra. Olhos por cima das máscaras. A crueldade do quotidiano. Temos de combater a pobreza do egoísmo. Sim, era aqui que o avô se sentava no seu banco, debaixo da árvore a comer nozes que partia com o punho. Em vez de se queixar com a dor, sorria. A aguardente dava uma boa ajuda. Eu deitava o pião e ele continuava a rir-se e a dar punhadas nas nozes. Depois os sorrisos foram-se quebrando como se fossem ondas a bater nas rochas. O avô não era uma pessoa qualquer, pois quem faz um carro de bois a golpes de machado é um homem decidido. Naquele tempo as coisas eram bonitas ou feias, sem atenuantes. Cheguei a acreditar que as pessoas podiam ser felizes à força. Bastava bater-lhes. Nos olhos felinos reluz o fogo. É o reflexo da desconfiança. Rumamos ao extremo da vida. Os eixos dos carros que transportam os sacos de centeio chiam em cada curva do caminho. O lado selvagem continua lá, indómito. Quando um instinto falha deve ser substituído por outro. Algumas vezes vencemos o caos, por momentos. Só as nuvens parecem não mudar neste céu sempre em mudança. É inevitável, quando nos cruzamos com o escuro, sermos tocados pela sensação do fim do tempo. É de uma proximidade arrepiante. Ai esta saudade de haver outro mundo, de Ulisses perdido dominando os mares, alimentando-se de claridade, procurando tesouros e amando as suas amadas em abordagens decisivas, em cópulas inadiáveis. Ver cavalgar os cavalos de fogo em direção a nós causa vertigens. Nos templos cobrem de fumo as flores brancas e azuis. É tudo tão melancólico, o afastamento das chuvas, a alegria perpétua das estrelas, a arte excessiva da adoração. Aproxima-se o silêncio do lago grande. A fogueira ilumina o perfil dos avós. Os seus gestos vieram de longe, do lado das montanhas. Os seus lábios trémulos mal sabiam rezar. O seu destino estava cheio de imprecisões. A lentidão também pode ser um delírio.

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