Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

23
Nov20

517 - Pérolas e Diamantes: Segunda visão

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

 

 

Apesar de enxergar mal, apercebo-me de que um pica peixe-azul desperta da observação e esvoaça em voos habilidosos de mergulho para papar insetos cansados de andar à roda. Poucos se dão conta deste pormenor. É necessário ter uma segunda visão.

 

Também a democracia é assim: o que está à vista, à vista está . O resto não se vê por ser  segredo de Estado. Por vezes o patético cobre as pedras da calçada.

 

Apenas o interior de uma linguagem pode ajudar a decifrar um sistema.

 

O problema do poder reside sempre nos ciúmes dos descontentes.

 

O problema do sistema democrático é que atua sempre entre o compromisso e a contemporização, entre a concessão e a tolerância, entre o confronto das ideias e das personalidades. O que, na maioria das vezes, torna os seus protagonista incapazes de decidir. É necessário garantir os empregos, os negócios e os lugares de direção. E a rotina da papelada consome quase a totalidade do tempo.

 

É bonito amar a democracia. Só se respeita aquilo que se ama. O amor é uma coisa bela. Só que praticá-lo implica troca de fluidos e alguma sujidade.

 

O altruísmo e a generosidade costumam sair de muita raiva acumulada. Também as rainhas de antigamente costumavam ter junto de si criaturas disformes a quem dedicavam um género estranho de proteção apaixonada. Os seus filhos eram criados por quem sabia: as amas.

 

Uma coisa nos afasta dos idealistas: a sua incapacidade para organizar o pensamento. Todo o bom político sabe que em política nada do que é essencial é essencial. Tudo são rodeios e compromissos no meio de coisa nenhuma.

 

Mas... mas... mas... sim, cheguei à conclusão, tal como Nietzsche, de que há sempre uma nova oportunidade de se provar que “todas as experiências são úteis, todos os dias santos e todas as pessoas divinas!” Está bom de ver que o filósofo alemão andava sob a influência do ópio. Eu encontro-me apenas sob o efeito catártico de um vírus confinador.

 

A maioria dos portugueses acabou de sair da Idade Média às cambalhotas. É uma espécie de nova geração de urbanizados.

 

Nós somos supersticiosos até na desconfiança. Nem naquilo que vemos acreditamos. Gostamos mais de acreditar em milagres. E na Nossa Senhora de Fátima. E nos três pastorinhos.

 

O bom povo português por vezes parece que cresce, para depois nos dar a impressão de que regride, para depois voltar a crescer e a regredir novamente. O seu progresso é circular. Parece bonito, mas leva-nos sempre ao mesmo lugar.

 

A conciliação costuma turbar a clareza dos objetivos. E nós somos conciliadores. Agustina Bessa Luís escreveu em Os Meninos de Ouro que “o bom caráter do povo português provém da sua ignorância”. Mas é a instrução que permite considerar os detalhes, pois possibilita dissimular sempre alguma coisa, protegendo-nos nas ocasiões mais difíceis. É a insensatez o que nos leva à moderação.

 

Nós dizemos ter orgulho na humildade, como se fôssemos membros da nobreza. Mas não é verdade. Andamos sempre aos mandiletes de uns e de outros, transportando recados e recomendações. Tendo a nossa virtude própria, gostamos mais de aderir e elogiar a dos outros.

 

Mais importante do que acreditar naquilo que alguém nos diz é acreditar nessa pessoa.

 

A inspiração é inseparável do espírito do lugar. A inspiração é superstição. E encarnação. É o conceito perfeito de confidência.

 

A invisibilidade é uma coisa visível. Os pensamentos ou brilham ou se apagam. São como relâmpagos. Não existem por necessidade. Não se podem escolher.

 

As fábulas, por muito boas que sejam, não podem fazer-nos acreditar que é legítimo trair-nos a nós próprios. Não é preciso acreditar nas doenças para que elas sejam uma realidade que nos mata.

 

O ressentimento é uma lealdade despropositada.

 

Devemos condenar a inveja, o ciúme, a vingança e o castigo.

 

Os fanáticos do proselitismo, dos passeios ao ar livre, do vegetarianismo, das condições superlativas da ginástica e da abolição do álcool degeneram sempre em totalitários fasciocomunistas.

 

Louvados sejam aqueles que conseguem sentir o vento redentor da gravidade terrena.

 

Nunca estamos isentos de preconceitos. E os que se julgam libertos deles acabam por cair noutros novos.

19
Nov20

Poema Infinito (535): Os estigmas dolorosos

João Madureira

21894404_Z8kkg.jpeg

 

 

O Sol parece uma moeda de ouro. O céu, lá no alto, faz lembrar o mar a voar. A floresta exibe o verde dos pinheiros. As montanhas mais altas estão cobertas de neve. A infância é só cor. Depois tudo se vai esbatendo até ficar apenas o cinzento, debruado a preto e branco. As memórias também se apagam. É o terceiro mês do ano, em breve os hortos estarão em flor, como os jardins suspensos. O perfume das glicínias fazem-me sempre lembrar Babilónia. Há água por todo o lado: a pingar dos fetos, a gotejar dos ramos das árvores, a encher as pegadas mais fundas, a brotar do chão e a fazer inchar o musgo com que iremos atapetar o presépio da igreja matriz de Montalegre. Isto é como nos filmes: o sol a jorrar, ou o cinzento no olhar, ou as gotas de chuva a cair, ou os flocos de neve a dançar, ou então o chão, lá em baixo, repleto de folhas outonais carregadas de um vermelho vivo ou de um amarelo berrante, morrendo discretamente. O outono é a mais sentimental das estações. E depois chega Fellini, Antonioni, o chato do Jean-Luc Godard, Woody Allen e Kusturika. E também Eisenstein e Orson Welles. Uma coisa é morrer dentro das páginas de um livro. Outra, bem diferente, é fenecer no meio de um palco, sob a luz dos iluminadores. O universo começa a afastar-se à velocidade da luz. Implantaram árvores nos cruzamentos, daquelas que não perdem as folhas nem dão frutos. Na terra já não germinam as sementes, nem as palavras. E os insetos não conseguem sair dos seus núcleos concêntricos. Perdura agora o tempo do fogo. O ar asfixia. A água decompõe-se dentro da sua transparência. A nudez dos corpos ilumina a desilusão. Os olmos parecem estigmas dolorosos, em contraste com a erva rasa. Os latidos dos cães transformaram-se em signos agrestes. A tempestade chegou antes dos textos. As velhas ruas perderam os seus costumes. Nunca me pareceu tão mortal a agitação dos ciprestes. O vácuo circula e expande-se. São muitos anos de batalha. A excitação dos vencedores já se esfumou. Apenas a fadiga avança. Alguém grita para assustar as aves. Quando nos afastamos de um perigo logo nos aproximamos de outro. A vida não vem com livro de instruções. Um dia a avó chegou a casa e não achou maneira de rezar. Também não conseguia chorar. Por vezes não conseguimos perceber a utilidade dos combates. Sentia-se como uma loba apanhada no fojo. Começaram, por fim, a brilhar-lhe as lágrimas nos olhos. Suou como se tivesse febre. Afirmava que distinguia sons que mais ninguém ouvia. Depois mudou os móveis de lugar e o ar frio e fluido que entrava pelas janelas. Moveu até a claridade dos dias. E mudou mesmo a aparência da sua beleza. Apenas parou quando encontrou a posição verdadeira do seu corpo. Foi apanhar maçãs, arrancando-as dos ramos, que ficavam a abanar para cima e para baixo, como se estivessem zangados. A avó seguramente que estava. Muitas vezes ficava parada a olhar para longe. Aprendi que as águas paradas podem ser profundas. Nas noites de vigília farejava as ausências, os lugares vagos, arrasando os campos com o olhar. Sentia os meses a seguir para o inverno e começou a estranhar a serenidade das terras. Também elas pareciam estar a morrer. O seu amor não conseguia adormecer, parecia o vento a cair sobre as árvores. O silêncio transformou-se em ferida. Começou a envolver o desgosto com as mãos, como se estivesse a trabalhar o pão na masseira. Depois o destino sossegou um pouco.

16
Nov20

516 - Pérolas e Diamantes: Nós bem sabemos...

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

 

 

É prudente não nos deixarmos encurralar pelas meias-verdades. Uma pessoa livra-se de preconceitos e logo volta a cair noutros.

 

A era industrial deu lugar à revolução do colarinho branco. Agora, os filhos e as filhas dos operários batem em teclas de computador ou atendem telefonemas em empresas de baixos salários, afadigando-se em folhear páginas invisíveis, tentando acelerar as comunicações graças à magia incorpórea da eletrónica.

 

Depois vão para casa preparar-se para outro dia como o último, que é em tudo semelhante ao anterior. E o seguinte. E, a toda a volta, telemóveis. Pessoas a falar, a falar, a falar, com alguém que não veem, enquanto o mundo visível lhes passa ao lado.

 

Todos conseguem falar num inglês com ligeiro sotaque dos Estados Unidos, numa mistura sincopada com o inglês das ilhas britânicas. As ganzas dão nisto. E também naquilo.

 

Em Portugal não se fez uma revolução de ideias, mas antes uma revolução de aparências. A própria revolução foi uma aparência democrática e... socialista. Nada mudou de lugar, apenas a mesa é rotativa.

 

As borboletas, apesar da sua aparente beleza, não passam de traças com antenas e asas. E os pirilampos mais não são do que insetos de corpo mole que possuem órgãos luminescentes e que, por isso, apenas brilham no escuro.

 

A aparência é viral e viciosa. Doentia. Não mata, mas engana.

 

O problema é quando nos rimos para o espelho e nos assustamos com aquilo que vemos. Não é aconselhável brincar com os brincalhões. Mas nunca se sabe. O futuro a Deus pertence.

 

Dizem por aí que um tipo rico é um ladrão ou filho de outro.

 

Lembro-me sempre da ética que me ensinou a minha família: sentir alegria em não dever nada a ninguém, cumprir os nossos deveres e viver de cara levantada. Eu nunca mais a esqueci.

 

Há outros que apenas a invocam de vez em quando, como se a mentira fosse desculpável.

 

A injustiça também se pode praticar invocando princípios honestos e bons motivos.

 

Toda a cultura é subversiva porque combate a rigidez da sabedoria e o senso comum daquilo que costumamos designar como realidade.

 

A política acaba sempre por fracassar porque é fruto do ressentimento.

 

Nós bem sabemos que nessa coisa da gestão da polis surgem sempre as dissidências e as intrigas. Por isso, com isso ou por causa disso, aparecem também as artes de enganar aqueles que nos são fiéis, mas são vistos com as qualidades de nos suprimirem ou ultrapassarem.

 

Os mais avisados, ou conservadores, escolhem sempre um provador de venenos, para os manterem ligados às suas origens, costumes, nomes de família e preconceitos de bairro, sem morrerem no ato da prova nos jantares de família. Gostam de falar para o seu reflexo. Depois ouvem as ovelhas e, de seguida, os cães pastores. Andam sempre acompanhados pelo caderno das probabilidades.

 

Depois de se chegar ao poder, todos os eleitos pensam numa fórmula mágica para estabelecerem a paz eterna na luta de classes.

 

São essas coisas que, por vezes, nos fazem sentir muito esquerdistas.

 

Quando discordamos deles dizem sempre que estamos a perceber mal as coisas.

 

A resignação aparece quando nos deixamos comover com a mediocridade. A resignação passa então a ser vista como uma virtude, quando mais não é do que um colete de forças.

 

Os que estragam tudo são os que andam continuamente impacientes pelo que se vai passar.

 

Já estamos todos cansados da conversa dos que dizem estar dispostos a darem o melhor de si, quando sabemos que apenas estão disponíveis para guardarem o melhor para si.

 

Como disse Michel Eyquem de Montaigne, já em 1575: “Até quem ocupa o mais alto trono da terra continua a sentar-se sobre o seu traseiro.”

 

A verdade é que as pessoas agora caminham como antigamente o faziam os monges ou os romeiros. Mas a sua única intenção é suar e cansarem-se. A meditação deixou de ser o motivo. Agora é tudo lugares-comuns e frivolidades. E roupas tão justas que fazem logo pensar em sexo. Eles Sansões e elas Salomés. Ou eles Kenes de esteroides anabolizantes e elas bonecas de plástico insufláveis. Mesmo as classes superiores se tornaram fonte indisfarçável de comédia social. 

 

As adorações de agora são coisas abstratas.

Mais sobre mim

foto do autor

Visitas

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

blog-logo

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2007
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2006
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2005
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

A Li(n)gar