Segunda-feira, 21 de Maio de 2018

393 - Pérolas e Diamantes: O caminho das pedras

 

Ao contrário do que muita gente esperava, a “corrente de afeto” que rodeava José Sócrates morreu por asfixia. António Costa, o sorridente, cortou de forma oficial com o seu antigo camarada de partido. Até os obedientes cães de fila de Sócrates começaram a descobrir-lhe falhas de caráter.

 

As eminências pardas do PS, vendo o seu ex-camarada a afogar-se no rio das águas escandalosas, escolheram o caminho das pedras, proclamando, em seu favor, a velha ética republicana, que é chapéu de três bicos e serve em qualquer cabeça socialista.

 

O que todos nós sabemos, há já muito tempo, é que há demasiadas fortunas sem explicação em todos os partidos que estiveram no poder e a dita eficácia da justiça foi sempre controlada a partir do poder legislativo, com a cumplicidade de algumas figuras.

 

Mas Sócrates é mesmo o primeiro caso conhecido de delinquência organizada ao mais alto nível. Pensou ele que também escaparia ileso à justiça, pois já tinha visto muitos dos que o antecederam no poder a conseguir escapar incólumes às acusações de corrupção e enriquecimento ilícito. Pensava que era possível enganar tudo e todos. Tinha a lição bem estudada, acreditando na máxima de que a política é para servir os amigos, prejudicar os inimigos e sentar os indiferentes.

 

É caso para dizer que na política portuguesa já tivemos de tudo: rainhas loucas, presidentes-reis, presidentes-múmia e primeiros-ministros corruptos.

 

Por isso, o PS de António Costa resolveu enterrar o cadáver político de José Sócrates. Mas o caso do “animal feroz” vai ser um fantasma político que andará sempre a pairar em volta do PS.

 

Carlos César, no papel de exorcista e para se livrar das trapalhadas das viagens aos Açores, carregou nas tintas da argumentação, dizendo que o desejo do seu partido é o de “que todos os que prevaricarem sejam descobertos e, a comprovar, que sejam punidos com severidade”.

 

Mas os indícios socráticos já vinham de longe e só não viu quem não quis ver: licenciatura a martelo, despachada ao domingo; vida de milionário sustentada com empréstimos de amigos; ligações perigosas e alegadamente promíscuas com banqueiros e outros tubarões da mesma índole; tentativas desesperadas de controlo da comunicação social.

 

Por isso custa a perceber que António Costa, que foi segundo no primeiro governo de José Sócrates, bem como outros ministros, e até Carlos César, então presidente do governo açoriano, nada pensassem, nada pressentissem, nada lessem e nada ouvissem sobre José Sócrates.

 

Essa esplendorosa incapacidade de perceção transformou-se agora na descoberta da pólvora.

 

Por isso custa a engolir, outra vez, o estafado argumento (Manuel Alegre já o empregou um milhar de vezes) da ética republicana, utilizando-o como mera saudação farisaica, que ajuda a modelar o que não passa de taticismo serôdio e oportunista, esquecendo-se que para os homens de bem, aqueles que nada devem e nada temem, é tão essencial a legalidade de direito como a legitimidade moral.

 

Foi despois da polémica em torno de Manuel Pinho que surgiram as primeiras críticas públicas ao ex-primeiro-ministro, por parte de socialistas proeminentes, que ditaram a saída de José Sócrates do PS.

 

Politicamente tudo se precipitou.

 

Os socialistas, através do seu presidente, Carlos César, proclamaram aos quatro ventos que sentiam vergonha de forma dupla, pois, neste caso, tratava-se de um ex-primeiro-ministro.

 

Augusto Santos Silva admitiu incómodo face a comportamentos que, “a terem existido, significam crimes gravíssimos”.

 

João Galamba disse que “envergonha qualquer socialista ver ex-dirigentes, no caso um ex-primeiro-ministro e ex-secretário-geral do PS, acusado de corrupção e branqueamento de capitais.”

 

António Costa, mesmo desde o Canadá, afirmou que a confirmarem-se as suspeitas será “uma desonra para a democracia”.

 

Por isso não restou outra solução ao “injuriado” Sócrates, a não ser sair do partido.

 

Logo após, a confusão instalou-se nas hostes do PS. Começaram então as especulações: Quererá Sócrates falar e tentar colocar em xeque quem o abandonou politicamente, utilizando as escutas a que teve acesso durante o processo e que terão sido vedadas aos jornalistas assistentes no inquérito?

 

Noticiou-se mesmo que José Sócrates terá sido convidado, de imediato, por várias televisões para ser ouvido sobre o assunto. Mas preferiu não falar. Para já, diz-se.

 

Sócrates justificou-se: “A injustiça que a Direção do PS cometeu comigo ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político. Considero, por isso, ter chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo.”

 

A sua ex-namorada, Fernanda Câncio, escreveu: “De alguém com uma tal ausência de noção do bem e do mal, que instrumentalizou os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas e fez da mentira forma de vida, não se pode esperar vergonha. Novidade e surpresa seria pedir desculpa, reconhecer o mal que fez. Mas a tragédia dele, que fez nossa, é que é de todo incapaz de se ver.”


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Domingo, 20 de Maio de 2018

Neve no Barroso

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Sábado, 19 de Maio de 2018

Rio Tâmega - Chaves

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Sexta-feira, 18 de Maio de 2018

Na aldeia

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Quinta-feira, 17 de Maio de 2018

Poema Infinito (405): A servidão das borboletas

 

 

Alegram-se as ovelhas com o medo dos lobos.  Nas florestas negras nascem agora as cidades. Os animais adquiriram um cheiro esquivo. O medo toca-lhes como se fosse estranho. A alegria anda desconfiada e preguiçosa. As cadeiras da sala do tempo ficaram vazias. Lá fora algumas mulheres baloiçam contemplando o frio e os sacramentos da morte. Outras põem a cerimónia nas mesas. Está servido o banquete preparado desde a manhãzinha. Do lado cinzento do dia gritam os pássaros. A geração leviana vai vivendo em casas que julga indestrutíveis. Dizem que se divertem com a sensibilidade do mar, com a sua frieza, com o vento que atravessa as cidades. Apagam a espera. Sofrem a amargura dos terramotos e pousam os seus olhares sobre as estrelas pálidas do Oeste. Brincam mesmo quando se dirigem para o seu destino escuro. As noites empalidecem com o mesmo desassombro das grandes aves. Já não me lembro com nitidez do rosto da minha mãe. A sua imagem cada dia se afasta de mim mais leve e cansada. No entanto, vejo as suas mãos bordando o infinito pano do desaparecimento. Ela cresceu no monte e morreu vendo caras que olhavam demasiado para o seu sofrimento. São coisas dessas que nos fazem endurecer. Talvez o importante tenha ficado por dizer. É essa facilidade aquilo que nos amaldiçoa. Essas palavras leves que fazem rir e que depois sufocam na nossa garganta. Crescem agora flores silvestres nos caminhos por onde andou e dançam borboletas junto às arvores que plantou. Nesse tempo andava eu nos carrocéis mágicos, às cavalitas do meu pai, baloiçava-me nos trapézios na companhia clara e bela dos outros meninos. A gente parava a ver-nos rir. Tocava-se então a gaita de beiços, os carros de bois gemiam pelas ruas e a vergonha não era mesquinha. Lavava-se a roupa branca em dias de sol. Sentia-se a terra gemer de prazer. Vestíamos a calma como se fosse uma luz azul. O tempo era mais longo e a tristeza deixava-se levar pelo vento. As ameixieiras floriam como se fossem mulheres alegres que pariam muitos filhos para alguns morrerem. Tudo parecia planeado para nunca acabar. Celebrava-se a utilidade das coisas, ensinavam-se as condutas mais práticas e os homens entregavam-se à honra. Nomeavam-se as pedras, os montes e os animais. Celebrava-se a neve e o passado enquanto as crianças cresciam por prazer. Criavam-se os costumes, punham-se colarinhos ao pescoço no dia de Páscoa, ensinava-se a arte de governar. Todos mandavam e todos eram servidos. Educava-se a gente na arte da palavra. Aprendia-se a atraiçoar o inimigo. Por vezes ainda sinto a delícia de começar que aprendi nas manhãs que via nascer. Depois punha-me a ler. Tudo era verde. Os galos cantavam. A cerdeira do jardim enchia-se de luz. Ensinaram-me que ser mau exigia muito esforço. Tentaram que eu acreditasse na possibilidade de despedir a infelicidade. Desperdiçava-se o tempo. Misturavam-se as melhores palavras com a carne que guisava no pote. Agora as cidades nutrem-se de carros e navios, nelas sobe o fumo. Os gestos são quase todos incertos. Esbanjam-se os mandamentos, as bocas são ociosas. Os bons conselhos apenas são emprestados. Regresso à velha casa depois do exílio. Atrás de mim vêm os rostos de todos queles que já morreram. Passo de carro sobre as ruínas. Já não tenho paciência para a esperança. Sobre o armário coloco a mala com os meus manuscritos. Junto ao rio, entre os choupos e os pinheiros, protegidos pelo muro e pelos arbustos, crescem ainda as flores mensais.


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Quarta-feira, 16 de Maio de 2018

Na aldeia

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Terça-feira, 15 de Maio de 2018

Poldras de Chaves

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Segunda-feira, 14 de Maio de 2018

392 - Pérolas e Diamantes: Entre a justiça e o seu cúmulo

 

A eurodeputada socialista Ana Gomes, preocupada com a credibilidade da política e dos políticos, sobretudo os do seu partido, diz que o PS se deve demarcar de “quem esteve no Governo para se servir”.

 

Independentemente do julgamento que se venha a realizar, todos sabemos que o engenheiro Sócrates vivia “num desmando total em relação às suas contas pessoais”.

 

Independentemente de ser crime ou não, a divulgação dos interrogatórios evidencia, até à exaustão, a ligação do ex-primeiro-ministro ao grupo Espírito Santo, revelando “um esquema corrupto de captura de um governo”.

 

Mas atenção, e nisso Ana Gomes vai até mais fundo, “o esquema não começou com Sócrates, pois existem elementos relevantes que mostram que começou antes, nomeadamente com a questão dos submarinos ou dos Panduru”.

 

O estranho é que havia sempre um membro do Governo que vinha do BES ou ia para o BES.

 

A deputada socialista não teve papas na língua quando afirmou ao Expresso que é a primeira a dizer que se faça justiça, pois existe um facto insofismável: “A relação especial e privilegiada de Sócrates com Ricardo Salgado. Pelos vistos, estava às ordens dele e até fez negócios à conta dele. O PS não pode pôr isso debaixo do tapete”.

 

O problema é como pode fazê-lo. Por aí passa a questão da sua credibilidade.

 

Mas dêmos outra vez a palavra a Ana Gomes: “O Governo está a trabalhar bem, o que é mais uma razão para o PS não meter a cabeça na areia e assumir que não vai deixar-se instrumentalizar por um individuo mitómano, com uma vida financeira desregrada e que se prestou a que o seu Governo fosse infiltrado e manipulado por interesses de um grupo financeiro.”

 

Por isso, reafirma que o PS tem, para bem da democracia, de demarcar-se deste tipo de comportamento, de gente que estava no Governo do PS para se servir.

 

Referindo-se ao caso de Manuel Pinho, é perentória: “Um ministro que recebe um ordenado à parte da entidade que lhe pagava antes através de offshores, só pode ser por esquemas de corrupção e de evasão fiscal.”

 

Manuel Pinho logo de início lhe pareceu estranho, quando o viu a rondar o PS ainda no tempo em que o Ferro Rodrigues era secretário-geral e ela fazia parte da sua direção, na companhia de Sócrates e António Costa.

 

Via-o solícito, a apresentar-se como economista e a aparecer em todo o lado. Mais tarde, quando entrou para o Governo, pela mão de José Sócrates, lembra-se de lhe terem comentado que Manuel Pinho era “um homem do Espírito Santo”.

 

Por isso, Ana Gomes apela a que o próximo Congresso seja uma “oportunidade para escalpelizar como o PS se prestou a ser instrumento de corruptos e criminosos”.

 

Claro que há camaradas seus que discordam da opinião de Ana Gomes. Arons de Carvalho, um fundador do PS, considera que “Ana Gomes já se antecipou à justiça e fez justiça pelas próprias palavras”.

 

Mas ele, o tal Arons de Carvalho, declarou que não acha reprovável que uma pessoa como Sócrates possa viver com dinheiro emprestado.

 

Se calhar, muitos de nós partilhamos da mesma ideia, só que o senhor engenheiro viveu como um príncipe à custa de um seu amigo (Carlos Santos Silva) que era a verdadeira encarnação do rei Midas: tudo o que tocava transformava em euros, milhões e milhões deles. Ora isso só acontece nos contos de fadas.

 

Todos estranhamos é a forma como a ficção se transformou em realidade.

 

O PS, como instrumento de governação do país, tem de assumir as suas responsabilidades e criar mecanismos de transparência e questionamento.

 

José Sócrates disse que “sempre foi muito vaidoso” e que foi “por vaidade que se meteu na política”.

 

Fora as peneiras, temos de convir que governou com alguma lucidez. Mas o problema está no estranho facto de Sócrates ter um amigo que o financiava de uma forma alucinante. Ora tanto altruísmo é para desconfiar. Parece que o que movia as relações entre os dois não era a afetividade, mas sim os negócios, pois mandava-o levar “fotocópias”, ou, dito de outra forma, “aquela coisa de que gosto muito”.

 

É óbvio que Carlos Santos Silva ganhava dinheiro com os “favores” que fazia ao seu amigo engenheiro.

 

De todas as vezes que Santos Silva foi contatado, nunca lhe disse um único não. Respondia-lhe sempre a medo e com um lacónico “Sim…” Só lá faltava o “…meu senhor”,

 

Segundo o Ministério Público, o modus faciendi, já abundantemente explicado, de Santos Silva para canalizar o dinheiro para o amigo foi o seguinte: Comprou as casas da mãe de Sócrates com o próprio dinheiro deste e, a seguir, a mãe passou o valor da venda para as mãos do filho a título de doação; passou cheques da conta 006, que mandava levantar e depois o valor era entregue a Sócrates (ou ao seu motorista) em dinheiro; fazia levantamentos dessa conta e levava o dinheiro pessoalmente a casa de Sócrates, ou entregava-o a amigos de Sócrates que este indicava ou a uma senhora que servia de correio entre Lisboa e Paris, quando o ex-primeiro-ministro estava na Sciense Po; comprou a casa de Paris, que ficou em seu nome, mas que Sócrates decorou e mais tarde passaria certamente para o seu nome; pagava as prestações de uma quinta no Alentejo usada pela ex-mulher de Sócrates, Sofia Fava; etc.; etc.; etc.

 

Mas se, por alguma razão, o juiz vier a considerar que o dinheiro em trânsito era mesmo de Santos Silva, o amigo de Sócrates é que vai pagar as favas, pois não tem modo plausível de explicar as astronómicas quantias que recebia. Só por milagre. Parece, no entanto, que os milagres não vão a julgamento.

 

Como poderá ele justificar os depósitos feitos em seu nome por Hélder Bataglia ou pelo saco azul do BES? Onde estarão as faturas da fortuna que recebeu?

 

Será o cúmulo da justiça vermos Carlos Santos Silva ser condenado e José Sócrates ficar em liberdade.

 

Por agora, a estratégia de Sócrates, Pinho, Vara e Ricardo Salgado, consiste em aproveitar a lentidão da justiça – servida pela parafernália de recursos que os bons advogados sabem usar – e ficar a marinar até se descobrir um qualquer expediente que faça prescrever os processos ou que fiquem apenas na esfera das penas simbólicas.


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Domingo, 13 de Maio de 2018

Na festa

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Sábado, 12 de Maio de 2018

No São Caetano

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Sexta-feira, 11 de Maio de 2018

No São Caetano

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Quinta-feira, 10 de Maio de 2018

Poema Infinito (404): Criação de espaços

 

 

 

Construímos o dia como uma torre de pedra onde podemos meditar ao crepúsculo. A sua plenitude é tranquila. Perfeitos são os campos e as ervas altas e as flores e os arbustos e o riacho que corre por dentro da penumbra verde destacando o teto arqueado da folhagem. Podemos agora dizer que o olhar do construtor encontrou finalmente a sua própria extensão. O tempo demonstra o seu mutismo, guarda o seu próprio espaço, trabalha a sua esplendorosa tranquilidade. A meditação é outra forma de eloquência porque contém em si o excesso de energia e a densidade calma da matéria. Elaboramos interrogações porque nos disseram que a vida está intacta. A realidade exterior passou a manifestar-se de forma circular. O segredo reside na relação simples entre o corpo e o espaço, entre a paisagem e o desassombro, entre o ser e o olhar. A realidade não está no interior do sujeito, apesar da intimidade permanecer fechada dentro da obscuridade dos labirintos. O vasto silêncio da tua boca revela-se através do fogo silente do teu olhar. Os lábios parecem um novo instrumento de escrita, descrevendo o desespero da espera, a libertação dos sentidos, a voracidade audaz das vaginas, a consagração do silêncio, a esperança redonda dos teus seios, a assimetria angulosa das cores, o humor das árvores, a subversiva ternura da juventude, o incêndio dos corpos, o horizonte interno da terra. Alguém abre a porta do tempo com tenazes de fogo. Alguém grita dentro da sua nudez completa. A vertigem de escrever é branca. As palavras ardem dentro da boca. Deus escreveu de novo com nitidez milimétrica a origem de tudo, a criação completa. Espanta-me a minúcia da tua boca, os campos sombrios, a forma incendiada do teu corpo. Revela-se a luz na forma entusiasmada das folhas, na lentidão perpendicular dos corpos, nos olhos dos anjos, na consciência explosiva das palavras, na infinita fragilidade da vida, na consciência do desejo, no acumular das sombras, na respiração dos montes, na designação esplendorosa do vazio, na imperfeição dicotómica do amor. Olho para os campos com a lentidão de quem os quer esquecer. Deixo-me ir devagar, percorrendo o caminho incendiado da infância, observando a impercetibilidade dos insetos, a respiração brilhante dos lagos, o embranquecimento das profecias, a virgindade intemporal das árvores, a velocidade iluminada da rotação da Terra, a raiva ordenada da perspicácia, as margens obsessivas dos rios, a inanição da poesia, as esquinas invisíveis da pobreza dos bairros, as referências absolutas do irreal. As sombras das montanhas são agora mais altas. O teu corpo é agora mais lúcido. As frases são agora mais frágeis. Os ecos são mais distantes e a água mais árida. Conseguimos ouvir o ar atravessar transversalmente as palavras. As distâncias adquiriram novo sentido. O tempo parece mais íntimo. A profundidade, essa, continua infinita, como os olhares que se abrem e fecham por dentro. A proximidade dos corpos ficou mais longínqua. Estamos no centro do tempo, no centro do silêncio. O espaço das palavras é agora mais vazio. Respiramos melhor quando nos sentamos à janela e ouvimos a música das varandas, o ruído amplo da verdura, a simplicidade vagarosa do desejo. A tua serenidade cria um novo espaço dentro de mim.


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Quarta-feira, 9 de Maio de 2018

No museu

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Terça-feira, 8 de Maio de 2018

Na aldeia

Barroso - Solveira - S. André - março 2016 108

 


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Segunda-feira, 7 de Maio de 2018

391 - Pérolas e Diamantes: A falácia da corrupção dos políticos e banqueiros ou é tudo boa gente...

 

 

Os militantes dos partidos, sobretudo os do PSD e do PS, são gente muito crédula, talvez por isso tenham preenchido a ficha de adesão pensando que assim iam mudar as freguesias, os concelhos e o país, porque para mudar o mundo lá estão os revolucionários do PCP e do BE. E para reformar o céu existe a Assunção Cristas e os benzidos do CDS.

 

Também as crianças creem no Pai Natal, com o desfecho que todos conhecemos: em dezembro todas recebem, pelo menos, um brinquedo.

 

Também eu me fiei nas duas epifanias com os resultados que são públicos.

 

Só os ingénuos é que acreditam que a corrupção existe no nosso país.

 

Todos sabemos que os tribunais continuam a perder tempo e dinheiro a julgar portugueses suspeitos de corrupção perante a passividade de todos, sobretudo dos militantes e simpatizantes dos partidos do sistema. 

 

O escândalo não está na corrupção, mas sim naquilo que ocorre nos tribunais, pois continuam a insistir na tentativa de encontrar um português corrupto, até porque é mais do que evidente que não existe um único que seja.

 

Os pouquíssimos condenados, foram-no por pequenos equívocos ou por grandes enganos. Um deles esqueceu-se de declarar às Finanças o valor dos robalinhos enfiados num cesto rústico com que foi agraciado por contribuir para o combate à poluição do alumínio e do ferro-velho. O outro não se lembrou de declarar o dinheiro que tinha na Suíça e que lhe servia para pagar os charutos que fumava enquanto pensava e exercia o poder. Conseguindo até fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

 

O dos havanos chegou mesmo a ser visitado, no seu retiro prisional e espiritual, por um ex-presidente da República que lhe manifestou a sua solidariedade e proclamou aos sete ventos a sua inocência.

 

E tanto assim é que o povo voltou a elegê-lo com uma votação expressiva. O crime, afinal, pelo menos em Portugal, não compensa.

 

O que não sabemos é quando este clima de suspeição sobre os políticos vai acabar. As mentiras são mais que muitas. Até o “Expresso”, uma espécie de “Correio da Manhã” semanal, se deixou instrumentalizar na divulgação de notícias falaciosas.

 

Só pode ser pura paranoia noticiar que o Ministério Público investiga 11 anos de contas bancárias de Manuel Pinho (ex-ministro de José Sócrates, esse paladino da amizade, já que ninguém conhece no mundo uma única pessoa que tenha um amigo tão generoso e altruísta como o engenheiro Santos Silva), pois existem indícios de que o ex-governante tinha quatro offshores.

 

Dizem, as más-línguas, claro, que Manuel Pinho terá recebido meio milhão de euros do GES enquanto governava.

 

Também Ricardo Salgado, o Midas português (ou Messias da banca, se preferirem) foi constituído arguido no caso EDP, pois, ao que parece, terá recebido mais dois milhões de euros de José Guilherme, por causa do crédito a um empreendimento ligado ao construtor.

 

Já Tomás Correia é suspeito de ter recebido milhão e meio de euros. O que só pode ser atribuído ao delírio especulativo dos jornalistas do “Expresso” e à maldade do MP.

 

O advogado de José Guilherme garante que o empresário se limitou a cumprir instruções de um amigo “a fim de garantir o futuro dos netos”, transferindo para uma conta que lhe foi indicada a quantia citada, mas desconhecendo que ela pertencia ao sr. dr. Tomás Correia.

 

Veem, o Pai Natal existe mesmo, mas não é lá muito equitativo. Aos nossos filhos, ou netos, dá-lhes brinquedos, mas aos filhos e netos dos nossos tímidos empresários oferece-lhes um pé-de-meia de meio milhão de euros. E, discreto como é, nem diz nada aos legítimos proprietários das contas bancárias.

 

Segundo o MP, o esquema entre Tomás Correia e Ricardo Salgado consistia no inventivo procedimento de um emprestar para o outro lhe dar.

 

Foram gestos deste tipo que fizeram com que José Guilherme pagasse a Ricardo Salgado catorze milhões de euros, justificados como um “presente”.

 

Pedro Santos Guerreiro, o suspeito e mal-intencionado diretor do “Expresso”, armado em esperto, atreve-se mesmo a concluir que nem é preciso “chegar à suspeita de corrupção, basta a suspeita de que Manuel Pinho recebeu dinheiro enquanto era ministro. Nunca tinha visto isto”. Ou então, “que se acumulem dois subsídios e se diga sem rir nem corar que isso é eticamente irrepreensível, é muito mais do que salvar a pele”.

 

Ora esta última tirada é direcionada a esse herói da democracia, do socialismo e da autonomia insular, que dá pelo nome de Carlos César, que, por puro acaso, é presidente do PS e membro do Conselho de Estado.

 

Os jornalistas do “Expresso” chegaram até a ousar fazer as contas e o atrevimento de dizer que César lucra mais de 300 euros com cada viagem aos Açores. Nos últimos dois voos, que realizou entre Lisboa e a Região Autónoma dos Açores, o lucro terá chegado aos 732 euros. Ou seja, por cada viagem a casa, Carlos César e os outros deputados dos Açores e da Madeira, têm lucro. 

 

Dizem por aí as más línguas do costume, com os jornalistas à cabeça, que os deputados do continente também demonstram comportamentos idênticos, conseguindo obter, com a mesma eficácia, o mesmo tipo de lucro. Mas para palavras loucas orelhas moucas.

 

Isto acontece sempre que os senhores deputados, magnânimos representantes do povo português, levantam o Subsídio de Mobilidade atribuído aos residentes nas Regiões Autónomas e aos que dizem morar fora da cidade de Lisboa, mesmo que residam a quinhentos metros da Assembleia da República.

 

Isto a juntar à ajuda de centenas de euros que recebem para custear as deslocações. Mas nestes, como noutros casos, há sempre uma ovelha ranhosa.

 

Não nos admiramos se, em breve, um incógnito deputado for objeto de um processo disciplinar por infringir as regras habituais, ou, então, por se armar em esperto, recusando prestar declarações falaciosas. Ele há gente capaz de realizar os gestos mais incríveis para conseguir dar nas vistas.


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Domingo, 6 de Maio de 2018

Na aldeia

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Sábado, 5 de Maio de 2018

Na aldeia

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Sexta-feira, 4 de Maio de 2018

Na aldeia

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Quinta-feira, 3 de Maio de 2018

Poema Infinito (403): A brancura invisível do ar

 

 

Saí para a cidade e ela desvaneceu-se. Desaparecer continua a ser surpreendentemente fácil. As pessoas fazem tudo para abandonar a própria identidade. Chegará o tempo de as palavras não conseguirem sair de dentro de nós. Dizem que os deuses já começaram a escurecer. Agora é inverno. As noites são mais longas. De manhã, a luz penetra em nós filtrada pela neve. Já passou o tempo dos loucos gloriosos. O braço mecânico do tempo mexe-se na direção correta. O medo torna-se mais forte do que a necessidade. O chão parece assustado. Os corpos oscilam como os sinos. As recordações são cada vez mais duvidosas. O vento cai de súbito sobre nós. Andamos em círculos. As máquinas começam a soluçar. Nós não reagimos. Procuramos as entranhas luminosas do tempo. Só os corpos sentem dor. A escuridão faz-nos sentir ansiosos. As árvores agitam-se obstinadamente. As suas folhas parecem colonizadas pelo ar glacial. O teu rosto continua fascinante e triste. Pareces uma pessoa imaginada envolta num grande sorriso. Os desaparecidos ganham peso enquanto nós vamos ficando mais vazios. O inverno parece incapaz de nos devorar. Lembro-me de flutuarmos num ar branco de encontro à luz frágil dos edifícios. As palavras continuam a chegar, acumulando-se ao nosso redor, como neve. Algumas são tão leves que se desvanecem rapidamente. São como nós: pó de estrelas. Começo a perder a tua linguagem e a recordar as palavras das orações. Uma coisa é certa: os invernos são mais fiéis. A paisagem adquiriu a precisão dilacerante de um quadro de Seurat. O pai-nosso afetou-a do mesmo modo físico que o vento norte. Só perto de Deus se sente a sublimação das alucinações. Houve tempo em que fomos agressivos como a luz quebrada pelo mar. Éramos jovens improváveis. Recorríamos aos gestos em vez de usarmos palavras. As forças convergiam antes de adormecermos embalados pelo ritmo obsoleto da Internacional. A minha paixão integral vai toda para Bach. As frases musicais assumem a aparência de palavras. E as palavras aparecem-nos como formas geométricas. Seurat transforma-se em fragmentos brilhantes. As fantasias de agora estão todas encaixadas no real. Por vezes, as palavras desaparecem dentro do seu próprio sentido. Formam-se então  buracos negros no pensamento. As substâncias cinzentas envolvem o núcleo da substância branca. Existe dentro da nossa cabeça uma espécie de assimetria, um desequilíbrio entre as palavras e as imagens. As mãos acenam na direção das paredes vazias para chamar os quadros de Van Gogh. Do seu interior sai um exército de pinceladas azuis e amarelas. Aprendi, sem querer, a ser demasiado analítico, a não compreender o lado efémero das coisas. Ensinaram-me então a monitorizar a delicadeza, a traduzir a música em representações matematicamente complexas, a pormenorizar os ritmos e as paisagens urbanas, a processar o momento sagrado das fotografias. Foi então quando o nosso mundo interior mudou. O nosso mundo interior faz agora parte do universo. O tempo é como um rio que se move de forma efémera e aleatória. Nada permanece sem alteração. Hiroji ensinou-me que o número possível de estados mentais é superior ao número de partículas elementares no universo. Afinal, o que é a loucura?


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Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

Na aldeia

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Terça-feira, 1 de Maio de 2018

Na aldeia

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Segunda-feira, 30 de Abril de 2018

390 - Pérolas e Diamantes: A verdade intermitente e a mentira profunda

 

 

 

O amargurado, bilioso e sempre crítico empresário do setor farmacêutico, Pedro Ferraz da Costa, antigo líder da CIP, deu uma entrevista ao jornal I para falar mal do nosso país, dos nossos governantes e, sobretudo, dos nossos trabalhadores.

 

Enquanto lia a entrevista, não sei bem por que razão, veio-me à ideia a célebre quadra do poeta popular António Aleixo: Para a mentira ser segura / E atingir profundidade / Tem de trazer à mistura / Qualquer coisa de verdade.

 

Como a economia, contra todas as suas previsões, está a crescer 2,7 % ao ano, Ferraz da Costa considera que poderíamos estar a crescer acima dos 4%, se quiséssemos. Na sua perspetiva não crescemos “porque os objetivos governamentais são esses”, não crescer. Além disso, este doutorado em reacionarismo empresarial considera que “Portugal nunca teve o crescimento económico como o seu principal objetivo”.

 

Depois enunciou algumas evidências, a tal verdade intermitente: A necessidade de criação de possibilidades e de crescimento profissional para os mais jovens, até porque “hoje vive-se mais anos e qualquer dia trabalha-se até aos 80 anos”. As empresas, talvez as suas, não sabemos, “são quase lares de terceira idade”. Será que a CIP e os seus empresários não terão a maior parte da culpa?

 

Uma das causas, como não podia deixar de ser, está relacionada com a carga fiscal. E deu um exemplo: “Nos Estados Unidos, uma empresa que investe não paga praticamente impostos.” Ora pois, aqui está o busílis da questão: as empresas pagarem impostos.

 

Apesar da ainda grande percentagem de desempregados, Ferraz da Costa considera que não há falta de mão de obra em muitos setores, há bastante tempo. Será que vivemos no mesmo país?

 

Logo após proferir o dislate, passou à verborreia: “Qualquer empresa que queira contratar pessoas não consegue. E essa dificuldade é sentida tanto na agricultura, como no turismo, indústria e serviços. É por toda a parte. Nós temos aqui algumas áreas na nossa atividade (farmacêutica) onde não crescemos mais porque não encontramos pessoas.”

 

Até aqui ainda vá que não vá, mas o remate é que é surpreendente. Pergunta: “Mas porque não têm qualificação necessária?” Resposta: “Porque não querem trabalhar.”

 

Questionam-no então sobre se será necessário fazer uma reforma profunda, nomeadamente no ensino? Ele responde: “Mas o país não faz isso nem coisa nenhuma. Por falta de estratégia e também porque ninguém quer chatear ninguém.”

 

A resposta paradigmática sobre o seu pensamento resultou da pergunta sobre a grande precaridade que existe no emprego em Portugal. Na sua inspirada perspetiva, “se não houver muita procura, a precaridade não conta porque as pessoas saem de um sítio e vão para outro. Além disso, é uma questão que não preocupa as novas gerações. Eles não querem um emprego para a vida”.

 

Não sabemos o que é que o leva a ser tão perentório na sua resposta. Quem é que não aspira a ter um emprego fixo e permanente?

 

Claro, depois socorre-se da caricatura para desancar a formação de adultos. “Tenho uma atividade agrícola até com alguma dimensão e tive dois tratoristas que foram por obrigação tirar um curso. Quando lhes perguntei como correu, responderam que tinha corrido bem e que nem sequer tiveram tratores durante a formação. Foi tudo dado na sala de aula.”

 

O perigoso e insultante não está verdadeiramente nas suas palavras, mas sim na ideologia que se esconde por detrás delas. Nada no seu pensamento é inocente. Nada.

 

Ora reparem: “Nos EUA, apesar do folclore em torno de Donald Trump, a economia está ótima.” Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

 

Além disso, é contra o aumento do salário mínimo. E por duas razões: A diferenciação salarial, na sua opinião, tem “um efeito de estímulo à qualificação profissional das pessoas”.  E também porque quando “começamos a ter o salário mínimo muito perto do salário médio reduz-se fortemente esse estímulo para os que já estão empregados como também para os que vão entrar em idade ativa”. 

 

Se calhar, senhor Ferraz, o problema não está no salário mínimo, que é muito pequeno. Está, sobretudo, no salário médio que é miserável para um país que se afirma europeu.

 

Lá para o fim fez o que tanto gosta, deu umas caneladas valentes nas tíbias dos sindicatos, sobretudo na CGTP.

 

“Os sindicatos atuam muito por chantagem: ou fazem as coisas como nós queremos ou então fazemos greve.”

 

Traz também a geringonça atravessada na garganta, pois admite que “foi mau para o país encontrar uma solução política deste género”. Mas, como uma vidente vingativa, profetiza que “o governo não vai conseguir terminar o mandato e será obrigado a convocar eleições antecipadas.”


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Domingo, 29 de Abril de 2018

Cavalos e cavaleiros

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Sábado, 28 de Abril de 2018

Cavalos e cavaleiros

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Sexta-feira, 27 de Abril de 2018

Ponte Romana

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Quinta-feira, 26 de Abril de 2018

Poema Infinito (402): A louca memória das fotografias

 

 

A escuridão tornou-se claridade. O lume encontra-se dentro dos limites da sua iridescência. Escrevo o mundo a partir das trevas. Vamos ter de escolher a melhor maneira de ardermos. As sílabas mais sujas foram já incineradas. A tristeza das árvores é agora mais evidente. Quando me levantei, as janelas já estavam abertas e a luz começava a espalhar-se por toda a casa, cobrindo os objetos e o mobiliário, devolvendo-lhes as formas, os pesos e respetivas volumetrias. Acordou tudo aquilo que era quotidiano. Até as petúnias murchas vibraram nas jarras. A sala agitou-se. A cidade entrou de repente pela porta dentro. Permaneço na penumbra do sono. Ainda não saí de casa e já estou irremediavelmente longe de ti. Até os suspiros estão deslocados. O mundo parece despedaçar-se. Os delírios estão repletos de penumbras e incertezas. Agarro-me então à memória que é outra forma de asfixia. A noite costuma colar-se aos gestos. Pesa-me agora mais a luz do dia. O pior de tudo é a falta de tempo. As ilhas desprenderam-se definitivamente do mar. Desço as mãos à procura do teu sexo. Os nossos corpos continuam a ser coerentes. A sua luz ainda é reconhecível. Tenho sede de ti, desse tipo de sede que nunca encontra a sua água. A dúvida é outra forma de esperança. A vida encheu-nos de afazeres mesquinhos. A desilusão assemelha-se ao infindável tricot da minha mãe. O vento arrastará a primavera para outro sítio, longe deste silêncio. Talvez a casa passe a amanhecer de outra maneira. Impregnaram-me de culpa. Sinto a velocidade do tempo. Os barcos afastam-se silenciosos como chegaram. Os sonhos são mais indecisos. Este mar não se consegue localizar nos mapas. Começo a ter visões, a aperceber-me das pequenas formas flutuantes, da geometria abaulada dos dedos, da incandescência do desejo, da inquietação da indiferença, das cicatrizes provocadas pelas lágrimas. Os lábios dos deuses murmuram presságios. Os sonhos são fotografias que deixaram de nos olhar. Habitam-me novas sombras, um tempo mais remoto, uma nova linguagem desconhecida. Turva-se-me a memória de tudo. Não quero corrigir o passado. Tenho a tua voz exatamente gravada na minha memória e não a consigo perceber. Já não reconheço a maioria das paisagens, apenas os intervalos da erva fresca. É quotidiana a morte de Deus. É infinita. As vozes deslocam-se pelas paredes, os corpos tremem e cintilam. A cidade silencia as suas ruínas. Por vezes conseguimos alcançar alguns sorrisos. Temos a idade do momento em que nos conhecemos. Dormimos dentro das fotografias antigas, para sentir a sua solidão, os seus murmúrios, para desvendar a cumplicidade dos olhares cruzados, a recordação do calor e do desejo que crescia dentro dos corpos. Houve tempos em que passeámos pela cidade como se fossemos imagens azuis. Lembro-me que as tuas mãos flutuavam diante de mim como se fosses um anjo do prazer e da demora. O pavor da saudade é igual à noite, falta-lhe a mesma coragem. Temos ainda a memória dos dias difíceis, da violência das noites, dos sonhos não sonhados, das vozes traduzidas em escrita. A solidão da adolescência continua a ser a foz aveludada de um rio sagrado. O tempo amareleceu o rosto e as mãos das fotografias. A cor sépia ficou doce como a tua definição. É inútil falarmos das razões da última viagem. A memória enlouquece até as imagens mais aciduladas.


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Quarta-feira, 25 de Abril de 2018

Bailando

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Terça-feira, 24 de Abril de 2018

Passeando

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Segunda-feira, 23 de Abril de 2018

389 - Pérolas e Diamantes: Humor e Confrarias

 

 

À boleia do “reaccionário com dois cês” Ricardo Araújo Pereira, aprendi com Milan Kundera o quanto valia o humor na época do terror estalinista. Tinha ele 20 anos.

 

O escritor checoslovaco disse que conseguia sempre identificar as pessoas que não eram estalinistas pelo modo como sorriam. Essas, referia, eram as que ele não precisava de temer. “O sentido de humor era uma maneira fiável de nos reconhecermos.”

 

Desde então, confessa Kundera, sente-se aterrorizado diante de um mundo que tem sucessivamente perdido o sentido de humor.

 

No entanto, em Portugal, os políticos, neste caso, os deputados das ilhas, gostam de nos fazer rir com as suas piadas. Então não é que esses intrépidos representantes do povo ilhéu são reembolsados por viagens que não pagam!

 

Carlos César, esse herói socialista dos arquipélagos, e presidente do PS, é um dos parlamentares a quem a Assembleia da República paga as viagens, mas que depois levanta o subsídio de insularidade.

 

Ou seja, segundo o Expresso, sete deputados pedem de volta ao Estado dinheiro que não gastaram, recorrendo ao subsídio de insularidade para residentes nas ilhas. Cinco são do PS, um é do PSD e outro do BE (este último já renunciou ao mandato por causa da notícia). Ainda há quem tenha vergonha na cara.

 

Dos doze deputados das ilhas, apenas Rubina Bernardo, do PSD, disse não pedir reembolso.

 

Mas o sentido de humor das elites nacionais forjadas na dura luta dos combates políticos não se fica por aqui.

 

Durão Barroso foi o orador convidado na abertura do I World Opera Fórum, em Madrid. Neste encontro reuniram-se 250 especialistas mundiais em ópera.

 

Barroso é, por incrível que pareça, membro do Conselho Internacional do Teatro.

 

Para o consultor do grupo financeiro multinacional sediado em Nova Iorque, Goldman Sachs, a “ópera pode contribuir para a diversidade” e é um símbolo da Europa e da sua história.

 

Durão Barroso é mesmo um patusco com boa voz e um sentido de humor verdadeiramente operático.

 

Incapaz de deixar o seu sentido de humor por mãos alheias, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República e o rei nacional dos afetos, falando numa cerimónia de comemoração da Batalha de La Lys, uma das maiores derrotas militares portuguesas de sempre, disse, aparentemente sem se rir: “Somos fortes no nosso território e fora dele. Somos fortes mesmo nos momentos mais difíceis. Acabamos por vencer sempre.”

 

Tenho de vos confessar uma coisa, para mal dos meus pecados também eu pertenço a uma Confraria. Entrei nela pela mão do Conde Rostov, quando ele ainda habitava no sumptuoso Hotel Metropol. Tinha sido condenado por um tribunal bolchevique a prisão domiciliária, pois era um cavalheiro sem profissão que ocupava o seu tempo com jantares, conversas, leituras e reflexão. O seu principal crime foi o ter escrito um poema que incomodou muito quem mandava. Também ele esgrimia a sua pena. E tinha um sentido de humor muito apurado, coisa que provocava pesadelos nas autoridades policiais soviéticas.

 

Tal como a maçonaria, a Confraria dos Humildes é uma irmandade muito unida, cujos membros se deslocam sem sinais exteriores que os identifiquem. No entanto, reconhecem-se com um olhar.

 

Claro que, tal como as outras confrarias e demais organizações similares, também a dos Humildes caiu em desgraça. Apesar de partilharem uma certa perspetiva. Todos os confrades sabemos que a beleza, o poder de influência, a fama e o privilégio nos são emprestados e não concedidos. Por isso não nos deixamos impressionar.

 

Os da Confraria dos Humildes não se deixam apanhar pela rapidez da inveja, nem pela facilidade da ofensa. Nem sequer espiolham os jornais à procura do seu nome. Preservam o empenhamento de viver entre os seus pares, mas acolhem a lisonja com prudência, a ambição com comiseração e a condescendência com um sorriso íntimo.

 

Claro que alguns se queimam como as traças, teimam em aproximar-se demasiado da luz.

 

A República dos Sovietes tinha razão. A arte é o subordinado mais artificial do Estado. Não só é criada por indivíduos caprichosos que se enfadam com a repetição ainda mais depressa do que a receber ordens, mas também é humilhantemente ambígua.

 

De uma coisa eu sei, a Confraria dos Bolcheviques era admiravelmente criativa. Nos primeiros tempos da União Soviética, os bolcheviques depararam-se com a incómoda realidade de terem de tolerar a ideia de cadeiras douradas e cómodas Luís XIV nas mansões das estrelas de cinema ou até nos apartamentos das elites. E como é que isso podia ser feito sem trair a ideologia? Simples. Pregavam no fundo de cada peça de mobiliário de categoria uma placa com um número gravado. Esse número destinava-se a identificar a peça como parte do enorme inventário do Povo. Desta forma, um bom bolchevique podia dormir descansado, sabendo que a cama de mogno em que se deitava não era sua. Ou seja, apesar do seu apartamento estar mobilado com valiosíssimas antiguidades, ele tinha menos posses do que um sem-abrigo.

 

PS – Como barrosão adotivo, foi com um sorriso rasgado no rosto que li a notícia de que a paisagem agrícola do Barroso foi declarada património mundial. Os autarcas de Montalegre e Boticas receberam em Roma o certificado de reconhecimento do sistema agro-silvo-pastoril barrosão como “um sistema importante do património agrícola mundial”, do ponto de vista da diversidade.


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Domingo, 22 de Abril de 2018

Neve

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