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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

13
Jul20

499 - Pérolas e Diamantes: Jogar ao bingo

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

 

Portugal pode parecer um país alegre, até bem mais alegre do que nos meus tempos de rapaz. Naquela altura íamos brincar e nadar na água pura dos rios.

 

Agora, o poder autárquico democrático resolveu construir piscinas em todas as vilas e cidades. E faz bem porque os rios transformaram-se em lixeiras.

 

E também se fizeram muitas autoestradas. Por isso é que as estradas têm atualmente mais buracos.

 

Agora já ninguém passa a roupa interior porque não se vê. E até se rompem as calças para andar na moda. E usam-se piercings em tudo que é sítio, literalmente. E também se tatua a pele como se ela fosse um papel de rascunho onde se podem esquiçar algumas ideias.

 

Cozinha-se o bife do acém na chapa. Quem pode, claro. E quem não pode saliva com as belas imagens que a televisão transmite dos mestres de cozinha a grelharem essa carne suculenta.

 

A mediania e a vulgaridade tomaram conta de tudo.

 

A humilhação é  geral.

 

Todos nos começamos a sentir vagamente patéticos. Estamos reduzidos às rotinas do dia a dia.

 

Gostam de nos lembrar que se cheiramos a limpo é porque há outros que estão sujos.

 

Todos manifestamos uma genuína indignação perante o estado das coisas, mas socialmente continuamos a ser uma comunidade pacífica. Talvez demasiado pacífica e resignada.

 

A verdade é que a culpa nasceu sempre de ventre desconhecido. O que é um grande mistério.

 

Bem nos avisaram que a democracia é sempre um sistema político frágil, sobretudo por causa da corrupção, da demagogia e dos populismos. Mas a verdade é que os avisos não tornam as coisas mais fáceis. E muito menos as evitam. Sente-se que a nossa democracia está a implodir.

 

O cansaço da política tem sempre estado relacionado com o prenúncio do fascismo ou de outros autoritarismos semelhantes. Tem de se evitar que o povo venha a descrer das instituições democráticas e do próprio futuro do país.

 

A nossa democracia transformou-se num jogo do bingo.

 

A sintaxe marxista foi sempre enganadora. E isso não lhe perdoo. Fez-nos um mal imenso.

 

Winston Churchill disse que “os homens às vezes tropeçam na verdade, mas a maior parte levanta-se e prossegue como se nada tivesse acontecido”.

 

Sim, eu sei que há leis, que a vida tem as suas leis sociais e culturais que, na realidade, são leis políticas, leis atávicas, leis que fizeram possível tudo aquilo que atualmente apelidamos de civilização.

 

A verdade é que estamos a cair num buraco e não sei se essas mesmas leis nos conseguirão tirar lá de dentro.

 

Portugal foi um país tão pobre que as minhas memórias dele são quase sempre frias. Incómodas.

 

A felicidade era quase como o Espírito Santo, invisível. Dizem que existiu, mas pouca gente a viu. E muito menos a sentiu. Dizem que só nos lembramos do que nos convém. Mas a infelicidade não convém a ninguém.

 

Naquela altura tudo era básico. Simples. Anómalo. Vivíamos no meio de espasmos morais.

 

Agora, por cá, lá vamos matando o tédio, confundindo as paisagens e jogando compulsivamente na raspadinha. Continuamos a esperar que o destino nos surpreenda.

 

Portugal é um país com pessoas que se deixam levar por uma espécie de indiferença frugal. Muitos gostam de se apaixonar por quem os humilha. São boa gente. Gente sem pretensões. Gente que parece boa gente. Gente sem jactâncias. Gente previsível.

 

Toda esta gente assiste impávida e serena às notícias de corrupção e ao desfile das diversas imputações a políticos: fraude, prevaricação, suborno, branqueamento de capitais, tráfico de influências, desvio de dinheiros públicos, participação em organizações criminosas, etc.

 

Depois observam esses senhores, com ar abatido, a transformarem-se em vítimas absurdas dos meios de comunicação apenas porque compraram modestos palácios, carros de acomodada e expansiva cilindrada, fizeram viagens de luxo e decidiram, muito contra a sua vontade atávica, descansar em hotéis de seis estrelas com praias privativas, para não serem incomodados.

 

Para estes senhores a acumulação de riqueza é um mal necessário, uma imposição social que acatam com muito sacrifício.

 

Alguns dos que caem nas mãos da justiça alegam sempre, e com razão, que nunca se aperceberam de que estavam a roubar.

 

Os que vão a julgamento acabam enredados em longos julgamentos dos quais costumam safar-se e ser absolvidos. Os poucos condenados, afirmam alto e bom som que tudo isso apenas se ficou a dever a uma grande injustiça e ingratidão.

 

Os que vão para a prisão ficam lá dentro apenas uns meses. Depois tudo se esquece. O que tem de ser tem sempre muita força.

09
Jul20

Poema Infinito (516): A sombra imutável

João Madureira

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Os peixes nos mares profundos serpenteiam nas trevas. Cá por cima, os espaços deixam-se penetrar pelo sol. Éramos felizes quando saíamos das aulas e passeávamos as pastas em liberdade. A alegria podia ser barata, mas era arrebatadora. E cobria-nos as faces. Por vezes íamos ao cinema. O entardecer fazia-se com uma luz amarelada e azul. A praça brilhava. Parecia sempre triste e lívida. As raparigas costumavam comprimir flores entre duas folhas de mata-borrão e prensá-las dentro de dicionários que evitavam consultar. Tínhamos pena dos pássaros que morriam de frio no inverno e tombavam das árvores como se estivessem embalsamados. Era difícil encontrar moedas nos bolsos para comprar o Tintim e o Jato. Ler banda desenhada era muito importante. O passado enriquece-nos. E a experiência. E o facto de termos amado a pessoa certa. Andávamos de cá para lá sem grandes expectativas. E os jovens namoravam de forma silenciosa, acariciando-se discretamente, como se estivessem a rezar baixinho. A audácia é uma espécie de prazer melodramático. Por vezes sinto-me a rejuvenescer, apesar de estar a envelhecer. Há pessoas que veem tudo ao contrário, confundindo precipícios com colinas. Mas é a floresta de Dunsinane aquela que se move e nos derrota. Os druidas sabem escolher as sombras tutelares onde decidem estabelecer as suas conferências. Para curar os espíritos é necessário captar a energia dos locais. Nunca consegui pescar porque os peixes nadam diretos às minhas mãos e escapulem-se sempre que os tento agarrar. Eu espero, eles observam. Eu observo. Eles esperam. Segue-se o desespero. A porta da aldeia está junto ao rio. Muito próxima das suas margens. Por ela entra o cheiro a leite materno. Devemos abrir poços, mas nunca tão fundos que descubram os velhos demónios. O sexo, sobretudo o feminino, procura uma saída para a crise existencial. A mortalidade multiplica a estranheza. As indicações labiais são sempre úteis. E a vida missionária. E o vestuário em chamas. E as leis da maternidade. Nas ruas, o perigo é mais evidente. Os corpos maduros, nas pandemias virais, apagam-se como lâmpadas. Sobre eles descem as aves do desaparecimento. Sentimos então a ausência dos campos de lilases e o torso crepuscular das montanhas. A totalidade da morte desaloja toda a poesia. As cidades ficam pálidas. Parecem construídas de febre, repletas de posfácios e de palavras interditas. Tentamos, em vão, repor os sítios no seu sítio e definir algum espaço útil. Por alguma razão, os gigantes são seres solitários. É nas zonas subtis onde melhor se propaga o azul. As mulheres atravessam o nevoeiro. As suas dúvidas são brancas. As suas mãos parecem fogo. É o umbigo que nos liga ao infinito. É de lá que viemos. A finitude surge sempre depois. Parece uma mulher nua que se vai engelhando. As tragédias fazem-se, não acontecem. A compreensão do mundo exige uma duplicação das palavras. A tua voz tem agora uma geometria estranha, como se tivesse medo de permanecer. A memória passou a ser uma espécie de árvore definitiva. A sua sombra é imutável. Esta serenidade é líquida. Agora bebo a linguagem do mar. A tarde arde até ao crepúsculo. O silêncio prossegue o seu destino cego. Temos consciência da necessidade do regresso e da palavra dor.

06
Jul20

498 - Pérolas e Diamantes: Os autênticos e os verdadeiros autênticos

João Madureira

 

 

Apresentação3-2.jpg

 

Andava tudo naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito quando...

 

Quando a “Ordem dos Pequenos Artífices da Nova Arcádia” atravessou uma crise muito grave.

 

Tudo começou quando alguns liliputianos, líderes de diferentes células da confraria em França, Itália, Estados Unidos, Espanha e Portugal exigiram ser tomados em conta para ascenderem à posição de Artífice Superior. Na sua douta opinião, era injusto que se fossem procurar desconhecidos para ocuparem cargos, quando na Ordem havia gente com mérito para os desempenhar. Exigiam ainda que a organização fosse depurada de anões e apenas acolhesse no seu seio liliputianos “puros”, pois incomodava-os serem dirigidos por pessoas com o corpo disforme e rechonchudo e ainda terem de as tratar como iguais nas organizações de base.

 

Os revoltosos insistiram na negociação, mas apenas com as estruturas dirigentes. O “Livro das Revelações” dizia que era o Demiurgo aquele que determinava quem ocupava as vagas na direção da Ordem. E que o mesmo acontecia quando terminava o mandato de um Mestre Maior: era Ele quem escolhia, entre os quatro Artífices, o seu sucessor.

 

Aqui chegados, foi o Príncipe Colibri quem interrompeu a reunião para acabar com a desfaçatez. Afinal, o Demiurgo não passava de uma invenção, um pretexto que “os de cima” empregavam para partilhar o poder.

 

Os cabecilhas insubordinados decidiram então abandonar a Ordem. Eles, e os pupilos que os seguiram, criaram uma organização apenas para liliputianos. Fizeram uma eleição para escolher o Mestre Maior. Foi o Príncipe Colibri quem a ganhou. Mas, por razões inerentes a estes processos, não tardaram as lutas intestinais.

 

Vários integrantes da nova seita resolveram criar uma outra confraria a que chamaram “Os Verdadeiros Autênticos Pequenos”, grupo que passou a ser dirigido por um escocês chamado Coronel Moscardo, que trabalhava em circos de má morte.

 

A organização mãe daquela gente pequena tinha como dirigente Dragulescu, mas a sua condição de anão tornava-o numa persona non grata quer para “Os Autênticos Pequenos”, quer para “Os Verdadeiros Autênticos Pequenos”.

 

A verdade é que a Ordem deixou de ser a organização monolítica e influente do passado. A cisão provocou-lhe danos irreparáveis.

 

E as coisas ainda pioraram quando alguém descobriu o local onde escondiam a fórmula para localizar os futuros Artífices Superiores. Embora não tivessem provas, os Artífices estavam quase certos de que “Os Autênticos Pequenos” ou “Os Verdadeiros Autênticos Pequenos” eram os culpados por vários atos de vandalismo.

 

Todos desconfiaram que foram os dissidentes que mataram de forma atroz algumas pessoas que os andavam a investigar. 

 

Custou a Chiquita pensar que, afinal, a paixão do seu amado Pompeu fosse fingida. Mas guardou a desilusão para si. Perguntou àquela gente da “Ordem dos Pequenos Artífices da Nova Arcádia” o que pretendiam da sua pessoa. Pois se lhe queriam oferecer um lugar na direção, lamentava muito ter de os dececionar.

 

Dragulescu disse-lhe que ela não tinha compreendido bem como eram as coisas. Pois nenhum deles tinha escolhido entrar para a Ordem. Foram escolhidos por ela.

 

A seita não convida as pessoas. Designa-as, pura e simplesmente.

 

Alguém a esclareceu de que mesmo que ela resistisse a ir às reuniões, a sua projeção astral iria, quando fosse convocada. Às assembleias da Ordem não assistiam os corpos físicos dos seus membros, mas os seus duplicados astrais. Esse era um dom partilhado pelos escolhidos pelo Demiurgo. Os que traziam ao peito as bolinhas de oiro podiam desdobrar-se e estar em dois locais ao mesmo tempo. A vontade do corpo astral era independente da do físico.

 

Depois desta explicação, deram a Chiquita as boas-vindas oficiais ao cargo de Artífice Superior que ficara vago por morte de um anão de Alexandria.

 

Como não puderam fazer nessa noite a cerimónia de iniciação, adiaram essa formalidade para mais tarde. Cada corpo astral voltou a reunir-se com o seu corpo físico.

 

A última a deixar Lisboa foi Chiquita. Mas antes de o fazer, pegou no único pastel de bacalhau que restava no prato para o ir comendo durante a viagem.

 

No dia seguinte, quando acordou no seu hotel de Manhattan, pensou que tudo não passava de um sonho. Ou de um pesadelo. Mas teve de mudar de ideias quando a sua criada Rústica, ao ajudá-la a vestir-se, se começou a queixar, surpreendida, com o cheiro intenso a bacalhau que exalava.

 

Nas semanas seguintes, o seu duplo astral aprendeu muitos dos segredos da confraria. Ensinaram-na a usar a sua insígnia de ouro para enviar mensagens e outras coisas e também a dizer algumas frases simples na língua secreta dos anões.

 

PS – Texto baseado em excertos da obra “Chiquita”, de Antonio Orlando Rodriguez. Edições QuidNovi.

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