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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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14
Jun21

544 - Pérolas e Diamantes: Política e omeletes

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

 

A minha avó costumava dizer que gostava das pessoas que eram iguais por dentro e por fora, pois eram dignas de confiança.

 

Independentemente dos sucessos, ou dos insucessos, dos bons ou dos maus desempenhos, e até dos bons ou dos maus princípios, a política é sempre um empreendimento desgastante. O processo da conquista do poder até pode ser estimulante, mas na sua maior parte é um tormento.

 

Todo o processo é muito alienado, pouco digno e, muitas vezes, brutal.

 

E as campanhas não são fáceis: engolir de manhãzinha o pequeno-almoço, entrar no carro, fazer telefonemas, participar em comícios, dar entrevistas à imprensa e às estações noticiosas regionais, encontrar e saudar líderes locais do partido, fazer paragens para ir à casa de banho, entrar de novo no carro, fazer mais telefonemas e angariar mais fundos. Isto várias vezes ao dia, entre sandes frias ou saladas engolidas nalguma paragem acidental.

 

À noite é tempo de ler os memorandos para o dia seguinte, enquanto o dossier escorre das mãos porque a exaustão acaba sempre por vencer.

 

Ora esta não é uma vida de esplendor, mas de monotonia e de desgaste. Pois é necessário todos os dias dizer exatamente a mesma coisa e exatamente da mesma maneira para que o povo leve os candidatos a sério.

 

E há que cumprir, sem grandes falhas, o programa delineado. E os horários.

 

E há que subir ao palco sem que o desconforto transpareça. É preciso mourejar muito para se vencer. E fazer discursos estimulantes, o que não é nada fácil.

 

Os dias são intermináveis e as apresentações particularmente desinteressantes. E é necessário estar sempre a sorrir.

 

Mais do que atulhar a cabeça com factos, o mais importante é ter respostas para os problemas mais prementes.

 

A verdade é que a maioria dos candidatos é muito mais estilo que substância. Muito mais blá, blá, blá, Mário Soares; blá, blá, blá, Sá Carneiro; blá, blá, blá Álvaro Cunhal,  blá, blá, blá, Freitas do Amaral/Paulo Portas, blá, blá, blá, etc.

 

E depois há sempre o teste das sondagens a puxar o candidato para o populismo.

 

A verdade é que o excesso de premeditação também pode matar a esperança de um candidato, seja ele do tipo “igual por dentro e por fora”, como dizia a minha avó, ou não.

 

O candidato que costuma triunfar não é aquele que responde a todas as perguntas, mas o que consegue fazer passar a sua mensagem, expor o seus valores e elencar as sua prioridades.

 

Quando reparamos atentamente nos debates políticos, sobretudo nos eleitorais, as respostas mais eficazes não são as que visam esclarecer, mas antes as que evocam uma emoção ou identificam um inimigo, ou, ainda, as que fazem saber aos eleitores que o candidato, está, e estará sempre, do seu lado. Aconteça o que acontecer.

 

Claro que isso é treta, mas é o que ajuda a ganhar as eleições.

 

Quer gostemos ou não, a maioria das pessoas são mais afetadas pelas emoções do que pelos factos.

 

A arte está em puxar pelo melhor, e não pelo pior, das emoções, apostar na razão e nas políticas sensatas. Não apenas falar verdade, mas atuar em conformidade.

 

Os triunfadores, além das convicções profundas, gostam simplesmente do combate.

 

Em política, a melhor estratégia significa pouco se não existirem recursos para a executar. E é sempre aí que começam os problemas. Com o dinheiro. Como todos sabemos, não há almoços grátis. Nem almoços, nem jantares.

 

Os financiadores são sempre a vantagem durante a campanha eleitoral. E o grande problema quando se atinge o poder. É preciso retribuir continuamente a confiança prestada.

 

Por mais fome que haja de mudança, não se fazem omeletes sem ovos.

 

Claro que o aumento de impostos nunca é uma boa retribuição aos financiadores. Mas existem milhentas maneiras de cozinhar ovos.

 

Claro que existem também as eficazes angariações de fundos populares, mas isso nem para os pines costuma chegar.

 

No entanto, a política tem de continuar. E tem de aprender a ser transparente. E a ouvir realmente as pessoas. E a respeitar e a tratar todos – incluindo os adversários e os seus apoiantes – da maneira como queremos ser tratados.

 

Convém ninguém esquecer que a maioria do nosso povo cumpre horários de trabalho extensos e vivem com salários de subsistência. E que muitos deles vivem, sobretudo os mais jovens, com acessos de solidão e medo.

 

Temos de fazer com que a política seja menos uma luta entre o poder e a oposição e mais a favor da comunidade e da comunicação.

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