Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2019

Cavalos e cavaleiros

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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2019

Poema Infinito (445): O espanto

 

 

Um mar de escrita rodeia-me por todos os lados. Penso que nasci de um banho de espuma perto de uma ilha ansiosa onde as ondas eram serenas, onde a água brilhava como se fosse feita de olhares, onde Deus costumava visitar-nos entrando pela janela. O tempo era estrelado e as madrugadas eternas. Depois chegou a tristeza carregada de palavras ditas e ouvidas. Sozinha. Por vezes, também aparecia a alegria, calada, com o seu cabelo solto, vestida de azul, como se fosse uma sereia penteada de areia e suspiros. Nasceram então as noites e com elas apareceram os grandes sonhos. As sereias cantavam no momento de eu acordar. Foi quando os sonhos ganharam asas e voaram de casa em casa. Eram ainda inteiros e conseguiam enfrentar o vento leste e os furacões. A tristeza chorava de pena e a alegria ria-se disfarçada de melancolia. Tu troçavas porque te dizia que me parecias a felicidade. Deus teve então o desejo de inventar o mundo, tornando urgente tudo o resto. Espantei-me. Espantámo-nos. O espanto começou a ficar lindo, a sorrir, a cantar e a sofrer. Amávamos as madrugadas. Deus inventou então as flores e as ausências. Depois fez-se desentendido e criou o purgatório, o inferno e o céu. Assim, por esta ordem, argumentando com a necessidade do espaço destinado a cada um. Muitas pessoas assistiram posteriormente à criação do fogo eterno e dos jardins da santidade com alguns bancos destinados a quem se cansa de esperar de pé, como convém. Os lábios dos anjos ficaram mais mimosos. E os palácios da eternidade foram decorados com vasos de jade, de esmeralda e de ametista. Também o mau gosto é infindável. Senti-me atormentado, como um pássaro ao frio, procurando os raios de sol logo pela manhã. Comecei o oscilar dentro dos meus sonhos. Quanto mais olhava, menos via. Nessa altura até os meus silêncios taciturnos cantavam. Por distração, Deus inventou a palavra felicidade sem conseguir definir concretamente o seu sentido. A eternidade ganhou a forma de um malmequer. As mães tricotaram uma estrela da tarde e regaram-na com o orvalho que recolheram nas manhãs primaveris da sua infância. As alvorada eram uma das formas possíveis de paraíso. O amor desconfia sempre do seu semelhante, da sua alegria. Somos sempre seus prisioneiros. Não vale a pena conservar a sua paz pois ele nunca sabe muito bem o que faz. Os mais crédulos começaram a semear a planta do amor. Nasceu ela incrédula, por causa dos seus espinhos. Esse caminho, dizia a minha mãe, não convém a ninguém. Os caminhos transportam dentro de si a sua própria condição. Tudo no mundo é instável. A lua, o vento, o mar, os cânticos, o sofrimento, a exaltação do desejo, a vida. E a morte. O passar do tempo torna tudo mais tranquilo. Quando entra em crise até os barcos deixam de navegar e os saltimbancos ficam  carregados de reumatismo. Penso divertidamente nas histórias onde o fogo ardente aquece o reino da glória. Entendo, mas não percebo. Os príncipes dormem abraçados à Lua e despertam com os cânticos a Vénus, enquanto as donzelas dançam pelas ruas com saias floreadas e com os seus sexos húmidos de espera. Fazem-se de distraídas. Pousam então as mãos dentro da sua solidão. São naturalmente irrefletidas. Um vulto entra pela vidraça. A chuva começa a cair no jardim. Os trovões começam a afastar-se para longe. A vida recomeça. A ternura também. Ninguém procura a sua própria solidão.


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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2019

Cavalos

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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019

Cavalos e cavaleiros

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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019

430 - Pérolas e Diamantes: As ervas daninhas

 

 

Há gente sincera que para não ter de modificar as suas opiniões evita todos os encontros com pessoas que pensam de maneira diferente. Colhem os seus pensamentos em conversa com pessoas que pensam da mesma maneira e em livros escritos por pessoas como elas. É o que se chama em física de ressonância.

 

Tudo começa por convicções sem grande significado, mas que depois se combinam e apoiam umas nas outras até um ponto em que se tornam insuportáveis.

 

Por vezes custa-me respigar no caixote do lixo que é a nossa memória. Mas, como agora se diz, o lixo é para reciclar. Não só o lixo, como a desonestidade, a intriga, a maledicência, a mentira, a cobardia, etc.

 

Pode estar o dia mais bonito, mas na nossa memória chove, cai a noite e fica frio. Depois ficamos em apneia.

 

Já há muito que deixei de representar.

 

Lá está o jardinzinho cheio de ervas daninhas, campainhas, grama e uma macieira morta.

 

No televisor LCD lá está o Casablanca, um dos meus filmes preferidos. E lá dentro o Rick diz a Ilsa: “Please trust me!” E o meu coração enche-se de coragem quando ela, a Ilsa, com aqueles lindos luzeiros marejados de lágrimas, lhe responde: “I will!” Tudo a preto e branco como mandam as leis do bom gosto e da tradição. E também a música: “A Time Goes By”.

 

Está visto e ouvido. Posso voltar a ter esperança no ser humano. Aleluia.

 

Não há nada mais detestável do que aquelas pessoas convencidas que têm razão acerca de tudo.

 

A verdade não é como a comida, não se pode exprimir em calorias. Tal como só há uma vida, também há só uma consciência.

 

Em política, as decisões não podem ser apenas justas, têm de ser também eficazes.

 

A grande maioria dos “fazedores de opinião” que por aí escrevinham são apenas delegados de propaganda política, e quase todos maus, apesar de parecerem razoáveis e impolutos. Pretendem inflamar corações e esclarecer cabeças, mas apenas acirram as paixões, raramente as purificam. Dizem-se arautos da vontade coletiva, mas apenas defendem os seus interesses e os da sua família política, quando não da pessoal.

 

Convidam-nos à valentia, pretendendo a nossa valorosa inatividade.

 

Uma coisa podemos constatar: esta mistura política conjuntural, que nem sequer possui oposição válida, exprime mais emoções do que ideias elaboradas. Daí o seu sucesso. Daí o seu futuro fracasso.

 

Passou-se da sujeição à falta de autoridade. As nossas elites são essencialmente agiotas e roubam o povo tendo como aliado o Estado e os seus súbditos, que por cá se intitulam pomposamente de políticos. O que eles são é capatazes dos banqueiros. Mentem e roubam com a maior desfaçatez, encobrindo-se sobre o manto diáfano do serviço público. O dinheiro é público, disso não restam dúvidas, mas os interesses são apenas privados.

 

Escutem o que vos digo: hoje ninguém tem a coragem, ou a dignidade, de dizer a verdade. Ninguém. Nem o presidente da república, nem o primeiro-ministro, nem o ministro das finanças, nem os deputados, nem o presidente do banco de Portugal. Ninguém. Em política todos mentem. Só que uns mentem menos do que outros. As exceções, a existirem, ficam por vossa conta e risco. Acreditar nos políticos é como acreditar no pai natal.

 

O Estado atual limita-se a expandir a organização técnica e a burocracia.

 

Os novos democratas uma coisa conseguiram: eliminar o respeito pelos prestígios tradicionais. Hoje já não há honra, nem palavra dada. É tudo relativo. Dizem eles.

 

Não resisto a lembrar as palavras de Victor Basch, que se seguiram a uma intervenção de Raymond Aron, um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, revestidas de uma tónica patética.

 

“Ouvi-o, Senhor, com um grande interesse; tanto maior quanto não estou de acordo consigo em ponto algum... diria que esse pessimismo não é heroico; diria que para mim, fatalmente, as democracias sempre triunfaram e triunfarão... Há uma regressão hoje em dia, estaremos num vale? Pois bem, subiremos outra vez ao cume. Todavia, para isso é preciso exatamente alimentar a fé democrática e não destruí-la com argumentos tão fortemente e tão eloquentemente desenvolvidos como o senhor fez.”

 

Nem um único dia duvidou da vitória das democracias, nem mesmo quando os milicianos o levaram e à companheira para os assassinarem.

 

Outra mentira deles: a desigualdade não diminuiu em Portugal. O famoso combate à fraude fiscal e ao desperdício é tudo treta, é argumento para enriquecer alguns e fazer pagar ainda mais impostos aos de sempre. Em Portugal continua-se a viver de baixa tecnologia e de baixos salários.

 

Há ainda a ignorância do cidadão comum, que não percebe o que se passa, e a incúria e a irresponsabilidade dos peritos, que, mesmo percebendo, acham melhor para os seus interesses e para os interesses de quem lhes paga, não dizer nada.

 

Enquanto os portugueses respirarem é só andar para a frente.


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Domingo, 17 de Fevereiro de 2019

Em Paris

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Sábado, 16 de Fevereiro de 2019

Em Paris

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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2019

Em Paris

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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2019

Poema Infinito (444): Morte e ressurreição do desejo

 

 

O desejo está do lado da verdade ou da mentira? O desejo está do lado do desejo. Como se pode fugir do caos? A literatura não pode ser impostura. O corpo acaba. O desejo não. O género não se deseja, tem-se. O desejo nunca foi o Demónio, é Deus. Tanto como Deus deseja o desejo, também o Demónio deseja ser Deus. A blasfémia é o desejo convergente de Deus. E do Demónio. Do Demónio de Deus. A ofensa é um prazer que se perdeu. Resulta daí. A sexualidade é o nosso ponto frágil. Todas as configurações são domesticáveis. O desejo não. O desejo que se foda. O desejo fode-nos. Lidar com o desejo é um problema. O sexo não é um castigo de Deus. O desejo sim. Toda o obediência desobedece ao desejo. O desejo paga-se com desejo. O desejo é a nossa potência e a nossa impotência. Apesar do desejo ter a sua própria língua, escapa à linguagem. O desejo está do lado da verdade. A convenção, não. Ninguém consegue domesticar o desejo. Esse é o castigo de Deus. Por vezes o desejo parece verdadeiramente inverosímil, mas está lá, em tudo o que é iluminado. A religião nunca consegue dar bem conta do pecado. O desejo é um risco de vida. O desejo tem medo do caos e ainda mais dos seus limites. O domínio quase absoluto da razão é praticamente desumano. O desejo é quase irracional. O desejo não obedece à razão. Todos nós sofremos nas mãos do desejo. O mundo empobrece quando o queremos simplificar. O desejo está para além do mundo caótico da verdade. O desejo baseia-se na contradição. O teu estilo é uma ênfase. O desejo vai nu mesmo que vá vestido. O desejo pode ser para o bem e para o mal. Guardo o teu desejo nos meus lábios. Quero desejar-te. Quero o que não tenho. Esse é o erro do acaso. Subitamente dentro de ti cintila o desejo. Esse desejo desejoso de desejar. Agarro-me a ele sobretudo quando me quer deixar. O desejo é como se fosse o meu futuro. O presente esgota-me e esgota-se. O desejo pode matar. O desejo pode matar o desejo. Sonho com vastidões imensas. Sonho com a luz. Com a luz imensa do desejo. O desejo reza. O desejo chora. O desejo de Vénus é a sua cintura estreita, as suas mãos suspeitas, o seu sexo a arder. Também sonho com a solidão impalpável do desejo. Por vezes o desejo sossega sem saber a razão. Também as ondas são breves. E a verdura. A verdura extensa do desejo. As águas lentas encontram-me já exausto. Eu sou o Fausto do meu próprio desejo, a sua esperança gulosa, a sua impaciência, a sua loucura, a sua indecência. O desejo também pode ser um jardim. Observo o teu desejo como se fosse um retrato. Os corpos costumam rodar quando estão insatisfeitos. O fator da tua boca faz-me entrar em pânico. O mesmo pânico que nos assalta quando prendemos uma ave. De onde me vem esse desejo? O teu desejo. O desejo também pode ser obscuro. O desejo vagaroso. O desejo por vezes conversa comigo como se eu fosse uma criança parva. O desejo acorda-me a carne. O meu desejo tem os olhos claros, da cor dos teus. O desejo também pode ser clandestino. Por vezes vela-me. Outras vezes velo-o eu. O teu desejo segue-me noite e dia. Depois de vencido, o desejo tomba de forma dolorosa. O corpo vence-o mesmo quando é vencido por ele. O seu gozo é lânguido. O desejo define-me o prazer. Por vezes prende-me. Outras vezes embala-me. Por vezes sou o seu tesouro e a sua glória. Por vezes sou a sua vitória. A seguir volta a subir por mim acima como se eu fosse a sua árvore. O desejo é a serpente do paraíso. O pecado morre ao lado. E ressuscita no dia seguinte.


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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

Em Paris

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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2019

Em Paris

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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2019

429 - Pérolas e Diamantes: Os de cá e os de lá

 

 

Há pessoas que depois de passarem pela vida parecem carvalhos feridos. São aqueles que teimaram em resistir, que insistiram em se sacrificar na defesa do bem público como o faziam os homens de Atenas em nome do ideal de humanidade.

 

Passamos a vida a fazer truncagens discretas, a pôr efeitos especiais nas nossas existências, a montar novamente o filme das nossas vidas. Mas mudar os enquadramentos não altera a história do filme. Uns ficam-se pela realidade trivial. A outros basta-lhes o genérico.

 

Alguns dizem que há dores deliciosas. Esses são os adeptos das grandes peregrinações. Dizem que não lhes interessa o lugar de destino mas o prazer de caminhar. São os que nunca chegam a lado nenhum. Há gente para tudo.

 

Maomé disse que denunciar uma maledicência sobre um amigo a esse amigo é dizer mal dele. Os de cá pensam o contrário. Alá é grande, Deus é misericordioso. Todas as religiões são um jogo de espelhos. Refletem a nossa imagem, mas sempre ao contrário.

 

Está na moda integrar tudo e todos. Curiosamente, cada vez me sinto mais desintegrado. A maior integração é a da idiotice. Dizem que a integração muda tudo. É mentira, não muda nada. Muda é as pessoas de lugar, para se sentirem bem em todo o lado. Quem é de todo o lado, não é de lado nenhum. E esse é o pior sentimento do mundo.

 

Desgraçados dos desenraizados. Desgraçados dos transfronteiriços. Quem não tem chão que possa chamar seu não pode viver descansado, nem pode morrer em paz. Isso dizia a minha avó que sabia sempre o que dizia. E a quem o dizia.

 

A esquerda caviar e todos os burgueses enfatuados gostam de se refugiar no luxo absoluto do despojamento de Marraquexe. Aí é que reside a verdadeira integração. Uns dias de repouso em trabalho e tudo fica resolvido nas suas consciências. No parlamento europeu lá se aprovarão umas leis para os cidadãos cá do continente tomarem consciências dos hologramas que elegeram para os representarem.

 

Os beurs que matem, que se matem, ou que se deixem matar.

 

Os negros são bonitos é na televisão. A andarem de um lado para o outro, sempre no mesmo enredo filmados por brancos que se deliciam em mostrar ao mundo a sua desgraça. Eles ficam tão bem na televisão, sempre tão desamparados, tão desgraçados, tão carentes. Que linda pode ser a desgraça alheia. Que lindos filmes faz, que lindas fotografias dá, que belos telejornais abre. E origina romances inebriantes. E poemas vibratórios. E ensaios pungentes. Há investigações interessantíssimas sobre a desgraça alheia dos beurs.

 

Existe uma certa exasperação no mundo ocidental pelo singelo motivo de os seus líderes serem incapazes de provar que têm razão. Daí o procurarem em vão uma arbitragem. Na ONU é tudo boa gente. Todos bons rapazes. E raparigas. Mas atualmente, onde se encontram opiniões sinceras? Além disso, já ninguém leva a sério as organizações dos enfatuados bem pensantes. As Nações Unidas tornaram-se irrelevantes e inoperantes, por isso têm à sua frente um português que fugiu do pântano português para se ir enterrar nas areias movediças da ONU.

 

Mas os turistas europeus alternativos, os tais que acreditam na ONU, nas ONG’s e na “Alice no País das Maravilhas” desunham-se para irem até ao Magrebe (leia-se Marraquexe, praça de Jemna el-Fna) munidos de trouxa leve, óculos de sol ray-ban de lentes polarizadas anti-UV, calções tipo jogadores de golfe ou calças de algodão ventilado, polos da Lacoste, chinelas de meter no dedo, ou ténis sem atilhos, bolsa de toilette com produtos para o cuidado da pele, leite hidratante après-soleil, creme antirrugas, esfoliante e, sobretudo, o seu complemento intelectual: Rimbaud em formato de bolso. E ali ficam a deliciar-se com a pobreza dos berberes enquanto bebem deliciosos sumos e degustam iguarias próprias dos príncipes da Renascença. Vale-lhes serem União Europeia, espaço Schengen.

 

Como dizem os muçulmanos, esses furadores de fronteiras, sejam elas de que tipo forem, o mundo é um passador de couscous.

 

Como dizia a minha avó: pobre de quem é pobre.

 

Os do lado de lá esperam pacientemente pela recompensa do medo.


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Domingo, 10 de Fevereiro de 2019

No feminino

Barroso - Solveira - S. André - março 2016 079

 


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Sábado, 9 de Fevereiro de 2019

No feminino

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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2019

No feminino

Barroso - Solveira - S. André - março 2016 119

 


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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2019

Poema Infinito (443): As horas lubrificadas

 

 

O mal pode atingir-nos a todos? Há por aí tanto bem: a alegria, a mercadoria e todo o seu espetáculo infinito, comovente, repetitivo invariável, sempre renovável como uma ave-Maria, um Pai-nosso, uma cintilação do sol a curto prazo; todo o mal salgado, todo o mar sagrado, todos os focos de luz artificial, todos os reflexos num olho dourado, todos os manequins de olhos vendados, todos os computadores de olhos fechados, todas as horas lubrificadas. E lá vou eu deambular pelas horas labirínticas da quitanda das marcas. O meu prazer é solitário. Por isso me esquivo aos encontros que posso ter pelos caminhos. Tudo é autêntico de tão falso. Recuso a imitação. Somos descendentes de gente que sofreu muito. Enquanto os pobres suam, os ricos respiram. Os proletários não usam Ralph Lauren, nem que seja falso. Usam Pro-pro. Cobiço o desejo deliberado.  Mesmo imóvel, desço nas escadas rolantes uma e outra vez. Mesmo assim não vou ter a lado nenhum. Não quero ir. Apesar da insignificância dos gestos, não conseguimos abolir o tempo. Continuamos a ser seus escravos. Os espelhos continuam a surpreender-me: quando olho para eles, caminho sempre na minha direção. Somos peritos em colecionar sacos de plástico para combater o consumo excessivo de sacos de... plástico. Queremos branquear a política, como se ela fosse uma coisa de pretos. Para mal dos meus pecados, sofro de racismo instantâneo. Consigo adivinhar a igualdade reveladora da mudança de identidade. Sou um palhaço das conclusões. O branco é a cor do luto para os muçulmanos. O preto é a cor do luto para os cristãos. O mundo religioso é sempre a preto e branco. Acho que já não tenho realidade. Algum de nós perdeu a razão. Vamos ter de a procurar de novo. Aí, Sísifo, Sísifo, como custa aprender o teu mito. Ainda me obcecam as confissões, o seu medo, as suas contradições. O ar está carregado de eletricidade. Todos nós possuímos a fatalidade da felicidade. A sua memória é como uma ejaculação precoce. A linha do destino é invisível, estende-se sempre sobre as passagens superiores das autoestradas, sempre a cruzar a linha do horizonte, sempre a desviar-se. Rejeito o mal e a sua moral evidente. A chuva está eminente. Acredite-se ou não, a realidade é um pretérito simples. Apesar de tudo, os desejos são diferentes. E os pudores. E as expectativas. E o gozo. E o sofrimento. E a alegria. E também a tristeza.  Antigamente escondia as histórias nos buracos dos muros para ninguém mas destruir. Afinal, como se aprende a amar? Por vezes, os meus sentimentos voam de forma estonteante, carregados de imponderabilidade, de leveza. Louvado seja o Senhor, os anjos planam no espaço como os tapetes voadores dos contos árabes. O caos matou as fadas boas. A minha mãe continua a dizer-me para não chorar enquanto durmo. Levanto voo e recito de cor os versículos do coração. Reencontro um novo sentimento de imponderabilidade. Delicio-me com o silêncio comovido dos teus olhos. É bom que os espíritos bons não tenham nada de excessivo, nem de degradante. Os catálogos dos carros caros fazem a boa poesia parecer parva. A modernidade mais audaciosa encontra o sabor das tradições. O canto de trigo e a castanha de chocolate que o menino Jesus entregou à minha avó para ela me dar quando eu tinha oito anos ainda me aquece o coração.


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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2019

No feminino

Barroso - Penedones, ETC, XT1 141 - cópia copy.j

 


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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2019

No feminino

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Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2019

428 - Pérolas e Diamantes: Que não nos faltem as palavras

 

 

Quando quis falar, mandaram-me calar. Quando me calei, admiraram-se com o meu silêncio. Concluo que eles só me concedem o direito de palavra quando estou de acordo com eles.

 

O seu silêncio não significa que estejam a tentar esquecer. O que eles têm é medo de  recordar.  E conservam-no.

 

É curioso verificar que os amigos não têm as mesmas ideias que nós e aqueles que as têm não são nossos amigos.

 

Bernardino Machado escreveu que há uma lei na história da humanidade que domina todas as outras: “Nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão pelo amor à liberdade.”

 

Os  democratas liliputianos da atualidade não se devem esquecer disso.

 

Parece que o nosso Estado de Direito foi construído com tijolos de corrupção, mentira e desconchavo ideológico cozidos nos fornos dos aparelhos partidários.

 

Com democratas deste calibre não precisamos de fascistas para nada.

 

Esta nossa República assemelha-se muito aos anos finais da monarquia onde, como escreveu Bernardino Machado, os homens estavam cada vez mais divididos por ambições e interesses. “Dum lado os Fósforos, do outro os Tabacos.”

 

Também agora, como nesse tempo, os homens vão dia a dia diminuindo de estatura moral.

 

Raul Brandão, nas suas memórias, escreveu a 2 de dezembro de1907: “O D. Carlos a um oficial do exército, depois da luta com o João Franco, das descomposturas ao rei, etc. – e referindo-se aos políticos: – Tu ouve-los falar, não é verdade? Pois se lesses as cartas que todos os dias me escrevem, e que estão ali naquela gaveta, enchias-te de nojo.”

 

Foucault tinha razão. Existem na vida momentos em que a questão de saber se é possível pensar de forma diferente de como se pensa e aprender de forma diferente de como se vê se torna indispensável para continuar a olhar e a refletir.

 

Todas as ilusões utópicas costumam acabar sempre da mesma maneira. Cito o poema de Manuel António Pina: “(...) O café agora é um banco, tu professora do liceu; / Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. / Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, / e não caminhos por andar como dantes.”

 

A desilusão é sempre a mesma: quem andou já não tem para andar.

 

E também trago à liça esse grande dia com que todos sonhamos, pelas versos de W. B. Yeats, pois já que nos sobram as lágrimas, que não nos faltem as palavras: “Viva a revolução e o tiro das armas! / Um mendigo a cavalo chicoteia um mendigo a pé. / Viva, voltou a revolução e o tiro das armas! / Os mendigos trocaram de lugar, mas o chicote permanece.”

 

Os conceitos que resultam de um diálogo normal advêm da necessidade de compromisso, de obter concordância, de estabelecer coordenação pacífica com indivíduos que não partilham dos nossos projetos ou das nossas preferências, mas que necessitam tanto de espaço como nós.

 

A grande astúcia do marxismo foi apresentar-se como ciência. Ao estabelecer a pretensa distinção entre ideologia e ciência, Marx propôs-se provar que a sua própria ideologia era uma ciência em si mesma. O que é uma falácia autoinduzida.

 

A objetividade científica foi-a buscar à pretensão interesseira da teoria de classes.

 

A análise marxista de classes, as teorias do Estado de Direito, a separação de poderes, o direito à propriedade, etc., exposta pelos pensadores “burgueses” como Montesquieu e Hegel, demonstrou não procurar a verdade mas os aparelhos de poder, que mais não são do que formas de manter os privilégios conferidos pela ordem burguesa.

 

Os marxistas numa coisa são peritos: em instigar um sentimento de superioridade moral aos seus apaniguados, resultando na perda espiritual que se manifesta quando as pessoas sentem mais prazer em minimizar os outros do que em se elevarem.

 

O objetivo dos democratas baseia-se  na intenção manifesta de conduzir a nossa vida social de forma a que não exista ressentimento. Devemos viver em ajuda mútua e em verdadeiro companheirismo, não para nos tornarmos iguais e inofensivamente medíocres, mas para conquistarmos a cooperação dos outros nos nossos pequenos sucessos.

 

Os marxistas também são bons em inventar o passado para distorcer o presente e impor um futuro feito à sua imagem e semelhança. Os seres humanos, na sua definição, apenas são “forças”, “classes” e “ismos”. As instituições jurídicas, morais e espirituais apenas ocupam um lugar marginal ou são introduzidas na sua argumentação somente quando podem ser facilmente identificadas em termos das abstrações que se justificam a si próprias.

 

Parece que, para a esquerda atual, a livre economia não é à propriedade privada, mas a propriedade privada dos outros.

 

Por outro lado, a esquerda urbana e bem colocada, mostra-se perturbada pela exibição de posse por parte das pessoas banais e correntes, grosseiras e sem educação.

 

O “consumismo” para ela não resulta da democracia, é apenas a sua forma patológica.

 

Ou seja, o resultado destas lutas sociais todas é que as ditas classes, tal como agora existem, continuam fluidas, temporárias e sem aparentes atributos morais.

 

Na verdade, existem nitidamente duas classes sociais: os empregados e os desempregados. Nenhuma tem o monopólio do poder sobre a outra, pois o processo político em curso fornece a cada uma defesa contra a coesão.  A nossa querida democracia possibilitou que entre as duas exista a máxima mobilidade social. A social-democracia e o socialismo democrático resultaram nisto.

 

Empregado hoje, desempregado amanhã. Desempregado hoje, empregado amanhã. Pelo meio vai-se vivendo às custas do Estado.


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Domingo, 3 de Fevereiro de 2019

ST

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Sábado, 2 de Fevereiro de 2019

HF

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2019

Na aldeia, ao sol

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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (442): O que o profeta diz

 

O profeta disse que quando tocava nas zonas periféricas da luz sentia o seu calor e depois conseguia dividir o vento, abrir as searas profundas, entender o valor das palavras e pesar a sua capacidade de abstração. Os objetos em que toca ficam a brilhar. No entanto, as dúvidas continuam a passar de boca em boca. As mãos crispam-se em espasmos. Os corpos desejosos de luz e orgasmos tremem como varas verdes. Os sítios da infância assemelham-se a poços sem fundo. O vento bate as searas, o ar levanta-se. As pessoas aproximam-se dos seus nomes e os nomes dos seus hologramas. Tu és a minha abundância. As estrelas ainda remoinham na mesma clareira onde eu costumava brincar. Lembro de a minha boca devorar a tua em forma de metáfora ininterrupta. Os dedos do tempo movem o mundo. A sua leveza desequilibra o amor. Algumas vezes, tanto vigor. Outras, tanta impotência. Sinto a eletricidade das cópulas primaveris, quando ampliamos os abraços, acendemos os sexos e atingimos a claridade reflexa das cores transitórias. As nossas bocas parecem labaredas. A combustão é instantânea. Sinto-me crescer dentro de ti. Esse é o meu sentido de posse. Essa é a minha pose. As mãos compõem a sintaxe do desejo. A sua ampliação. É quando perdemos o juízo que vamos dar ao paraíso. As estrelas mais claras aparecem nos corpos mais morenos. As estrelas mais morenas aparecem nas peles mais claras. Há quem me interprete como vindo de outra encarnação. A estupidez continua a ter futuro. Deixem enferrujar as espadas. Descansa o medo nas minhas pegadas pelo meio do monte. As folhas da macieira continuam a recolher o luar. O sabor da desilusão é sempre amargo. Por vezes as cicatrizes do amor brilham com uma intensidade violenta. Por vezes bebo da tua loucura e fico enflorado como se fosse um cometa que desliza sobre a água do mundo. Noutras alturas fico aluado com o fôlego obsessivo do ato sexual. A fosforescência do teu sexo, os botões dos teus mamilos dulcíssimos, a ideia meteórica de tudo aquilo que se espalha. Os espelhos, por vezes, espargem a luz. Andamos a apurar a substância melíflua das voragens, o poder do arrebatamento, os territórios silenciosos das mães. As laranjas do laranjal transformaram-se em meteoros, envoltas nos seus tecidos suaves. Vibram as rosas. A lenha arde por causa da sua resina. As curvas do tempo ficam mais harmoniosas. Corre a luz entre o teu peito e o teu sexo. Os dez dedos das mãos estremecem. As palavras ficam encharcadas de desejo e de sémen. As estrelas redemoinham. Abre-se o vento. A luz abre a noite. A gramática fica abrasada pela volúpia dos sentimentos. Cresce uma arte louca em nosso redor. Iluminam-se os lados das casas, os mistérios, a massa dos átomos que alivia a memória. Os dias separam-se da saudade. Resistimos à força do fogo protegidos pelas armaduras da leveza. Tudo o que é natural desaparece. Inclinamo-nos nos dias inteligentes, quando as sombras naturais se queimam na sua própria exatidão. Os vestidos têm o desplante de deformarem os corpos. O amor acumula-se. A alma aperta-se. Os campos de trigo ficam extraordinários. Respiro a tua doce dissipação. Que absurda tarefa é a do esquecimento. A inteligência pode ser cruel. Continuo a procurar o sentido da vida por entre as pedras. Amo-te mesmo debaixo dos relâmpagos.


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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2019

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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2019

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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2019

427 - Pérolas e Diamantes: Da estupidez

 

 

Musil dedicou algum do seu tempo a refletir sobre a estupidez. Escreveu até um breve tratado: “Da Estupidez (Uber die Dummheit).”

 

Considerava que – para não cair nas armadilhas que a idiotia apresenta contra a presumida inteligência – a modéstia é a melhor arma contra a estupidez. Explicava ele que cada inteligência tem uma estupidez que lhe corresponde.

 

Em “O Homem sem Qualidades” fala-nos da dialética entre a estupidez e a inteligência: “Se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento, ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou, pelo menos, seria muito fácil combatê-la.”

 

O que é certo é que o próprio Musil se absteve de responder com uma definição à pergunta que ele formalizou inicialmente: “O que é ao certo a estupidez?”

 

Todos sabemos que entrar em guerra aberta contra a estupidez é quase sempre inútil e, muitas vezes, um pouco estúpido.

 

Flaubert avisou-nos que a estupidez é inabalável, pois nada a ataca sem se despedaçar contra ela.

 

A estupidez atual não é isolável. Está disseminada por todo o lado, nomeadamente nas regras do jogo social e político e mesmo no fluxo cultural.

 

Mas é na política que a estupidez atinge o máximo esplendor. Ela é a própria lei do seu discurso. Ser inteligente no palco da ação e do debate político equivale a dizer que se aceitam as regras da estupidez, nomeadamente o pragmatismo sem ideias, a política sem substrato ideológico, a ação sempre legitimada pelo mesmo discurso, a tática que coincide sempre com a estratégia.

 

Musil distinguiu dois tipos de estupidez: a estupidez como ausência de inteligência e a estupidez como renúncia da inteligência. Foi esta última, por ser mais perigosa, que deu origem à Segunda Guerra Mundial, que lhe estragou a vida.

 

Há um filme que retrata bem aquilo de que estou a falar: “Bem-vindo Mr. Chance”.

 

O jardineiro Chance (Peter Sellers) faz papel de estúpido. É viciado em televisão e por causa dela exprime-se com longos e embaraçosos silêncios, ou então com os artifícios próprios da linguagem televisiva, quase sempre fora do contexto e de uma elementaridade desarmante.

 

A este tipo de estupidez outra se lhe vai opor, para a complementar, uma espécie de estupidez inteligente dos ilustrados.

 

São estes que atribuem qualidades superlativas a Mr. Chance (tais como a agudeza, a profundidade e a sapiência) e o propõem para presidente dos EUA.

 

No ano da sua estreia, o filme de Hal Ashby pôde ser visto e interpretado como uma alegoria. No tempo atual, tutelado pelo capitalismo afetivo, adquiriu contornos de profecia.

 

Logo de início avisei que se deve situar a estupidez para além da oposição à inteligência.

 

Como todos sabemos, nunca antes existiu uma época tão prolixa na produção de inteligência como a nossa. O problema é que também estamos profundamente dependentes dela.

 

Neste fenómeno de inversão induzida, nunca a estupidez foi tão encorajadora e vista como uma ameaça.

 

De facto, a mais inteligente das invenções do nosso tempo, a inteligência em estado puro,  conhecida como Internet, está sob suspeita de nos tornar estúpidos.

 

Diante de tantos dados, a inteligência humana, em vez de aumentar, retrocedeu.

 

A estupidez faz-nos até pensar que é melhor escutar atentamente os que pensam da mesma forma que nós, ou os que têm autoridade.

 

Convém perceber que os algoritmos nos fornecem apenas aquilo que quem os concebeu neles quis inscrever.

 

Chegou-se ao paradoxo de despender mais tempo e dinheiro no controlo das despesas e das atividades produtivas, do que na realização das próprias atividades.

 

Uma pergunta se impõe: Se regressar à ignorância é uma estupidez, poderá uma quantidade ainda maior de informação fornecer a solução?

 

Yves Michaud responde: “Deste ponto de vista, a obsessão contemporânea com a informação, a quantificação, a medida e a avaliação, é perfeitamente compatível com aquilo que lhe escapa, a saber, o dinheiro sujo ou branqueado, as fraudes, os tráficos criminais, a prostituição, as ações de psicopatas e os tráficos de influência.”

 

Ou nos pomos a pau ou toda esta inteligência vai acabar por nos tornar estúpidos.


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Domingo, 27 de Janeiro de 2019

No parque

Rebentão - Família - Março 2016 081 - cópi

 


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Sábado, 26 de Janeiro de 2019

No parque

Rebentão - Família - Março 2016 091 - cópi

 


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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

No parque

Rebentão - Família - Março 2016 085 - cópi

 


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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (441): Os nomes simples

 

 

Os nomes simples nascem dentro de nós. E depois, lá fora, crescem os nomes dos elementos, as forças externas, o sonho do fim das guerras, o ar angélico dos demónios, o ar demoníaco dos anjos, o significado das estrelas, as bocas árduas, as zonas iluminadas a partir do centro, a vibração dos rostos, tudo aquilo que nos devora as células: o amor, a comida, o sono. E também o valor hormonal da decadência, as queimaduras, a respiração do vidro, a aceleração da respiração, a encarnação, a assunção, o desespero, a ordem nominal do mundo, os objetos que nos tremem nas mãos, tudo o que nos arde no cérebro, o nome dócil das máquinas, o deslumbramento dos nomes perfeitos, o batismo, os segredos inaugurais, o reino dos segredos, as palavras que os mestres carregam, o número inexplicável de prodígios, os sentimentos imóveis, o vento que passa eriçando a pilosidade de Deus. Irrita-me que o nome da liberdade seja invocado em vão, pois tudo o que é efémero se desfaz. A pátria está dividida, a terra exausta, o céu cinzento e o mar feito em pedaços. Apenas consigo alcançar os horizontes com o olhar. Já consegui identificar a partícula atómica que define a fronteira entre o dia e a noite. A glória de Deus ficou silenciosa. Adormeço no teu corpo escutando a sua música interior, a volúpia em dispersão, o medo, o sonho imortal do medo. Amplia-se o espaço. Eu tenho medo de ter medo, medo da tristeza, medo da dúvida, medo do desejo, medo da eternidade, medo da morte. Fez-se silêncio no teu corpo. Não há verdade sem palavras. O tempo é tão inútil que chega a enlouquecer. Não sei de onde vêm os caminhos que vão dar a ti. Cobrem-se os tempos de novas maldições. Os deuses de agora tudo deixam passar, põem os braços em cruz e exibem-se nos caminhos mais largos. Ventos virão de novos nortes, provocando outros dilúvios. As nuvens afogam-se dentro das águas do mar. A própria chuva não tem fim. Continuo à procura da palavra perfeita, da sua voz, do seu tempo, do seu mundo. As cores quentes espigam no meio dos abismos. O vento dispersa os gestos magníficos, as formas artísticas dos planaltos. Os corpos dançam. As labaredas iluminam as pedras e as árvores. Os nomes vibram como se fossem estrelas. Os dedos tocam-nas. As folhas brilham. Os segredos repetem-se. E repetem-nos. A eternidade é muito longa. Dizem que não tem forma, nem termo, nem explicação. É como uma luz difusa. Ninguém consegue entender a sua linguagem. Até a sua simplicidade é difícil de decifrar. Por isso o seu encanto é triste. Não se pode mostrar porque ninguém a pode ver. Nela não há bondade, nem tristeza, nem amor. A sua alma pesa como se fosse feita de mercúrio. Por vezes a tua voz acaba com as ameaças. Gosto quando me quebras a angústia. Não há mundos, mas caminhos. As árvores estão floridas, os seus frutos dispersar-se-ão pelo solo. Os seus ramos são serenos. As cores e as linhas do desejo adquiriram novas formas. O teu olhar está mais além. És o meu sonho realizado. Sinto a tua presença silenciosa. Os objetos da eira esperam pela luz. Os espíritos são como algoritmos, números sem tempo e sem nome definido, intermitentes, que não deixam rasto. São uma extensão dos sentidos de Deus. Pões as tuas mãos sobre a minha finitude. Pareço uma árvore que pensa. Escuto o vento que passa. Sinto o seu medo e o seu júbilo. Sinto a sua ternura e a sua saudade distante. A chuva desce vagarosa sobre nós.


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