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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

15
Jan26

Poema Infinito (791): Polifonias

João Madureira

 

IMG_1443 - cópia copiar 2 (3).jpg  

Ela era um som, um murmúrio, um lindo sussurro. Conversava sempre em segredo. Tinha sempre necessidade de silêncio para se fazer ouvir. Falava quase sem voz, como se sofresse de agonia crónica. Cheia de vulnerabilidade, como se estivesse a ser escrita por um poeta. A sua força vinha-lhe do seu espaço de incerteza. A sua calma parecia violenta, nostálgica, íntima. Ela criava-se a si própria. Era o seu próprio percurso. A sua memória vinha-lhe do desejo. Inventava sonhos e era habitada por eles. Tinha sempre um tom de pânico antes do amor. Uma espécie de sofrimento alegre. Parecia uma revelação. Gostava de colher violetas no bosque, fazendo-se encontrada com a primavera. Pegava em todos os objetos como se fossem frágeis. Movia-se devagar como se estivesse dentro de água. Agia sempre como se tivesse um pouco de frio. Possuía uma dupla alma de mulher. Falava como se tivesse mel na boca. Amava como se tivesse coceira no corpo. Ela dizia-me que todos procuramos o amor como se tivesse dificuldade em acreditar nas suas próprias palavras. O seu amor era muito ambíguo. Vivia dentro do seu entorpecimento porque tinha dificuldade em acreditar. Costumava voar com as asas da sua anja da perplexidade. A sua estranheza era muito feminina, mas o seu silêncio era-o ainda mais. Gostava de cultivar silêncios como se eles fizessem parte da sua alimentação. Eu tentava trabalhá-los de forma literária. Tinha um corpo religioso, cheio de tabus e acentos circunflexos. Cheio de restrições. A sua socialização feminina funcionou muitas vezes como autossabotagem. O seu ato sexual estava cheio de polifonias. Dizia que o amor não precisa de ser perfeito. Era imprevisível, capaz de ser doce e violenta ao mesmo tempo, passando rapidamente do pudor ao entusiasmo. Possuía um poder de atração incrível. O seu amor era introspectivo. Com incertezas. Inesperado. Inconsciente. Todo o verdadeiro amor é inconsciente. Voltado para dentro. Amar é uma espécie de pânico. Amar devolve-nos a dignidade. O amor é ridículo porque não tem nada de ridículo, a não ser fazer-nos sentir ridículos. É como um quadro negro pintado por cima de cor-de-rosa. O amor é a construção feita em cima da destruição. Ela sentia um mal-estar existencial por cima da capa da normalidade. O idílico por cima dela. Ela por cima do idílico. O seu amor era incisivo, mas curto. Brilhava como gelo ao sol, derretendo e dando origem a novas formas, cheias de cores e rendilhados. Cheio de confusões. E confissões. Por vezes era crepe da China, outras burel barrosão. O amor tanto pode ser um bolo de casamento como um desperdício. O seu corpo era sagrado, não se deixava ver. Apenas permitia vislumbres, como as fotografias fragmentadas. Era uma espécie de arcanjo invertido. Ou convertido em humano. Evitava a aproximação excessiva para proteger os seus defeitos. O amor acontece quando perdemos a noção do tempo. Amar pode doer. E muito. E de muitas maneiras. Todo amor é ilusão. Todo o amor é. E não é. Há amores magistrais que nunca serão amor verdadeiro. Falta-lhes a essência. Há pequenos amores que são imensos. São arte. O amor verdadeiro tem voz própria. Ela tinha-a. O amor é um buraco negro imenso. Absorve tudo e tudo devora.

12
Jan26

761 - Pérolas e Diamantes: Cuidado com o que desejas (Confissões e Delírios – Excerto)

João Madureira

_D752769c Foto João Dourado - cópia copiar 2 (1).jpg 

Curioso, os cemitérios são agora parecidos com espaços agradáveis, erva brilhante, tudo muito bem tratado entre as sepulturas. E até é frequente vermos flores frescas dispostas em jarros por cima das lajes de granito polido, rente à cruz. Muitas das visitas revelam o aspeto de alguém que está diante de uma sepultura num filme. O respeito é pose. E silêncio. É lindo acelerar pelo crepúsculo e depois passar pelo alto das colinas. Por vezes, alguém nos convida para irmos jantar a um restaurante de cozinha moderna, desses tipo estrela Michelin. E nós lá vamos, todos lampeiros, tentar entrar a pés juntos na modernidade. Mas, quando começamos a comer, apercebemo-nos que a denominada nova cozinha portuguesa não passa de má cozinha francesa. E até dá vontade de rir ver estes novos camponeses de reações lentas a comerem aquilo que não gostam com cara de quem está de dieta rigorosa. Fui com o pai à aldeia. A estrada pavimentada há apenas alguns meses já estava a esboroar-se. Saiu junto a uma vinha herdada dos seus pais e pôs-se a falar sozinho. Uma rajada de vento levou a sua voz para longe. E a sua voz começou a correr de modo imparável pelos caminhos antigos. Teve um ataque de despersonalização, um ataque de pânico motivado pelo facto de pensar que não tinha a mínima possibilidade de ser ajudado. Por vezes tem tonturas. O médico deu-lhe um tranquilizante e uma injeção intramuscular. O meu pai (adotivo) olha para mim e eu sei o que está a pensar. A vida é tédio e depois ainda mais tédio. “A província”, disse-me à bocado, “é governada por gente idiota, transformando bonitas regiões numa charada, num espetáculo de variedades, pejadas de nichos de Nossas Senhoras de Fátima, capelas, rotundas, piscinas desertas, praças graníticas cheias de repuxos de água, capelas, coretos e feiras de fumeiro e de outras idiossincrasias de origem duvidosa. Os antigos santuários dos Velhos Deuses foram profanados por gente sem préstimo, nem cultura. E chamam a isto modernidade e progresso.” Parou então de falar. E depois de algum silêncio disse ainda: “Cuidado com o que desejas.” Ele vive como um asceta. Muitas partes dos dias são como buracos negros. O pai diz que agora tudo lhe dói. A luz. O dia. A noite. O buraco fantasma do tempo a passar. Está sempre à espera. Sem estar à espera. Não sabe o que tem de esperar. Virou-se na direção do pelourinho e disse bem alto: “Os merdosos nunca mais são derrotados. Esse é o nosso mal. A nossa catástrofe.” Como o sol já vai baixo no horizonte, as sombras são mais compridas. O povoado brilha gentilmente com a luz do sol. Por vezes, a província não parece assim um sítio tão desesperadamente mau para viver. A charada parece autêntica. Paira no ar qualquer coisa de histérico. O pai tenta que vá para longe. Prevê-se chuva para amanhã. As perturbações por aqui também acontecem. Mas são pequenas. São como ligeiros sismos, apenas detetáveis com sismógrafos. O pai quis ir à missa. E aqui estamos num estado de espírito muito semelhante ao do tédio. A assembleia canta, não há coro porque o maestro está doente e uma das vozes principais está de férias, os homens cantam, as mulheres cantam, mas em vez de o fazerem em conjunto, parece que cantam ao desafio. O sacerdote enverga paramentos bordados num tecido branco que não parece algodão. No meio da cantilena, uma figura sobressai, à primeira vista pareceu-me um rapaz um pouco efeminado, pois também os há na província, mas, na verdade, era uma mulher, uma mulher jovem, com um aspeto nada mau, por sinal. A sensação de cansaço aumentou. O pai nem se levanta, nem se ajoelha, permanece sentado. No órgão, o substituto do maestro, toca acordes de Mendelssohn. Muitos dos fiéis declaram que se querem entregar nas mãos de Deus. Não sei é se o Criador lhas estenderá. Muitas pessoas esperam lá fora para cumprimentar o pai. Ele então vai até junto de um canteiro e arranca uma flor de um modo como se estivesse a pedir desculpa e depois coloca-a na lapela. O pai a filosofar: “Quão pequena é a parte que as pessoas têm na vida das outras. E quão pouco sabemos delas!” Ou seja, o pai estava comovido e impressionado, fazendo que todos sentissem que estava a encontrar-se com todos, ou com a maioria deles. Olho para o lado e reparo num pequeno retângulo de relva que ainda não aqueceu, perlada de orvalho, e na luz do Sol onde uma borboleta acastanhada, com um ar descabelado, se agarra à sebe e bate as asas já com pouca energia. Ao longe estão os bosques onde as manchas verdes se estendem a perder de vista.

08
Jan26

Poema Infinito (790): As iluminações do absurdo

João Madureira

IMG_1443 - cópia copiar 2 (1).jpg 

O tempo começou a virar-se para dentro. Os dias ficaram informes e fundiram-se uns com os outros. Tudo confuso. Incerto. As vozes ecoam à distância. Estamos cada vez mais vazios. Ouvem-se ao longe as ambulâncias a uivarem. A vida parece mais diluída do que uma aguarela. Continuo a esperar pela realidade. A possibilidade de tristeza acaba por nos engolir. O ar do jardim tem um gume afiado. Sinto-o a cortar-me a pele da cara. A sua beleza começou a esvair-se. Sinto-me sempre quase a falhar. A polifonia vai mudando de tom. E de cor. Até se transformar numa biografia interior. Não gosto de sentir generosidade porque é embaraçoso. Algumas iluminações apagam-se, mas surgem logo outras. Sinto um forte sentimento de absurdo. Alguém me dá amor e eu não sei o que fazer com ele. E eu a pendurar palavras nas cordas como se fossem roupa para secar. Sinto a dor das minhas limitações, mas não me deixo dominar por ela. A dúvida continua a laminar-nos as ideias. Cada vez são mais. As dúvidas. E as ideias. E os arrependimentos. Umas vezes é cedo, outras vezes é tarde. É difícil acertar no momento adequado. Por vezes não me consigo lembrar como funcionam os dias e as coisas. Eu quero ficar do meu lado. Do lado de cá do espelho. Ando por aqui apanhado no distúrbio das alterações climáticas. O pormenor é uma mania. E as memórias da infância uma nova doença. Ando a voar atrás dos nomes, das coisas, dos sítios, das horas, da vida anterior e interior. E a ver rostos a faiscar, quartos escuros e a ouvir o caruncho a roer as tábuas das paredes. E a tatear os espaços, os encontros, as caras, os cabelos das namoradas, as roupas estendidas ao sol, o vento amplo, a fruta vermelha ou amarela. Os bichos. As flores. E as memórias pérfidas da perversão da matança do porco. E o cheiro espesso e quente do sangue a cair no alguidar. E eu a olhar para longe, para os bosques, para as fontes de água, para as casas erguidas para lá dos arvoredos, para as clareiras, para a igreja. Ainda ali está a minha velha fotografia, com calções até ao joelho, camisa de manga curta, laço ao pescoço, sandálias brancas e com um cãozinho ao colo. E eu a gritar para que a avó me dê pavias. E as flores a rebentarem-me nas mãos como bombas de carnaval. Essa foi a minha primeira religião. A segunda aprendia na versão instintiva da fé dos camponeses. Com o culto animista, com os espíritos maus trazidos pelo vento, na morte anunciada pelos animais, pelos pássaros que eram anjos disfarçados. Pelo culto das árvores, das plantas, das flores, das colinas, das montanhas, dos rios, dos abismos, das sombras, da luz. Aí comecei a ser visitado pela poesia, com versos longos e seguidos. Tudo isso escondia uma presença sagrada. O velho espelho ali está, pendurado no quarto dos pais, contendo, na sua profundidade escura, todos os vultos que nele se refletiram. A memória da infância é um mundo complexo cheia de significados mágicos. A mãe a dizer para não olhar para trás para não ficar transformado em estátua. A mãe a dizer. A mãe a repetir. E a benzer-me a testa com azeite e rezas. E a dar-me beijos nos olhos. Eu sentia ao redor uma espécie de odor a perfume farmacêutico. A vida era uma espécie de tragédia bufa. Oiço frequentemente o ruído dos seus passos. E a sua morte surpreendeu-me com as suas ondas profundas e violentas. A ecoar de encontro às paredes. É impossível libertarmo-nos da morte dos pais. Penso no amor por minha mãe e entro em pânico.

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