Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018

Neve em Barroso

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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018

422 - Pérolas e Diamantes: Ser ou não ser... exilado

 

Os dias estão muito curtos de luz, o inverno chegou tarde como cada vez acontece mais.

 

O sol bate enviesado sobre as árvores do campo.

 

Na cidade, na nossa cidade, onde antigamente as raparigas ociosas paravam diante das montras das lojas, homens velhos e esgueirados fumam agora cigarros intranquilos com as calças baixas na cinta.

 

Antigamente, com as calças cerzidas e enrodilhadas na cintura, esganavam os kentuckys como quem se alimentava de nicotina, alcatrão e desilusão.

 

E também se emborrachavam com a fantasia e o desespero dos néscios.

 

As paisagens eram então descomplexadamente bonitas, apesar de mais paradas. E as estradas eram sinuosas, mas sustentadas. Hoje são anoréxicas e instaladas nas sobras das pedreiras.

 

Há um vazio nas coisas que me custa a compreender.

 

Apesar disso, a vastidão do céu continua a mesma.

 

Mas de pouco serve.

 

Continuam a chocar-me, e a inquietar-me, as fotografias de mulheres alemãs a chorar com emoção nos desfiles nazis.

 

E também as que se maquilham como se estivessem a servir de modelo a um cangalheiro de vaudeville.

 

E as que militam na esquerda e tendem para a comida vegetariana radical.

 

E as de direita que apreciam embrulhar a sua militância nas graças, ou desgraças, de um bom bife da alcatra de um touro sangrado na arena.

 

As primeiras abusam das saladas.

 

As segundas economizam nas batatas fritas, apesar de cozinhadas em azeite biológico.

 

A vida moderna oscila entre cenas tempestuosas intercaladas por momentos de solidão.

 

A televisão costuma estar sempre pelo meio.

 

A chuva teima em esborratar as janelas com partículas de pó. Não tenho lareira para combater o frio. Ficou na aldeia, acompanhada do fumo que nos punha a chorar.

 

Houve tempos em que tinha um ar inocente. E era mesmo inocente.

 

Claro que escrevia poesia. Mas desisti porque os livros de poesia se vendiam mal. Ainda hoje publicá-los continua a ser um ato de caridade.

 

Penso em Pessoa e Cavafy que levaram vidas cinzentas em cidades de província.

 

Afinal, Lisboa e Alexandria continuam a ser cidades de província visitadas por turistas essencialmente provincianos.

 

Também Carlos Tê continua a versejar no Porto, que é a segunda maior cidade de província portuguesa.

 

Walt Whitman, um dos poetas preferidos de Pessoa, ofereceu mais exemplares do seu Folhas de Erva do que aqueles que vendeu.

 

Uma coisa continua igual: o movimento inexorável do fluxo do tempo, que é infinito.

 

Aposto na loucura: vou ter de publicar um livro de poesia.

 

Os baús antigos continuam a ter a sua utilidade secundária em guardarem dentro de si roupas, fotografias antigas, memórias e outra data de coisas.

 

Os edifícios da nossa cidade têm, neste tempo, a baça felicidade dos espaços suburbanos. A maioria parece vazia. Sendo deste lugar, parece que pertencem a outro.

 

Por aqui vive-se pacatamente, longe dos perigos e do bulício frenético das grandes urbes. Os vizinhos são boas pessoas, as ruas pacatas, os polícias sorridentes e bem-educados e até as quezílias com os presidentes da câmara são simpáticas. Vive-se numa tranquilidade de aldeia. As árvores e os jardins são bonitos e os objetos não caem do céu. Bem vistas as coisas, a aldeia de Astérix fica longe, lá no meio da Europa e da História.

 

De vez em quando deprimimo-nos, sobretudo quando sentimos a injustiça.

 

Por vezes é doce participarmos em sessões públicas de leitura. Somos bons. Somos bons a folhear as edições europeias de modas e artes correlativas, satisfazendo-nos com os ecos da vida sofisticada que por lá se leva.

 

Tento ser um bom tipo. Por aqui gosta-se muito deles. Talvez não o consiga. Mas sou um homem a sério.

 

Por vezes sinto uma sensação de exílio, mas depois penso que ninguém é um exilado na sua própria terra. Era o que mais faltava. Ser ou não ser... eis a questão.

 

Mal me lembro da minha infância e a minha mãe já morreu para ma recordar. Já não me recordo do que fizemos juntos. E deste modo lá se vai uma parte essencial da nossa vida.

 

Ainda me lembro do primeiro apartamento para onde fui viver com a Luzia e o Vasco. O Axel nasceu logo depois. Era um oitavo andar. Havia escassez, simplicidade e um amplo espaço para a felicidade. Havia as estações do ano, as árvores e a erva lá ao longe. E um sol maravilhoso que enchia o quarto enquanto dávamos banho ao Axel na banheira de plástico azul. Essa luz do mundo não a voltei a encontrar.

 

O problema da democracia e do progresso é que reduziram de forma drástica os sítios onde toda a gente se pode encontrar. Um “Olá, com vais?”, dito de viva voz acaba por ser um cumprimento de luxo. Agora vivemos em bolhas. Em bolhas informáticas. Onde cada um fala com todos e não fala com ninguém. Onde todos sabemos daquilo de que falamos mas ninguém sabe aquilo que diz.

 

Como não há filtros, também não há travões.


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Domingo, 16 de Dezembro de 2018

Em Santiago

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Sábado, 15 de Dezembro de 2018

AR

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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018

Em Santiago

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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018

Poema Infinito (435): Toda a verdade toda

 

A verdade toda, toda a verdade... é mentira. As despedidas acontecem. O fingimento está nos outros. Fugir de ti é uma impossibilidade estranha. A mãe deixou de morrer. Faz agora parte do vazio. Desse imenso vazio que transportamos dentro de nós. Tanta gente perto do precipício. Nem dá para acreditar. Sinto-me ainda mais sozinho do que as palavras abandonadas dentro dos livros de metafísica. Deus morreu asfixiado dentro da palavra perdão. Judas baralhou o conceito de traição. Por vezes, o saber torna-se insuportável. A felicidade pode ser muito triste. Uma opinião sincera nunca fere suscetibilidades. Vou às reuniões como quem vai a um velório. A arte não é para respirar. Agora aprende-se nas universidades a superior arte da banalização. O vazio é fantástico. O vazio de agora. O vazio reservado às memórias dos outros. O vazio da guerra. O vazio da paz. O vazio é enorme. Tento não pensar no que me dói. Nas dúvidas. Na forma automática do desejo pós-modernista. O desejo é outra forma de sofrimento. Reparo agora com atenção naquilo que já não dizes. Viver é, por vezes, sair de um vazio para entrar noutro vazio. O problema é quando mudamos de sofrimento como quem muda de camisa. A minha euforia é negativa. A euforia é uma nova espécie de depressão. Há lágrimas que nunca secam. Há orgasmos que nunca acabam. Há ainda outros que nunca chegam a começar. Por isso é que Deus não gosta de sexo. Só a procriação é divina. Por vezes, as almas iluminam-se. E as fadas aparecem nos sonhos de forma remota. Todos conhecemos a desilusão. Chega sempre o dia em que o tempo degola a nossa princesa. E o seu olhar será espalhado pelos ermos azuis. Chegou o outono com as suas cantigas sob o desígnio da serenidade. Penso no tempo das árvores, no vento que passa brando, nos sustos, nas noites desertas, nas horas incertas, no tempo que cai devagar, na inconsolável alma do infinito. A ternura ficou triste por causa da chuva. E a saudade distante. A humildade tem a mesma voz da avó, o seu cismar, a sua compreensão, o seu desencanto. A glória do pobre é sempre triste. Também as sombras ao luar são sempre frias. A chuva desce vagarosa. As almas perdem-se no nevoeiro. A rua sente o seu próprio abandono. As orações são trabalhadas durante a noite. Apetece-me trabalhar ainda mais um pouco na luz viva da juventude. Ela desdobra os espaços, consola as mágoas, atenua o tédio e redime os fracassos. A ausência é sempre distância. Depois de tanto desencanto, escondo-me detrás da consciência. Tudo está no seu lugar. Os rumores são vagarosos. O rebanho está sonolento. As paisagens infelizes. Ouve-se até a cadência alternativa dos eclipses. Só os inconscientes tentam interpretar o apocalipse. As saudades por vezes ficam lentas. A luz ficou ligeiramente opaca, melancólica, densa. Houve um tempo em que as rosas eram de carne, em que o amor era uma espécie de desejo lento,  em que o silêncio era extático. Agora é tudo saudade. Os gestos precedem as bênçãos litúrgicas. Fixo-me no teu olhar nostálgico. Na sua imagem de mistério, no seu irrealismo, na sua inconsciência deslumbrante. A noite morre lenta. O dia chega ao de leve. Qualquer coisa de infinito deve ter o amor. Sinto a sua aragem. A sua doce imprecisão. O seu gesto silencioso a estender-se dentro de mim. A alargar-se. A alargar-me. Sinto a sua iniciação. A sua serenidade. A sua divindade. Os lírios costumam morrer em forma de santidade fechada.


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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018

Ao frio

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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018

No Louvre

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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018

421 - Pérolas e Diamantes: É do espírito...

 

É do espírito do rebanho, é do espírito de manada. É da praxe. Primeiro batem em ti, depois bates tu nos que vêm a seguir. O problema é dos que não conseguem bater. São desprezados por aqueles que batem e por aqueles em quem não batem.

 

Condecorações aos vivos, lendas aos mortos. Dessa forma, todos ficamos contentes.

 

No fundo, os portugueses são uma espécie de ilusionistas que passam a maior parte do tempo a enganar-se a si próprios. Já há muito que perderam a noção do ridículo.

 

Instalou-se entre nós um falso sentimento de compaixão pelas pessoas, mas, sobretudo, pelos animais. E pelas distintas minorias. Como se tudo fosse igual ou valesse o mesmo. Todos os “bolsonaros” deste mundo se alimentam das sobras que esses equívocos geram.

 

Esta pretensa superioridade moral, que tudo vê sob o olhar do relativismo, mais não é, em termos civilizacionais, do que uma autêntica caça aos gambozinos.

 

Afinal Cristo também foi vítima de maquinações políticas, um herói infeliz num processo armadilhado.

 

Penso então nos cães, naqueles que fazem o que os donos querem, que lhes saltam para o colo, lhes lambem as mãos, que dormem ao seu lado, no canapé, onde os senhores autorizam, porque os amam.

 

O patrão é sereno, como a água tépida do lago. Mas nunca se sabe o que está no seu fundo. Por isso, o cão não deve enervar o patrão, porque pode ser posto na rua, quando se está tão bem dentro de casa.

 

E na casa existe um lugar tão bom para um cão.

 

Quando os brancos estavam no poder, nessa época os brancos enforcavam. Eram eles os que enforcavam. Depois chegaram os vermelhos. Eles, os que combatiam os brancos que enforcavam. Eles, os vermelhos. Então os vermelhos passaram a enforcar. Primeiro os brancos. E depois até os vermelhos que eles diziam que tinham passado a comportar-se como os brancos e a conspirar com eles. A verdade é que os que eram enforcados, fossem de que cor fossem, sofriam os mesmos insultos e, depois, sacudiam os pés da mesma maneira, fosse qual fosse a cor em nome da qual eram executados. Numa coisa coincidiam os brancos e os vermelhos: a corda não está nada mal. Sempre é mais confortável do que a bala, porque o tiro nem sempre acerta. Depois tem de se disparar de novo. E, se não morreu, tem de se disparar na nuca.

 

Afinal, bem vistas as coisas, os seres humanos são diferentes dos animais. Governam-se e deixam-se governar, roubam e deixam-se roubar. Matam e deixam-se matar. Vão a centros comerciais, a restaurantes, a comícios e a concertos. Vão para os parlamentos. Votam e deixam-se votar. Votam e deixam-se levar.

 

Mas os animais não sabem denunciar, nem caluniar, e, se roubam, têm as suas razões, pois não podem ir às lojas, talhos ou aos restaurantes.

 

Depois penso em mim. Sim, a minha moral é uma forma de disciplina resultante do treino a que fui sujeito em família e na escola. A minha fé reside numa espécie de budismo que respeita as tradições. O resto procurei-o por iniciativa própria. Ou pedi-o emprestado.

 

Em  pequeno gostava de participar nas piadas dos adultos, mesmo que tivesse de fingir que as entendia.

 

Lembro-me muito bem daqueles pais que odiavam as pessoas por serem ricas e, no entanto, eles próprios queriam ser ricos. O dinheiro era, e é, sempre um problema.

 

Afinal, só compreendemos como nos devemos comportar e apreciar as coisas quando estas nos são retiradas.

 

A autenticidade, aprendi-o à minha custa, nem sempre é uma boa ideia.

 

Apesar dos fatos de boa fazenda, das camisas engomadas e dos sapatos engraxados, é bem verdade que se pode tirar um rústico da província, mas não o contrário.

 

A dita cultura desses letrados baseia-se em citar a ondulação das ervas, o privilégio dos túmulos, a compreensão da pátria, a errática da verdade e as confissões públicas da reconciliação.

 

Fazem lembrar aqueles amantes de consolação fingida, seduzidos por si próprios, hipnotizados pelo transe do poder, que fingem despertar do feitiço quando já não lhes resta outra solução.

 

Dizem que sentem a beleza quando ela é ordem, luxo, calma e volúpia.

 

Chopin é um bom prelúdio para as despedidas. O desaparecimento é a única certeza.

 

Vou até a janela e olho lá para fora. O céu está brumoso. O brunheiro cansado. O sol turvo. As condições meteorológicas são cada vez mais curiosas.

 

Já deixei de correr de um lado para o outro. As mudanças já não são excitantes.

 

Penso então nos criados na política, e da política, nos seus costumes, nas suas superstições engraçadas. Riem-se porque sabem o que andam a urdir. Rimo-nos porque não sabemos aquilo que andam a tramar.

 

Ainda mal são chegados, perdem-se logo na azáfama da partida.

 

Tanto os bons como os maus hábitos demoram o seu tempo a adquirir.

 

Não devemos apressar nem os homens nem a sua humanidade. Quem prega nem sempre o faz a partir daquilo que sente. Muitas vezes nem entende aquilo que diz, apenas sente o apelo de dizer.


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Domingo, 9 de Dezembro de 2018

Tâmega - Chaves

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Sábado, 8 de Dezembro de 2018

No Porto

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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2018

No Porto

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2018

Poema Infinito (434): A volúpia das gelosias

 

 

O dia começou sob o signo da irritação. Apesar do sol. As vozes parecem quebradas. No entanto, a luz dispersa reflete-se por cima dos ícones doirados. O desejo é um instante. Continuo perturbado pelo encantamento do desconhecido. As manhãs geladas possuem a pureza do ferro. A geada branca guarnece o tronco do carvalhos abatidos. As suas brasas aquecerão os dias de inverno. Os espasmos nos braços são mais demorados. Na parede, Dalila contempla o seu regaço. Eu faço o mesmo. O tempo está sossegado e silencioso. A noite dorme no acampamento. Holofernes assedia Betúlia. Judite espia. O silêncio torna-se violento. A confiança reside na profundidade do sono. Os filisteus sorriem. Os olhares mais audazes descobrem clarões sinistros nas fogueiras. A estupidez dos suplícios continua a caminhar por esse mundo fora. Definha a mágoa, definha o orgulho, definha a aristocracia. Tudo é agora mais cauteloso, apesar das multidões se continuarem a aglomerar junto à praça. A vingança é pior do que a guilhotina. Junto ao riso, a brisa suspira, o azul desmaia. Os gemidos escorrem relembrando os mortos, os antigos anseios, a boca de Pedro beijando Inês. A volúpia torna-se lânguida. O sol declina. O meu olhar fica apenas morno. Os pássaros retornam aos seus ninhos. Trocam o acaso pelo ocaso. Babilónia será sempre uma terra de lascívia, de sândalo, de resina. De sangue. As maldições são indignas nos profetas. Antigamente abriam-se as gelosias para entrar toda a luz. As penumbras eram leves, os balcões floridos. As sombras descreviam o aconchego, ampliavam os vultos, aconchegavam os sonhos. Apesar de os perfumes serem vagos, lembro-me de todo o passado morto, do silêncio dos choros, do tempo calmo, dos céus esplêndidos, da estranha dolência da profundidade. Apesar da inocência melindrosa, a minha puberdade tinha alma de Querubim. A noite que agora dorme é profunda. Os olhares são oblíquos. As velhas bruxas continuam a persignar-se. Os olhares das corujas continuam afiados e penetrantes. O livro dos sinais cabalísticos escurece no fundo do baú. É difícil adivinhar a hora a que os cisnes cantam. Nem o abandono, nem as palavras de Deus têm explicação. Só ausência. Apenas morte. Paz aos que não têm fé. A fé é uma forma de inconsequência. Corta-me o espírito das aflições, oiço as suas queixas, as suas pragas desiludidas, o seu sofrimento, a sua renúncia. O desânimo passa breve como o vento. Depois surgem os sustos. E as surpresas. O corpo está desfeito, a alma exausta. O holocausto nasceu da benevolência dos crentes. Não se conseguem alterar as palavras pela pronúncia. Estendo o olhar por este mar imenso de montanhas. Sinto alguma tristeza nas suas brumas suaves. As noites morosas são brancas, graves e mansas. Sinto necessidade de dominar os espaços, de te beijar os seios. As palavras amorosas dispersam-se no ar como um perfume raro. Depois do amor, regressa a monotonia, com os seus sonhos preliminares. Começa a chover mansamente, como um sono tranquilo e pacífico. De manhã abandonei Verlaine e à tarde a música que o tempo me quer impor. A terra fica estranha e a névoa desce pelos ombros da serra. O vento espreita pelas portas. Sinto ainda o choro da avó no seu velho missal e na água triste do ribeiro. Os dias estão contados. Essa é a nossa alegria. E a nossa tristeza.


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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2018

Em Bragança

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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2018

Em Chaves

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Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2018

420 - Pérolas e Diamantes: A indignação necessária

 

 

Por incrível que pareça, houve  judeus que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial por causa do confirmado “paradoxo de Auschwitz”, segundo o qual os judeus que tivessem cometido um crime eram poupados às câmaras de gás. Fiquei a sabê-lo depois de ler o livro de Hanna Arendt, “Eichmann em Jerusalém – uma reportagem sobre a banalidade do mal”.

 

Lembro-me bem da minha avó me contar histórias verdadeiras sobre a guerra civil espanhola que contaminaram, de forma traumática, as populações da fronteira. Eram relatos difíceis de narrar. Ela tentava transmitir-me traços de um universo transfigurado. Acho que foi daí que surgiu o apelo de escrever poesia necessariamente pura, tentando recuperar a sua  alma, a sua candura e uma inocência de coração que só os justos possuem.

 

Ninguém, até hoje, conseguiu igualar a sua radiosa sinceridade.

 

Como disse o médico do exército alemão Peter Bamm, um dos raros memorialistas da Segunda Guerra Mundial, “um dos requintes dos governos totalitários do nosso século consiste em não permitir aos seus adversários que morram como mártires gloriosos em nome das suas convicções”.

 

Em todo o crime tem de haver castigo, pois, como dizia Grócio, ele é necessário “para defender a honra e a autoridade daquele que foi lesado pelo crime, a fim de que a ausência de castigo não cause a sua degradação”.

 

Uma coisa sabemos de ciência certa: a essência do totalitarismo, como a da burocracia, consiste em transformar os homens em funcionários, em singelas peças de máquina administrativa, ou seja, desumanizá-los.

 

Agora existe a tendência, supostamente baseada na psicologia e na biologia, de se atribuir um ato, não ao seu autor, mas aos mais diversos tipos de determinismo.

 

Também há literatos que defendem que a tentação e a coação são uma e a mesmo coisa, ou seja, de que não pode pedir-se a ninguém que resista à tentação. Ora esse argumento, além de falso e falacioso, dá muito jeito para defender comportamentos incorretos, quando não agressivos, em relação ao outro.

 

Parece existir uma espécie de tabu social que redobra quando se trata de criticar as palavras ou os atos de pessoas famosas ou que ocupam cargos de relevo. Costuma argumentar-se nestas ocasiões, com ar superior, que seria “superficial” insistir nos pormenores, ou mencionar nomes. E depois passam às generalizações, dando-se ares de gente sofisticada. Ou seja, que todos temos cor de burro quando foge e que todos, bem vistas as coisas, somos igualmente responsáveis, ou, no limite, que todos agiríamos da mesma maneira.

 

É normal negar os factos verificáveis e as responsabilidades individuais baseados em inumeráveis teorias fundadas em presunções genéricas, abstratas e hipotéticas. Por vezes até invocam o complexo de Édipo que, supostamente, todos transportamos. Tais teorias são tão abrangentes que explicam, e justificam, qualquer tipo de ato ou acontecimento. Quem assim argumenta parte do princípio de que não existem sequer outras alternativas e que, por isso, teria sido impossível agir de outra maneira.

 

Para o bem e para o mal, as responsabilidades morais individuais existem.

 

A ideia de que toda a culpa é coletiva e toda a inocência é individual está errada. Desta forma nenhum indivíduo pode ser considerado culpado ou inocente. É apenas vítima das circunstâncias.

 

Sob o ponto de vista moral, é quase tão mau sentirmo-nos culpados sem ter feito nada, como sentirmo-nos inocentes quando somos efetivamente culpados de alguma coisa.

 

É a velha luta entre ser e não ter e entre ter e não ser.

 

Existe sempre uma réstia de verdade nestas generalidades. De facto, é muito difícil resistir à ilusão das ideologias da moda. Existem os que querem compreender tudo com o intuito de perdoar tudo.

 

O esforço de objetividade deve dar lugar à indignação necessária.

 

De facto, a radicalidade do antissemitismo, que se exprimiu a partir de 1942 através da “solução final”, não foi objeto de desconfiança imediata. Ninguém conseguia acreditar no inacreditável. Dizem que foi a primeira vez que Deus morreu.

 

O comunismo, após 1945, que todos confundiam com a União Soviética e ainda mais com o Exército Vermelho, impôs aos países por onde passava um regime tão despótico quanto o dos nazis. Os mesmos campo de concentração recebiam outros “criminosos”, quando não os mesmos, pois os democratas e os liberais sofriam a mesma sina com Estaline e com Hitler.

 

Com estas atrocidades, Deus voltou a ressuscitar.

 

Como escreveu Raymond Aron a propósito das guerras: “A História nem sempre dá razão à inteligência de raciocínio. As fés coletivas, pelo menos no século XX, são, na sua maioria, grosseiras”.


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Domingo, 2 de Dezembro de 2018

Vilarinho Seco - Barroso

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Sábado, 1 de Dezembro de 2018

São Sebastião - Couto Dornelas

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Sexta-feira, 30 de Novembro de 2018

S. Sebastião - Alturas do Barroso

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Quinta-feira, 29 de Novembro de 2018

Poema Infinito (433): A evidência das causas

 

Aí está a máquina da guerra a perseguir-nos. Aí está a máquina da paz a escutar-nos. Aí estão elas. Aí estamos nós. Ali estou eu. Penso nos objetos de guerra como se fossem verdadeiros. Penso nos objetos de guerra como se fossem falsos. O problema está na autenticidade das reverências. No prova do tempo. No protagonismo da História. Na generalidade do homem. Tememos tudo, até que as fotografias nos roubem a alma. Nós que somos uns desalmados. Os olhares mais simples incomodam por causa da sua evidência. Sinto em ti uma fragrância de timidez. Uma timidez secreta que carrega um medo inconfessado. Dou-te muito mais do que aquilo que julgas. As cores ajeitam-nos a casa. Apercebemo-nos agora da outra maneira de sermos iguais. Os conceitos simplificam a vida mas não a explicam. Tudo estremece depois do vendaval: as vozes, os passos lentos, a constante claridade das lâmpadas, os fantasmas silenciosos, os deuses, os demónios, os anjos, os monstros, os reis. E até os heróis. No entanto, as horas permanecem quietas. Lá fora os carvalhos encolhem a sua virilidade aparente. É tempo de nevoeiro. As outras árvores olham o vento, a sua densidade suspensa e as janelas erguidas da mansão. Um druida brando oscila entre a fantasia e a claridade. Por vezes, até as sílabas mais desequilibradas nos parecem divinas. Nenhum murmúrio quebra a noite. Mesmo os rumores avançam devagar. Foi num tempo assim que Roma ardeu, longínqua nos seus incêndios, efémera no seu esplendor, desprendendo faúlhas rutilantes de desejo e de decadência. Mesmo os Neros mais ajuizados morrem desesperados. As verbenas de rosas já não possuem o mesmo odor. As fontes que alimentam as flores estão mais pálidas. Mete dó a miséria de Jesus e a indecência de Pilatos. A plebe continua ignara, cheia de carne e de fome, com uma sede voraz. Toda a multiplicação dos peixes, do pão e do vinho é um milagre inútil. António continua eretivo e Cleópatra lasciva. As escravas continuam lentas, movendo os seus leques dentro de um filme de David Lynch. E seminuas. E pálidas. E indiferentes. Os guerreiros absorvem em êxtase os seus aromas que flutuam como um bendita maldição. As esfinges lembram esfinges em atitudes palpitantes. E também lembram complexos. Depois de amaldiçoar Salomé, Deus resolveu absolvê-la. Já nada é como antigamente. Nem o pecado, nem a virtude, nem o calor maldito da redenção. Abençoados sejam os pecadores. Abençoados os ébrios e os deslumbrados. Abençoados sejam os festins nus e o silêncio absorto dos apóstolos. Os soldados do apocalipse passeiam nas margens do Jordão. As mulheres uivam de raiva e de desejo. Os generais dormem tranquilamente nos seus leitos agarrados aos seus eunucos. As mulheres que tocam violino continuam a tocar. E a espiar. Uivam os lobos por cheirarem ao longe o receio. Os sacerdotes degolam os carneiros e têm orgasmos. Sanção já não ama Dalila, nem os seus seios, nem os seus joelhos, nem o seu regaço, nem a sua vagina que mais lhe parece um hieróglifo. Tudo nele é agora cansaço, os seus traços são mentirosos. Até o seu semblante é agora lânguido. Já não lhe ardem os beijos. Tudo agora é demorado como os espasmos. Até a traição deixou de ser silenciosa. Lá fora o gado passeia pelo meio das ruínas do templo. Sansão rapou o cabelo para ser futebolista. Por vez deixa-o crescer sete centímetros e meio para fazer publicidade a um champô que elimina a caspa. Dalila, essa maldita, que emagreça para caber dentro da lingerie. Sansão converteu-se ao islamismo e Dalila ao lesbianismo.


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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2018

S. Sebastião - Couto de Dornelas

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Terça-feira, 27 de Novembro de 2018

S. Sebastião - Couto de Dornelas

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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2018

419 - Pérolas e Diamantes: Os olhos vingativos das sereias

 

 

Muita da literatura que por aí vigora é dedicada a desconstruir instituições tão “perigosas” como  a família, a escola, a lei e o estado-nação através dos quais a herança da civilização ocidental foi passada até nos.

 

Esta literatura, que foi glorificada e fertilizada nos escritos de Foucault, apresenta como “estruturas de dominação” o que cada um de nós identifica como instrumentos de ordem cívica.

 

Ou seja, segundo esta interpretação, é urgente libertar as mulheres da opressão masculina, libertar os animais do abuso humano, lutar ao lado dos homossexuais e transexuais contra a homofobia, e mesmo cerrar fileiras ao lado dos muçulmanos para combater a islamofobia. Mas, a fazê-lo, é necessário deixar-nos absorver pela agenda da esquerda. De outra maneira, nada feito.

 

É triste, mas verdadeiro, o  igualitarismo mais radical dos marxistas e anarquistas do século XIX, que lutaram sem tréguas, e sem hesitações, pela abolição da propriedade privada, já não possui o poder de atração global de antigamente. O slogan “proletários de todos os países uni-vos”, foi chão que já deu uvas.

 

O objetivo igualitário não permite que nada, nem ninguém, se meta no seu caminho. Nenhum costume, instituição, hierarquia ou lei existentes, pode triunfar sobre a igualdade.

 

A proclamada justiça social continua a lavar a História. Uma mão lava a outra...

 

Marx defendeu n’A Ideologia Alemã algo extraordinariamente poético. A seguir à ditadura do proletariado, o Estado definhará. Não existirá nem lei, nem a necessidade dela. Tudo será de todos. Não existirá divisão laboral. Toda a gente irá gozar em pleno as suas necessidades e desejos, “a caçar de manhã, a pescar à tarde, a reunir o gado ao fim do dia e a discutir literatura depois do jantar”. A seguir à ideologia veio a prática. E depois foi aquilo que se viu.

 

Diziam os apóstolos dessa boa nova que tudo isso era “científico” e não utópico. Afinal, tudo não passou de uma piada. Que rica seria a vida sem propriedade privada.

 

Os marxistas “científicos” diziam que só um pensamento sério nos faria acreditar que a História caminhava, ou devia caminhar, no caminho do socialismo. Depois da realidade indecorosa desse “materialismo dialético”, os historiadores de esquerda passaram a minimizar as atrocidades cometidas em nome do socialismo e a culpar as forças reacionárias pelos desastres que fizeram retardar o avanço socialista.

 

Roger Scuton, considera que “a assimetria moral, que atribui à esquerda o monopólio de virtude moral e usa a ‘direita’ como um termo de abuso, acompanha uma assimetria lógica, nomeadamente, a admissão de que o ónus da prova cai sempre no outro lado e não pode , jamais, ser retirado”.

 

A esquerda uma coisa conseguiu: burocratizar a liberdade e a justiça social.

 

Eric Hobsbawm, por exemplo, nos quatro volumes da sua História do nascimento do mundo moderno, faz uma síntese enganadora tentando branquear a experiência comunista e culpar o capitalismo de todo o mal  no mundo, o que, bem vistas as coisas, é, além de sinistro, um pouco antiquado.

 

Todos sabemos que os factos são mais interessantes e memoráveis quando fazem parte de um drama. Por isso é que a esquerda passa a vida a dramatizar porque, na sua visão, a vida moderna só pode ser dramática. Sem drama não há revoluções.

 

A História marxista só adquire significado com a classe operária no topo das prioridades. Por isso há que demonizar a classe alta e romantizar a baixa. Faz parte do jogo. Faz parte do vício.  Faz parte do drama.

 

No seus livros, Hobsbawm, por exemplo, não se incomoda com pormenores como a lei e os processos judiciais, não vê necessidade em mencionar o decreto de Lenine, de 21 de novembro de 1917, que anulava os tribunais, o foro judicial e toda a advocacia, deixando as pessoas sem a única proteção que tinham, ficando por isso sujeitas à intimidação e à prisão arbitrárias.  

 

Lenine criou a Cheka, percursora do KGB, e o poder que lhe atribuiu para usar métodos terroristas necessários para expressar a vontade das “massas” contra a vontade do simples povo, também já se esqueceu. A borracha comunista é impressionante.

 

Eric Hobsbawm também nada diz sobre a fome de 1921, a primeira das três vagas de fome provocadas pelo Homem no início da História soviética, fome que foi propositadamente usada por Lenine para impor a vontade das “massas” aos desafiadores camponeses ucranianos, que ainda não tinham aceitado incorporar as leis do socialismo científico, nem o seu papel na História.

 

A morte libertou-os das dúvidas.

 

O que mais me surpreendeu na leitura do livro “A Era dos Extremos” foi o não ter sido considerada uma obra equivalente à do branqueamento do Holocausto por David Irving.

 

Mais uma vez descobri que os crimes cometidos à esquerda não são verdadeiros crimes. E que aqueles que os desculpam, ou ignoram, em silêncio cúmplice, têm sempre bons motivos para o fazer.

 

É bem verdade, a raposa pode mudar de pelo, mas não muda de hábitos.


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Domingo, 25 de Novembro de 2018

ST

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Sábado, 24 de Novembro de 2018

No Barroso

barroso - volta por SAlto 206 - cópia copy - co

 


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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2018

No Barroso

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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2018

Poema Infinito (432): Matar saudades e outras coisas

 

O meu tio João fazia-me acreditar. Fazia-me acreditar que. Fazia-me acreditar que assobiava tão bem como os pássaros. Eu, entretanto, observava as borboletas e os escaravelhos. Sou daqueles que se engasga quando está a nadar. Por vezes sou um náufrago. Outras vezes sou uma ilha. Lembro-me de mover os dedos e de ouvir o silêncio. É necessário continuar a nadar. Vamos repetir o teatro da modéstia. Vamos marcar território. Estudo o método do saudável otimismo da juventude. Recupero o fôlego, a compaixão, o rosto fixo de dor da minha mãe. O rosto sério do meu pai. Agora limito-me a citá-los. Antigamente custava-me aceitá-los. Penso que a minha mãe sorriu no seu parto com dor, apesar de estar com o rosto sério. Não há felicidade depois do parto. A minha mãe era a mais linda do mundo. Todas as mães são as mais belas do mundo, se as deixarem ser. Ou não ser. Tudo faz parte da mensagem obscura da sobrevivência. Ainda há homens que escrevem poemas para as suas amadas. Que desperdício. A inocência é infinita. A estupidez é infinita. Faz parte da humanidade ultrapassar a violência. Para percebermos a verdadeira dimensão das palavras é necessário tirá-las do seu contexto. A sala do tempo engole todas as direções. Lembro-me das dificuldades matemáticas, do desânimo, das náuseas, das deferências fingidas, das exaltações, do esquecimento. Lembro-me dos treze de maio, das manifestações dos adeptos dos milagres, dos lenços brancos, das constipações, das obstipações, dos suspiros de alívio de Deus quando acabava a noite. Por vezes parecia ofendido. Torço os dedos para evitar a desgraça. Encolho entretanto os ombros e o meu olhar mais cândido. Tudo ofende Deus. Nada ofende Deus. Improviso a rapidez da resposta. Ou a sua lentidão. Depende do objetivo. Estou cheio de saudades. Eu agora quero é matá-las. Pretendo juntar o óbvio às futilidades. Parodiar as caricaturas. Procuro acalmar a virgindade. Ou a falta dela. As saudades envenenam-me. Eu sinto saudades de quase tudo: do assombro, da imaginação, das vacinas, das tigelas de caldo, da catequese, do som do riso da avó, das interrupções do avô, da relutância dos gelados, dos sussurros, da melancólica meditação dos néscios, dos monólogos dos doidos, dos palavrões do Birtelo, da fome infinita dos porcos, do chamorro dos coelhos e do gogo das galinhas chocadeiras. A excitação e o remorso gritam dentro de mim. Tenho cada vez mais dificuldades em acreditar. Os clérigos esforçam-se por morrer em Jerusalém para estarem mais perto da intricada noção de imortalidade. Não sabem que já nem a alma nos basta. Ou nos salva. Todo o castigo é crime. Esforço-me bastante para conseguir rir. Já não distingo a atração da excitação. Todos oramos pela ereção das almas. Procuramos agradar sempre à esperança. Sou agora um pagador de promessas. Ó meu rico São Caetaninho, peço-te que a antimatéria não faça parte da ciência exata do céu. A nós basta-nos o Purgatório. Até a humanidade um dia se vai transformar em poeira cósmica. Abençoado seja o Senhor. Já fui um velho educado, agora sou apenas um miúdo cínico. Agora ando no meio das estradas. Chego sempre cedo de mais às paragens do ridículo. Lembro-me do meu relógio Cauny Prima que me tapava o pulso fino. Espreitava então as horas com um nervosismo crescente. Agora apenas me limito a resistir à realidade.


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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2018

Em Chaves

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Terça-feira, 20 de Novembro de 2018

Na cozinha de S. Sebastião - Couto Dornelas

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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018

418 - Pérolas e Diamantes: O vime da História

 

 

Ramalho Eanes, lá do alto dos seus 83 anos, disse uma coisa que nos deve servir de lição: “Um homem que olha a sua vida e que não se arrepende de nada é um inconsciente.”

 

O problema é quando olhamos para trás e descobrimos que não fomos gente de bom senso. A leitura de D. Quixote fez-me mal. Mas a verdade é que não posso queixar-me de Cervantes. É como na comida, perdoamos o mal que nos faz pelo bem que nos sabe.

 

Mas até nos livros mais sérios podemos encontrar sempre coisas com graça. Querem um exemplo?, pois aí vai ele. No livro “Ramalho Eanes - O Último General”, de Isabel Tavares, Vasco Vieira de Almeida, conta que em pleno governo de Vasco Gonçalves, foi chamado a S. Bento naqueles tempos de “cobardia suave” para servir de intérprete a uma delegação do Bundestag. Estava ele a falar com o primeiro-ministro quando a secretária vem anunciar a chegada dos deputados alemães. E lá vão eles recebê-los. Entram na sala ao mesmo tempo que um grupo de deputados que em vez de altos, loiros e de olhos azuis, eram atarracados, gordos e morenos. Vasco Gonçalves estende-lhes a mão e diz: “Auf wiederseben!” E o putativo deputado alemão que vem à frente responde num português autêntico: “Senhor primeiro-ministro, muito obrigado por nos receber...” Atalha Vasco Gonçalves: “Mas você fala perfeitamente português.” E o putativo: “Pois, nós somos a administração da Torralta.” “Ai são?! Estão todos presos!” Foi desta maneira que Vasco Vieira assistiu à prisão da administração da Torralta, tendo a impressão de que estava no meio de um filme de Woody Allen.

 

Mas há mais. Quando VVA era ministro da economia do governo de transição de Angola, acabou por escrever uma carta aos movimentos de libertação (MPLA, FNLA, UNITA) a dizer que eram todos uns bandidos. Quiseram expulsá-lo logo de lá, por dizer a verdade. Aquilo era de uma violência enorme, os ministros andavam todos de pistola, que tiravam de uma elegante pasta Samsonite e colocavam em cima da mesa. Agora dá vontade de rir, mas na altura fiava mais fino.

 

Segundo Júlio Castro Caldas, tudo estava a ser manipulado pelo Partido Comunista. E não era sequer por Álvaro Cunhal, ministro sem pasta. Quem mandava no Conselho de Ministros era o Vasco Gonçalves, mas quem mandava no primeiro-ministro (pode parecer surrealista, mas acontecia assim) “era o tipo que fazia as críticas da televisão no Diário de Lisboa, o Mário Castrim, casado com a Alice Vieira e a quem puseram a alcunha de  ‘o Secretário-Geral’. Eram críticas repletas de mensagens que Vasco Gonçalves lia e seguia as suas instruções.”

 

Este senhor, o Castro Caldas, evidentemente, era do PSD e orgulhava-se de “ter antenas” em praticamente todas as situações militares. “E o Eanes, numa dada altura fez o mesmo no PS.” Talvez daí, o facto de Mário Soares não gostar dele. Nessa matéria, quem mandava “era o Manuel Alegre”. Cesteiro que faz um cesto, faz um cento.

 

Na altura do “Verão Quente” os democratas “conservadores” fartaram-se de conspirar. Tomé Pinto, um militar ligado a Eanes, recorda-se das reuniões em casa de Henrique Granadeiro em que o ex-ministro da Administração Interna, Costa Braz, trazia sempre as mensagens nos sapatos.

 

Segundo Joaquim Aguiar, que foi assessor de Ramalho Eanes e também de Mário Soares, refere que enquanto Soares queria que o elogiassem, Eanes queria que o ajudassem a decidir.

 

Joaquim Letria, que também trabalhou próximo de Ramalho Eanes, pois foi porta-voz da presidência da república, lembra que Eanes não aceitava com facilidade “esta coisa de utilizar uma linguagem mais simples nos seus discursos”. E dizia-lhe uma coisa com “muita graça”; contava-lhe que “uma vez tinha assistido a um discurso do Spínola pela televisão, estava em Viseu ou algures na província, num restaurante, ou algo assim, no meio de mais pessoas. E Spínola fez um discurso muito fechado, hermético. Ele pelo menos achou isso. Mas depois, falando com as pessoas que ali estavam, elas disseram: ‘Ah, gostamos muito de ouvir este homem... Sabe, os outros só dizem coisas que a gente também já sabe’.”

 

Sobre as gravações das conversas de Ramalho Eanes com Francisco Balsemão, enquanto primeiro-ministro, refere que “se havia uma coisa capaz de exasperar Eanes era a mentira”.

 

Ramalho Eanes fez um doutoramento aos 71 anos. Adriano Moreira destaca que esse foi o abrir de um caminho para “uma coisa que em Portugal pouca gente nota, que é a estratégia do saber”.

 

Cerca de 50% da população portuguesa acredita que não precisa de aprender mais nada, já sabe tudo, o que é dramático.

 

Talvez por isso, tenha escrito que “a poesia é, assim, uma espécie de brisa fresca que nos lembra que, afinal, nem tudo é o calor asfixiante do interesse; que há muitas vezes, o vento fresco que faz com que olhemos a vida, olhemos os outros, de uma maneira mais próxima e mais afetiva”.

 

O cartoonista António, caricaturou-o com a figura de Dom Quixote, o que lhe assenta na perfeição.


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