Domingo, 22 de Julho de 2018

Olhares

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Sábado, 21 de Julho de 2018

No lagar

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Sexta-feira, 20 de Julho de 2018

Olhares

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Quinta-feira, 19 de Julho de 2018

Poema Infinito (414): A velocidade do tempo

 

O som acionado pelo teu cérebro amplia a velocidade do tempo. Em sentido contrário move-se o egoísmo estrutural da auto preservação. Os nossos estados mentais são em número superior às partículas elementares do universo. Já não conseguimos distinguir a alma do cérebro. O maior drama é termos consciência de nós e continuarmos limitados. Os homens e as mulheres nunca conseguirão chegar  a deuses. A hesitação dos teus suspiros parece quase sobrenatural. A dádiva divina perdeu o seu segredo original. Somos duas pessoas noturnas absortas nos seus pensamentos. São quatro da manhã e a noite continuar a ronronar. O mundo exterior está branco como num conto de fadas. O luar torna nítida a paisagem, repreendendo a escuridão. Delineio as letras do teu nome na geada que se fez sobre o vidro da janela. A beleza inalterada dos montes abre fendas nas feridas do livro compacto das memórias. A terra continua a ser inundada por planaltos de luz e sulcada pela água da chuva. O silêncio invade o sonho breve dos animais. As recordações e a saudade que a elas se agarra são como relíquias que o avô nos pediu para preservar. Foi também ele que pediu para analisar o passado. Lembro-me de alguém abrir um mapa da aldeia e de eu colocar o dedo molhado sobre a Clérga e a tinta esborratar no sítio preciso da confluência dos rios. O mapa é demasiado abstrato, não consigo ver os caminhos que levam a terras galegas. Contemplo o céu na esperança cega de me orientar. Os pássaros mais pequenos continuam a escapar à indiferença dos deuses. As cartas parecem casas breves, salpicadas de hesitações e de regressos, de desgastes. A admiração é que continua incansável, como o sofrimento. Nas guerras, fecham sempre fronteiras. Olhamos para trás para ver se o tempo pode recuar. A voz do pai continua embriagada e melodiosa. As festas da família são sempre ruidosas. Os tios e primos mais chegados afastam-se sempre aos gritos. As guerras resolvem sempre o passado. Apenas o passado. O mais difícil é libertarmo-nos de nós próprios. Tudo parece uma questão de sorte ou de azar. A ingratidão e o engano faz-nos compreender o desaparecimento. Deus joga connosco às escondidas. As sombras resumem a sua mensagem. O mundo está povoado de instintos. A memória da mãe continua a ser uma surpresa povoada de referências, impregnada de tristeza. A sua imagem está cheia do reflexos e com os olhos marejados de lágrimas. Agora já não sinto nem vergonha nem medo delas. Tudo está prestes a desintegrar-se. Já não é possível voltar atrás, nem suspender o tempo, torcê-lo ou abri-lo. A noite continua amarrotada, desço as escadas traiçoeiras e passeio pelas ruas sossegadas em frente das casas silenciosas. Um carro fura o silêncio. Eu desvio-me com a lentidão dos velhos. As janelas continuam a afastar-se. As ruínas interiores competem com as exteriores. A indispensabilidade das coisas tornou-se dispensável. Estou a tremer e volto para casa. Estou rodeado de terra. O meu olhar dá de frente com um Jesus iluminado na cruz. Sinto pena. Por vezes a pena pode ser imerecida. É isso o que mais nos magoa. O olhar da minha mãe desliza rumo ao infinito. Tento ensinar-lhe o princípio da distância. Lembro-me que uma vez pedi ao meu pai que construísse uma lua. Ele disse que sim, com um cuidado muito frio. A sua perplexidade oscilou na minha frente. Depois levantou-se e atravessou o pátio com as mãos nos bolsos. A neve começou a cair depondo um fino lençol branco sobre as pedras do muro e sobre a terra do caminho. Neste preciso momento oiço a sua voz ao fundo do pátio. Depois tudo se desvanece. Tenho medo de nunca mais o encontrar.


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Quarta-feira, 18 de Julho de 2018

Delicadeza

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Terça-feira, 17 de Julho de 2018

Sorriso

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Segunda-feira, 16 de Julho de 2018

401 - Pérolas e Diamantes: O Cavaco do nosso descontentamento

 

 

Das entrevistas dadas pelos ex-presidentes da República ao Expresso, a de Cavaco Silva foi a pior. E também a melhor. A pior porque evidenciou a sua personalidade egocêntrica e mesquinha. E a melhor porque revelou o seu carácter reacionário, presunçoso e definitivamente medíocre.

 

Ele, um dos primeiros-ministros que mais contribuiu para o foguetório e o esbanjamento dos fundos comunitários, diz que não se ilude com os números do crescimento porque, na sua douta opinião de homem de pau (carunchoso),  Portugal cresce menos do que os outros países da UE, mesmo num quadro de benesses externas.

 

Revela que não alinha nos foguetes de cada vez que sai um número do INE. De facto, o sr. Cavaco, quando os números são positivos, deve ter uma contração do estômago, deve ranger (ou esterrincar, como se diz na minha aldeia) os dentes e largar uma flatulência que não deve cheirar propriamente a rosas.

 

O azedume é mais forte do que a razão. Diz que é um homem de sorte. Talvez até seja, mas, na minha humilde opinião, a sua sorte foi sempre o nosso azar.

 

Elogiou Macron, Rui Rio, Passos e António Costa (e lá vai canelada), “um político muito hábil”.

 

Todos percebemos que o elogio ao atual primeiro-ministro não é elogio nenhum. O sr. Cavaco não quer dizer que a habilidade de António Costa é benigna, pois utilizou o adjetivo como querendo significar que é um homem tortuoso, que sabe manipular as pessoas e os meios de informação. Não o quer definir como apto, capaz ou ágil, mas sim como astuto.

 

Pensando bem, talvez diga António Costa, querendo designar Marcelo Rebelo de Sousa, de quem tem uma inveja imensa, disfarçada de indiferença.

 

Foi ele que, num dado momento, querendo referir-se a um seu companheiro de partido, afirmou que a má moeda vence a boa moeda. Eu até concordo com o dito, pois foi essa “força maior” a que lhe permitiu triunfar no partido, no governo e na presidência do país.

 

O sr. Cavaco foi um atraso de vida.

 

Na sua perspetiva de ave agoirenta, o sr. Cavaco considera que devemos corrigir os nossos desequilíbrios estruturais como forma de preparar o futuro. A saber: o enorme endividamento do país (que ele potencializou); a insustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (que ele dinamitou de forma tortuosa); a baixíssima taxa de poupança das famílias, que está a um nível historicamente baixo (ó sr. Cavaco, como é que alguém pode poupar se nem dinheiro tem para chegar ao fim do mês? Não se deve esquecer que “o seu menino bonito”, Pedro Passos Coelho, cortou nos vencimentos da classe média de uma forma escandalosa).

 

A simples ideia da reestruturação da dívida provoca-lhe pesadelos, por isso é frontalmente contra, pois podia levar os bancos portugueses à falência, o que seria uma situação dramática para o nosso sistema financeiro. O problema é que os bancos foram mesmo à falência e o sr. Cavaco nem disso se apercebeu. Além de termos de pagar a enorme dívida, atualmente também nos toca pagar a recapitalização e o financiamento do setor bancário.

 

Agora deu-lhe para citar várias vezes Emmanuel Macron. Diz que ganhou interesse pelo presidente francês ao ler o jornal que lhe chega diariamente, o Le Monde, e uma revista semanal, a  L’Express.

 

Começou a ler os discursos do presidente francês e a sublinhar determinadas frases e encontrou algumas semelhantes às suas, escritas nas Memórias. Ou seja, em vez de ser Cavaco a ler Macron, afinal foi Macron que leu Cavaco e se aproveitou das suas ideias.

 

Cá para mim, o homem não se enxerga.

 

E citou-o: “Enquanto presidente, não podemos ter o desejo de ser amados, o importante é servir o país e levá-lo para a frente”.

 

Cá para nós que ninguém nos ouve, o sr. Cavaco aproveita as palavras de Macron para criticar o presidente Marcelo.

 

Segunda citação e mais uma alfinetada em Marcelo: “Estou a pôr fim à cumplicidade entre a política e os media.”

 

E ainda outra, esta direta ao Estadista dos Afetos: “Para um presidente, falar constantemente com os jornalistas, não tem nada que ver com proximidade com o povo” (ai não que não tem, o sr. Cavaco morde-se de inveja).

 

E ainda mais alguns dardos apontados e Marcelo: “A proximidade entre jornalistas e políticos é negativa para os jornalistas e para os políticos.”

 

Em relação à questão do posicionamento de Macron entre a direita e a esquerda é ladino: “Nem de direita nem de esquerda, porque de direita e de esquerda”.

 

O sr. Cavaco, nem a mão esquerda tem à esquerda.

 

Perguntaram-lhe a sua opinião sobre o exercício de funções do atual presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Cito a resposta, que é uma aldrabice pegada: “Tomei por princípio não fazer comentários nem sobre os meus antecessores nem sobre quem me sucede”.

 

Em  duas coisas admito que tem razão: na nossa democracia notamos um afastamento crescente das elites profissionais, dos quadros técnicos qualificados, em relação à participação política  e o sistema eleitoral dá um peso excessivo aos partidos, em comparação com o que dá às pessoas.

 

A autocrítica fica-lhe bem. Pena é que tenha vindo tão tarde e a tão má hora.


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Domingo, 15 de Julho de 2018

Músicos

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Sábado, 14 de Julho de 2018

Sorrisos

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Sexta-feira, 13 de Julho de 2018

Fumeiro

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Quinta-feira, 12 de Julho de 2018

Poema Infinito (413): A maneira da luz

 

 

O teu olhar costuma acalmar a minha tempestade, dominar os ventos que nascem dentro de mim, acalmar as minhas marés interiores e deixa continuar a brilhar os pontos de sol que por vezes se refletem dentro da minha alma. É comovente a minha capacidade de te amar. Mesmo fustigados pelo vento, os frutos renascem devagar, desprendendo-se dos ramos das nossas mãos. Brisas poderosas anunciam maravilhas. O odor das camélias invade o jardim e a nossa nudez que por ali passeia. As palavras sagradas transformam-se em pétalas. Ou em pão. Ou em mentiras piedosas. No entanto, as crianças continuam a beber a água pura nos fontanários das praças. As suas mãos parecem taças douradas pelo sol. Desenhaste o teu corpo dentro dos meus olhos. Agora eles são como lagoas luminosas. Nas encostas da montanha, as uvas amadurecem ao sol. O amor é uma nova construção, uma nova estrada. Abraço-te com o mesmo carinho com que se fazem as curvas dos caminhos mais apertados. A arte está na forma de tecer a manhã, na melancolia entusiástica da aprendizagem, na medição dos sonhos, no entendimento dos segredos e na compreensão dos sorrisos. Gosto da acidez da tua pele, do calor dos teus lábios e do sabor perpétuo da ideia do paraíso. Cada vez renascemos mais devagar, como as flores trazidas pelo vento, como o pólen revelado pelo segredo da fecundação. Reaparecemos vagarosamente, como as brisas poderosas, como os gestos das crianças invadindo os jardins, apanhando as lágrimas depositadas pela chuva nas pétalas das flores. Pousamos então olhar nas árvores mais direitas que nos permitem fixar o deslumbramento das paisagens e recitar as preces da alegria em nome da terra abençoada. As flores não são abstrações, assim como os frutos são sempre a possibilidade feroz de uma outra árvore. A memória é outro tipo de ilusão. O brilho da noite orienta-me nos caminhos do teu corpo. Nele tateio a esperança. Uma língua de fogo transforma o corpo em desejo. Cobrem-se os corpos de beijos e os poemas de versos. O desejo é uma outra forma de esperança. Recolho-me dentro de ti e adormeço. As mãos reproduzem o firmamento, o corpo reflete calor, os teus olhos iluminam a noite. Repetes a palavra “amor” até ela fazer sentido. Dizes que existem palavras tão grandes como “amor”, palavras que possuem o mesmo sentido grandioso: imensidão, essência, eternidade, plenitude. E outras que evidenciam um sentimento único e verdadeiro: idealista, íntegro, renovador, precioso. E ainda outras que simbolizam a continuidade e a regeneração: profundidade, harmonia, envolvência, posteridade. A musicalidade da tua voz abre sulcos no meu corpo, deixando nele linhas incandescentes, onde depois o silêncio semeia a verdade. O nosso olhar fica fixo e cristalino. Os gestos são agora mais tranquilos, cingem o meu ao teu corpo. Lá fora, o rio transborda de vida e as árvores enchem-se de frutos. Cá dentro, as nossas bocas definem as memórias mais íntimas. Procurei as ondas do mar nos teus olhos. Sonhei que chegavas radiante de alegria e com as tuas mãos carregadas de espigas. Depois subimos a montanha transportando o elmo de ouro. O azul iluminava o céu. A razão reconstrói sempre a vida. Há quem se entretenha cantando a beleza que dizem eterna. Eu apenas colho o rosmaninho junto ao rio e busco a nossa barca do destino.


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Quarta-feira, 11 de Julho de 2018

À espera

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Terça-feira, 10 de Julho de 2018

Sorriso

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Segunda-feira, 9 de Julho de 2018

400 - Pérolas e Diamantes: Uma nova interpretação de Guernica

 

 

Os seus estudiosos dizem que Picasso defendia que se leva muito tempo até ficar novo, desde logo porque é necessária muita maturidade para uma pessoa se deixar espantar, inventar, apaixonar e amar.

 

A psicóloga Joana Amaral Dias escreveu, sobre o filme Amour, que talvez “uma boa velhice dependa dessa capacidade de ir ficando cada vez menos esclerosado, até ser criança outra vez”.

 

No fundo, nós vamos inventando todos os dias a possibilidade de uma nova vida, a partir daquilo que fomos. No final da história, morremos.

 

Guernica, provavelmente a obra emblemática de Pablo Picasso e da arte do século XX, mede 349,3 cm x 776,6 cm. Esta pintura mostra os horrores do bombardeamento da cidade basca de Guernica a 26 de abril de 1937, durante a Guerra Civil Espanhola, pela aviação Nazi.

 

Picasso, mesmo morando em Paris nessa época, não calou a afronta e resolveu depositar na tela toda a sua indignação e o seu pesar. A pintura, um óleo sobre tela, foi realizada a partir de 36 fotos que retratam as dolorosas consequências da tragédia. A obra foi inicialmente exposta num espaço reservado à República Espanhola na Exposição Internacional de Paris.

 

Teoricamente, Guernica transmite a atmosfera da guerra e as suas trágicas consequências.

 

Picasso utilizou uma simulação da técnica de collage, pois desenhou e pintou a obra dando a impressão de colagens e criando a sobreposição de planos.

 

Motivado pela dor que lhe tinha provocado a tragédia, Picasso fez um retrato genericamente monocromático basicamente em preto, branco e cinzento, tentando provocar no espetador toda a agonia e a desumanidade da guerra.

 

Há uma curiosidade que envolve o quadro, a resposta de Picasso a um oficial nazi que, numa revista ao seu apartamento em Paris, terá observado uma fotografia do painel e perguntado: “Foi você que fez isto?” Ao que o pintor terá respondido: “Não, foram vocês.”

 

Para o historiador José Juarranz de la Fuente, Guernica, a obra mais famosa de Pablo Picasso, é afinal um autorretrato. Será na realidade um retrato familiar onde estão as suas cinco mulheres.

 

Lendo o quadro da esquerda para a direita, podemos observar na ponta esquerda, “a mãe”, uma mulher com a criança nos braços. Segundo o historiador é a jovem Marie Thérèse, a amante oculta, com a filha de ambos. A sua língua afiada, à semelhança do touro e do cavalo, é uma alusão às discussões que tinham.

 

Por cima de si está o touro que, afinal, não passa do autorretrato de Picasso. Esse animal com as patas robustas, os testículos marcados e o olhar de espetador, é o próprio artista. PP já se tinha desenhado dessa forma antes, nomeadamente retratando a relação com Olga, a sua mulher.

 

Voando perto está o pássaro que representa a fotógrafa Dora Maar, a amante oficial de Picasso, isto segundo Juarranz de la Fuente. O seu tamanho pequeno indica a sua menor importância em relação à mãe, à mulher e à fiel Marie Thérèse.

 

Quase no centro do quadro está o cavalo, neste caso égua, pois, segundo o historiador, o equídeo é a representação de Olga, a bailarina ucraniana com quem o pintor se casou em 1918. Divorciou-se dela em 1935, pouco antes da criação de Guernica, que, segundo PP, foi o pior momento da sua vida.

 

Mas voltemos de novo “à mãe”. O bebé que segura nos braços, aparentemente morto ou desmaiado, é Maya, a sua filha com Marie Thérèse. Também esta cena reflete um momento marcante: o nascimento de Maya, que esteve quase para morrer.

 

Por baixo da mãe, do touro, do pássaro e do cavalo (égua nesta interpretação), podemos ver o guerreiro morto, ou Carlos Casagemas, o seu amigo suicida.

 

Noutros quadros, Picasso desenha-o numa poça de sangue e a espada partida simboliza a sua impotência sexual. Numa outra leitura possível, o historiador abre a possibilidade de o guerreiro ser, afinal, o pai do autor.

 

Já sobre o lado direito do quadro, podemos identificar duas mulheres. A que, no plano superior tem uma vela na mão e corre a arrastar o joelho, evoca a sua mãe, Maria, a partir de uma imagem que o marcou no terramoto de Málaga, no Natal de 1884, tinha o artista 3 anos. Tiveram de sair de casa a correr.

 

Na ponta direita está uma figura que cai. Na opinião de José Juarranz de la Fuente é uma personagem “enigmática e ambígua”. Tem asas, enverga uma túnica que a cobre até aos pés, tem as mãos levantadas e chamas a saírem-lhe do corpo. Pode ser um anjo ou a continuação da representação do terramoto de Málaga.


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Domingo, 8 de Julho de 2018

Na aldeia

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Sábado, 7 de Julho de 2018

Na aldeia

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Sexta-feira, 6 de Julho de 2018

Na aldeia

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Quinta-feira, 5 de Julho de 2018

Poema Infinito (412): O sexo das estrelas

 

Há mulheres que são como contos tristes. São continuações do fim do mundo, apesar de terem nascido como belas princesas acordadas e de acariciarem peixes dentro da água. Sete rios regam agora os campos fazendo com que os versos nasçam verdes. As meninas metem-se dentro de água centímetro a centímetro, tomando consciência da textura dos seus corpos, das fendas, das partes religiosas dos seus sexos. Os rapazes jogam às escondidas, fecham-se dentro da sua inocência, recortam com o olhar as formas das raparigas, o comprimento dos seus cabelos, as pontas das saias, as mãos, os pés, a calibração dos seus seios. E apanham peixes e lutam corpo a corpo. Têm sempre medo de chegar ao fim. As meninas livram-se então dos alívios. A adolescência é uma estação irreversível sem nada lá dentro. É nessa altura que se começa a sentir o tempo a doer, começam então as avós a pegar nos polegares das meninas, a adormecer junto à lareira, a acender o lume pela manhã, a fazer o jantar, a cozinhar legumes, carne e as ideias mais crepusculares. Explicam a maneira de se ir buscar lenha ao monte, de ordenhar as vacas, de dar de comer aos parricos, às pitas e aos coelhos, de pentear o cabelo, de acomodar os seios, de enfiar a aliança no anelar esquerdo. Por vezes, os contactos com o mundo são estranhos. As madrinhas são pesarosas e as afilhadas são prendadas. Por isso as ensinam como cortar, polir e envernizar as unhas. Como lustrar a vida. Como limar o tempo, a paciência, os olhares e as maneiras. Como tonificar as mamas, as nádegas, as coxas e as vaginas. As avós explicam às netas que tudo é reversível, sabendo que afinal é tudo ao contrário. Tudo o que é possível é irreversível. As meninas aprendem a bordar os nomes e a fazer fé na aplicação da juventude. Dizem-lhes que o sexo dos rapazes é como uma serpente venenosa que as pode matar se a deixarem tocar-lhes. Depois falam-lhes do esplendor das panelas, dos panos brancos de linho, do mal olhado, da vida cheia de desilusões e da infidelidade dos gatos. E começam a convidar os amigos das meninas, a explicar a necessidade de aspirar a sala, de suportar as pessoas à distância e a hierarquia das preferências à mesa. Queima-lhes no cérebro a ideia de serem objetos sexuais, de evitar os sutiãs sem alcinhas e das cuecas rendadas. Avisam-nas do perigo de subir degraus com saias, de gritarem quando têm uma ideia ou um orgasmo. O melhor é ser intocável, pois a virgindade é uma joia rara. Tudo o que se lambe deve ser objeto de uma cuidadosa encenação. Falam-lhes da necessidade dos brincos faustosos, das coleiras de rubis, dos broches trabalhados. Depois, as meninas sonham em escrever novelas românticas, cheias de beijos, canções e versos tão perfeitos como príncipes. Aprendem que nunca devem deixar de ser crianças até ao momento doloroso de parirem uma. Finalmente devem dedicar-se aos filhos, tendo como exemplo as mães e as mães das mães e as mães das mães das mães. Surgem então nas casas os vasos de flores e a prudência das noites em vigília para acordarem ao mesmo tempo que os filhos. Pegam então nas mãos dos filhos e vão saciar os passeios e deixá-los fazer tudo nos jardins. Por vezes, as flores murcham ou os vasos partem-se. A mãe chora e o pai bate com as portas. A partir daí as mães começaram a interessar-se pelo firmamento e a lembrar-se de quando viram as primeiras estrelas, o primeiro rapaz. O avistamento das estrelas passa então a constituir o seu principal propósito. Tomam banhos quentes seguindo o que as avós lhes ensinaram, aguentando a dificuldade do calor, estudando a textura das tetas ou lembrando o batismo de Jesus nas águas do rio Jordão. Deixam de pressentir o sexo. Passam a gerir apenas a sua função. Lambem as feridas. Deixam-se levar pela tristeza. Deixam-se levar. Transformam-se em bichos da seda.


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Quarta-feira, 4 de Julho de 2018

Na aldeia

Barroso - Penedones, ETC, XT1 199 copy - cópia c

 


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Terça-feira, 3 de Julho de 2018

Na aldeia

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Segunda-feira, 2 de Julho de 2018

399 - Pérolas e Diamantes: Quem não rouba e não herda...

 

 

Uma coisa. Ora aí está o que se chama um bom negócio. Os contratos de helicópteros por ajuste direto, em vez de concurso público, são mais caros para os cofres públicos. Ou seja, com a dita urgência do combate aos incêndios, o Governo vai pagar mais 47% por meios aéreos.

 

Para defender tão interessante negócio, o executivo liderado por António Costa argumenta que no quadro em que a operação se cinge, um “único ano é menos interessante em termos económicos para os operadores”.

 

Bem vistas as coisas, afinal quem é que lucra com todo este negócio? Nós é que não, com toda a certeza.

 

Outra: O Tribunal confirmou o direito do ex-presidente e fundador do BCP, Jardim Gonçalves, a uma reforma mensal de 167 mil euros, ao pagamento de várias despesas, como segurança, carro e motorista. Coisa pouca como se vê. O BCP deve ser como o banco do Tio Patinhas. Só que os patos são os clientes e o erário público. Resumindo: todos nós.

 

O ex-banqueiro deverá ainda ser compensado por gastos desde 2010, com exceção do avião particular. Aos jornais, Jardim referiu que as regalias que tinha e a pensão que recebe foram aprovadas pelos órgãos competentes (dos quais fazia parte o próprio senhor e os seus gestores) e dizem respeito a todos os ex-administradores desde a fundação do banco.

 

Foi com este tipo de práticas de gestão que o sistema bancário foi à falência. Apesar do desastre, estes senhores continuam a viver como nababos e a justificarem os seus erros como acidentes de percurso.

 

Agora uma coisa completamente diferente. Eu ainda sou dos que pensam que uma fortuna não se constrói apenas com o fruto do trabalho. Há um provérbio transmontano que diz: “Um homem para ser rico ou há de herdar ou roubar”. Os nossos irmãos beirões proferem-no de outra forma: “Quem não rouba e não herda, não sai da merda”.

 

A prova provada destas verdades é o comportamento de alguns ricos, hoje suspeitos de gravíssimos atos de corrupção, que nos avivam a memória sobre a forma negativa como o povo sempre olhou para os ricos (banqueiros, empresários e gestores) e os seus lacaios (os políticos).

 

E o forrobodó é tanto que até o peixe médio que chegou aos lugares cimeiros não se coíbe de tentar também a sua sorte deitando mão ao que pode.

 

Hoje os escândalos sucedem-se de maneira ininterrupta. Não há semana que não se saiba de mais um caso investigado pela PJ e pelo MP.

 

E a contento de todas as vontades: governantes, autarcas, deputados, futebolistas, dirigentes desportivos, gestores, banqueiros, médicos, farmacêuticos, bombeiros e polícias.

 

Muita gente se pergunta se não haverá lei e forma de dar volta a isto. O que eu sei é que existiu, logo no início do primeiro Governo Sócrates, um deputado, de seu nome João Cravinho, que apresentou uma proposta sobre enriquecimento ilícito.

 

De uma forma simplificada, o plano consistia em colocar sob suspeita qualquer pessoa cuja declaração de rendimentos não correspondesse ao seu património.

 

Muita gente, na altura, não concordou com ele por considerar que não competia ao cidadão provar ser inocente, mas ao poder judicial culpá-lo ou absolvê-lo.

 

Os deputados da altura resolveram armar-se em virgens ofendidas e, em vez de melhorarem a proposta, resolveram deitá-la ao lixo.

 

Pouco depois, o deputado do PS, vendo o que via e sabendo o que sabia, resolveu sair do país e ir para o BERD (Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento) fazer que fazia, já que a mais não era obrigado.

 

Longe da vista, longe da corrupção.

 

Depois regressou.

 

Agora resolveu divulgar que, uma vez no poder, Sócrates bloqueou toda e qualquer medida de combate à corrupção. Em declarações à TSF revelou que ele, o outro, o tal animal feroz, “não quis que se aperfeiçoasse o sistema e por isso, ainda hoje, o sistema de combate à corrupção anda sem rei nem roque”.

 

Na sua opinião, “quem esteve no Governo Sócrates sentiu-se incomodado mas não tirou consequências”. Por isso João Cravinho recusou, na altura, fazer parte da lista da Comissão Nacional do PS, pois sentia-se “desconfortável” com aquilo que já sabia.

 

Atualmente, com as leis que atamancaram lá na casa da democracia, fala-se em “riscos de corrupção”, que é um conceito que pretende, à falta de pior, permitir que ninguém seja punido quando enriquece à custa da mentira e da aldrabice.

 

Tal como a prostituição, estamos em crer, também a corrupção é das mais antigas profissões do mundo.

 

É frequente ouvir muitos chicos espertos desabafarem que se estivessem no poder fariam o mesmo.

 

É também frequente ver alguns desses espertalhões que subiram na vida graças aos cargos políticos que exerceram, ou exercem, a sorrir nas capas dos jornais e revistas nas Quintas de luxo.

 

São passados 12 anos sobre o momento em que João Cravinho procurou lutar contra o tsunami corruptivo. Mas basta dar uma vista de olhos pelos jornais para verificarmos que, ao contrário de diminuir, a corrupção não tem parado de aumentar.

 

No Brasil, ao falar sobre operação Lava Jato, o criminalista Mário de Oliveira Filho, fez uma declaração que causou furor na imprensa.

 

Disse que os empresários costumam fazer propostas ilícitas para pagamento de alguma coisa aos políticos, pois, se não o fizerem, não têm obra.

 

“Pode pegar numa autarquia do interior ou numa pequena construtora com quatro funcionários. Se não fizer um acerto, ele não põe um paralelepípedo do chão.”

 

Ou seja, de acordo com o advogado, no Brasil não se coloca uma pedra na rua sem um pagamento de luvas.

 

Claro que isto se passa no Brasil, aqui não acontece nada de semelhante. Para nosso contentamento.


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Domingo, 1 de Julho de 2018

No jardim

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Sábado, 30 de Junho de 2018

Na aldeia

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Sexta-feira, 29 de Junho de 2018

Na aldeia

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Quinta-feira, 28 de Junho de 2018

Poema Infinito (411): Os deuses não reparam

 

 

Fui com o vento Sul, carregando as sementes brilhantes, com os olhos empapados de desejo. Ouvi distintamente os soluços da minha mãe, os sorrisos cativos da Lua, os contos enrolados na noite, os gemidos dos salgueiros apaixonados, os balbucios das auroras trémulas e as lamentações dos espetros alucinados dos meus heróis de Banda-Desenhada. Cheguei então ao teu corpo. Rimo-nos aos gritos. Dizias-me que juntos podíamos polir as estrelas. Depois vieram as brisas, os duendes e o vento. As tempestades eram provocadas por flautas. Agora as lembranças são desenhadas com os trinados das aves que se abrigam nos ramos das árvores mais rudes. Pensávamos que as multidões possuíam a força e a clareza dos ventos. É inútil queixarmo-nos. Os deuses não reparam em nós. Até a luz corta rente as asas dos anjos. Nasce-nos uma espécie de tristeza molhada, que habita perto da nascente das ideias. A beleza ganha nova definição, quando os flocos de neve acariciam as rosas brancas. Daí brotam os arco-íris e as sombras transformam o manto branco num eterno sudário. Virá a seguir o degelo, a paz e os novos profetas que falarão da indulgência dos enganos e da esperança que se apaga e nos archotes que iluminarão, ou incendiarão, a Torre de Babel. Serão esses mesmos archotes que clarificarão os novos caminhos da terra. O azul é uma espécie de sonho que nos faz lembrar a inocência. O amor possui espinhos e outras coisas adormecidas. Também a água pura corre sobre a inércia das pedras. Em abril, as canções das crianças eram amenas e a sua alegria não tinha fundo. Caminhávamos na tarde entre as flores e as hortas, enquanto a água criava um novo caminho solitário. Os homens e as mulheres semeavam os campos. Os ciprestes da igreja floresciam. E nós contemplávamos os horizontes. Abril era então um mês divino que transportava em si o peso do sol e a essência dos ninhos. À noite, pronunciávamos o nome dos astros e bebíamos a luz do luar. Os nossos sonhos dormiam nos ramos mais altos das árvores, ou escondiam-se nos ocos dos troncos dos carvalhos. Agora sentimos mais forte o apelo das horas antigas e a pronúncia do nome dos sítios onde ficou algo da nossa infância. Pensávamos que iríamos mais longe do que nunca, mais longe do que as estrelas. Gostávamos de sentir a dolência da chuva mansa que nos inundava o corpo. Sabíamos que a paixão estava logo a seguir à primeira esquina do bairro. Com os dedos riscávamos o céu e imaginávamos pássaros feitos de luz que fugiam do ninho onde estavam prisioneiros. Os patos mudos pareciam cisnes feitos de ouro líquido. Pensávamos que o choupo velho do jardim movia os braços como se fosse o deus da tranquilidade. A tristeza agora vem em forma de carta, atravessando vagarosa os montes distantes. As rãs cantam nos charcos de outra maneira, os grilos já não saem do seu buraco. Os bosques, então repletos de sons, ficaram mudos. Neles apenas as aves mais poderosas voam a sua inquietação. Confesso que tenho sede dos aromas e dos risos de outrora, dos cantares que antecipavam as manhãs e faziam estremecer os remorsos quietos, ou das ondas provocadas pela esperança. Conforto-me com a alma dos ventos, com as árvores magoadas, com o sonho das distâncias, com a leveza da luz das auroras. Lembro-me que não sabia o que fazer com o teu olhar. Ainda hoje não sei. Nas tardes frias continuo a sentir o seu calor, a sua clareza. Esse era um tempo coberto de saudades em que a avó tecia os mistérios com o seu silêncio. Sinto de forma estranha as manhãs a murcharem, as folhas secas do tempo, os sonhos, os espectros quânticos das almas, o bicho da fruta das paixões, a voz queimada dos ecos, as migalhas que sobram dos beijos. O tempo desmorona-se.


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Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

Nas batatas

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Terça-feira, 26 de Junho de 2018

Na aldeia

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Segunda-feira, 25 de Junho de 2018

398 - Pérolas e Diamantes: O mérito, o demérito e a decadência

 

 

 

Confesso que não sou um apreciador de líderes políticos, nem um seguidor de quimeras e, muito menos, me entusiasmam os militares e a sua arte de se imiscuírem na política. É tudo uma questão de ADN, apesar do meu pai ter sido militar na Índia, defendendo a fé e o império, e depois GNR.

 

Mas abro sempre uma exceção quando se trata de Ramalho Eanes. A sua integridade e a sua honestidade são características dignas de registo.

 

Ele esteve à frente do país, como Presidente da República, logo a seguir ao 25 de Abril (de 1976 a 1986), ou melhor, para os defensores da liberdade sem peias ideológicas, logo a seguir ao 25 de Novembro, do qual foi um dos protagonistas. Tomou posse com apenas 41 anos. Tem agora 83.

 

Aderiu ao MFA porque o feria na sua honra e dignidade a difundida “inevitabilidade de sermos um país pobre”.

 

“Éramos um país pobre”, disse ele ao Expresso, “tínhamos de continuar a sê-lo, estávamos na cauda da Europa, tínhamos de continuar aí. Esse princípio de inevitabilidade foi posto em causa por esta solução política. E conseguiu fazer uma coisa fundamental: reconstruir de alguma maneira a Unidade Popular”.

 

Considera o senhor General que renasceu a convicção de que trabalhando em conjunto vamos todos viver melhor, pois há crescimento económico e redução do défice. No entanto, os sinais preocupantes seguem presentes: o investimento continua extremamente baixo e as grandes reformas não foram feitas. É necessário substituirmos a cultura interpartidária do conflito pela consensualização.

 

É que a dialética esquerda-direita, que foi extremamente positiva no seu tempo, perdeu consistência, peso, dimensão e efeito. De facto, igualdade e a solidariedade, os dois grandes desígnios da esquerda, descaraterizaram-se.

 

A igualdade, segundo Ramalho Eanes, “acabou num certo igualitarismo perverso e acabou por aceitar-se que a solidariedade se fosse transformando numa espécie de solidariedade assistencial. Não é essa a tradição da esquerda”.

 

O trabalho político também tem descido de qualidade, porque os partidos políticos se transformaram em clubes seletivos e fechados, emersos na partidocracia, no qual o que conta é o aparelho.

 

O mundo de hoje é dominado por uma mistura feita de individualismo, no plano social, e ultraliberalismo, no plano económico.  Ora, como se tem vindo a provar, para esta nova situação as medidas clássicas da esquerda não chegam e as que a direita defende são claramente insuficientes.

 

Além disso, uma sociedade incapaz de premiar o mérito tende a tornar-se decadente.

 

Em Portugal, a baixíssima natalidade vai trazer-nos problemas de toda a ordem, quer economicamente, quer socialmente. Desta forma não vai ser possível manter a segurança social. Dentro de poucos anos haverá três trabalhadores para dois reformados, o que é extremamente preocupante.

 

E a desertificação prossegue. A nossa população continua concentrada no Litoral, como se o Interior não existisse. E a nossa competitividade continua extremamente baixa. E a nossa dívida continua asfixiante.

 

O consumo, na sua perspetiva,  também é motivo de preocupação. A questão não está no seu volume, está no seu destino. “Há portugueses que se endividam para ir de férias. Compreendo que se faça isso para comprar casa, no limite para comprar um carro, mas para ir de férias? Os portugueses não estão a refletir convenientemente sobre o que é o estado real do país, que não é rico e não ultrapassou a crise, porque ela persiste. Esta crise não é igual às outras, é de rutura. Exige novas respostas, novos métodos, uma grande mobilização e, naturalmente, muitos recursos.”

 

Ou seja, tudo indica que os portugueses não aprenderam o que deviam com a experiência recente. A procura exagerada de crédito, especialmente destinada a consumos supérfluos, não é saudável, nem virtuosa... É simplesmente estúpida.

 

Fácil é concluirmos que os sucessivos governos após o 25 de Abril não cumpriram o seu papel em relação ao Interior. Permitimos que esta parte de Portugal se fosse paulatinamente desertificando, através da eliminação da representação de diversos serviços nas localidades nela inseridos. Não se fez uma política de natalidade e não se criaram incentivos à fixação dos jovens.

 

A esperança, segundo o ex-presidente da República, vem-nos da União Europeia, pois tem feito um trabalho notável, criando condições para o acordo de Paris sobre o clima. Acredita que a economia mundial e a europeia vão crescer a um ritmo que permitirá criar condições  extraordinárias para refazer a arquitetura europeia, dando-lhe uma estrutura “capaz de defender os valores matriciais através de uma operacionalização política sistemática”.

 

O intrépido general diz que quando se olha ao espelho, além de verificar que está velho, entende que está em paz consigo mesmo.

 

E termina a entrevista com uma confissão: “Posso ter cometido erros mas entendo que os cometi quase sempre com bom propósito, boa intenção, com uma correção ética preocupada.”


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Domingo, 24 de Junho de 2018

Na aldeia

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Sábado, 23 de Junho de 2018

Na aldeia

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