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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

24
Set20

Poema Infinito (527): Aspectos

João Madureira

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Tudo aparenta ter aspeto de milagre sedimentado. De descanso. Estou a ver se consigo prorrogar o amanhecer. Os teus olhos parece que perderam a noite. Ainda oiço o som cavo dos tamancos a bater no empedrado. E os murmúrios do passado. Lembro-me quando comecei a contar histórias a mim próprio. Comecei então a domesticar alguns dos fantasmas que me visitavam e que brincavam comigo. As coisas domésticas são as mais voláteis. Falta-lhes a lógica, a exatidão e a imaginação. Começamos a andar para trás sem avisar. Os lobos andam agora de máscara anti-covid. O silêncio mata tudo. O vizinho do avô passa os dias a olhar para os pássaros dentro da gaiola. As aves são o seu desassossego, por causa dos gatos. Desistiu de criar roseiras porque se enchiam de bicho. Os anjos estão sempre entre o bem e o mal. Os mais novos metem pena porque perderam as asas.  Alguns adoeceram. A verdade é que ninguém sabe como os anjos adoecem e muito menos como se curam. As paredes velhas apertam a casa. As telhas e os vidros estão partidos. O vento assobia nas escadas. A velha casa tem falta de ar. Lembro-me do quintal, de nos deitarmos na relva ao sol e da minha irmã mais nova estender no chão os seus belos cabelos. Os gatos fugiam sempre de mim. Os degraus estão agora mais pequenos e escorregadios. Fazem parte das memórias. Fazem parte dos enganos. Os sentimentos não se podem vender ou comprar. Talvez a floresta que avisto daqui seja a de Orcínia, o lar dos unicórnios. Talvez eu seja um predecessor de blade runner, antes dos unicórnios serem absorvidos pelas fábulas. A luz guia-me ao teu rosto. Mesmo à noite. Os frutos são agora mais lúcidos, transbordam de sabedoria. A claridade transformou-se em enigma. Os anos começaram a sossegar mais um pouco. A paciência tem outro timbre. A velhice encontra sempre o tempo que lhe foge. A chuva amanheceu nas terras altas, cheia de insónias. O pensamento recuperou a nostalgia das terras meridionais. Faz-se tarde. Voznessenski recuperou da bebedeira comunista. Agora faz coléricos stripteases. A solidão está extenuada. Já abandonou os amigos. A solidão é outra forma de sentimento. Percorro o esquecimento em sobressalto. Os rios. E o acaso. Guardo os desígnios na memória do computador. Também o amor lá cabe. Apesar de tudo ser agora muito mais estranho: o parto das mulheres, a tristeza dos animais, o início das chuvas, o tempo das vindimas, o silêncio agressivo das invernias, o coração a bater, os presságios e as ruínas do tempo. Os peregrinos seguem os caminhos como se fossem cegos. Os campos são mais breves e o povo mais amargo. Sem antepassados não existe história. As florestas adensam-se. Os animais já não visitam as clareiras. É depois do extermínio que os exércitos regressam a casa. O vento seco fustiga as urzes. A solidão inclina as vinhas. Antes da destruição, o vale era sereno. A terra prometida está cheia de sangue. O pai entardeceu cedo demais. Agora passeia pelo meio dos sonhos, entre pomares longínquos, iluminado pelo crepúsculo. O princípio de tudo é violento. A eternidade é salgada como o mar. Agora meditamos sobre a meditação dos homens antigos. As festas dos deuses costumam ser implacáveis. Os seus olhares dirigem-se sempre para longe. A velha casa morre-nos a meio do olhar. O vale está em absoluto sossego.

21
Set20

508 - Pérolas e Diamantes: Os mediopatas

João Madureira

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Cada um tem o seus Deus pessoal com quem pode falar, discutir e até zangar-se.

 

Uma coisa vos digo: é necessário mais coragem para reconhecer um erro do que para persistir nele e ainda muita mais para fazer as pazes em vez de declarar guerra.

 

Tudo na vida depende mais do caráter do que dos princípios.

 

É a arrogância que faz desmoronar a fachada esplendorosa dos mitos. Quase todo o altruísmo é uma forma de catolicismo hipócrita. São os mediopatas os que triunfam na sociedade. A virtude levada ao extremo transforma-se num vício.

 

À medida que o tempo passa, penso cada vez mais como o meu amigo “Gafitas”. A minha confiança nos jornalistas, sobretudo nos jornalistas tidos como sérios, diminui a cada dia que passa e os problemas se tornam complicados. São os piores. Eles é que fazem tudo para nos enganarem, não os frívolos. Os jornalistas frívolos mentem mas todos nos apercebemos das suas mentiras. Pouca gente lhes dá importância. Já os jornalistas sérios, ostentando o seu estatuto, mentem escudando-se na verdade, porque sabem que a gente de bem acredita neles. Por isso é que as suas mentiras provocam tantos danos.

 

Devemos desconfiar daqueles que dizem duas vezes seguidas que têm a sua consciência tranquila. São pessoas que se estão a acusar, e a escusar-se, sem que ninguém as tenha acusado.

 

Há pessoas que passam uma vida a escrever, tentando convencer os outros da sua verdade. Acabam por dizer tudo. Tudo. Mas tudo aquilo que dizem e escrevem é mentira. Eles fingem a sua verdade e proclamam a mentira dos outros. Entusiasmam-se com os apontamentos, com os retalhos e com as lembranças soltas.

 

A ficção supera sempre a realidade, mas a realidade é sempre mais rica do que a ficção. Muitas explicações convencem menos do que uma só.

 

Olha, está a chover! As crianças abandonam o descampado onde estavam a jogar. Um cavalo fica imóvel vendo cair a chuva. O olhar do cavalo parece o de um ser humano.

 

Penso que os portugueses apenas estão de acordo quando discutem uma coisa: Hitler. E todos gostam dos filmes da Disney. Por isso acreditam nas comédias e na magia. E também gostam de jogar às cartas. E trincar bolinhos de bacalhau.

 

Também apreciam fingir-se de adultos, quando são crianças. E de se comportarem como crianças, quando são adultos.

 

E também consideram que a vida tem sentido. E até Deus.

 

Talvez eu não seja bem português porque, tal como Woody Allen, acho que a vida é um absurdo porque não tem lógica alguma. De facto, “a procura do homem por um deus num universo sem sentido é violento”.

 

Um dos filmes do mestre do cinema humorístico que mais me tocou foi o Zelig, que aborda a necessidade de todos querermos ser aceites e integrados, evitando ofender os outros até ao ponto de apresentarmos uma personalidade diferente a pessoas diferentes, não sabendo qual das personalidades representadas irá agradar mais o nosso interlocutor. Pois, como todos sabemos, é este tipo de obsessão pela conformidade que acaba por nos levar ao fascismo. Ou ao comunismo.

 

Por certo, tanto o bem como o mal são uma questão de sensibilidade. Mas uma coisa aprendi com o tempo, apenas os pobres têm problemas de consciência.

 

É frequente adularmos as pessoas com franqueza e moderação, quando precisamos delas. Mas convém não esquecermos que estamos a mentir.

 

Ser líder significa ser um exemplo. Ou seja, se os líderes forem competentes, todo o povo será competente. Agora olhem em vosso redor e tirem as devidas conclusões.

 

Temos de aprender com eles a forma como nos devemos dirigir aos funcionários do restaurante, a maneira como pegamos na lista, a forma como apontamos uma garrafa de vinho, como nos acomodamos na mesa e, sobretudo, a maneira como encetamos a comer de forma comedida, sem voracidade e respeitando os demais convivas. E também a conter a nossa verbalização durante o jantar.

 

Eu admiro todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se comportam com firmeza e circunspeção, tanto quando ouvem como quando falam, nomeadamente os paladinos das causas próximas que, de imediato, fazem suas. Cruzo então com eles olhares de simpatia.

 

Até nisso são gente distinta.

17
Set20

Poema Infinito (526): A outra metade do universo

João Madureira

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Lembro-me que pedia à mãe para parar a escuridão da noite. E a mãe ajudava-me a vencê-la. Depois a escuridão veio, mais tarde, e engoliu o avô, a avó, o pai e a mãe e os tios e alguns primos. E continua a descer sobre nós. Tudo agora são sentimentos esmagados pela mó  compressora da saudade. A vida desassossega os deuses. A avó escrevia lindos textos mudos com o seu silêncio. O pai também. Os do pai, apesar de mais mudos, eram ainda mais profundos do que os da avó. Talvez por causa da cor dos olhos. Os da avó eram azuis, quase transparentes. E os do pai eram castanhos, como a terra. O pai caminhava sempre com os olhos cravados no chão. Depois o mundo começou a ficar um bocadinho meu. Depois também a realidade começou a ficar grosseira. Ainda bem que as pistolas e as bombas não saíram de dentro da minha imaginação. Sinto que o eixo da Terra se está a deslocar. Utilizo o teclado do computador como os avós manejavam as suas alfaias agrícolas. Lá fora, as folhas dos plátanos começam a cobrir os passeios. As pombas voam por instantes e depois pousam. As nuvens parecem de plástico reciclável. A sensação desagradável é agora mais tranquilizadora. O olhar começou a vacilar. Estamos sempre envolvidos em pequenas catástrofes. A arte de voar, como provou Leonardo da Vinci, inclui o estudo da dinâmica dos fluidos, a lei do movimento e a arte dos espetáculos de teatro. É também necessário estudar a ciência dos ventos e a leveza das almas. As pombas batem as asas mais depressa quando as baixam do que quando as levantam. Os corvos fazem isso ao contrário. Já as pegas levantam e baixam as asas à mesma velocidade. Isso, muito provavelmente, depende do centro de gravidade de cada ave. Tudo é originado recorrendo às perspetivas explodidas. A ingratidão do esquecimento torna tudo mais confuso. A impertinência é curiosa e torna-nos curiosos. Um dia desenhei numa folha branca a mãe a cozer no pote batatas, couves, toucinho, um chouriço de cabaça e o tempo. Estava alegre, a mãe. Cozer o tempo fazia parte da sua arte culinária. E amassar o pão abençoado. Tempos antes, Gabriel tinha descido à Terra e os peregrinos tinham começado a interrogar os profetas. Não era época propícia à poesia. Depois da expansão, o nosso universo começou a contrair-se. Basho continuava a escrever os seus haikus e a dilatar o caminho para o norte. Os mortos começaram a engolir a luz. Moisés liderava-os exibindo a sua face em chamas. Estava sempre a ir e a voltar da montanha. Entretanto chegou Jesus e os apóstolos transportando visões de glória e redenção e entraram em Jerusalém. Depois, os apóstolos afastaram-se em direções opostas. Transportavam o sonho de abraçar a terra e de transformar multidões de homens em santos. O inferno desceu antes do Espírito Santo. E os peregrinos começaram a lançar fisgadas a Satã. Ele apenas se ria com os seus olhos feitos de buracos negros. Eneias regressou das sombras, iluminando os oráculos. Metade do povo de Deus entrou no mar. A outra metade ficou a ver. O Senhor caminhou então enxuto sobre as águas. Ouviu-se o vento do mar sobre os canaviais e o canto intenso das aves migratórias. Veio de longe o frio. Os anjos transformaram-se em espelhos. Os abismos criaram asas e voaram para o céu. Apesar de brilharem no escuro, muitos livros continuam repletos de vazio.

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