Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

Em Paris

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Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019

Poema Infinito (486): Dissidências

 

 

O mar, por vezes, pode ser absoluto. Como o amor. Como a morte. Como o céu. Antigamente havia muitas sereias espalhadas pelo Mar do Norte. Mataram-nas com ferros, como se fossem baleias. Deram todas à costa e aí apodreceram como se fossem judeus em Treblinka. Os mares do Oriente possuem muitos corais e pérolas, mas nunca possuíram sereias. É monótona a solidez da terra. E o grande mar foi sempre uma ilusão. A minha experiência é uma espécie de metamorfose, quase perfeita, quase lúdica, quase épica. Para se ser cavaleiro tem de se possuir um cavalo e muita coragem. Falo com a água como se fosse a minha mãe. Tenho-lhe medo. E amo-a. A sua face é espantosa. Adormeço da viagem em cima da espuma breve do mar. Os capitães dos navios mais velozes costumam enamorar-se das estrelas mais tristes. Nas paragens da vida somos todos estrangeiros. Detenho-me então à beira dos teus olhos. O desejo é uma espécie de itinerário invisível, repleto de cargas ocultas, de vínculos desconhecidos. É durante o voo que os pássaros se perdem. É tudo tão imenso! É tudo tão pequeno! É tudo tão precário! É tudo tão imenso! E as surpresas são tão breves que nem se deixam saborear. A brisa penteia o verde da seara. Borboletas brancas e pássaros imprevistos descem sobre o meloal. Lá fora, crescem as uvas e o trigo. As árvores parecem símbolos instintivos. O ar da noite sussurra silêncios. As vacas sentadas mastigam a sua própria solidão. Todos temos cara de anjo quando nascemos. E quando morremos. É a morte que nos une e a vida que nos separa. Lembro-me de Soljenitsin: manipulados e dissidentes somos todos nós. Foi a dialética que nos tornou tristes e quase inúteis. Todos sentimos dor quando se desfraldam as bandeiras em tempo de guerra. A nitidez das espadas é sempre fria, faz demorar a narrativa e torna a memória fugidia. Dizem que já me sobra um pouco de sombra. Cortaram as asas às alegorias, tiraram a clareza aos sorrisos. O passado já não faz parte do futuro. As pequenas coisas estão datadas e as grandes passaram a ser ingratas. O paraíso corresponde agora à ausência de felicidade. Estão pregadas na memória as velhas palavras, as curvadas figuras humanas, as paisagens mais frágeis. Regresso de novo ao esquecimento. As águas continuam a passar. Tudo parece ter mudado: as nuvens em pousio, o azul do céu, o desenho fino das montanhas, a alegria dos cantos, a tristeza, a comoção, a coragem de Deus. Fecho os olhos e caminho. Absorvo as alturas. A origem do mundo deixou de ser divina. As ondas dançam, a espuma desliza, as areias estão sujas. A árvore divina dobra a noite. Disseram-me para voar quando ainda não tinha asas. Cai uma neve longa e solitária. O seu silêncio é suave. Oiço então o suspiro falso da eternidade. Observo o rosto calmo da aldeia. O tempo dissipou já quase todos os nomes dos que por aqui passaram. As velhas senhoras varrem as pétalas das flores que ornamentaram os mortos. Usa-se agora um silêncio diferente para marcar a dor. Tudo tem uma necessidade diferente. As memórias estão cada vez mais imóveis. Os pensamentos parecem metálicos. Os gestos assemelham-se a setas. Apesar de parecer imóvel, o tempo leva-nos sempre para a frente. As lágrimas já não são de contentamento.


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Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2019

Em Paris

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Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019

Em Paris

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Segunda-feira, 9 de Dezembro de 2019

472 - Pérolas e Diamantes: Ideias entusiasmantes

 

 

À sua maneira, Demi Gambus, o célebre filho de Miquela, de forma metódica e organizada, empenhou-se em investigar vários ramos de delito. Para isso, elaborou uma longa lista de complexas e variadas formas da nobre arte de roubar.

 

Logo de início, defrontou-se com uma exasperante surpresa: quase todas as possibilidades já tinham sido experimentadas pelos seus antepassados. E ele, por dignidade própria, negou-se a repeti-las.

 

No entanto, chegou a conclusões que, apesar de simples, são incontestáveis: há milhentas formas de roubar e de intrujar, mas a melhor de todas baseia-se numa combinação de métodos. Por exemplo: roubar alguém, arruiná-lo e logo de seguida, após a ruína, oferecer-lhe um empréstimo com um juro usurário.

 

Mas a conclusão mais pertinente foi a de que o mesmo acontecimento, dependendo da época, não só não era considerado crime, mas até podia ser motivo de louvor.

 

Dedicou-se então ao estudo profundo da sua época e em procurar uma forma de roubar que, ao mesmo tempo, o fizesse ganhar prestígio com esse ato.

 

Logo de início percebeu que os crimes praticados com violência eram os mais desprezados pela sociedade. Provavelmente porque são os mais evidentes e expõem mais os seus autores. Essas são ainda as formas mais primárias, as mais primitivas. Estão fora de moda vai para muito tempo.

 

A burla e o abuso de confiança agradavam-lhe sobremaneira, eram procedimentos mais refinados. Mas também eles implicam correr muitos riscos e dão muita visibilidade aos seus autores.

 

Concluiu que é necessário burlar, mas de uma posição sólida. Tal solidez só é possível na legalidade. Esta é a verdadeira solução. No mundo civilizado, não existe nenhuma lei que penalize o enriquecimento resultante dos rendimentos, mesmo que abusivos, de determinados negócios.

 

Por exemplo: comprar por cinco o que vale dez e de seguida vendê-lo por mil não é considerado uma burla, mas antes um bom negócio.

 

Depois de muito matutar, o filho da velha Miquela, apercebeu-se que estava muito cansado. Decidiu então tomar um banho quente em plena madrugada. Acordou um dos seus criados e pediu que lho preparasse. Bem aconchegado na sua água morninha, reviu a última pasta e leu uma frase escrita com a sua letra: “Também posso roubar através da usura.”

 

A ideia entusiasmou-o. Tinha já aprendido em família a meter-se em campos escuros e escorregadios, no limiar da legalidade, com a habilidade de um equilibrista de circo. Deogracies-Miquel Gambus sabia que a usura implica sempre uma união tentadora, muitas das vezes contranatura, entre as leis e a moral.

 

A história da usura não lhe saía da cabeça. Lembrou-se então de um episódio familiar, atribuído ao primeiro dos Gambus. Em 1850, Miquel Gambus I conseguiu organizar uma frota de quinze embarcações, de diferentes tonelagens, que secretamente transportava várias centenas de cavalos ao longo da costa africana. Todos roubados, como não podia deixar de ser. O destinatário era o fabuloso rei N’Geco do Daomé, que estava em guerra com a França pelo controlo do Golfo da Guiné. A ideia do monarca africano era surpreender os franceses com um regimento de mulheres guerreiras montadas a cavalo.

 

Sem incidentes significativos, que não passaram de pequenos encontros com piratas berberes que não faziam ideia com que pirata se metiam, aquele porta-estandarte da delinquência organizada chegou ao Porto de Cotonou.

 

Gambus I foi o convidado especial do rei N’Geco, que o cumulou de atenções e lhe pagou a encomenda com pedras de ouro, a mais pequena pesava cem gramas, e, para arredondar,  um par de raparigas.

 

Uma daquelas pedras douradas foi conservada sempre à vista de todos, na vitrina da sala de jantar do chalé de Alcagaire, à altura ainda chamada de El Cagaire. Das duas raparigas, uma morreu na viagem. A outra viveu ainda vários anos. Os suficientes para escurecer, mesmo que ligeiramente, os genes de umas quantas famílias da vila.

 

Eram outros os tempos, tempos românticos e aventureiros em que era possível ser ladrão e herói ao mesmo tempo.

 

Gente desta guarda dentro de si uma última esperança: que o inferno não exista.


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Domingo, 8 de Dezembro de 2019

Feira dos Santos

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Sábado, 7 de Dezembro de 2019

ST

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Sexta-feira, 6 de Dezembro de 2019

Na cozinha

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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2019

Poema Infinito (485): Sede

 

 

Os aviões parecem pombas brancas a deslizar lá no céu. Os automóveis brilham imitando mulheres que imitam anúncios. Os bêbados falam em Deus. Lembro-me de o avô podar as vinhas, de encher os bolsos de pavias e de eu jogar futebol descalço, junto ao rio. A esta hora, a cidade começa a ruir por dentro. As livrarias fecham as portas umas a seguir às outras. No seu lugar abrem pastelarias e outras coisas parecidas. As pessoas entram e encolhem-se para conseguirem comer o seu pastel de nata e beber o seu café descafeinado. Antigamente, uma tal de Leonor andava também descalça entre a verdura, caminhava devagar, com o seu ventre bem delimitado e o seu sexo em sossego. A  minha angústia assemelha-se às ondas do mar. A felicidade deve ter a forma de uma pavieira. As minhas dúvidas continuam sólidas. As certezas nem por isso. As certezas tremem como as mãos da avó quando tinha frio ou quando chorava. Nesse tempo, a minha mãe era bela. Nesse tempo, todas as mães eram belas. Depois a mãe morreu e a cidade ficou cheia de sombras. Não me lembro do último beijo que ela me deu. Agora todos os pretextos me parecem inúteis. E a verdade apaga-se e acende-se. Acende-se e apaga-se. Os castanheiros estão em flor. Em Trás-os-Montes. Choveu desalmadamente durante toda a viagem. Também as amendoeiras do Vale da Vilariça estão floridas. As primaveras parecem agora mais rigorosas. Costumava esperar por ti à saída do cinema. Beijava-te a testa. A seguir, os lábios. Depois sentia o teu peito contra o meu. E as mãos a tremer. As pontas dos dedos acendiam-se como se fossem pirilampos. Percebo que caminho, mas não sei para onde vou. Há fogo no chão. Há fogo no céu. Alguém começou a queimar todos os seus pecados de uma só vez. Tento apanhar o ar com as mãos. Nota-se a maceração no rostos das pessoas. Somos os cavaleiros da rotina. Os que gastam sapatos novos para alimentarem os sonhos. Mas cá vamos persistindo, caçando poesia, suspirando pelas casas de Ruy Belo. Dentro delas, alguma coisa estremece. As portas continuam angustiadas. E sobre as mesas cai o pó e a luz intrínseca das lâmpadas velhas. Tudo se molda ao silêncio. Ao espesso e escuro silêncio. O maluco da aldeia repetia incessantemente uma teoria singular sobre o amor. Ou sobre a falta dele, não se sabe bem. Sinto-me como um cão à chuva. Abro os braços e as lágrimas misturam-se com as gotas que caem do céu. Penso que a sua queda é vertiginosa. Eu costumava dizer a verdade. Hoje isso não é tudo. Mas eu continuo a amá-la. Apesar de saber que não existem querubins. Continuo a amá-la. Depois do amor, as mãos ficam frias. Pelos rostos dos profetas correm lágrimas grossas de esperança alienada. Não é a Lei das Rosas que torna as sociedades mais justas e fraternas. Entre as flores da saudade encontrei um trevo de quatro folhas. A água do arroio leva agora o tempo. Dormem abertas as asas despojadas dos meus dois anjos da guarda. Sobre as paredes dormem os rumores. Pássaros enormes fogem das lendas. De rosto encoberto, Deus pergunta amiúde pela Verónica e pelo seu único filho. Qualquer coisa mexe lá ao fundo. As formas continuam a nascer mudas. Alguém perdeu os seus próprios passos. As mãos começam a brilhar. Já nem eu reconheço os meus próprios sonhos. Tenho sede.


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Quarta-feira, 4 de Dezembro de 2019

Olhares

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Terça-feira, 3 de Dezembro de 2019

Vacas e balizas

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Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2019

471 - Pérolas e Diamantes: O Merdas

 

 

A mãe de Deogracies-Miquel Gambus (A Felicidade, Lluís-Anton Baulenas)  obrigou o seu filho a tirar o curso de Direito com o argumento irrefutável de que “um advogado pode roubar e enganar mais com uma lei do que uma cambada de gatunos com uma pistola”, até porque enganar lhe estava na massa do sangue. E também porque tinha medo de que o seu único rebento vivo  pusesse a vida em perigo por qualquer bagatela: “uma mulher, uma rusga inesperada da polícia, uma bomba anarquista, etc.”

 

O seu bisavô, que tinha chegado à Catalunha no princípio do século XIX, acompanhando o regresso de Fernando VII, vindo de França, criou uma rede de poder que cresceu espetacularmente em poucos anos. Era o melhor a subornar e a usar bodes expiatórios, tendo sido dos primeiros a perceber que roubar informação era muito melhor do que roubar ouro.

 

Chegou a Presidente da Junta de Freguesia, mas durante uma crise liberal passou um mau bocado. Foi julgado e preso. A sua fama aumentou, pois os guardas receberam ordens expressas para o protegerem e não o incomodarem. Da sua cela continuou a controlar a vida da sua localidade.

 

Reposta a velha ordem, o velho Gambus passou a ser o maior. Saiu da prisão às costas dos carcereiros, como um toureiro, aclamado pela populaça.

 

Dedicou um dia inteiro a distribuir gratificações ao pessoal da penitenciária e a oferecer dotes às filhas de outros prisioneiros. Fundou mesmo um centro para tuberculosos na capital do concelho e deu uma esmola generosa ao abade da paróquia.

 

Mesmo os presidentes de outras freguesias começaram a recorrer aos seus pertinentes conselhos. Passou de Miquel Gambus I, o Gavatxo (Francês), a Miquel Gambus, o Do Rei.

 

Instalado outra vez na sua cadeira do poder, a primeira coisa que fez foi mandar deter um incauto que teve a ousadia de o substituir como Presidente da Junta durante os dezoito meses que esteve encarcerado. Ordenou que o prendessem no meio da praça principal da vila.

 

O primeiro Gambus calçou então umas luvas brancas de tecido, de dedo a dedo, e cortou-lhe os testículos com uma tesoura de costura, para prolongamento do suplício. Depois atirou-os aos cães. Dizem que vendeu o atrevido como eunuco a um rei africano.

 

A este intrépido catalão, sucedeu-lhe o filho Miquel Gambus II, conhecido como o Merdas por ter a mania das grandezas. Tal como o pai, foi presidente vitalício de El Cagaire.

 

A localidade mudou muito graças a ele. Até de nome.

 

A denominação sempre fora El Cagaire porque o rio, encaixado na montanha, fazia uma curva de tal maneira apertada que, vista do ar, parecia o traseiro de uma pessoa a defecar. Tal como um caganer (cagão, figura de uma personagem a defecar, típica dos presépios da Catalunha).

 

O Merdas, não contente com o nome da sua terra, decidiu então agir. Com uma pequena falsificação de um texto medieval e um suborno a um deputado provincial, conseguiu que a  localidade conhecida durante mil anos como El Cagaire passasse a ser oficialmente denominada Alcagaire de la Roca.

 

Dizem que, em prol do desenvolvimento da sua vila, o Merdas saqueou, roubou e matou sempre que lhe apetecia, ou necessitava. Nunca nenhum tribunal conseguiu provar fosse o que fosse.

 

Em plena idade de oiro do caciquismo, a sua rede de interesses económicos e, sobretudo, políticos da família tinham-no tornado praticamente invulnerável. 

 

Apenas no fim da vida se meteu com quem não devia, a Igreja, subestimando o seu poder temporal. E por uma mera questão formal teve de ser enterrado como um pária.

 

Sucedeu-lhe a sua filha Miquela, que resolveu criar uma nova maneira de obter rendimentos para a família, de forma artística e inventiva: a falsificação de resultados eleitorais. Numa época em que as fraudes eleitorais abundavam, apenas Miquela era capaz de as fazer de forma sublime, como se fossem abençoadas por mão divina, tornando-as indemonstráveis. Perfeitas.

 

A filha do Merdas inventou e experimentou os métodos mais diversos e sofisticados, desde a construção de urnas de falsidade indetetável, à criação de centenas de pessoas inexistentes que só ganhavam vida para irem votar.

 

Por isso, pedia quantias astronómicas para garantir a vitória eleitoral e apalavrava acordos segundo os quais, caso não conseguisse a vitória, nada cobrava. Nunca falhou.

 

Dizem que a política tem horror ao vazio mas...

 

Mas fundamenta-se na simetria dos procedimentos.


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Domingo, 1 de Dezembro de 2019

Em Amarante - Cultura que une

A Corunha - junho 2015 022 - cópia copy.jpg

 


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Sábado, 30 de Novembro de 2019

Na feira

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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2019

No Porto

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Quinta-feira, 28 de Novembro de 2019

Poema Infinito (484): Ecos

 

 

Uma luz fria flutua por este início de inverno. A manhã mergulha na névoa. A iluminação interior brilha na palidez do spleen. Cada árvore do pomar já escolheu o seu próprio deus. E cada coisa possui o seu demónio de estimação. Nenhum vestido resiste a uma festa eterna. Convém não misturar o céu com a terra. A sorte resulta de um certo tipo de geometria imprevista. O murmúrio é um rio de segredos. A luz produz a sua própria sombra. E a sombra produz o seu próprio assombro. Junto das cerdeiras, os melros desenham os seus voos nupciais. No pouco tempo da infância, o medo ganha alento dentro de nós. Atrapalho-me ainda hoje com a densidade dos olhos dos peixes que a avó cozia no pote. Sofro também com a voz do vento, com o insuficiente amor dos milagres, com os restos e as migalhas das tardes, com a posição fixa das estrelas, com a memória alegre que mata o amor das personagens tristes. Por vezes sinto os campos a tremerem. Nos cavalos guerreiros cintilam os arreios. São como segredos. Os seus olhos estão repletos de mágoa. Nos meus olhos misturam-se as nuvens, as flores, os campos e as ondas do mar. A vida flutua no rio como se fosse luz. Esta paisagem foi a última que restou do paraíso. Vagueamos entre o lado da raiva e da aflição. Apercebo-me do tremor delicado dos teus lábios. Os frutos mais serenos estão nos ramos mais altos das árvores. Parecem longínquos os pássaros que pousam sob os ciprestes. Também o vento que sopra das montanhas parece mais longo. Sinto a paciência a subir de elevador até ao ponto mais elevado do castelo. Os segredos costumam abrir os olhos dos incrédulos. Os deuses devoram a memória, alimentam-se dela. O exílio é a nossa pátria. As metáforas ardem-nos na língua. Reescrevemos a deslumbrada afeição dos versos. Foi a avó que me ensinou a lavar as palavras, a suspender a luz do crepúsculo, a definir a linha do horizonte, a distinguir o canto do melro, a definir a expressão da ausência, a apreciar o ritmo da chuva, a serenar os peixes. Lembro-me do calor fixo das mãos do pai. Debaixo das pontes escondem-se os mistérios. Sinto o peso denso da sonolência. O amor. O desprezo. Sinto-me no limiar da indiferença. A felicidade escolhe as mãos onde quer acomodar-se. O tempo equilibra as verdades e as mentiras. O tempo leva-me para outros caminhos. O desejo vem em meu auxílio. Pouca esperança haverá para quem gosta do frio. Sopram-me ao ouvido palavradas desnecessárias. A ternura é tímida. Quando suplicamos pelo infinito, perdemos tudo: os abraços, as perguntas, a limpidez das brisas, a órbita imensa da diferença. A Bela adormeceu por ter engolido uma borboleta cega. As paredes do seu palácio unificaram-se. As janelas abertas, fecharam-se. A névoa fundiu as montanhas. Os animais ficaram imóveis como se fossem de barro. As palavras velhas caem como se fossem folhas de outono. Parecem figuras sem rosto. A pietà esculpida em granito, que encima o pelourinho, encheu-se de líquenes. Cristo cristalizou no seu próprio sofrimento. O seu olhar piedoso assusta. Sinto-me deslizar pelo meio da impalpável luz das estrelas. Tempero a memória. As minhas raízes estão fora deste tempo. A casa fechada esfria ainda um pouco mais. Parece que vejo pirilampos. Oiço o eco do mar. Brotam lágrimas feridas de morte dos olhos da mãe.


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Quarta-feira, 27 de Novembro de 2019

Chega de bois em Boticas

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Terça-feira, 26 de Novembro de 2019

No Barroso

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Segunda-feira, 25 de Novembro de 2019

470 - Pérolas e Diamantes: Os karaokeanos

 

 

Atualmente, a relação com os meios de comunicação baseia-se em desconfiança e hostilidade.

 

Vivemos política e socialmente entre uma espécie de clímax trágico e uma forma de clímax humorístico.

 

Quando se fala de política já ninguém tenta ser sincero.

 

Talvez a nossa juventude seja traumática, desejando chegar a velha diretamente, sem passar pela secção da maturidade. Os nossos jovens gostam de dizer que se acalmam nos grupos de terapia, que estabilizam emocionalmente nas sessões com o psicólogo, tentando evitar o trauma da paternidade.

 

Os mais velhos lamentam-se daquilo que deixaram escapar durante as suas vidas, percebendo que já não vão a tempo de compensar o que não viveram. A beleza da juventude magoa-os.

 

Aos mais novos, a velhice aflige-os e atrapalha-os.

 

A verdade é que dependemos uns dos outros para darmos sentido à vida.

 

Muitas pessoas julgam-se astutas, mas são apenas cínicas. As melhores revelam raiva. Mas, como todos sabemos, a raiva é uma forma diferente de simpatia.

 

O que agora se valoriza não é a autenticidade, mas sim a arte da ilusão.

 

Um velho ditado chinês diz que “os príncipes tornam-se ridículos quando fingem desconhecer a causa dos seus embaraços, ou quando confundem as suas incertezas com as suas ignorâncias”.

 

A nova filosofia assenta na velha máxima: o que se pode levar desta vida é o que se come, o que se bebe e o que se brinca.

 

Caminhamos para uma sociedade corrompida onde os horizontes morais e filosóficos são escassos e, mesmo esses, subvertidos todos os dias por banqueiros, juristas, empresários e políticos.

 

Todos eles tentam esconder a verdade, que é a mola do progresso. Um dia as contradições da nossa era popular vão explodir. O que nos deve preocupar é a debilidade das lideranças dos partidos democráticos.

 

O Estado de Direito baseia-se na ética e no realismo. Não na retórica e no socialismo (ou liberalismo).

 

O todo (os direitos) não existe sem as partes (os deveres).

 

Os políticos pós-modernos são como aqueles patuscos sem graça que memorizam piadas para serem considerados uns pândegos, tendo ido para as universidades privadas frequentar cursos pré-pagos que conferem garantia imediata a certificado timbrado, para aí aprenderem como abandonar as festas antes de esgotarem o material. Produzem o mesmo efeito da comida aparentemente saudável, mas que intoxica.

 

Apesar de se detestarem entre si e nos detestarem, parecem todos velhos amigos, considerando-nos impertinentes e mal agradecidos.

 

Os partidos lá vão fazendo a sua propagandazinha: uma resma de medidas ao acaso, que não os compromete a quase nada, apelidando-as de “programa” para conferir ao arrazoado mal atamancado um cheirinho a seriedade. Numa segunda leitura, se tanto, ninguém consegue respigar um naco de pensamento organizado.

 

O povo, por seu lado, com a sua independência cidadã, lamenta-se. Mas lá vai votar. E nos mesmos, para não se deixar surpreender. Ai o povo, o povo mais a sua santa sabedoria.

 

Os partidos vivem na indiferença, sendo o centro da inércia e da incapacidade. Não sabem o que é ter vergonha. Ou falta de caráter. Os animais não conseguem aperceber-se do seu próprio cheiro.

 

Mesmo o poder autárquico se transformou num exemplo de extravagância, megalomania e, muitas das vezes, em puro latrocínio.

 

Parece que não existe um único político em Portugal responsável pelo défice e pela dívida. A oligarquia partidária confunde-se com a oligarquia dos negócios.

 

O nepotismo e a corrupção derivam da fraqueza do poder democrático e da ausência de uma entidade verdadeiramente fiscalizadora. De facto, todos nos apercebemos da irrelevância do Presidente da República, do Parlamento e das suas comissões. Nem o Governo governa, nem a Assembleia controla. E as câmaras municipais funcionam como verdadeiros feudos.

 

Temos de nos perguntar quais foram os génios que deixaram o país pobre e endividado, acumulando milhares de milhões de dívida que jamais poderá pagar.

 

Lá bem no fundo, o FMI e todas as outras instituições financeiras internacionais, sabem que Portugal é uma folha de papel que vale tanto como o Novo Banco.

 

Apesar de usarem elegantes e vistosos fatos azuis Hugo Boss, os nossos políticos, mais as suas ideias feitas, cheiram sempre a naftalina.

 

E que lindos karaokes eles fazem.


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Domingo, 24 de Novembro de 2019

Interiores

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Sábado, 23 de Novembro de 2019

Castelo de Montalegre

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Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019

No Barroso

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Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019

Poema Infinito (483): Iluminações

 

 

A casa está iluminada, florida. O seu centro abre-se com os efeitos da magia. Depois da chuva, veio o luar. Percebe-se o brilho das estrelas através dos ramos das árvores. Uma compaixão sublime envolve a noite. Aflige-me esta simplicidade trágica. Faz-me pensar nos primeiros mártires do cristianismo. Consola-me a ideia de amanhã irmos para as matas apanhar míscaros. O rio parece pálido e com febre. Agora também os rios adoecem. Alguns chegam mesmo a morrer. Os meninos já não se assemelham aos anjos. Parecem feitos de vidro e metal. As confidências são agora operações indolores. A mãe costumava dizer que perdera ao mesmo tempo a virgindade e uma bolinha brilhante que iluminava o seu brinco de ouro esquerdo. O bosque continua a guardar este e outros segredos. Ninguém consegue medir a virulência das paixões da adolescência. O amor clandestino revela sempre condições falsas de relacionamento. Agora o Romeu ama outro Romeu e a Julieta outra Julieta. E parece que daí não vem mal ao mundo. Perdoem-me a má-fé com o género humano. É mesmo defeito. Continuo a querer chegar ao fundo dos enigmas. Todos tentamos combater a bestialidade que transportamos dentro de nós com filosofia e paixão. Quem acredita na ressurreição está salvo. O amor é irredutível a qualquer tipo de originalidade. A preocupação com o sexo torna-o vingativo. Coitados dos pobres que são bonitos demais para as suas posses, nunca passarão de anjos sem asas. Oiço os passos dos veados que se deslocam para a densidade silenciosa do bosque. As vinhas e as oliveiras estão carregadas de distância. A noite ainda não caiu. Alguém se veste como se estivesse com a intenção de cometer um crime. Alimento-me na condição satânica de um desejo indestrutível. Quem com ele nasce, com ele acaba por morrer. Há corpos sem alma e também almas sem corpo. A avidez transforma o luxo em fome. Já me vai faltando paciência para correr caminhos e observar catedrais. A quem possui a febre da ascensão convém recordar a lei da gravidade. A eternidade constrói-se e desfaz-se todos os dias. Hora a hora, segundo após segundo. O instinto é a fonte de toda a autêntica individualidade. Sonho ir de burro até Jerusalém. Mas é viagem de ida sem lugar a volta. A ânsia transforma o espaço e as horas. A terra está despovoada e os poucos colonos velhos são gente estranha. A terra natal transforma-se sempre na nossa terra prometida. Jerusalém habita em nós. Depois de levantarem os nevoeiros, nasce uma nova manhã eterna. Tenho saudade das distâncias, da claridade. Todos temos medo do escuro. A difícil arte da liberdade continua a ser uma intenção. Uma intenção provocadora. Deixo correr a água das chuvas dentro de mim como se fosse um desleixo. Olha para ti como se fosses um jacarandá. O assombro é uma coisa íntima. Pelo meio das paixões difusas, encontram-se sempre meias verdades. Os fantasmas vêm de outras idades e de outras verdades. Já lá vai o tempo em que Adão e Eva se deitaram no chão depois da pecadora comer a maçã. Nesse momento tornou-se fértil. Outros pecados nasceram então dentro de si. Foi o pecado a origem da sua humanização. Com o seu rabo esmagou a flor da amargura. Adão pôs-lhe a mão em concha onde devia. A frescura fez-se lume. Depois visitou-a um anjo que falava em verso e que continuou a aparecer a mulheres que fizeram história. O que não se sabe é se o ungido nasceu sem dor.


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Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019

No Barroso

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publicado por João Madureira às 07:00
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Terça-feira, 19 de Novembro de 2019

Na aldeia

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publicado por João Madureira às 07:00
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Domingo, 17 de Novembro de 2019

469 - Pérolas e Diamantes: Odontologias

 

 

Apesar das boas intenções, há por aí muita gente, dos dois lados do espectro político, que querem acabar com a diferença.

 

Apesar de se encontrarem no espaço da racionalidade, entraram na psicose do sistema. O politicamente correto está a matar a liberdade de expressão.

 

A verdade é que a sexualidade e a arte não devem estar à mercê dos programas políticos. E, como diz Camille Paglia, é necessário salvar o feminismo das próprias feministas.

 

Há que voltar ao essencial, ao período em que as mulheres conquistaram a independência, a autoconfiança e a responsabilidade individual. Pois agora, as feministas pós-modernas só pensam em culpar os outros pelos seus problemas.

 

Não devemos pedir desculpa por apreciarmos a beleza, pois ela é eterna.

 

Estamos mergulhados no caos ético, onde a intolerância se disfarça de tolerância e a liberdade individual soçobra sob a tirania do grupo.

 

A divisão entre esquerda e direita, que se seguiu à Revolução Francesa, já não é o que era, foi ultrapassada, transformando-se numa disputa entre conservadores e liberais.

 

Os “ismos” passam-me ao lado, capitalismo, comunismo, machismo, feminismo, são ratoeiras para apanhar papalvos. Eu sou humanista, interesso-me pela condição humana. Interesso-me pelos direitos humanos, tanto de brancos como de pretos, tanto de homens como de mulheres, tanto de hetero como de homossexuais. Nunca fui prisioneiro dessas estúpidas distinções.

 

Uma sociedade inclusiva e autenticamente democrática assenta num corajoso e desassombrado código de responsabilidade pessoal alicerçado a partir de uma aliança inteligente e cautelosa entre homens fortes e mulheres fortes, conscientes dos seus direitos e deveres.

 

Estou de acordo com Paglia quando defende que o feminismo se deve tornar num movimento onde confluam pessoas com diferentes visões políticas, orientações sexuais e religiosas distintas, procurando fortalecer as mulheres sem necessidade de rebaixar os homens.

 

Quer queiramos, ou não, o feminismo, na sua intenção de se opor ao machismo, ultrapassou a sua justa missão de procurar a igualdade política para as mulheres recusando, ou obliterando, a sua própria natureza.

 

Liberdade sexual e libertação sexual são conceitos que se adaptam a todos os gostos e feitios. Mas é bom não esquecer que os seres humanos são animais hierárquicos. Quando abolimos uma hierarquia de imediato outra lhe ocupa o lugar, muitas vezes bem menos agradável do que a primeira.

 

Como lembra Camille Paglia, a identificação da mulher com a natureza é correta. De facto, o contributo masculino para a procriação é breve e momentâneo. A conceção é um ponto minúsculo no tempo, do qual o homem se afasta reduzido à sua inutilidade.

 

Para esta professora de humanidades, estudos clássicos, arte e comunicação, estamos a assistir à regressão a um estádio pré-feminista, motivada por uma proteção excessiva às mulheres, definindo-as como seres frágeis e incapazes de se oporem à violência, à discriminação e às adversidades.

 

Cito: “Se as mulheres desejam liberdade, devem também criar condições para que os homens sejam livres. Os homens que desvalorizam ou subjugam as mulheres não são livres, porque exprimem desse modo o seu medo secreto do poder feminino.”

 

Cito de novo: “A sexualidade é um reino sombrio de contradição e ambivalência. A mistificação será sempre a companheira desorganizada do amor e da arte. O erotismo é místico, ou seja, é a aura de emoção e de imaginação em torno do sexo. Não pode ser ‘fixado’ por códigos de conveniência social ou moral, sejam eles de esquerda ou direita. Pois o fascismo da natureza é maior do que o de qualquer sociedade.”

 

E como não há duas sem três, aqui fica a última: “O mito dos índios norte-americanos acerca da vagina com dentes (vagina dentada) é uma transcrição direta e macabra do poder feminino e do medo masculino. Metaforicamente, todas as vaginas possuem dentes secretos, pois o homem sai de lá mais pequeno do que quando entrou.”

 

Há uma evidência que apela à tolerância das mulheres em relação aos homens. A ironia está na própria natureza. O sucesso sexual termina sempre com o elo masculino na mó de baixo. A proeminência masculina é efémera e tem de ser infinitamente renovada.

 

Como escreveu Tolstói em “Guerra e Paz”: “Tout comprendre c’est tout pardonner.”


publicado por João Madureira às 20:34
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Na aldeia

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Sábado, 16 de Novembro de 2019

Noturno

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Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019

ST

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Quinta-feira, 14 de Novembro de 2019

Poema Infinito (482): Respiração

 

 

Os corpos pousados sobras as pedras procuram apurar-se. Entra-lhes a luz pelas mãos. Os rios penetram pela zona da cabeça. Antigamente a fome era dura, rápida, urgente. A fome agora é lenta, vem sempre acompanhada da fartura que temos de rejeitar.  Agora a fome é uma cura e a fartura uma doença. A fome é um vício, uma moda, uma necessidade. Os corpos incham vítimas das sumptuosas ironias da sociedade ocidental. Louvado seja o Senhor. O amor brutal transformou-se num campo de papoilas. Num canteiro as armas floridas, do outro lado as rosas densas como granadas. O princípio de uma coisa é sempre outra coisa. Uma ideia feita de palavras pequenas que, por incrível que pareça, aumentam o tamanho do nosso mundo. Vivemos num mundo de moda, até num mundo de moda literária, que é a pior de todas. Vendem-se livros amorosos envoltos em cuecas de renda. A raiva transforma-se em destino. Não desconfio das pessoas, mas também não acredito nelas. Os pés confirmam o caminho e o nosso caminhar. O céu, por vezes, fica de lado e nele passeiam nuvens que parecem pessoas cheias de gravidade, afetos e verosimilhança. Cada pessoa começa a nascer de forma invisível, como se fosse um Deus. Os dedos da avó continuam a aquecer o pão. O seu sorriso voa dentro de nós. A imagem da noite é redonda. As metáforas ardem como se fossem velas. O silêncio prepara-se para nos seguir. Regressam as pequenas alucinações. Amanhã resplandecerá a neve no cume dos montes. Observar essa paisagem transforma-nos, por vezes, em anjos. O vento da serra virá envolto em cristais de gelo. No meio deste abandono ou se fica santo ou doido. No pátio lajeado ouve-se o ressoar dos cascos do cavalo do tio João. O calor chega-nos vindo de um lume de cerejeira. Na capela do monte vivem os espíritos da aldeia. Depois do apocalipse partir-se-ão os sete selos. As conversas com Deus continuam cheias de banalidades. A intimidade aproxima-nos da solidão e desperta em nós a confidência, o pretexto para os desejos e para o vício. Agora nomeiam-se as ilusões. O cinismo é muito mais velho que as igrejas. Provavelmente anterior à honestidade. As sombras por aqui estão mais lentas. E o sono por vir. Estou em crer que, a chegar, chegará tarde. À minha volta acendem-se as imagens todas. E sinto que levedam como o pão dentro da masseira embrulhado em lençóis linho branco. O problema está nos efeitos secundários que provocam. Onde há medo, há dor. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Escuto o ritmo da respiração. A janela parece estar longe. Percebo agora melhor os buracos e as aberturas, o nascimento e a morte. Mas de pouco me vale. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. A porta parece estar longe. A memória da mãe parece uma máscara de teatro japonês Nô. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. As escadas parecem estar ainda mais longe. E a varanda. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. A memória do pai parece uma máscara de teatro japonês Nô. A maldade alegre da demónio cintila lá ao longe. Lembro-me de cair no meio de um buraco cheio de silvas. Voltei todo arranhado e com bagos de sangue nas mãos. A mãe chorou por cima da taça de amoras que tinha colhido. O nevoeiro saltou a cerca. A chuva cai ainda com mais força. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Alguém sobe as escadas para o alpendre. Levanto a cabeça e vejo-te sorrir. Já posso adormecer.


publicado por João Madureira às 07:42
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