Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

Poema Infinito (180): a nitidez do mal

 

 Resplandeço nos teus braços entre os ardores do estio e a verdura dos prados e a esperança do orvalho. Ainda não me esqueci do canto dos rouxinóis, nem das folhas murchas do outono nem da eternidade de dezembro. Observo-te com o silêncio amplo da vida e reparo que o teu olhar é ainda mais vasto do que o amor. Servimo-nos à mesa de utopias felizes como se fossemos os únicos seres sobre a terra. Os nossos gestos são simples como o sorriso dos desventurados. Nós ainda possuímos a audácia de nada esquecer, de sermos fiéis aos motivos que jurámos e à invenção da eternidade. Todos os músicos tocam até aos confins do silêncio. Por isso os dias são sinfonias claras. Nos nossos olhos ainda moram os vales e as flores de sol e as suas cores e a sua luz. Ainda guardamos as imagens dos muros dos caminhos e da porta de casa. Toda a ordem é turbulência. As nossas palavras são os nossos silêncios. A luz vai e volta enquanto os nossos corpos amadurecem. O anoitecer tem o seu próprio movimento perpétuo. Até quando adormecemos continuamos a velar-nos e a seguir o amor. Sabemos que as estrelas avançam à noite. Por isso os nossos olhos ardem na escuridão. O dia recolhe as suas asas e anula os espaços. Dissolvemos o desejo em visões fantásticas. Amanhece melhor que entardece, por isso é que a luz bebe a sombra, por isso é que estendemos os sonhos, por isso é que o nosso silêncio cala a tempestade. Ajeitamos as brumas com as mãos e os nossos olhos penetram a inocência. A água da chuva dispersou a terra do seu sentido. O espaço por vezes é cruel. E o sol é duro. Quero abordar de novo o teu nome com mais ternura. As palavras que conhecemos inspiram o esquecimento. E as memórias ficam límpidas e azuis como as flores absurdas. Toda a esperança é uma distração ineficaz. Despertamos dentro dos ninhos da terra, a aurora chega encharcada. As sombras ficam sonâmbulas. A luz é um novo aconchego. A melancolia é uma espécie de loucura que nos invade na idade da razão. No instante da criação. Aprendemos a conjugar o tempo e a vida. Ao contrário da vida, o tempo é sempre longo. É do fundo do abismo que falamos, onde os rostos expressam a beleza dispersa da finitude. Apesar disso, os sonhos são corajosos e as mãos continuam íntegras na sua tarefa de moldar a vida. As casas têm agora o ar ausente das crianças e as portas expõem a sua atual inutilidade. As palavras ficaram más, as janelas cegaram. A miséria está despida e à espera. De novo as crianças pobres nos fazem chorar e as suas mães ficam densas de confusão e desespero, dizem querer cegar para nada enxergarem, para tudo esquecerem. Os seus corações apagam-se. As suas almas são borboletas de desespero. E enrugam-se ainda mais dentro dos seus andrajos. As ruas ficam profundas e nuas. Nelas já não passa ninguém. As palavras ficam fracas, o pão esmigalha-se. Os homens ataram as asas dos pássaros. Tudo o que foi semeado foi destruído. A luz ficou suplicante. Do inverno nascem os amores menores. As carícias são gestos de angústia. As metamorfoses do desespero ecoam pelo mundo. Já não sabemos se estamos longe ou perto da nossa consciência. O mal tem a nítida aparência de uma flor. 


publicado por João Madureira às 07:45
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