Terça-feira, 9 de Janeiro de 2007

A sentida ausência do Anjo da Noite

 

Por onde andavas tu quando eu deambulava pelas margens do silêncio?

Por onde andavas tu quando eu sonhava em ser herói de banda desenhada?

Por onde andavas tu quando eu queria brincar aos polícias e ladrões?

Por onde andavas tu quando te pedi ajuda para atravessar a ponte dos segredos da puberdade?

Por onde andavas tu quando eu tentava compreender a elegia dos amanhãs que cantam (ou dançam? É que já não me encontro no meio das minha memórias)?

Por onde andavas tu quando eu aprendia a amar com ódio e a odiar com amor?

Por onde andavas tu quando o Francisco se afogou no rio mesmo junto à ponte romana?

Por onde andavas tu quando o meu passarinho morreu sem eu lhe poder valer?

Por onde andavas tu quando o meu pai morreu?

Por onde andavas tu quando me roubaram o dinheiro na colónia de férias?

Por onde andavas tu quando me roubaram a inocência?

Por onde andavas tu quando as luzes iluminavam apenas as ruas e não os espíritos dos néscios?

Por onde andavas tu quando os meus primos mataram um cão doente com uma machada?

Por onde andavas tu quando nos deixaste lapidar vários pássaros nus em cima de um muro?

Por onde andavas tu quando fumei o meu primeiro cigarro?

Por onde andavas tu quando descobri que, afinal, sou tão mortal como os outros seres vivos?

Por onde andavas tu quando o Fernando Pessoa fumou ópio estragado e por isso escreveu as quadras ao jeito popular?

Por onde andavas quando eras necessário?

Agora já não preciso de ti. Por isso renuncio à tua ajuda. Agora apenas necessito de que te vás embora e me deixes em paz com as minhas desilusões.

Agora já não és um amigo. És, apenas, um desenho num rectângulo encaixilhado.

 


publicado por João Madureira às 19:17
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